ABRUPTO

14.6.03


DISCUTIR OS BLOGS 3.0 (Versão actualizada)

NOTA PRÉVIA : Início de uma reflexão sobre os blogs , feita de notas soltas que se irão acrescentar e completar umas às outras . Isso significa que este "Discutir" poderá a vir a ser alterado - não no conteúdo - mas na forma . Para manter a integridade da relação com os comentários dos outros blogs que incorporo no texto , essa relação será sempre referida . Para distinguir as versões umas das outras seguir-se-á um sistema de numeração semelhante ao do software .Está a bold o que é novo .

NOTA PRÉVIA 2 : Em muitos blogs apareceram comentários a este texto e sobre ele recebi imenso correio . Estou a tratar toda essa informação para a poder colocar numa nova versão do texto . Registe-se , de imediato , que no Modus Vivendi , no Epicurtas , no Tracejado e no Gato Fedorento se encontram comentários desenvolvidos a este texto . No Liberdade de Expressão está uma fábula sobre os blogs como "catedral" ou "bazar" com directo interesse para esta discussão .


1. Talvez seja a altura , é sempre a altura , de discutirmos o meio que usamos , os blogs , a comunidade dos seus utilizadores , a blogosfera , e os seus efeitos no âmbito mais vasto do sistema comunicacional . Infelizmente temo-nos centrado apenas na discussão do elemento do meio , a blogosfera , e desprezado o primeiro e o último .

2. Penso ser interessante identificar a novidade e especificidade dos blogs como meio de comunicação , não apenas de forma teórica , mas também testemunhal , dizendo cada um o que lhe interessa no uso de um blog , assim como chamar a atenção para um trabalho que ainda está por fazer sobre o “público” da blogosfera . Quem nos lê , o que é que se procura nos blogs ( informação , opinião , entretenimento , curiosidade pelo vizinho que tem um blog , namoro via blog , etc. , etc . ) , com que frequência ,


Vasco Colombo enviou-me um e-mail com a seguinte caracterização dos blogs :

"No caso dos blogs, é óbvio associá-los quer às crónicas de jornal, quer aos diários, dois dos mais populares suportes para textos de um certo tipo.
Pessoalmente não os sinto dessa forma. Sigo alguns, poucos, com uma certa regularidade e por estranho que lhe possa parecer, a sua possibilidade de actualização a qualquer momento, faz-me pensar nos blogs como qualquer coisa mais próxima de uma dinâmica de rádio do que da de um jornal. Um exemplo rápido e simples: pouco depois da conferência de imprensa de Fátima Felgueiras, fui espreitar o Abrupto para ver se havia colocado algum post sobre o evento. E não me enganei. Há uma aproximação entre os momentos de emissão e recepção que só na rádio ou tv eram possíveis. A novidade dos blogs é permitir essa aproximação num suporte escrito de grande difusão.
Possivelmente ainda estou na tal fase de dizer que os blogs são uma espécie cruzamento de dois géneros. Confesso que não pensei muito sobre eles. Mas o tema dos cruzamentos interessa-me, ainda que como mero método de abordagem. As reflexões que faço sobre o meu próprio website são um exemplo: o website de um ilustrador, deverá ser, em princípio, uma declinação do portfólio clássico. Questiono-me porém se será essa a analogia correcta. Seria interessante, numa próxima versão, partir de outro paralelo: os cd's e os concertos ao vivo. Num concerto de rock ou jazz, o público não pretende ouvir a reprodução exacta do que encontra no cd, mas sim ter uma experiência suplementar para além da música, que a actuação ao vivo permite. Daí a improvisação, a cenografia, a interactividade com o público. Não será difícil imaginar a transposição deste conceito em abstracto, para o par portfólio/website. (...)

Estes cruzamentos, que decorrem quase sempre de avanços técnicos, geram metamorfoses na natureza de algumas coisas e exigem um constante esforço de reclassificação. Seja a natureza do livro quando este deixou de ser executado por copistas e passou a ser impresso, seja a natureza da nossa relação com as imagens quando em todos os lares passou a haver uma câmara fotográfica (ou agora, em que o imediatismo das digitais acabou com o último ritual ainda existente: o de mandar revelar e esperar, 45 minutos, pela misteriosa alquimia da revelação química). "


3. Esta reflexão em que alguns ( não todos , como é normal ) estarão interessados é um instrumento essencial para se ultrapassar o “umbiguismo” como única forma de auto-referência da blogosfera .Há dois tipos de "umbiguismo" na blogosfera , e o termo , que escandaliza muitos , tem sentido .

Objecções à utilização do termo "umbiguismo" em O Crítico . . Defesa da inevitabilidade do "umbiguismo" e referência ao mesmo processo noutros meios de comunicação no Gato Fedorento .


4. Um é um "umbiguismo" natural , impulsionado pela forma do meio . O blog tem a estrutura de um diário e por isso “gera” diários . A existência de diários mais ou menos íntimos , que são públicos é uma novidade permitida pela rede ( estes diários já existiam antes dos blogs ) , mas potenciada pelos blogs . Tem muitos riscos porque a linha entre o íntimo e o público, sendo quebrada , pode ter consequências perversas . Até por isso o blog cumpre um papel próprio num sistema cada vez mais complexo de meios de comunicação disponíveis .

4.a. Nota : no DNA citado no Pastilhas , Miguel Esteves Cardoso teorizou sobre o tipo de escrita nos blogs :

"Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto - interactivo, instantâneo, espúrio - a partir de um momento terrivelmente particular - o eu, o ser, a alma. É um lindo fogo posto que salta entre a faísca da intimidade e o incêndio público de todas as coisas.
A força do blogue está no facto de não haver mediações; do salto ser puro; da combustão ser total. Não estou a falar apenas do editor, do director do jornal ou da editora, mas também do ardina, da bicha para comprar um livro, dos transportes, do tempo, de todos os obstáculos sociais e materiais que normalmente se interpôem entre um escritor e um leitor
."

Parece-me uma caracterização redutora , mas justifica a discussão . Penso aliás que corresponde àquilo que muitos que escrevem nos blogs tentam fazer . O modelo da escrita de Miguel Esteves Cardoso teve grande influência na primeira geração de blogs .Vale a pena ler o texto todo .

Comentário no mesmo sentido do anterior , com referências à especificidade da escrita nos blogs e ao papel da "beleza" no Gato Fedorento



5. É a segunda forma de "umbiguismo" que é mais perniciosa : a de só se discutir a comunidade , nalguns casos entendendo-a como a família , o círculo de amigos , o clube mais ou menos privado , ou a seita política ou jornalística . Isso faz implodir e é , a prazo , estéril . Alguma depressão dos últimos dias na blogosfera tem essa componente de “trabalho de luto” por uma família que está a partir , a partir-se , porque está a crescer . Convém lembrar que mesmo num jantar , se estão mais de seis pessoas â mesa , já há dois grupos a conversar de coisas diferentes . Imaginem com quinhentos.

6. A propósito desta multiplicidade de conversas é preciso ouvi-las todas para entender a blogosfera . Ainda que de uma forma imperfeita , porque os bloguistas representam um sector social muito pouco representativo da sociedade , o que nelas se ouve não é alheio ao que se ouve “lá fora” , e ao modo como se fala “lá fora”. Veja-se o caso da política , uma parte pequena da blogosfera (Incorporo aqui uma objecção de António Granado no Ponto Media ) .

7. Contrariamente ao que se pensa , as diferenças políticas não são tão importantes como isso na blogosfera que fala de política . Parece mas não são . Podem vir a ser , mas não são .
Eu próprio tive essa primeira impressão pelos discursos paralelos da Coluna Infame e do Blog de Esquerda em que ambos acentuavam o confronto direita-esquerda na blogosfera ( ainda hoje o Blog de Esquerda se queixa da desproporção entre esquerda e direita dando continuidade a esta linha de pensamento ) . A existência de um grupo de blogs alinhado politicamente numa União de Blogs Livres também favorece essa impressão . No entanto , se se consultam muitos outros blogs , para além dos “de serviço público” do Blogo , a realidade é mais complexa . Se se tratar a questão por “issues” , por exemplo vendo o que directa ou indirectamente se escreveu sobre a guerra do Iraque e questões conexas , mesmo que apenas com referências culturais ou “sentimentais” , a distinção e a proporção esquerda-direita já não é assim tão nítida , nem os mecanismos de politização tão inequívocos .


8. O que se passa em alguns blogs políticos é que existe uma forte tendência auto-proclamatória , de auto-classificação , que acompanha quase sempre uma maior pobreza analítica , a dificuldade de pensar a política como uma actividade complexa , que , em territórios como estes , só sobrevive se for associada a uma mais vasta perspectiva cultural e social . Quem chega assim tem a tentação de plantar a bandeira logo , marcar o território e escolher lado . Depois faz sempre batalhas de posição , e essas batalhas não nos ensinam nada .

9. Eu uso os blogs para todo o meu trabalho , sem qualquer fronteira com quaisquer outros meios de comunicação . Uso os Estudos sobre o Comunismo , como um meio complementar de registo bibliográfico , de troca de informações com os outros investigadores , de divulgação de notas , de pedidos de informação . A forma de blog permite essa parte do trabalho quotidiano , muito importante numa área de estudo em que toda a investigação é primária e quase não há bibliografia secundária . A forma blog no entanto não é suficiente e tem limitações , pelo que necessita de ser complementada por um site que disponibilize informação mais "estável " e que divulgue alguns resultados de investigação .


10. Quanto ao Abrupto serve-me para várias outras coisas , algumas que posso fazer nos outros meios de comunicação social , e outras em que a forma do blog é única . A facilidade de acesso imediato ao público é uma delas - usei-a , por exemplo , com as histórias das peripécias televisivas de Fátima Felgueiras , quase em tempo real , ou , noutro dia , com idênticas peripécias à volta de Hermann e dos Globos .


11. A esta vantagem da imediaticidade acrescenta-se o facto dos blogs serem neste momento o único meio de comunicação alternativo em que se pode livremente criticar os meios de comunicação social escrita e audiovisual . Por razões corporativas , os media tradicionais são muito avessos a essa crítica e esse é um espaço livre para os blogs e , quando se lê os mais interessantes entre eles , esse espaço já está a ser ocupado .
O caso das declarações de Wolfowitz é um exemplo de como escrever nos blogs tem efeito e deveria contrariar o efeito depressivo dos últimos dias . O mesmo tipo de pressão está a ser feito com o caso felgueirense . Só a arrogância da televisão pública é que a impede de se explicar quanto ao tempo de antena de Felgueiras . Alguém faça um print do que nos blogs se escreveu sobre isso e leve a quem manda na RTP , se há alguém que manda .

12. Por outro lado o blog não precisa de ser centrado num único tema . Ainda estou para perceber porque razão o Blogo me classifica em "Actualidade" , porque há bastante menos "Actualidade" no Abrupto ( a não ser que a Alice no Pais nas Maravilhas seja actualidade por causa da pedofilia ... ) do que nalguns classificados de "serviço público" , uma classificação também um pouco "umbiguista" e sem qualquer nexo , com excepção do Ponto Média e o Jornalismo e Comunicação ( e incluir por exemplo o bloco-notas que foi pioneiro nas “actualizações” ) . Uma das vantagens do Abrupto é eu poder escrever sobre o que me apetecer sem ter as limitações habituais da coluna regular num jornal .

13. Eu gosto de discutir , de confrontar opiniões e argumentos , e de ouvir e ponderar as críticas dos outros . É um velho hábito de quem escreve nos jornais desde os catorze anos , e de quem leu muito , estudou muito , trabalha muito , para ter a presunção que tem direito a emitir as opiniões que entende , porque pensa que elas não serão meras “impressões” . Nem sempre se consegue e também já escrevi “impressões” . Mas no essencial gosto de um clima árduo e desenvolto de debate , como é comum na tradição anglo-saxónica , e típíco das sociedades liberais e raro em Portugal . O que predomina por cá são os ataques pessoais , a má língua , o diletantismo ( o Modus Vivendi escreveu de forma certeira contra a nossa “facilidade em desistir” ) , a ignorância presumida , o insulto anónimo . A blogosfera também tem muito disto , mas penso que é possível encontrar massa crítica para fazer diferente . Por isso quando para cá vim sabia exactamente o que me esperava , o que queria e estou para ficar .

13.a.Sobre comentários nos blogs

Eu sei que esta questão é controversa , mas decidi desde início não ter comentários . Este tipo de interactividade não moderada presta-se a um acumular de lixo que abafa qualquer opinião ou comentário de jeito . A experiência que tenho com o Flashback na TSF ou com a leitura do pt.soc.política é do carácter contraproducente dos comentários , que servem quase sempre para trocas de insultos sem qualquer interesse . Poluição de má educação já há que chegue para se dar oportunidade a maior produção de lixo . Agora que paga o justo pelo pecador, paga .
De qualquer modo o e-mail , que só uso para o Abrupto , permite a quem quiser emitir a sua opinião e eu , periodicamente, após pedir autorização para citar o que dizem , coloco essas opiniões em linha . Claro que é “totalitário”
.


14. Seja em que circunstâncias for , mesmo quando o motivo mais imediato da conversa que se mantém nos blogs , é a própria blogosfera , o meu destinatário é sempre o universo ideal das pessoas interessadas pelo "espaço público" . Não escrevo para os amigos em público , a não ser que eles precisem por razões que são elas próprias de interesse público , nem me interessam inconfidências ou intimidades, meio caminho andado para a "aldeia global" , esse sítio pegajoso onde todos se conhecem demais uns aos outros .

Sobre privacidade veja-se Modus Vivendi



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