| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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10.6.03
A COLUNA INFAME
O primeiro blog que eu li sistematicamente foi A Coluna Infame . Sobre ele escrevi no Público , ainda a blogosfera não era moda , considerando-o o melhor blog em Portugal . Se o meu blog tivesse genealogia , A Coluna Infame faria parte dela . A Coluna Infame foi a principal responsável pelo facto da hegemonia cultural da esquerda (com todas as ambiguidades que tem este nome ) , tão dominante nos sistema dos media , na educação , em todas as formas de comunicabilidade social , não o tenha sido nos blogs . Podia ter sido diferente , mas isso não é mérito do meio, mas sim da influência dos autores da Coluna . Mas a blogosfera ( eu sei que o termo é discutível , mas não é mau ) tinha que mudar , como resultado do seu próprio sucesso . No cemitério da Internet estão milhares de textos utópicos apontando a rede como um instrumento de transformação do mundo pelas suas virtualidades tecnológicas. A Internet iria mudar a democracia , a sociabilidade , os consumos culturais , acabaria com a propriedade dos átomos substituindo-os pela comunidade dos bits , etc. , etc . E , nalguns casos , essa possibilidade espreitou , revelou-se , mostrou-se possível e , noutros , mostrou-se um caminho pior . Nunca nenhum meio , nenhum media muda qualquer coisa sem a sua interacção com a sociedade . Não são os inventos e as tecnologias que por si só nos mudam é a sua relação com a sociedade , as suas literacias , os seus consumos , a sua riqueza ou pobreza . No fundo , as exclusões sociais e culturais não ficam á porta da Internet , nem dos blogs .Há uma Internet pimba e da pornografia e outra do Livro Universal , da Enciclopédia Total . Como nos blogs haverá de tudo . Os blogs não existem fora da sociedade portuguesa , das suas tensões , dos seus hábitos , bons ou maus , das suas pechas políticas e culturais , mantidos num limbo pelas suas peculiaridades formais . Há novidade e características sui generis na forma blog , mas daí não decorre uma pureza essencial do seu uso . É porque os blogs estão a deixar de ser elitistas que estas crises surgem . O clima de família, de grupo de amigos que se consideravam , independentemente das suas opiniões , que se elogiavam uns aos outros , o ambiente um pouco cosy , que já em si mesmo excluia muitos outros blogs , tinha fatalmente que acabar , com o crescimento e a maior exposição pública . Haverá quem goste, e quem não goste , mas seria ingénuo pensar que tudo iria continuar na mesma . Ventos mais agrestes atravessarão a blogosfera e haverá quem aqui não se sinta bem . Mas os defensores de uma sociedade genuinamente liberal devem saudar este crescimento , esta maior exposição , esta espécie de crise de crescimento . O caso das declarações de Wolfowitz foi talvez a primeira vez em que os blogs mostraram um papel próprio em “empurrar “ os outros media convencionais , não o facto de haver frases escritas num blog e reproduzidas nas citações da imprensa . O segundo caso não tem em si novidade – as frases podiam ter sido ditas na rádio ou televisão – mas as falsificações de Wolfowitz dificilmente podiam continuar o seu curso sem uma explicação devido ao clamor em tempo real nos blogs . Os blogs que continuaram ( e continuam ) a catalogar os artigos e declarações feitas na base dessas declarações falsificadas , prolongam esse “serviço público” e a forma blog presta-se para isso . Como se presta para publicar textos de qualidade literária e estética , comentários quotidianos pertinentes e polémicas e discussões num tempo mais rápido . Mas , se do lado da produção há um acesso total , do lado do consumo há uma selecção . A crise da Coluna teve componentes pessoais sobre os quais não me pronuncio mas foi amplificada porque se travou em público . Os blogs são aí terríveis , porque dilaceram , quase sem os próprios o perceberem , uma distância necessária , uma reserva vital para a identidade . Quem a ultrapassa acaba sempre por o lamentar mais cedo ou mais tarde , porque fica menos livre . Talvez tenha sido essa percepção de perda de liberdade interior que tenha acabado com a Coluna . . Mas não tenho dúvida que os três “infames” regressarão aos blogs ou continuarão noutros meios e por outros meios a escrever e a intervir e eu continuarei a lê-los pelos seus méritos . Boa sorte . (url)
© José Pacheco Pereira
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