É particularmente interessante ver como o comentário sobre a nossa participação futebolística no Euro 2012 é mimético da política. Mais do que mimético, é uma projecção da política nacional sobre a equipa, o treinador, os jogos, os jogadores. A equipa é como o governo para os seus defensores, modesta, esforçada, colectiva, capaz de surpreender quando a intelligentsia do contra, não dá nada por ele(a). Está a fazer uma “revolução tranquila”.
Os que a criticam são “treinadores de bancada”, essa figura típica do ódio nacional pela dissidência e da obsessão pelo “consenso”. Representam o pior do negativismo dos portugueses, estão ressabiados e gostariam de serem eles os treinadores. Para eles deve haver repúdio e a sombra da ignomínia e da traição à pátria. Se a equipa ganhar, cada vitória é vista como uma bofetada colectiva nos “descrentes”; quando perde, ou se salta com vigor para pisar os que estão em baixo, ou se desculpa tudo, porque os outros ainda foram piores e estes são apenas suficientes. E o suficiente é a nossa normalidade, quando não somos génios.
"Who
do we Americans think we are? This is a cultural question, and it is
worth asking: many of the great issues in American public life are
ultimately cultural issues. The relation of the well-off to the poor;
the meaning and the future of race and ethnicity; the degree to and
manner in which we share responsibility for the aged, the sick, the
needy; even our mission and place among the world's nations: all these
depend on our sense of ourselves as a people -- that is, as a cultural
reality. In other words, these social issues depend on how we remember
ourselves. "
(Robert Pinsky, "poet laureate of the United States.")
Mais uma vez ouve-se o ruído da asneira e da cegueira por toda a Europa, da Comissão, aos governos, à imprensa sempre mais europeísta do que os mais europeístas, sob a forma da frase: “a Europa respira de alívio com os resultados das eleições gregas”. Como é possível que nem sequer se pare para pensar um pouco para se perceber que as coisas na Grécia, e no euro, duas realidades distintas mas comunicantes, estão pior do que o que estavam? Como sabem os prudentes sempre que se perde mais uma oportunidade de resolver os problemas estes agravam-se. E nem sequer é líquido que as eleições gregas tenham sido uma oportunidade.
Explico-me, coisa que nem valia a pena fazer, dado que bastava algum bom senso para lá chegar. O problema grego não está resolvido, porque o problema grego actual é que o programa que foi imposto à Grécia é impossível de cumprir. E como é impossível de cumprir, não será cumprido, nem pelo Syriza, nem pelo PASOK, nem pela Nova Democracia. O mal grego pode ter a ver com os gregos, mas o problema grego têm a ver com o programa da troika patrocinado pela UE, Alemanha à frente e troika atrás. A Europa não quer saber do mal grego a não ser para o punir, e tem enormes dores de cabeça com o problema grego, o que é natural porque é parte inteira dele.
As eleições gregas não deram a maioria ao Syriza, o pavor dos círculos financeiros e governamentais europeus, por boas e más razões. As boas é que o programa real do Syriza é o retorno à autarcia e ao proteccionismo, na verdade o único programa genuíno que a esquerda tem na Europa. Escave-se fundo nas propostas da esquerda europeia, dispam-se das roupagens politicamente correctas e o que fica é um erigir de fronteiras face ao dumping social chinês, para manter o que resta do “modelo social europeu”. Se não for possível fazê-lo a nível da Europa, cada país tenderá a fazê-lo por si, com as excepções daqueles que vivem exactamente da globalização e da internacionalização. A Europa proteger-se-á da competição com os produtos chineses mais baratos, feitos com mão-de-obra quase escrava, as deslocalizações serão impedidas porque os seus produtos ficarão demasiado caros ao passarem pela pauta alfandegária, os consumidores pagarão mais caro, mas os salários permanecerão altos e a regalias sociais serão mantidas pelo menos para a presente geração. É uma solução errada, que não funcionará, mas é a única que existe à esquerda para garantir o “crescimento” assente num mercado único europeu protegido.
O Syriza não ganhou, mas quase. A continuarem as coisas como estão, ganhará para a próxima, após um período de caos social e de destruição do que sobra da economia, que é o que o governo fraco da Nova Democracia mais os seus aliados vão fazer para tentar cumprir com o programa da troika. E não vão conseguir, porque não é conseguível. É verdade que pode haver algum “alívio” nas exigências europeias como um prémio à Nova Democracia, mas mesmo esse bónus é uma vitória do Syriza e só reforça as suas teses. Aliás, tudo nos resultados eleitorais é bom para o Syriza, que pode, como “principal partido de oposição”, assistir à verificação das suas teses sem assumir responsabilidades de ser governo.
Vai haver em Atenas um enorme cartaz a dizer a todos os gregos, “eu disse-vos que ia ser assim, da próxima vez não se deixem chantagear pelos alemães…” E é um cartaz eficaz, porque a realidade tem muita força.
Nenhuma
palavra traduz melhor os tempos que atravessamos do que "ajustamento".
Em vez de se dizer que se cortam salários, diz-se que se "ajustam"
salários. Em vez de se dizer que se despede, diz-se que se "ajusta" a
mão-de-obra. Em vez de se dizer que se aumentam os impostos e se cortam
despesas, diz-se que se "ajusta" o orçamento. "As empresas estão a fazer
o ajustamento", o "país precisa deste ajustamento para crescer", "a
economia está a ajustar-se", "o nosso país está a ajustar-se muito
depressa", são algumas das frases que ouvi nos últimos dias por parte de
alguns dos actuais detentores do poder.
A palavra é usada
essencialmente como um eufemismo, para dizer aquilo que não se pode
dizer, mas transporta consigo mais do que este uso instrumental
corrente. Os seus melhores cultores nos dias de hoje, os "ajustadores"
Vítor Gaspar, António Borges, Passos Coelho, por esta ordem, nem sequer
se preocupam muito em usá-la como eufemismo, embora também o façam, mas
sim como um instrumento conceptual para traduzir uma ideia sobre a
economia, a sociedade, as pessoas.
Vinda do jargão das escolas
de economia, o seu uso, como o de todas as palavras com papel central no
discurso político, tem um significado em termos ideológicos. Como antes
se dizia, não é neutra. A gente desfia-a, e com ela vem todo um
programa e todo um pensamento. Uma das vantagens das humanidades, que os
"ajustadores" naturalmente desprezam, é perceber demais o que palavras
como esta significam, para as analisar exactamente onde elas estão a ser
instrumentais: no discurso político.
Os historiadores
encontram-nas com vários disfarces, muitas vezes onde os seus
utilizadores menos contam encontrá-las, como seja na teorização marxista
da economia e da sociedade. Um sociólogo não terá dificuldades em
encontrar as suas background assumptions nunca enunciadas, e
então para um filósofo, mesmo amador, há toda uma transparência,
incómoda porque reveladora, do que está pressuposto neste discurso
político. Um dicionário, como o Houaiss, ao elencar todos os seus
significados, não deixa qualquer inocência para o seu uso neutro,
asséptico, científico, que é o que os "ajustadores" pensam que existe.
É
por isso que a sua ideologia é a da tecnocracia, e os seus mais
ilustrados mentores - os dois primeiros da lista anterior de nomes - têm
a convicção de que estão a enunciar uma verdade científica do tipo das
leis de Newton, ou uma espécie de axioma de Euclides como o "todo é
maior que as partes". Numa intervenção recente, António Borges falava
das "leis da economia" como se estivesse a falar das leis da física.
Ora, o problema é que nem há propriamente "leis da economia" unívocas,
nem estas poderiam ser alguma vez semelhantes às da física, nem as da
física são assim tão seguras, e nem sequer o "todo é maior que as
partes" se aplica em toda a matemática. As coisas são fuzzy,
cintilam demasiado e o "ajustamento" não tem certamente a dignidade
religiosa de uma espécie de verdade revelada pelo deus da economia.
A
um filósofo amador não escapa de imediato o principal grupo de
pressupostos do "ajustamento": primeiro, o de que existe um estado
"natural" da economia (da sociedade, das políticas, etc.) que foi
violado, transgredido, ignorado; segundo, que essa violação do estado
natural é perversa e provoca disfunções; e a terceira, a de que para
voltar a esse estado "natural" é preciso realizar determinadas acções,
umas e não outras. É isso que se chama "ajustamento". Já vamos em três
coisas, the plot thickens. As coisas ou estão a complicar-se ou a tornar-se mais interessantes.
O
filósofo amador continuará a dizer que no pensamento dos "ajustadores"
há vários outros pressupostos que também têm de se aceitar como
implícitos. O primeiro é que se sabe qual é esse estado "natural" e qual
a natureza dos desvios. Alguns marxistas tiveram uma discussão
semelhante quando queriam definir os "modos de produção", discutindo
qual o "feudalismo" perfeito de que todos os outros se desviavam. E a
resposta parece bizarra mas foi dada: o feudalismo perfeito estaria nos
reinos dos cruzados, em que a importação do sistema económico-político
feudal seria transposta by the book para o Krak dos Cavaleiros. Desse ponto de vista, o feudalismo francês teria de se "ajustar" ao modelo ideal da Terra Santa.
O
enredo fica ainda mais complicado, ou, se se quiser, fica no fim mais
simples. Muito bem, a economia portuguesa (a sociedade, o Estado,
Portugal, convém sempre acrescentar porque o conceito de "ajustamento"
está longe de ser meramente económico-financeiro) precisa de
"ajustamento" porque "décadas" ou "anos", conforme as versões, a tiraram
dos eixos do seu estado "natural". Mas se fizermos as perguntas certas
em breve percebemos que a resposta está longe de ter que ver com as
"leis da economia", mas com as menos conceituadas leis da política.
Há
quanto tempo é que nos "desviamos" do estado natural das coisas? Desde o
segundo engenheiro Sócrates, o que existiu nos últimos dois anos do
"socratismo"? Esta é a resposta politicamente correcta para a maioria do
Governo e para o PS anti-Sócrates. Desde Santana Lopes? Isso alguns
dizem, apoiados nesse exercício político que foi o relatório Constâncio.
Desde Guterres? A multidão dos sins já avança a sério, e, se eu fosse
da escola do "ajustamento", também começaria aqui. Desde Cavaco? Aqui
unem-se os anticavaquistas do PSD, como a actual liderança, com os
socialistas que querem meter Sócrates e Cavaco no mesmo saco, para lhe
dar uma quota parte menor de responsabilidade. Soares escapa por causa
da vinda do FMI e por ter apoiado Ernâni Lopes, mas bem vistas as coisas
não deveria escapar. Desde o 25 de Abril? Esta é a tese dos saudosistas
do dia 24, que acham que o país mais as colónias estavam em estado de
desenvolvimento pujante, que a democracia "abrilista" estourou junto com
o ouro do Banco de Portugal tão cuidadosamente guardado pelo Dr.
Salazar. Não é verdade, mas eles não querem saber.
A dificuldade
em dar esta resposta, mesmo quando há curvas estatísticas que parecem
explícitas, vem de que não é em primeiro lugar uma questão económica,
mas política, e os tecnocratas têm dificuldade em lidar com essa coisa
impura. E depois, só se pode andar para trás e para a frente nos anos e
nas décadas, abandonando o contexto que faz a história e que nos mostra
como decisões inteiramente racionais em 1980, ou em 1990, podem ser
tidas como absurdas em 2000 ou 2010. Ora nada existe num terreno
a-histórico, a não ser as ideologias que se consideram científicas.
Eu
sei a resposta dos "ajustadores" que se pode expor com alguma
rudimentar simplicidade e correspondente brutalidade. Depois pode
sofisticar-se, mas mais vale começar pelo curto, simples e bruto. Essa
resposta é que não se deve gastar mais do que o que se ganha, receitas e
despesas devem corresponder e é isso que está grosso modo no pacto financeiro da sra. Merkel para voltar com o azorrague alemão ao "estado natural" de que nos desviamos, o défice zero.
Eu
não diminuo o valor moral de não se gastar mais do que o que se ganha,
mas não o transformo numa descrição do "estado natural" da economia. É
bom princípio, mas não chega. Há dez anos era racional pagar um
empréstimo da casa, em vez de um aluguer. Hoje não é, mas isso não torna
irracional e irresponsável a decisão do passado. Os "ajustadores" hoje
dirão que é "natural" que percam a casa, o emprego, o salário, porque
isso é que é a "verdade" da economia, o preço da restituição pelo
"ajustamento" à "verdade" de que a economia se desviou pela perversidade
da política. Mas algum economista "ajustador" lhes disse há dez anos
para não comprarem casa própria, para não se endividarem, porque iam
perder o emprego na década de 2010? Nenhum, nem Medina Carreira.
Na
verdade, a única economia que conta é a "economia política", que é
aliás a de Adam Smith, Marx, Schumpeter, Keynes, Friedman, e tantos
outros. E se há coisas que eles sabiam é que se existisse esse "estado
natural" perfeito não haveria economia, e que há "ruído" nas sociedades
humanas, e os economistas que não o ouvem são maus políticos. Não há
"leis da economia", como não há "leis da sociedade", há pessoas,
interesses, grupos, ideias, diferentes escolas e diferentes soluções,
diferentes tempos e diferentes modos. Eu não sou relativista porque não
penso que valha tudo o mesmo, e porque nós podemos escolher. Em
democracia esta escolha faz-se pelo voto, e não se vota em teorias sobre
as "leis da economia", nem em experiências de laboratório. Felizmente, o
voto ainda não está "ajustado", apesar de alguns esforços europeus.
Felizmente, a opinião ainda não está "ajustada", apesar de alguns
esforços portugueses.
Como a Líbia, mais uma história muito mal contada pelos media. O modelo é o mesmo. Kadafi versus democratas de Bengasi, apoiados pela OTAN, tem agora um espelho em Bashar al-Assad assassino, apoiado pela Rússia, versus os manifestantes que querem uma Primavera síria. É uma história eficaz para encontrar bons e maus, logo é boa para a propaganda e a arregimentação moral. Mas é péssima para se perceber o que se passa.
Como os jornalistas não revisitam os lugares das suas “histórias” quando estas perdem a novidade, como se passa no Egipto ou na Líbia, não têm que se defrontar com explicações um pouco mais exigentes sobre o que escreveram, e em particular, o que omitiram. Assim é fácil.
A UE não precisa de ir mais longe para encontrar autocracias em acto e em processo, com violação sistemática dos direitos humanos e das regras da democracia, bem perto de si. Basta ir às suas fronteiras de Leste, a Belarus, à Ucrânia e à Federação Russa, para encontrar perseguição de opositores, limitações à liberdade individual e de partidos políticos, repressão, corrupção generalizada e uso do estado para o enriquecimento das elites do poder e para monopolizar os meios de controlo de toda a sociedade, seja com a polícia, as forças armadas, passando pela economia e pelos media. O caso da Federação Russa é o mais grave de todos, porque se passa numa grande potência mundial com uma organização imperial e uma política externa que tende pouco a pouco a ser um remake da dos comunistas, e, como a destes, reproduz a organização do czarismo. A eleição de Putin, que se eterniza no poder, passando de Presidente a Primeiro-ministro e vice-versa, que age com mão de ferro quer para controlar o processo eleitoral, quer para perseguir todos os que se lhe opõe, vai agravar significativamente a situação, até porque está a surgir uma nova oposição nas ruas, numerosa, decidida e corajosa.