| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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10.6.03
LER DUAS VEZES 3
1. Um dos livros em que para mim maior foi a diferença entre a primeira e a segunda leitura foi a Alice no País das Maravilhas . Aliás onde é mais evidente a diferença psicológica profunda , e a sensação estética distinta , ( ou o adquirido estético ) , entre leituras em idades diferentes é nos livros que se leram na infância , mais do que em qualquer outro período depois . Foi por isso que os exemplos que eu dei à partida , a primeira vez que escrevi sobre ler duas vezes , eram livros lidos na infância e “baixa” adolescência . 2. Quanto à Alice , a minha leitura íntima há-de ser sempre a primeira . Recordo-me que não entendi nada do livro , em particular do Para Além do Espelho , mas nunca mais me esquecerei desse universo complexo e caótico (que hoje sei ordenadíssimo pela partida de xadrez ) de personagens , ditos e incidentes . Agora , tenho a certeza , que a Alice nunca teria sido lida assim se na edição em que a li , uns livros praticamente a desfazerem-se duma edição brasileira (?) dos anos trinta ou quarenta , não estivessem lá as gravuras originais de Tenniel . Sem as gravuras eu não poderia “ver” o chapeleiro louco , o Humpty Dumpty , os gémeos Twedledum e Twedledee, a lagarta do cogumelo , o cavaleiro , o gato de Cheshire , a galinha ou o peru sem cabeça a sair do prato , o grifo , a morsa , e … a Alice , a personagem que , junto com o coelho , menos me interessou . Ou a porta pequenina e a Alice grande , o coelho a correr , o narguilé da lagarta , ou os baralhos de carta feitos Sturmtrupper . Sem as gravuras , acho que a Alice não teria sido o que foi , porque o texto é demasiado complicado . Foi na Alice , mais do que em qualquer livro , que pela primeira vez percebi o caos e que senti o que é a imaginação em acto . O mundo da Alice , diferente de outras histórias infantis , não era o do maravilhoso – como nas imagens iniciais dos antigos filmes da Disneylândia se falava , em brasileiro , do “maravilhoso” – mas o do estranho . Tudo aquilo era estranho , eu aprendi o que era o estranho na Alice . Nunca mais precisei de livro nenhum nesta matéria . 3. Depois com o tempo , outras histórias , que não as que me impressionaram na infância , ganharam mais densidade . Foi o caso do encontro com o Cavaleiro , um dos episódios com uma rara e indefinível tristeza , que se acentua de cada vez que o Cavaleiro mostra a sua total inadequação ao mundo . O Cavaleiro é um pouco como o Quixote , uma espécie de personagem perdido no mundo errado , passeando pelas “invenções” sem sentido em pleno apogeu vitoriano da técnica , inventando tudo de errado , numa trapalhada de gadgets que não funcionam e que traz dependurados nele e no cavalo . Alice , como os jovens , é cruel e irrita-se com ele , mas aqui Lewis Carroll está do lado do Cavaleiro e quando ele canta a canção “with a faint smile lighting up his gentle, foolish face,” permite-se um dos raros momentos líricos do livro : “Of all the strange things that Alice saw in her journey Through the Looking-glass, this was the one that she always remembered most clearly. Years afterwards she could bring the whole scene back again, as if it had been only yesterday--the mild blue eyes and kindly smile of the Knight--the setting sun gleaming through his hair, and shining on his armour in a blaze of light that quite dazzled her--the horse quietly moving about, with the reins hanging loose on his neck, cropping the grass at her feet--and the black shadows of the forest behind--all this she took in like a picture, as, with one hand shading her eyes, she leant against a tree, watching the strange pair, and listening, in a halfdream, to the melancholy music of the song. “ 4. Outras contribuições tem aparecido a este “ler duas vezes “ na Montanha Mágica e na Linha dos Nodos . Também a Rita Maltez me recordou uma conferencia proferida em 1977 por Jorge Luis Borges sobre A Divina Comédia , que trata deste assunto : "Quero somente insistir no facto de ninguém ter o direito de se privar dessa felicidade, da Comédia, de lê-la de um modo ingénuo. Depois virão os comentários, o desejo de saber o que significa cada alusão mitológia, o ver como Dante pegou num grande verso de Virgílio e eventualmente até o melhorou ao traduzi-lo. Ao principio devemos ler o livro com fé de criança, abandonar-nos a ele; depois ele acompanha-nos até ao fim. A mim acompanhou-me durante muitos anos, e sei que mal o abra amanhã encontrarei coisas que não encontrei até agora. Sei que este livro irá para além da minha vigilia e das nossas vigílias." (url)
© José Pacheco Pereira
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