E SE O MEMORANDO DA TROIKA FOR IMPOSSÍVEL DE CUMPRIR?
E se
o memorando da troika for impossível de cumprir? Ou dito de outra
maneira: e se o memorando da troika for impossível de cumprir, faça o
Governo que fizer? Ou dito de outra maneira ainda: e se o memorando da
troika estiver mal feito, se as suas metas forem irrealistas e por isso
ele seja impossível de cumprir? Ou dito ainda de outra maneira: e se o
memorando da troika tivesse sido feito, mesmo que no fio da navalha,
para uma conjuntura nacional e internacional, que um ano depois não
existe? Reparem que não digo apenas conjuntura internacional, mas também
nacional, porque esta também conta e muito.
Podíamos continuar a
formular a mesma pergunta de várias maneiras, todas elas com o mesmo
sentido: o memorando é incumprível e não depende do voluntarismo do
Governo português. É como se o memorando estipulasse que o Governo
português teria que se mover ao dobro da velocidade da luz e a física
que nós conhecemos diz que isso é impossível. Claro que há a magia, mas a
magia não é argumento para este caso. Os milagres também não.
Quem escreve isto, sempre defendeu e defende, notem defende, o cumprimento do memorando da troika,
como condição básica para qualquer negociação futura. Estou por isso
com o Governo na necessidade de cumprir aquilo que é o cerne do
memorando, as metas do défice, sem nenhum "mas". Se tiver mais tempo,
não deve ser porque o peça, mas porque lho dão. Se tiver um novo valor
do défice, é porque lhe permitem, não porque seja um facto consumado, a
que a troika se curva, com mais ou menos boa vontade para manter a face, a sua e a do governo.
E
digo isto porque há aqui um desses problemas intangíveis e imateriais de
confiança entre partes, entre quem empresta e quem recebe, e esse tem
sido o principal adquirido do Governo. Discordo que pouco o use, mas
mais vale tê-lo do que não tê-lo. E se calhar só o tem porque não o usa.
Concedo e percebo. Posso inclusive dar um benefício de dúvida àquilo
que me parecem ser políticas erradas, suspendendo um juízo muito
negativo, em nome do resultado principal: cumprir o défice. Estou longe
de considerar que o caminho escolhido seja o melhor, mas neste momento é
o resultado que conta antes de tudo o resto. Eu percebo o "custe que
custar", embora ache muito arrogante dizê-lo na cara de quem não tem culpa nenhuma no
que está a acontecer, ou seja quase todos os portugueses. Não gosto de os ver
assim tratados como expendables.
Agora há uma coisa que
não se pode aceitar porque é o pilar básico de toda a legitimidade
governativa, é que não se cumpra o défice. Ponho de parte para já a
decisão do Tribunal Constitucional, visto que o descontrolo do défice é
anterior. É que o caminho descontrolado do défice (sigo aqui a muito
conservadora UTAO, tão elogiada quando criticava, e com razão, a
execução orçamental do Governo Sócrates) obriga-nos a recolocar duas
questões, ambas muito gravosas para a legitimidade do Governo, e, por
tabela, do memorando da troika. A primeira é que o Governo pode
ter seguido políticas erradas para garantir o cumprimento do défice; a
segunda é que os pressupostos do memorando da troika são
impossíveis de cumprir. As duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo, e
não têm necessariamente que ser consequência uma da outra. O programa
da troika pode ser cumprível e é o Governo que o está a aplicar
de forma errada, ou ele pode não ser cumprível e o Governo, que com ele
se identificou completamente, partilha responsabilidades no erro
inicial.
A partir do momento em que Passos Coelho se apropriou do memorando da troika
para o "seu" programa do PSD, e o interpretou como tendo uma profunda
comunidade ideológica com as suas próprias ideias, a responsabilidade é sua. Não precisava de o ter dito, mas quis dizê-lo. Acresce que no plano
internacional se tem apresentado como o seu principal defensor depois
dos alemães. Assim quer seja ele que está a fazer asneira, quer seja o
programa da troika que seja a asneira, ou as duas coisas, a
responsabilidade é sua.
Sócrates é o grande responsável por ter
conduzido o país à bancarrota, e Passos Coelho pode vir a ser o grande
responsável de, no afã de querer prosseguir um programa próprio de
"revolução", deixar o país pior do que o que estava. Não coloco as duas
responsabilidades com o mesmo peso nos pratos da balança porque acho que
Sócrates tem a principal responsabilidade em tudo o que aconteceu e
condiciona tudo o que está a acontecer. Mas hoje é Passos Coelho que
está no poder, logo é a sua política que tem sentido criticar. Viver
permanentemente na parada e resposta da culpa, muito típica do debate
parlamentar, não leva a parte nenhuma, mas quem manda hoje é Passos
Coelho, Vítor Gaspar e Miguel Relvas, não necessariamente por esta
ordem. E sobre eles a troika e sobre a troika o Governo alemão.
Voltemos
ao início, que formulo hipoteticamente sob a forma de pergunta, mas não
é uma pergunta retórica. Cada vez mais suspeito de que a receita da troika
é pelo menos muito pouco realista, a começar pelo seu objectivo
fundamental que é garantir o controlo do défice. Mas, se somar o
memorando da troika com o chamado tratado orçamental, então não
tenho dúvida nenhuma em dizer que é impossível de cumprir, cá e em quase
todos os países europeus. Aliás, é só esperar algum tempo para se ver
que não sobrará ninguém para garantir que ele seja cumprido.
Aqui
não faço perguntas, afirmo pura e simplesmente, que o açaime sobre os
orçamentos dos programas de resgate mais o tratado significam para
Portugal um longa e medíocre arrastamento pela depauperação, sem
qualquer capacidade de controlar quer o défice, quer a dívida nos
valores previstos. Não é preciso ser sequer um medíocre economista para o
dizer, porque o que estamos a ver no último ano mostra à evidência que
vai ser assim. É uma questão apenas de puro bom senso.
O que é
que falhou já, mesmo que no limite se consiga em 2012 controlar o
défice, sendo que em 2013, então, já nos aproximamos do milagre e da
magia? Primeiro, a completa incapacidade de compreender os chamados
"efeitos perversos" de qualquer política, e por maioria de razão de uma
política "forte", de viragem, de mudança. Quando um governante diz que
está "surpreendido" com os números do desemprego, ou com a "contracção
maior do que a esperada no consumo", está exactamente a dizer que
menosprezou estes efeitos, quando eles estavam escritos na natureza da
crise que atravessamos e no tecido produtivo português, que é um e não é
outro. Quando um governante se espanta com o "ritmo" negativo das
receitas na execução orçamental, não se trata apenas de aplicar a Lei de
Laffer, que ele certamente conhece, mas de perceber o papel da economia
paralela em Portugal, e, de novo, o tecido económico e social do país.
É
que é este o país e não outro virtual. É nos cafés do Minho, nas fabriquetas de Leiria, nas pedreiras ilegais, nas plantações subsidiadas, no electricista de bairro, na empresa de construção civil familiar que contrata os vizinhos e actua num raio de dez quilómetros da casa do "patrão", na loja de informática com refugo, no restaurante à beira da estrada, no camionista que faz uns biscates, na horta de alfaces de Loures, que está o país real e não nos artigos do Financial Times, na melhor das hipóteses. Há muito mais "empreendorismo" por metro quadrado nestas actividades económicas que se pretende "ajustar", ou seja extinguir, que em toda a Universidade de Lisboa. E depois há as PPPs, a oligarquia de cima, das velhas famílias do poder, e os seus criados, a oligarquia do meio, nos partidos políticos, e um mar de corrupção, patrocinato e clientelismo, que também não é alheio ao que o país é. Quase todos os efeitos perversos se devem à ignorância da realidade nacional, mas não só.
E
o "não só" regressa como um anjo vingador. O que acaba com o "consenso
social", aliás sempre mais um mito dos poderosos do que outra coisa
qualquer, é que o tempo muda as coisas. E como o tempo se traduz em cada
vez mais gente a passar mal, cada vez mais gente a perceber que não tem
futuro, sem qualquer esperança, cada dia que passa torna tudo mais
complicado. Havia melhores condições há um ano do que há hoje, mas o
Governo resolveu não as usar.
E depois há um "não só" que se
agiganta todos os dias e seria bom que o Governo se apercebesse de que
aí é que está a "tempestade perfeita": a questão da igualdade e justiça
dos sacrifícios. E aqui o Governo tem mostrado ser submisso aos
poderosos, à EDP, aos interesses dos bancos, aos donos das PPP, à elite
de poder que circula entre a política as grandes sociedades de
advogados, as consultoras, as administrações, etc. É verdade que mesmo
esses já perderam alguma coisa, mas foram apenas beliscados, tocados ao
de leve, se compararmos com o desastre absoluto que é estar desempregado
aos 40 anos, sem qualquer esperança de voltar a ter emprego, com a
derrocada da economia familiar, da casa, do carro quando havia, dos
estudos dos filhos, de uma vida que era decente e que agora é indecente.
O Governo aparece como atacando as pessoas, rasgando os contratos com
elas, e, em contraste, como tendo um sumo respeito pelos interesses,
mesmo quando, como no caso das PPP, roçam o crime.
Nada disto está escrito no memorando da troika
assumido pelo Governo como o "seu" programa. Mas pode ser por isto que
ele é inexequível, ou pode ser por isto que o Governo o tornou
impossível de cumprir.
(Versão do Público de 7 de Julho de 2012.)
Concordo em quase tudo o que escreveu no Público, com três
ressalvas:
1º, o memorando foi essencialmente acordado com Sócrates, e
não com o PSD de Passos Coelho. Embora seja certo que este se tenha assumido
como seu campeão, muitos dos erros técnicos dos termos do memorando, do
insuficiente valor do empréstimo ao prazo demasiado curto de regularização do
défice, foram do Governo que negociou o acordo, e não de Passos
Coelho.
2º, Catroga (que com o tempo fiquei a conhecer melhor, e que
não se distingue pela verticalidade nem pela sensibilidade social) tem alguma
razão em dizer que o défice era maior do que o suposto quando da negociação. Um
dos buracos que nem até hoje foi mencionado, por exemplo, foi o do IRC de 2011 e
do “benefício fiscal” outorgado pela legislação de 2010 que aumentou de 20 para
32,5% os descontos no IRC de 2011 (cobrado agora em 2012) dos “investimentos em
I&D”. 1/4 pelo menos desse IRC seria da EDP, Banca e outras que são a base
tradicional da colecta de IRC. Obviamente Passos Coelho não contava com estes
extras, e ainda que ao assumir-se como campeão do acordo se torne responsável
pelo seu fracasso, continua a não ser dele a responsabilidade desses buracos
herdados.
3º, duvido que a recessão geral se deva principalmente à
política fiscal e ao corte de vencimentos de pensionistas e funcionários
públicos. Essa recessão deve-se sobretudo a problemas próprios da economia, e
não à acção do Governo, embora se acabem por relacionar – deve-se à falta de
crédito externo para a Banca e as empresas que se financiam directamente lá fora
(poucas), resultante de problemas próprios que são agravados pelo
desaparecimento da garantia estatal. Claro que se a falta de crédito externo
atinge assim a economia, é porque esta vivia desse crédito – da construção civil
ao consumo corrente – e esse é que é o nosso maior problema, insuperável,
talvez.
Agora que esta equipa não tem o menor nível para lidar com a
dimensão da crise nacional em que o euro nos meteu (ou mais exactamente, o modo
como lidámos com o euro), nisso concordo consigo! E como vamos sair
daqui?
José
Luís Pinto de Sá
*
A nível global o grande erro do acordo da troika foi querer fazer
em 3 anos aquilo que forçosamente tinha que demorar mais tempo. E a
questão essencial era a contradição entre o re-equilibrio das contas
externas do país e o re-equilibrio das contas do estado. Por motivos
vários o estado lusitano tem a suas principais fontes de receitas no IRS
sobre o trabalho dependente e nos impostos sobre o consumo, quer o
genérico IVA quer os impostos especiais como o ISV (automóveis) e o ISP
(derivados do petróleo). Assim para equilibrar as contas externas é
necessário travar o consumo que tem uma forte componente importada. No
entanto essa travagem gera a quebra de receitas a que estamos a assistir
pondo em causa o equilíbrio das contas do estado pelo lado da receita.
Com quebras superiores a 40% no mercado automóvel e de 8% no consumo dos
combustíveis entre outras quebras de consumo o resultado é o que se vê.
Acrescente-se o desemprego e a redução de rendimentos variáveis do
trabalho (comissões, bonus, prémios etc dependentes da performance de
cada trabalhador e do resultado da repectiva empresa) gerados numa
economia demasiado virada para o consumo publico e privado interno e
temos as receitas de IRS em quebra (nesta quebra se incluindo a inerente
à redução de rendimentos dos funcionários públicos e reformados devido
ao corte de 14% do seu rendimento anual) a ajudar à festa.
A pergunta que se impõe é: será que nem os negociadores da troika nem do lado luso conseguiram ver isto? Não acredito. Houve
vontade política de fazer assim. Talvez p/ apressar privatizações e
outros negócios. Talvez p/ a agradar aos castigadores teutónicos dos
pecados do club med. Não era preciso grande sapiência económica e
financeira para prever aquilo que escrevi acima e que está a acontecer. E
a questão é que este fazer à pressa (cá, na Grécia, Irlanda, Itália,
Espanha) está a ter consequências em toda Europa como os despedimentos
na PSA mostram (acresce que o mesmo deverá ocorrer na Opel e que algumas
fábricas de automóveis de outros construtores na Alemanhã estão a
reduzir turnos e fazer dias de paragem por causa da quebra do mercado no
sun belt / club med). Entre o mercado automóvel em 2007 e as previsões
para a totalidade de 2012 (com o 1º semestre já decorrido) só na
Península Ibérica deverão vender-se menos 1.000.000 de automóveis no ano
corrente. O equivalente a 7 Auto-Europas! Quanto (des)emprego está em
causa?
Cada vez mais fica evidente que “depressa e bem não há quem” o faça. E
isto põe em causa a receita da troika, pois como refere o grande
objectivo de redução do deficit publico, em cujo altar se sagrifcam
direitos sociais, empregos, serviços de saúde de reconhecida qualidade e
resultados (ex: MAC), nível de vida geral do país, etc não está a ser
atinigido
A decisão do TC só peca por tardia. Nove meses para avaliar algo
mais que publico e aprovado na AR mostra mais 1 vez a extrema lentidão
da nossa justiça. Era obvio que aquilo era discriminativo. E foi feito
assim p/ o governo ter 1 almofada para a quebra da receita. Tirando tudo
a alguns (100% de 2 subs aos funcionários público e reformados) ficava
espaço financeiro e moral para tirar algo aos restantes (trabalhadores
privados) se alguma coisa corresse mal como era mais do que previsível.
Sempre estive convicto (e continuo) desde a aprovação do OE 2012 que
este ano 50% (ou mais...) do meu Subs. Natal vai ter o mesmo destino do
ano passado. O isso trará mais quebra de consumo, logo menos IVA, ISP,
etc. E o círculo vicioso continua. Se todos forem taxados a 50% nos 2
Subs. em 2013 o círculo vicioso continuará...
Até porque o mito que os 2 susbs retirados a
funcionários público e reformados representam 2 mil milhões de EUR a
menos no deficit é falso. Representam de facto essa verba a menos na
despesa. Mas há quem se "esqueça" que estes rendimentos também pagavam e
voltarão a pagar em 2013 IRS e que o consumo que eles geravam e
voltorão a gerar em 2013 também paga IVA, ISV, ISP, etc. Será que o
ultra-competente Vitor Gaspar não previu isto? Por exemplo: Na quebra de
6,6% de venda de combutíveis da GALP e de 8% na receita de ISP qual é o
contributo dos funcionários públicos e reformados que reduziram as suas
deslocações por perda de 14% dos seus rendimentos anuais? Numa
estimativa rápida será fácil de concluir que entre IRS, IVA, ISP, etc
40% do que estado poupa na despesas destes 2 subs perde na receita
fiscal. Portanto o impacto líquido no deficit da decisão do TC será de
quanto muito 1,2 mil milhões de EUR. Menos de 1/3 do que custou o BPN.
E usando o BPN como medida, há 4 mil milhões de EUR
para cobrir o risco sistémico do BPN e não há 3 mil milhões de EUR para
pagar a divida do SNS? Não há risco sistémico se o SNS falir? Francisco
George que é ouvido nos media sempre que há riscos epidémicos ainda não
foi ouvido sobre este risco sistémico, mas não será dificil imaginar o
que ele diria.
Voltando a assuntos mais estratégicos, é evidente que a
correcção da crise causada pelo capital (é sempre tempo de voltar a
Marx (Karl, que o tempo não está para Gourcho) e sua dicotomia capital /
trabalho, embora estejamos a falar do capital financeiro e não do
capital como (detentor dos) meios de produção de Marx) está a ser
resolvida muito mais às custas do sacrifício do trabalho (dos
rendimentos directos aos direitos e benefícios sociais) do que do
capital que continua a jogar e ter grandes rendimentos no casino das
bolsas. Enquanto a economia de produção definha.
Uma das soluções vedadas na zona Euro nesta crise é emitir dinheiro e
fazer o chamado “financiamento monetário” das dívidas publicas.
Resultado: para a Banca se aguentar o BCE empresta-lhe (emite massa
monetária) a juros baixos (75 pontos base) desde que haja os colaterais
aceites pelo BCE. O que faz a banca. Em vez de financiar a economia de
produção a banca pega no capital que tem empresta a juros baixos ou até
negativos à Alemanha para a seguir pegar nesse colaterais e obter
empréstimos no BCE (emissão de massa monetária) a 75 pontos base para
depois comprar e/ou continuar a deter dívida Italiana, Espanhola,
Portuguesa ou outra com juros de 5%, 6%, 8% e por aí acima. Na prática
há “financiamento monetário” dos déficits e dividas publicas mas só
alguns ganham fortunas com isso e a economia produtiva não tem crédito.
Isto enquanto os americanos e ingleses emitem moeda para manter as
respectivas economias em pé.
Enquanto não houver coragem p/ se tomar as medidas necessárias p/
resolver o problema financeiro europeu pela via financeira e monetária e
não destruindo a estrutura produtiva existente (que tem poucas falhas
como se vê no caso do estrondoso crescimento das exportações Lusas),
quer pela via do capital (falta de crédito absorvido pelas especulações
bolsistas), quer do trabalho (esmagamento de salários e consequente fuga
dos melhores para outras paragens em franco crescimento... por
enquanto) continuaremos a ver apenas uma ilusória luz no fundo do tunel,
mas este não terá fim.
Eu detesto diminutivos, uma praga portuguesa. Desde a “continha” ao “cafezinho”, parece haver um gosto em traduzir na linguagem uma pequenez ontológica qualquer, na qual, pelos vistos, muitos portugueses se reconhecem. A excepção é o futebol em que se sonha sempre em grande, em melhor da Europa, quiçá do mundo. Aí não se usam diminutivos, é só peito cheio como os descobridores no monumento de Belém. Talvez porque, durante meses, isso nos permite pensar poucochinho. Em casa em que não há pão, o circo é sempre útil.
COISAS DA SÁBADO: CONFUNDIR DESEJOS COM REALIDADES
Não vai ser preciso muito tempo para se perceber até que ponto na última cimeira europeia se estão a confundir desejos com realidades. Começa porque o que disseram os que nela estiveram presentes não teve versões coincidentes. Depois porque as declarações públicas destinavam-se a servir quer para aliviar a pressão dos mercados, objectivo de todos com mais ou menos zelo, quer ao consumo interno, principalmente em Espanha. Depois houve alguma coisa para servir de consumo aos desejos dos europeístas, que, como tem muito boa imprensa, conseguem facilmente com a varinha mágica do desejo transformar migalhas em rochedos. Mas como são migalhas é só esperar para se ver que não são rochedos. A verdade é que, com excepção de algumas medidas pontuais, débeis e por financiar, todo o edifício de Merkel continua intacto, com algumas obséquias retóricas a Hollande e algumas cedências mais à dimensão do problema espanhol e italiano do que a Monti e Rajoy. Nem vale a pena escrever muito mais, é só esperar até à próxima cimeira “decisiva”.
(Escrito a 3 de Julho. Não foram precisos oito dias para se perceber as ilusões, mas ninguém que as divulgou a quente responde por elas a frio...)
COISAS DA SÁBADO: CAMARATE ESTÁ A TORNAR-SE ESTRANHO
A decisão da Assembleia da República de criar mais uma Comissão para o chamado “caso de Camarate”, é uma das raras sobrevivências no PSD do “sá carneirismo”, permitida por uma direcção que nada tem de “sá carneirista”, mas que considera que, como tudo que dali venha é inócuo para o actual poder, não há mal nenhum em haver outra distracção das dificuldades do presente. Para a geração do PSD que assistiu à queda do avião a defesa da tese do atentado funciona quase como um atestado de legitimação política, que separava os “bons” e os “maus”, os fiéis e os traidores, e isso marcou o partido como uma das suas tradições não escritas, mais sólidas. A actual geração de dirigentes não quer saber das tradições para nada, mas recebeu-a dos sectores mais antigos do partido, que já quase não existem nas secções, mas que deixaram as suas marcas nas paredes, nas lápides, nos bustos, que ornamentam as sedes que não foram modernizadas por decoradores.
O grande factor que turva as águas de qualquer inquérito a Camarate é que é óbvio que houve grossa incúria na sua investigação policial, quando tudo estava ainda quente e que se percebe que essa incúria foi politicamente motivada e protegida pela vontade de impedir qualquer dúvida sobre se estávamos perante um atentado. A tese do atentado foi recusada por razões políticas de imediato, pelo receio das perturbações que geraria num momento muito complicado da vida política nacional. A partir daí as suspeitas de que isto foi feito com dolo para encobrir uma conspiração, geraram, como é obvio, uma série de teses igualmente conspirativas e daqui não se consegue sair.
Porém há um dado novo, a que a comunicação social tem dado pouca atenção: é que recentemente começaram a circular na Internet, documentos escritos e “confissões” de responsabilidade de alguns suspeitos do “crime” e não só, cujas “confissões” seriam agora feitas porque já não há medo de haver consequências legais devido á prescrição dos processos. Marcelo Rebelo de Sousa usou esse argumento para justificar a reabertura de mais uma Comissão de inquérito.
Ora aqui entramos num terreno muito pantanoso, porque pelo menos um documento “confessional”, que circula na Internet atribui aos serviços secretos americanos um papel decisivo no “crime”, é uma fabricação, mas uma fabricação com marca profissional, ou seja feita também muito provavelmente por uma qualquer pessoa ou serviço que teve acesso a informações, agendas, e pormenores que lhe permitiu montar um texto que impressiona o vulgo pelos seus detalhes. Ou seja, o caso Camarate ainda está vivo, na guerra entre serviços secretos, e é nesse vespeiro que a Assembleia vai entrar, sem meios, sem informações e sem capacidade de separar as águas. Movendo-se por um desejo de encontrar um “crime”, para que novas “provas” lhe serão certamente fornecidas, encontrá-lo-á. Camarate está a tornar-se estranho, mas já é outro Camarate.
It's my lunch hour, so I go
for a walk among the hum-colored
cabs. First, down the sidewalk
where laborers feed their dirty
glistening torsos sandwiches
and Coca-Cola, with yellow helmets
on. They protect them from falling
bricks, I guess. Then onto the
avenue where skirts are flipping
above heels and blow up over
grates. The sun is hot, but the
cabs stir up the air. I look
at bargains in wristwatches. There
are cats playing in sawdust.
On
to Times Square, where the sign
blows smoke over my head, and higher
the waterfall pours lightly. A
Negro stands in a doorway with a
toothpick, languorously agitating.
A blonde chorus girl clicks: he
smiles and rubs his chin. Everything
suddenly honks: it is 12:40 of
a Thursday.
Neon
in daylight is a
great pleasure, as Edwin Denby would
write, as are light bulbs in daylight.
I stop for a cheeseburger at JULIET'S
CORNER. Giulietta Masina, wife of
Federico Fellini, e bell' attrice.
And chocolate malted. A lady in
foxes on such a day puts her poodle
in a cab.
There
are several Puerto
Ricans on the avenue today, which
makes it beautiful and warm. First
Bunny died, then John Latouche,
then Jackson Pollack. But is the
earth as full as life was full, of them?
And one has eaten and one walks,
past the magazines with nudes
and the posters for BULLFIGHT and
the Manhattan Storage Warehouse,
which they'll soon tear down. I
used to think they had the Armory
Show there.
A
glass of papaya juice
and back to work. My heart is in my
pocket, it is Poems by Pierre Reverdy.
Há um falhanço único que o governo não pode ter: o do défice. Pode errar em tudo, que o cerne da legitimidade do seu discurso permanece intocável, mas não pode falhar na chamada “meta do défice”. Porque se isso acontece, tudo o resto soçobra falho da legitimação que o cumprimento do objectivo essencial do programa da troika implica. E se isso acontecer, e há indicações de que possa acontecer, não há explicação exterior que sirva, porque o défice não é o mesmo que a possibilidade de regressar aos mercados. Essa pode falhar, que é legítimo dizer-se que os juros que o mercado exige se devem á conjuntura internacional. Já não recolher os impostos previstos por causa da recessão, ou ter um crescimento exponencial das despesas da segurança social devido ao desemprego, já são consequências do modelo escolhido para controlar o défice. São nacionais, são resultado de políticas nacionais, que não adianta dizer que nos foram “impostas” depois de Passos Coelho dizer que elas eram o seu “programa” que assumia pelo mérito, sem ambiguidades, e falando a sério. Aí o programa da troika deixou de ser da troika para ser dele e do governo. E é essa opção de fundo que só se legitima se o défice for controlado.