ABRUPTO

27.7.12

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NOT SO 
EARLY MORNING BLOGS   
2236

En tout pays, il y a une lieue de mauvais chemins.

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23.7.12


 TOUT VA TRÉS BIEN MADAME LA MARQUISE (3)

A TESE DA CONSPIRAÇÃO

 A tese da conspiração no caso Miguel Relvas é absolutamente idêntica à “cabala” socrática: uma construção do poder para justificar o injustificável. Os mecanismos são os mesmos, os protagonistas são os mesmos, os propagandistas são os mesmos, por turnos. Há uma falta de vergonha absoluta na capacidade de hoje se dizer o que ontem se abjurara, mas há quem suba na vida assim. Mas tout va bien. É só uma canção.

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TOUT VA TRÉS BIEN MADAME LA MARQUISE (2)
RAIVA 

A um observador atento não escapa o crescendo dos mecanismos de raiva. Há um ano era e resignação, agora é a raiva. A raiva estala por todos os poros e é péssima conselheira. A raiva vem de cima e vem de baixo, mas o seu efeito é semelhante. Varre tudo à volta, a moderação, a sensatez, a possibilidade de poder haver equilíbrios. A raiva é fruto dos tempos, nuns a sensação de que estão encostados à parede, sem esperança, e perdendo todos os dias o pouco que têm; noutros a consciência de que este momento único para moldar o país aos seus interesses está a esgotar-se e está a começar a correr mal. Uns e outros estão sem espaço de manobra, daí a raiva. Exemplos: a decisão do Tribunal Constitucional, a greve dos médicos.

 A decisão do Tribunal Constitucional pode ter todos os defeitos jurídicos que se lhe apontam, mas não é por isso que está a ser violentamente atacada. Está a ser violentamente atacada por ter ido a contrario da politica do governo, que naturalmente todos os que a defendem acham que tem que ser indiscutível e autoritária, se for mesmo inconstitucional, ou dito de modo mais claro, ilegal. Perante o “ajustamento” que é que valem as leis? Não podemos dar-nos a este luxo. A greve dos médicos foi também atacada não porque os médicos não estivessem socialmente do lado das classes certas, mas porque é uma greve e feita contra o governo. Inadmissível haver uma greve com sucesso, um mau exemplo para todos nesta altura. Ainda por cima acompanhada por um comício, parecido com a CGTP! Inaceitável. Perturbador da paz social, subversivo. 

 Depois há a raiva de baixo, aquela que neste momento de subserviência comunicacional ao poder, é sujeita a um anátema absoluto. A raiva de baixo ainda só aparece quando se soltam as línguas e quando quem fala não tem medo. Sim, porque há muito medo, demasiado medo. Mas o medo é um alimento da raiva. Poderoso. Vamos num péssimo caminho. Mas tout va bien. É só uma canção.

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22.7.12


TOUT VA TRÉS BIEN MADAME LA MARQUISE


O hino dos nossos dias devia ser esta velha canção francesa  de Ray Ventura. Primeiro a marquesa telefona ao mordomo inglês James a perguntar por notícias.

Quelles nouvelles ?
(…) Que trouverai-je à mon retour ?

James responde : 

Tout va très bien, Madame la Marquise,
Tout va très bien, tout va très bien.

Tudo está a correr bem. Os objectivos estão a ser cumpridos. O ajustamento está a ocorrer mais depressa do que esperado. Já há sinais de recuperação da economia. Pela primeira vez, desde 1943, a balança comercial vai ter um superavit. O país está a mudar para melhor. Os portugueses estão a mudar de hábitos para melhor. Com os salários mais baixos a nossa economia é mais competitiva. Etc., etc,
E no entanto…

On déplore un tout petit rien
 Un incident, une bêtise,

há uns pequenos problemas, Madame. Uns pequenos nadas, uns incidentes de percurso, umas asneiras sem consequências. Morreu a égua de Madame. É pena, mas é coisa ínfima.

Mais, à part ça, Madame la Marquise
Tout va très bien, tout va très bien.


O desemprego tem sido uma “surpresa”. A quebra do consumo interno foi maior do que a “esperada”. Falências e insolvências de empresas e família são aos milhares. O sistema de segurança social está sob tensão. Mas isso é o preço a pagar pelo “ajustamento”. Ah! Já me esquecia, o défice tem um “desvio colossal”, antes mesmo da decisão do Tribunal Constitucional.

Mas por que é que isso aconteceu? Como morreu a minha estimada égua, meu exemplar criado? Bom, Madame, um pequeno incêndio na estrebaria. Na verdade, a estrebaria pegou fogo porque o castelo também ardeu, porque o Marquês, cheio de dívidas, suicidou-se, caiu em cima dumas velas e lá se foi o castelo.

Eh bien ! Voila, Madame la Marquise,
Apprenant qu'il était ruiné,
A pein' fut-il rev'nu de sa surprise
Que M'sieur l'Marquis s'est suicidé,
Et c'est en ramassant la pell'
Qu'il renversa tout's les chandelles,
Mettant le feu à tout l'château
Qui s'consuma de bas en haut ;
Le vent soufflant sur l'incendie,
Le propagea sur l'écurie,
Et c'est ainsi qu'en un moment
On vit périr votre jument !

Mas,
Cela n'est rien, Madame la Marquise
À part ça, Madame la Marquise,
Tout va très bien, tout va très bien.

Estamos em 1935, a três anos de Munique, a quatro da segunda grande guerra. Presumo que Madame la Marquise apoiou vivamente Pétain, James voltou a Inglaterra e combateu em Dunquerque, e o castelo, ou o que sobra dele, foi vendido a uma empresa americana de real estate que prepara moradias de luxo para os príncipes árabes. Tout va bien. É só uma canção.

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EARLY MORNING BLOGS   
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The times are nightfall, look, their light grows less;  
The times are winter, watch, a world undone:  
They waste, they wither worse; they as they run  
Or bring more or more blazon man's distress.  
And I not help. Nor word now of success:       
All is from wreck, here, there, to rescue one—  
Work which to see scarce so much as begun  
Makes welcome death, does dear forgetfulness.  
  
Or what is else? There is your world within.  
There rid the dragons, root out there the sin.   
Your will is law in that small commonweal...
 
(Gerard Manley Hopkins) 

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© José Pacheco Pereira
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