ABRUPTO

23.6.12


COISAS DA SÁBADO: POLÍTICA E FUTEBOL 


É particularmente interessante ver como o comentário sobre a nossa participação futebolística no Euro 2012 é mimético da política. Mais do que mimético, é uma projecção da política nacional sobre a equipa, o treinador, os jogos, os jogadores. A equipa é como o governo para os seus defensores, modesta, esforçada, colectiva, capaz de surpreender quando a intelligentsia do contra, não dá nada por ele(a). Está a fazer uma “revolução tranquila”. 

Os que a criticam são “treinadores de bancada”, essa figura típica do ódio nacional pela dissidência e da obsessão pelo “consenso”. Representam o pior do negativismo dos portugueses, estão ressabiados e gostariam de serem eles os treinadores. Para eles deve haver repúdio e a sombra da ignomínia e da traição à pátria. Se a equipa ganhar, cada vitória é vista como uma bofetada colectiva nos “descrentes”; quando perde, ou se salta com vigor para pisar os que estão em baixo, ou se desculpa tudo, porque os outros ainda foram piores e estes são apenas suficientes. E o suficiente é a nossa normalidade, quando não somos génios.

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"Who do we Americans think we are? This is a cultural question, and it is worth asking: many of the great issues in American public life are ultimately cultural issues. The relation of the well-off to the poor; the meaning and the future of race and ethnicity; the degree to and manner in which we share responsibility for the aged, the sick, the needy; even our mission and place among the world's nations: all these depend on our sense of ourselves as a people -- that is, as a cultural reality. In other words, these social issues depend on how we remember ourselves. "

(Robert Pinsky, "poet laureate of the United States.")

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22.6.12


COISAS DA SÁBADO: GRÉCIA


Mais uma vez ouve-se o ruído da asneira e da cegueira por toda a Europa, da Comissão, aos governos, à imprensa sempre mais europeísta do que os mais europeístas, sob a forma da frase: “a Europa respira de alívio com os resultados das eleições gregas”. Como é possível que nem sequer se pare para pensar um pouco para se perceber que as coisas na Grécia, e no euro, duas realidades distintas mas comunicantes, estão pior do que o que estavam? Como sabem os prudentes sempre que se perde mais uma oportunidade de resolver os problemas estes agravam-se. E nem sequer é líquido que as eleições gregas tenham sido uma oportunidade. 

Explico-me, coisa que nem valia a pena fazer, dado que bastava algum bom senso para lá chegar. O problema grego não está resolvido, porque o problema grego actual é que o programa que foi imposto à Grécia é impossível de cumprir. E como é impossível de cumprir, não será cumprido, nem pelo Syriza, nem pelo PASOK, nem pela Nova Democracia. O mal grego pode ter a ver com os gregos, mas o problema grego têm a ver com o programa da troika patrocinado pela UE, Alemanha à frente e troika atrás. A Europa não quer saber do mal grego a não ser para o punir, e tem enormes dores de cabeça com o problema grego, o que é natural porque é parte inteira dele. 

As eleições gregas não deram a maioria ao Syriza, o pavor dos círculos financeiros e governamentais europeus, por boas e más razões. As boas é que o programa real do Syriza é o retorno à autarcia e ao proteccionismo, na verdade o único programa genuíno que a esquerda tem na Europa. Escave-se fundo nas propostas da esquerda europeia, dispam-se das roupagens politicamente correctas e o que fica é um erigir de fronteiras face ao dumping social chinês, para manter o que resta do “modelo social europeu”. Se não for possível fazê-lo a nível da Europa, cada país tenderá a fazê-lo por si, com as excepções daqueles que vivem exactamente da globalização e da internacionalização. A Europa proteger-se-á da competição com os produtos chineses mais baratos, feitos com mão-de-obra quase escrava, as deslocalizações serão impedidas porque os seus produtos ficarão demasiado caros ao passarem pela pauta alfandegária, os consumidores pagarão mais caro, mas os salários permanecerão altos e a regalias sociais serão mantidas pelo menos para a presente geração. É uma solução errada, que não funcionará, mas é a única que existe à esquerda para garantir o “crescimento” assente num mercado único europeu protegido. 

 O Syriza não ganhou, mas quase. A continuarem as coisas como estão, ganhará para a próxima, após um período de caos social e de destruição do que sobra da economia, que é o que o governo fraco da Nova Democracia mais os seus aliados vão fazer para tentar cumprir com o programa da troika. E não vão conseguir, porque não é conseguível. É verdade que pode haver algum “alívio” nas exigências europeias como um prémio à Nova Democracia, mas mesmo esse bónus é uma vitória do Syriza e só reforça as suas teses. Aliás, tudo nos resultados eleitorais é bom para o Syriza, que pode, como “principal partido de oposição”, assistir à verificação das suas teses sem assumir responsabilidades de ser governo. 

Vai haver em Atenas um enorme cartaz a dizer a todos os gregos, “eu disse-vos que ia ser assim, da próxima vez não se deixem chantagear pelos alemães…” E é um cartaz eficaz, porque a realidade tem muita força.

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ESPÍRITO DO TEMPO:  HOJE

Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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"The farther backward you can look, the farther forward you are likely to see."


(Winston Churchill)

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18.6.12


AJUSTAMENTO


Nenhuma palavra traduz melhor os tempos que atravessamos do que "ajustamento". Em vez de se dizer que se cortam salários, diz-se que se "ajustam" salários. Em vez de se dizer que se despede, diz-se que se "ajusta" a mão-de-obra. Em vez de se dizer que se aumentam os impostos e se cortam despesas, diz-se que se "ajusta" o orçamento. "As empresas estão a fazer o ajustamento", o "país precisa deste ajustamento para crescer", "a economia está a ajustar-se", "o nosso país está a ajustar-se muito depressa", são algumas das frases que ouvi nos últimos dias por parte de alguns dos actuais detentores do poder.

A palavra é usada essencialmente como um eufemismo, para dizer aquilo que não se pode dizer, mas transporta consigo mais do que este uso instrumental corrente. Os seus melhores cultores nos dias de hoje, os "ajustadores" Vítor Gaspar, António Borges, Passos Coelho, por esta ordem, nem sequer se preocupam muito em usá-la como eufemismo, embora também o façam, mas sim como um instrumento conceptual para traduzir uma ideia sobre a economia, a sociedade, as pessoas.

Vinda do jargão das escolas de economia, o seu uso, como o de todas as palavras com papel central no discurso político, tem um significado em termos ideológicos. Como antes se dizia, não é neutra. A gente desfia-a, e com ela vem todo um programa e todo um pensamento. Uma das vantagens das humanidades, que os "ajustadores" naturalmente desprezam, é perceber demais o que palavras como esta significam, para as analisar exactamente onde elas estão a ser instrumentais: no discurso político.


Os historiadores encontram-nas com vários disfarces, muitas vezes onde os seus utilizadores menos contam encontrá-las, como seja na teorização marxista da economia e da sociedade. Um sociólogo não terá dificuldades em encontrar as suas background assumptions nunca enunciadas, e então para um filósofo, mesmo amador, há toda uma transparência, incómoda porque reveladora, do que está pressuposto neste discurso político. Um dicionário, como o Houaiss, ao elencar todos os seus significados, não deixa qualquer inocência para o seu uso neutro, asséptico, científico, que é o que os "ajustadores" pensam que existe.

É por isso que a sua ideologia é a da tecnocracia, e os seus mais ilustrados mentores - os dois primeiros da lista anterior de nomes - têm a convicção de que estão a enunciar uma verdade científica do tipo das leis de Newton, ou uma espécie de axioma de Euclides como o "todo é maior que as partes". Numa intervenção recente, António Borges falava das "leis da economia" como se estivesse a falar das leis da física. Ora, o problema é que nem há propriamente "leis da economia" unívocas, nem estas poderiam ser alguma vez semelhantes às da física, nem as da física são assim tão seguras, e nem sequer o "todo é maior que as partes" se aplica em toda a matemática. As coisas são fuzzy, cintilam demasiado e o "ajustamento" não tem certamente a dignidade religiosa de uma espécie de verdade revelada pelo deus da economia.


A um filósofo amador não escapa de imediato o principal grupo de pressupostos do "ajustamento": primeiro, o de que existe um estado "natural" da economia (da sociedade, das políticas, etc.) que foi violado, transgredido, ignorado; segundo, que essa violação do estado natural é perversa e provoca disfunções; e a terceira, a de que para voltar a esse estado "natural" é preciso realizar determinadas acções, umas e não outras. É isso que se chama "ajustamento". Já vamos em três coisas, the plot thickens. As coisas ou estão a complicar-se ou a tornar-se mais interessantes.

O filósofo amador continuará a dizer que no pensamento dos "ajustadores" há vários outros pressupostos que também têm de se aceitar como implícitos. O primeiro é que se sabe qual é esse estado "natural" e qual a natureza dos desvios. Alguns marxistas tiveram uma discussão semelhante quando queriam definir os "modos de produção", discutindo qual o "feudalismo" perfeito de que todos os outros se desviavam. E a resposta parece bizarra mas foi dada: o feudalismo perfeito estaria nos reinos dos cruzados, em que a importação do sistema económico-político feudal seria transposta by the book para o Krak dos Cavaleiros. Desse ponto de vista, o feudalismo francês teria de se "ajustar" ao modelo ideal da Terra Santa.

O enredo fica ainda mais complicado, ou, se se quiser, fica no fim mais simples. Muito bem, a economia portuguesa (a sociedade, o Estado, Portugal, convém sempre acrescentar porque o conceito de "ajustamento" está longe de ser meramente económico-financeiro) precisa de "ajustamento" porque "décadas" ou "anos", conforme as versões, a tiraram dos eixos do seu estado "natural". Mas se fizermos as perguntas certas em breve percebemos que a resposta está longe de ter que ver com as "leis da economia", mas com as menos conceituadas leis da política. 


Há quanto tempo é que nos "desviamos" do estado natural das coisas? Desde o segundo engenheiro Sócrates, o que existiu nos últimos dois anos do "socratismo"? Esta é a resposta politicamente correcta para a maioria do Governo e para o PS anti-Sócrates. Desde Santana Lopes? Isso alguns dizem, apoiados nesse exercício político que foi o relatório Constâncio. Desde Guterres? A multidão dos sins já avança a sério, e, se eu fosse da escola do "ajustamento", também começaria aqui. Desde Cavaco? Aqui unem-se os anticavaquistas do PSD, como a actual liderança, com os socialistas que querem meter Sócrates e Cavaco no mesmo saco, para lhe dar uma quota parte menor de responsabilidade. Soares escapa por causa da vinda do FMI e por ter apoiado Ernâni Lopes, mas bem vistas as coisas não deveria escapar. Desde o 25 de Abril? Esta é a tese dos saudosistas do dia 24, que acham que o país mais as colónias estavam em estado de desenvolvimento pujante, que a democracia "abrilista" estourou junto com o ouro do Banco de Portugal tão cuidadosamente guardado pelo Dr. Salazar. Não é verdade, mas eles não querem saber.

A dificuldade em dar esta resposta, mesmo quando há curvas estatísticas que parecem explícitas, vem de que não é em primeiro lugar uma questão económica, mas política, e os tecnocratas têm dificuldade em lidar com essa coisa impura. E depois, só se pode andar para trás e para a frente nos anos e nas décadas, abandonando o contexto que faz a história e que nos mostra como decisões inteiramente racionais em 1980, ou em 1990, podem ser tidas como absurdas em 2000 ou 2010. Ora nada existe num terreno a-histórico, a não ser as ideologias que se consideram científicas.

Eu sei a resposta dos "ajustadores" que se pode expor com alguma rudimentar simplicidade e correspondente brutalidade. Depois pode sofisticar-se, mas mais vale começar pelo curto, simples e bruto. Essa resposta é que não se deve gastar mais do que o que se ganha, receitas e despesas devem corresponder e é isso que está grosso modo no pacto financeiro da sra. Merkel para voltar com o azorrague alemão ao "estado natural" de que nos desviamos, o défice zero. 


Eu não diminuo o valor moral de não se gastar mais do que o que se ganha, mas não o transformo numa descrição do "estado natural" da economia. É bom princípio, mas não chega. Há dez anos era racional pagar um empréstimo da casa, em vez de um aluguer. Hoje não é, mas isso não torna irracional e irresponsável a decisão do passado. Os "ajustadores" hoje dirão que é "natural" que percam a casa, o emprego, o salário, porque isso é que é a "verdade" da economia, o preço da restituição pelo "ajustamento" à "verdade" de que a economia se desviou pela perversidade da política. Mas algum economista "ajustador" lhes disse há dez anos para não comprarem casa própria, para não se endividarem, porque iam perder o emprego na década de 2010? Nenhum, nem Medina Carreira.

Na verdade, a única economia que conta é a "economia política", que é aliás a de Adam Smith, Marx, Schumpeter, Keynes, Friedman, e tantos outros. E se há coisas que eles sabiam é que se existisse esse "estado natural" perfeito não haveria economia, e que há "ruído" nas sociedades humanas, e os economistas que não o ouvem são maus políticos. Não há "leis da economia", como não há "leis da sociedade", há pessoas, interesses, grupos, ideias, diferentes escolas e diferentes soluções, diferentes tempos e diferentes modos. Eu não sou relativista porque não penso que valha tudo o mesmo, e porque nós podemos escolher. Em democracia esta escolha faz-se pelo voto, e não se vota em teorias sobre as "leis da economia", nem em experiências de laboratório. Felizmente, o voto ainda não está "ajustado", apesar de alguns esforços europeus. Felizmente, a opinião ainda não está "ajustada", apesar de alguns esforços portugueses.

(Versão do Público de 16 de Junho de 2012.)

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COISAS DA SÁBADO:  SÌRIA: UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

 Como a Líbia, mais uma história muito mal contada pelos media. O modelo é o mesmo. Kadafi versus democratas de Bengasi, apoiados pela OTAN, tem agora um espelho em Bashar al-Assad assassino, apoiado pela Rússia, versus os manifestantes que querem uma Primavera síria. É uma história eficaz para encontrar bons e maus, logo é boa para a propaganda e a arregimentação moral. Mas é péssima para se perceber o que se passa. Como os jornalistas não revisitam os lugares das suas “histórias” quando estas perdem a novidade, como se passa no Egipto ou na Líbia, não têm que se defrontar com explicações um pouco mais exigentes sobre o que escreveram, e em particular, o que omitiram. Assim é fácil.

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17.6.12


ESPÍRITO DO TEMPO:  HOJE

Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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COISAS DA SÁBADO: A RÚSSIA DE PUTIN 

 A UE não precisa de ir mais longe para encontrar autocracias em acto e em processo, com violação sistemática dos direitos humanos e das regras da democracia, bem perto de si. Basta ir às suas fronteiras de Leste, a Belarus, à Ucrânia e à Federação Russa, para encontrar perseguição de opositores, limitações à liberdade individual e de partidos políticos, repressão, corrupção generalizada e uso do estado para o enriquecimento das elites do poder e para monopolizar os meios de controlo de toda a sociedade, seja com a polícia, as forças armadas, passando pela economia e pelos media. O caso da Federação Russa é o mais grave de todos, porque se passa numa grande potência mundial com uma organização imperial e uma política externa que tende pouco a pouco a ser um remake da dos comunistas, e, como a destes, reproduz a organização do czarismo. A eleição de Putin, que se eterniza no poder, passando de Presidente a Primeiro-ministro e vice-versa, que age com mão de ferro quer para controlar o processo eleitoral, quer para perseguir todos os que se lhe opõe, vai agravar significativamente a situação, até porque está a surgir uma nova oposição nas ruas, numerosa, decidida e corajosa.

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EARLY MORNING BLOGS   
2225 - A Poem of Unrest 

Men duly understand the river of life,
misconstruing it, as it widens and its cities grow
dark and denser, always farther away.
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And of course that remote denseness suits
us, as lambs and clover might have
if things had been built to order differently.
****
But since I don't understand myself, only segments
of myself that misunderstand each other, there's no
reason for you to want to, no way you could
****
even if we both wanted it. Do those towers even exist?
We must look at it that way, along those lines
so the thought can erect itself, like plywood battlements.

(John Ashbery)


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© José Pacheco Pereira
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