Não é preciso ser especialmente bom observador para ir mais além do “a coligação funciona bem” do discurso oficial. Sim, é verdade que a coligação funciona bem porque os dois partidos têm o pescoço metido numa guilhotina comum e não podia deixar de ser de outra maneira. Caindo a lâmina, corta os dois pescoços, embora corpos sem cabeça abundem por aí a mexer-se como se a tivessem. Mas convenhamos que é uma parte importante do corpo, e ninguém gosta de ter que a transportar debaixo do braço. As necessidades de auto-preservação do PSD e do CDS, o mais poderoso sentimento colectivo dos partidos, exigem esse bom entendimento. Por aí não há novidades.
No entanto, o modus operandi e o modus vivendi da coligação actual não é o mesmo da anterior coligação realizada por Durão Barroso em 2002. Nessa altura, a coligação fez-se após resultados eleitorais inesperados – Barroso estava convencido de que teria maioria absoluta – e resultou de uma imposição forçada desde o primeiro minuto da noite eleitoral por um CDS que quis criar um facto consumado. E um PSD que pretendia explorar outros caminhos mais minimalistas como por exemplo, um acordo parlamentar, cedeu por pressão de dirigentes mais à direita que de imediato aceitaram a política de facto consumado do CDS. Talvez por ter forçado a mão, o CDS precisava de se comportar exemplarmente e foi o que fez até aos últimos dias, já com Santana Lopes. Aí deu sinais bastantes de desconforto, para ajudar Jorge Sampaio na sua decisão.
Mas esta coligação à volta de Durão Barroso colocou o CDS militantemente ao lado do PSD, usando todos os pretextos para mostrar que não hesitava um segundo em “ser parte” inteira e sem hesitações de um governo cujas responsabilidades assumiu por inteiro. Exactamente porque todos esperavam “problemas”, o CDS não tinha margem para provocar nenhum. A viragem à direita do PSD, que então se acentuou, favoreceu o entendimento, tornando mais fácil ao CDS a “lealdade” à coligação. O CDS por seu lado “virou” na questão europeia, mudando de 180º a sua posição. Até Santana Lopes, a coligação não podia ser mais perfeita.
Hoje não é assim. Há coligação, “funciona bem”, mas é mais nítido que o governo se divide em duas áreas de actuação, o CDS numa, o PSD noutra, e cada um tenta mostrar o que vale em cada uma. Disse cada um, mas é mais o CDS que não abdica de aparecer como CDS na coligação, mostrando uma distância real com o destino comum. Em 2002, o destino comum era mesmo comum, hoje o destino comum é deixado para o PSD, que assumirá culpas em tudo o que não resultar, em particular na economia. Tal é facilitado pelas pastas governativas do CDS.
Enquanto em 2002, a viragem à direita do PSD facilitou o entendimento, em 2011, o CDS está bastante mais à esquerda do PSD, e deixa-o claramente sozinho no seu profetismo salvífico assente num rudimentar liberalismo económico e muito desconhecimento do país. Existe coligação como em 2002, mas o CDS permanece o CDS, marca o seu terreno. Talvez acabe por não valer nada, porque as paradas são muito altas, mas que o CDS tenta passar pelos pingos da chuva, tenta.
"Tudo é simples na guerra, mas mesmo as mais simples das coisas são difíceis. Estas dificuldades acumulam-se criando uma fricção que nenhum homem que não conheceu a guerra pode imaginar."
Just like as in a nest of boxes round,
Degrees of sizes in each box are found:
So, in this world, may many others be
Thinner and less, and less still by degree:
Although they are not subject to our sense,
A world may be no bigger than two-pence.
Nature is curious, and such works may shape,
Which our dull senses easily escape:
For creatures, small as atoms, may there be,
If every one a creature’s figure bear.
If atoms four, a world can make, then see
What several worlds might in an ear-ring be:
For, millions of those atoms may be in
The head of one small, little, single pin.
And if thus small, then ladies may well wear
A world of worlds, as pendents in each ear.
A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.
O Prós e Contras da RTP tornou-se há muito tempo o paradigma do nome desta série: situacionismo. Foi, nos últimos tempos do "socratismo", a voz do regime; é a mesma voz do regime no ano de "passismo". É isso que é a RTP, a voz do dono.
Começa sempre, no elemento mais importante num programa como este, na escolha das pessoas a quem se dá o podium. Sempre que se trata de um tema no âmago do poder, o poder está representado pelos seus melhores defensores, a crítica ao poder por moderadíssimos e débeis representantes, com críticas secundárias e circunstanciais, e isto é nos melhores dias. Em muitos casos, o programa é Prós e Prós.
O programa de hoje é um exemplo perfeito, onde, sem contraditório, se ouviu uma série de porta-vozes da política actual, de António Borges a António Vitorino. Sim, de António Borges, a quem não foi perguntado nada de incómodo, a António Vitorino que representa uma das vozes "responsáveis" do PS que em todos os momentos cobre sempre o governo em funções. Há cinco, quatro, três, dois anos, ou seja, em termos históricos, HOJE, exactamente com a mesma voz grave e responsável, António Borges defendia a política suicidária do sistema financeiro que conduziu ao desastre cujos custos todos pagamos, e Vitorino não dizia nada de incómodo para Sócrates, a quem deu a caução completa e total. Hoje, estão a fazer o mesmo como ideólogos e parte activa do actual governo, e se as coisas não correrem como dizem que vão correr, haverá sempre um álibi europeu para os justificar.
Eles estão lá sempre, e no entanto, nunca lá estão. Não é por acaso que este tipo de vozes é a preferida do Prós e Contras.
Eu
já vejo com muitas reservas esta obsessão dos dias de hoje de atribuir
estados de alma a toda a gente para explicar tudo e mais alguma coisa, e
por isso sou avesso, por maioria de razão, a embarcar na ideia que o
mesmo se possa fazer aos povos. Isso a propósito da "paciência" do povo
português celebrada pelo primeiro-ministro como virtude ímpar numa
Europa turbulenta.
Claro que se podem dizer muitas coisas sobre o
"povo português": que está "zangado" com a crise, que está "furioso"
com os políticos, que está "deprimido" com o empobrecimento forçado, que
está "descrente" da democracia, que está "prostrado" pela inacção, que
tem uma infinita "paciência". Há, no entanto, várias coisas que ninguém
tem coragem de dizer e o problema dos excessos de psicologia
impressionista começam aqui. Ninguém tem a coragem de dizer que o povo
português está "contente" com o "ajustamento", que fica "feliz" porque
passou a ter, como lhe dizem os governantes, que viver com os seus
parcos recursos, e não pode viver mais do crédito (um parêntesis para
dizer que um dos absurdos da actual situação que parece escapar a muitos
é que todo este "ajustamento" se está a fazer "para o país voltar aos
mercados", ou seja, para pedir mais dinheiro emprestado...), que está
"consciente" de que o futuro do seu país é risonho após o termo desta
"revolução dos costumes", que "compreende" que tem que sofrer para
depois renascer como a Fénix.
Em vez da psicologia e dos estados
de alma, prefiro a política. É por isso que a frase da "paciência" tem
um duplo significado político: é um desejo, de que os portugueses se
portem bem; e é uma ideia sobre o "estado" em que estão e também sobre o
que são. É uma ideia sobre os portugueses. A primeira coisa é um
desejo, que todos podem ter; a segunda, é uma ilusória ideia de que
existe uma qualquer virtude essencial nos portugueses que consiste em
"comerem e calarem". Ora isto é uma asneira monumental sob todos os
pontos de vista, seja o do puro bom senso, seja histórico, seja
sociológico, seja até, admirem-se, psicológico e psiquiátrico.
Masoquistas, só às vezes e é pelo prazer, não é pelo chicote.
A
comparação que fez D. Januário Torgal entre Passos e Salazar levou ao
paroxismo a interpretação da frase da "paciência". Ora, se entendida
como sendo uma comparação entre Passos Coelho e Salazar, como pessoas e
políticos, não tem nenhuma razão de ser. Passos é um político
democrático, a quem de certeza são completamente alheias as ideias
conservadoras e antidemocráticas de Salazar e a quem não move qualquer
impulso autoritário. Pode ser indiferente, como muitas pessoas da sua
geração, perante os valores da liberdade que receberam já adquiridos, e
que sempre conheceram como naturais, mas isso não o faz um ditador em
potência.
O problema é outro, é que muitas ideias do nosso salazarismo de background
impregnam muito mais do que se pensa o discurso público vulgar, aquele
que não é muito elaborado e se desenvolve por aquilo que pensam ser
evidências, sobre as quais nunca pensaram. Passos Coelho não é um caso
especial, mas como é primeiro-ministro fica mais exposto. É o problema,
também geracional, de uma formação política muito superficial, assente
pouco mais do que leituras de jornais e em discursos estandardizados
sobre Portugal e os portugueses. Esses discursos repetem, sem
autoconsciência, como lugares-comuns, aquilo que no salazarismo era um
pensamento contra, um ataque ao liberalismo político em nome de uma
organicidade substancial do "povo português", que correspondia à visão
rural e paroquial das virtudes dos portugueses.
Por isso, a frase
polémica de D. Januário, se entendida como uma comparação entre a ideia
de povo que tinha Salazar e que tem Passos Coelho, tem alguma razão de
ser. Não tem toda, mas tem alguma. A principal razão que diferencia
Salazar e Passos Coelho nessa apreciação comum da "bondade" do povo
português é que Salazar a fazia com óbvio cinismo. Salazar pensava, como
um típico produto da nossa ruralidade ancestral, com "manha", a forma
do cinismo dos camponeses. Por isso, Salazar entendia que esse eventual
estado natural de bondade do "povo português" não era assim tão forte
que não precisasse de ser "protegido" pela polícia política e pela
censura da contaminação vil da "política". Os portugueses eram bons,
trabalhadores, aceitavam a pobreza virtuosa, assim como os bois no poema
de Afonso Lopes Vieira, em que se pode tirar os "bois" e pôr os
portugueses que dá o mesmo:
Os bois! Fortes e mansos, os boizinhos,
- leões com corações de passarinhos!
Os bois! Os grandes bois, esses gigantes,
tão amigos, tão úteis, tão possantes!
(...)
Mas vede os bois, também, nessa alegria
de trabalhar na terra à luz do dia!
Vede os bois a puxar ao arado, agora
que o lavrador conduz pelo campo fora!
Eis um canto de amor no ar se espalha:
- é a terra a cantar por quem trabalha!
(...)
Sem a sua força, sem a sua dor,
não estava rindo a terra toda em flor!...
Ora
estes bois, fortes e poderosos, "leões com corações de passarinhos",
são uma imagem do mesmo tipo de "paciência" que é suposto ter o bom povo
português.
Há outras coisas a dizer sobre esta "paciência".
Presumo que se afirma que o nosso povo está "paciente" porque não anda
aí na rua a partir tudo, como se diz que os gregos fazem. De facto não
anda, nem o povo português, nem o povo grego. Contrariamente às
aparências que são dadas pela selecção de imagens que passam na
televisão das ruas e praça fronteiras ao Parlamento grego, também seria
injusto, e certamente errado, dizer que é o "povo grego" que anda ali a
atirar cocktails Molotov à polícia. Claro que os gregos estão tudo menos "pacientes" com a troika
e os alemães, mas a violência que transpira da Grécia é devida a uma
mais forte implantação de grupos extremistas na vida política grega, à
direita e à esquerda, que estava já lá antes da crise e veio ao de cima
com a radicalização da situação. E se é por aqui que se diz dos
portugueses que são "pacientes", então é só esperar algum tempo para
deixar amadurecer os nossos grupos copycat que já estão aí em formação, a treinar-se e a ganhar coragem.
Por
detrás deles, ou melhor, ao lado, os portugueses e os gregos não são
muito diferentes. A maioria sofre calada e resignada, em particular
quando parece não haver alternativas, mas isso não é "paciência", é
realismo e bom senso. E é também muita fúria. Mas pensar que são como os
bois de Afonso Lopes Vieira, "tão amigos, tão úteis, tão possantes", é
uma ilusão de que se sai depressa.
Respeitar os portugueses não
consiste em falar-lhes com uma mistura de complacência e paternalismo,
mas estar ao lado deles com simpatia activa nas suas tribulações. Há
poucas coisas mais comunicáveis do que a empatia, seja simpatia seja
antipatia. Para ser entendida por todos não precisa de assessores, nem
de agências de comunicação. Precisa apenas de existir. E o problema
maior de "comunicação" deste governo é que preso nas suas ideias gerais e
vagas sobre o país, preso nas suas ilusões sobre meia dúzia de receitas
económicas, preso num profetismo adolescente, entre a fraca convicção e
os lugares-comuns, que soçobrará a qualquer momento na parede dos
factos, não consegue mostrar um grama de empatia sobre o sofrimento que
assim se torna "dos outros".
É por isso que chamar "paciente" ao
povo português parece mais um insulto do que um elogio. Duvido aliás
que haja um único boi que não pense o mesmo do poema de Afonso Lopes
Vieira.