This is what she says about Russia, in the year 2000, in
a restaurant on Prince Street, late on a summer night
She says: all the chandeliers were broken and in the winter,
you couldn’t get a drink, not even that piss from Finland.
The whole country was going crazy. She thinks she is speaking
about the days before she left, but I think, actually, that she is
recounting history. Somebody should be writing all this down
Or not. Perhaps the transition from Communism to a post-Soviet
federation as seen through the eyes of a woman who was hoping,
at least, for an influx of French cosmetics is of interest only to me.
And why not? It seems that the fall of a great empire—revolution!
murder! famine! martial music!—has had a personal effect.
Picture an old movie: here is the spinning globe, the dotted line
moving, dash by dash, from Moscow across the ocean to
New York and it’s headed straight for me. Another blonde
with an accent: the city’s full of them. Nostrovya! A toast
to how often I don’t know what’s coming at me next.
So here is a list of what she left behind: a husband, an abortion,
a mathematical education, and a black market career in
trading currencies. And what she brought: a gray poodle,
eight dresses and a fearful combination of hope, sarcasm,
and steel-eyed desire to which I have surrendered. And now
I know her secrets: she will never give up smoking.
She would have crawled across Eastern Europe and fed
that dog her own blood if she had to. And her mother’s secrets:
she would have thought, at last, that you were safe with me.
She hated men. Let me, then, acknowledge that last generation
of the women of the enemy: they are a mystery to me.
They would be a mystery even to my most liberal-minded friends.
That’s not to say that the daughter, this new democrat, can’t be
a handful. And sometimes noisy: One of those girls you see
now (ice blue manicure, real diamonds and lots of DKNY)
leans over from the next table and says, Can’t you ask your wife
to hold it down? My wife? I suppose I should be insulted,
but I think it’s funny. This is a dangerous woman they want
to quiet here. A woman who could sew gold into the ragged lining
of anybody’s coffin. Who knows that money does buy freedom.
Who just this morning has obtained a cell phone with a bonus plan.
She has it with her, and I believe she means to use it.
Soon, she will be calling everyone, just to wake them up.
Pouca gente mereceria mais o Prémio Pessoa do que Eduardo Lourenço. Devo muito a Eduardo Lourenço, a começar pelo segundo volume de Heterodoxia e pelo ensaio crítico que escreveu sobre a poesia neo-realista, os primeiros textos que li de um português que criticavam a hegemonia cultural do marxismo soviético na sua tradução nacional sem ser possível colocá-lo do lado dos defensores do regime.
Hoje, livros como o Heterodoxia, parecem coisas simples, mas eram coisa para o gigantesco na altura em que foram feitos. E tão excepcionais eram que foram respondidos pelo silêncio que protege a incomodidade. O livro permanecia, como aliás muitos escritos de Lourenço, num limbo bem afastado da moda corrente, na primeira edição. Escrevi-lhe então uma carta entusiasmada sobre o livro, a que ele retribuiu gentilmente e mais tarde convidou-me para participar na apresentação da segunda edição no Centro Nacional de Cultura. E a partir daí participamos nalguns projectos comuns e temos mantido uma estima pessoal e intelectual que não posso deixar de lembrar com o meu gosto pelo seu prémio. Também eu conheço, como Vasco Graça Moura lembrou recentemente, a sua escrita quase ilegível, quase como se as suas palavras procurassem ser uma espécie de sinal vital essencial, de perturbação humana sobre a linha flat da morte.
No seu discurso a receber o prémio, Lourenço fez também uma coisa cada vez mais rara: trouxe consigo esse “país estrangeiro” que é o passado, para homenagear, ao receber o Pessoa, o papel dos que ajudaram Pessoa a ser mais do que um grande poeta, um elemento simbólico dos nossos tempos portugueses do século XX. Falou de gente esquecida como Adolfo Casais Monteiro ou João Gaspar Simões, que alguns, poucos, intelectuais recordam e ainda menos lêem. E ao falar sobre eles, falou também sobre si. Falou num momento de consagração pessoal, sobre como é efémera essa glória e como nós temos uma excelente capacidade para esquecer o importante e uma excelente capacidade para perpetuar a trivialidade. As duas coisas juntas foram o seu verdadeiro discurso sobre a crise.
How easy it is for generous sentiments, high courtesy, and chivalrous courage to lose their influence beneath the chilling blight of selfishness, and to exhibit to the world a man who was great in all the minor attributes of character, but who was found wanting when it became necessary to prove how much principle is superior to policy.
( James Fenimore Cooper, The Last of the Mohicans, 1826)
Vai-se
realizar em breve um leilão da Livraria Luis Burnay de manuscritos,
fotografias e efémera, com um conjunto excepcional de espécies. O
catálogo já saiu e por ele se pode medir a relevância do leilão, muito
centrado nos séculos XVIII e XIX. Uma parte importante está associada a
correspondência particular de e para o intendente-geral da Polícia, o
famigerado Diogo Inácio de Pina Manique.
Porém, não é a
importância do leilão que aqui me interessa, mas sim o que muitas das
suas peças, correspondência em particular, revelam sobre Portugal, o de
então e o de hoje. Cobrindo trezentos anos, o Portugal que lá está
retratado não é homogéneo e tem muitas diferenças nesta série
cronológica. Há todo um mundo, principalmente o do "antigo regime" até à
ida da corte para o Brasil, as invasões napoleónicas, a revolução
liberal e a guerra civil, que desapareceu de todo. Aquela nobreza,
aqueles criados, aqueles "pardos" e "negros", escravos que andavam por
Lisboa, desapareceram e com eles os lugares das "pessoas" na rígida
ordem social. Já no mundo oitocentista, em particular no período do
constitucionalismo monárquico, reconhecemos muito do Portugal dos nossos
dias, até porque aí são políticos e intelectuais que aparecem melhor
representados nos manuscritos da época, e estes mudam muito menos do que
desejariam. Mas, globalmente, só por anacronismo se podia pensar que se
pode traduzir à letra para o Portugal de hoje muito do que aparece nas
cartas e bilhetes que vão ser leiloados. E, no entanto, se não for à
letra...
A maioria dos manuscritos são cartas e bilhetes,
enviados por portador, criados e soldados, e depois pelos serviços do
correio. A parafernália associada à correspondência antiga está toda
presente, lacres, selos, assinaturas elaboradas, envelopes desenhados
com monogramas e brasões, e acima de tudo um universo da escrita
elaborado, cheio de regras de etiqueta, mas muitas vezes saltando para o
estilo vivo, a ironia, a qualidade literária e o valor histórico. Uma,
entre várias cartas de Camilo, mostra essa ironia criativa: "O Jorge
também aqui está. Come bem. Hontem depois de comer três costelletas e ½
canada de verde dizia que a respeito de ceo só conhecia um: o ceo da
boca. Isto se não é puro Voltaire, a Conceição não era capaz de o
dizer." Ramalho Ortigão também lá está, pedindo a um genro coisas bizarras de Paris: "Peço-lhe
que me compre na Rue de l"Université n"uma brosserie que fica à entrada
a caminho da minha antiga casa, logo ao sahir do Pont de la Concorde -
um osso de veado destinado à adoucir la chaussure. Custa 1fr. 50"".
A
correspondência era o meio habitual de comunicação num mundo sem
telefone, com distâncias difíceis de percorrer, e as cartas serviam para
fazer "mover" a sociedade, com os seus interesses, curiosidades,
seduções, bajulações, intrigas e favores. É isso que torna estas cartas
particularmente interessantes, porque nunca passou pela cabeça dos seus
autores que pudessem ser conhecidas fora do seu interlocutor e muito
menos publicadas. Elas contêm alguma política, alguma vida militar,
alguma actividade intelectual, mas acima de tudo são aquilo que os
ingleses chamam a slice of life, uma fatia da vida comum. Ora essa slice of life diz-nos muito sobre o nosso Portugal.
Um
dos aspectos mais significativos era o papel do favor, da cunha, do
empenho, do clientelismo e do patrocinato. Os "conhecimentos" e as
"protecções" eram fundamentais para quem não fazia parte dos de cima, e
isso introduzia uma relação clientelar habitual na sociedade. A nobreza
actuava assim, embora haja uma observação cruel sobre os nossos nobres
num apontamento dos papéis do conde da Carreira, que também estão no
leilão: "Que cousa é um titular portuguez? É uma espécie de animal
vil, ignorante, orgulhoso e caloteiro. Há porem alguas raras,
excepçoens, mas talvez não haja um só titular ou individuo da raça
titular portugueza, aquém não convenha uma das qualidades da definição,
entretanto que todas as quatro assentão perfeitamente na generalidade."
Porém, quando o marquês de Abrantes escreve ao Barão de Quintela, em 1805, para favorecer um canteiro seu afilhado que "se
valle de mim para eu rogar a V. Srª o favor de lhe dar de empreitada a
cantaria da sua obra (...) por isso pesso a V. Srª (...) me fassa o
obsequio de preferir o meu afilhado"; ou quando o marquês de Angeja, em 1791, pede a Pina Manique o favor "de mandar admitir no [Recolhimento do] Castello,
hum minino para nelle aprender a ler, escrever, e depois ser instruído
na arte que lhe for mais útil e da sua inclinação"; ou o quando o duque de Cadaval pede ao mesmo Pina Manique para libertar um preso dizendo que "tenho no meo serviço um Muzico chamado Vipe e querendo eu oje divertir-me fazendo huma pouca de Muzica"(...)
mas não o acharão em Caza e agora me dizem fora prezo a Ordem de V.
Srª, queria então dever a V. srª o obezequio de mo mandar soltar ó
omenos dizer-me arrazão porque está Prezo"; todos estão a fazer algo
de absolutamente normal na sociedade da época. Cento e cinquenta anos
depois, nos anos vinte do século XX, a escritora Branca de Gonta Colaço,
filha de inglesa, faz o mesmo tipo de empenhos: "O portador da presente chama-se Adriano Esteves. É bom rapaz, honrado, trabalhador, sabe
ler e escrever. Eu gostava tanto de o ajudar a empregar-se!.. No
arsenal como servente, ou ajudante de caldeireiro, - não seria possível?
Elle é noivo da minha cozinheira, que está anciosa por casar-se, e que,
quando a questão do emprego do Adriano Estêves córre mal, nos queima
todos os guizados".
Todos pedem a todos: o marquês do Alegrete, em "huma grande vexação", "a pedirlhe que ou por si ou por algum amigo me empreste dezaseis moedas, as quaes eu satisfaso athe o dia vinte de Janeiro"; o marquês de Alorna, o envio de um italiano especialista em bichos-da-seda , agradecendo
"pelo socorro que me derão para a restauração d"esta fabrica de seda,
que se achava em grande decadéncia, pelo descuido e falta de exacção do
Capitão Mor de Avis, que (...) me deixou sem a semente dos bixos que lhe
entreguei"; o conde de Aurora, que pede a Jorge de Faria "interesse
e amiga camaradagem no caciquismo para o Grand-Prix do S.P. N. (...)
Por acaso sei que o ultimo (...) agradou geralmente. - inclusive ao
Ferro e mulher." Lá ganhou o prémio Eça de Queirós.
Os
pedidos ao intendente são reveladores do seu poder, que era um foco de
atracção para as cunhas e favores, e por todo o lado aparecem cartas
pedindo desde coisas sérias a triviais. Há denúncias várias, outra
constante da vida portuguesa, e perigosas pelo homem a quem eram
dirigidas, como esta do conde de Redondo sobre um caso de violência
doméstica: "A Srª Marqueza de Angeija D. Francisca mandou pedir a V. Srª quisesse mandar prender hum homem chamado Luiz [?] pelo
motivo da má vida que este dava a sua Molher fazendo-lhe as maiores
tiranias que pode aver querendoa matar por muitas vezes e ultimamente
mettendo-lhe em caza huma Amiga com quem trata há muitos annos e ate
querendo que sua Molher andasse inculcando huma filha sua a qual
obrigava a andar em trages de Meretriz." Mas há também a mais
absoluta trivialidade das coisas de todos os dias, como o pedido da
marquesa do Lavradio, em 1789, aborrecida com a demora na Alfândega em
lhe chegar um caixote de tabaco e por isso "pesso a V. Srª me queira
fazer o favor deme mandar entregar esse caixotinho de Tabaco Rape (...)
que eu mandei vir para mim" porque lhe "custa a tomar o Tabaco de cá
(...) Avizo ainda que me faz bem falta porque absolutamente já não tenho
nenhum". O intendente recebe também presentes pelos seus serviços. O duque de Northumberland, em 1792, escreve-lhe oferecendo "hum
barril de Cidra de Inglaterra, que mando no Navio, The Seven do Capitão
Shore. Espero quer seja do gosto de V. Srª e que me fará a honra de
acceitallo como hum sincero sinal da minha amizade."
O
problema não está em observar a predominância destas práticas na
sociedade portuguesa do século XVIII e XIX, mas sim em perceber por que é
que elas mudaram tão pouco, mesmo com o aparecimento de burocracias
modernas e com o fim do antigo regime. Antes da existência de uma
burocracia moderna, supostamente alicerçada no mérito, na carreira, nos
títulos escolares e académicos e na competência profissional, era
natural este mecanismo de troca de favores, entre todos os que acediam
ao poder, que intercediam por si e pelos debaixo de si. Mas é impossível
deixar de encontrar um espelho dos costumes pátrios que continua a
existir, agora sem serem postos no papel e de forma mais sofisticada,
mais cara e... ilegal.
François Hollande é uma encarnação de um mal político que de há muito infecta a política em democracia: a ascensão de políticos medíocres aos mais altos lugares, com uma linguagem burocrática e certinha, meia dúzia de promessas completamente irrealistas e insensatas, e a força dos seus aparelhos partidários. No caso de Hollande jogou também a sorte, porque estava no lugar certo no tempo certo, e encontrou um eleitorado que detestava mais o seu adversário do que a ele, e, para tirar um, votou no outro. Já conhecemos isto por cá, e a rejeição de alguém é uma das forças eleitorais mais poderosas para eleger outrem.
Sarkozy gerou essa rejeição, comportando-se nos últimos anos como um parceiro menor de Merkel, exactamente o papel que os franceses têm na Europa mas nunca podem admitir que têm. Sarkozy exagerou na dose e acabou por ser um espelho de fraquezas que o tradicional peito inchado do Chantecler não podia suportar. No fundo, os franceses acreditam que é devido ao canto sonoro do seu galo emproado, que o sol se levanta. Sarkozy tinha a pose mas ninguém o tomava a sério e o resultado foi o que se viu.
É verdade que a eleição de Hollande é um aviso para a Alemanha de Merkel, claro e inequívoco, e pode mostrar um reforço da esquerda europeia assente na rejeição das políticas de austeridade, mas o que ele vai ou não vai fazer ainda está por se conhecer, tanto mais que Hollande ainda tem legislativas para ganhar, decisivas para moldar o seu mandato presidencial.
A CHANTAGEM POLÍTICA SOBRE OS ELEITORES EUROPEUS
Dito tudo isto, até eu fico “hollandiste” ao ver o modo arrogante e sobranceiro com que um conjunto de políticos europeus ligados à fase “Merkozy”, lhe vieram já dizer que tudo o que está feito é inegociável, a começar pelo célebre Pacto da “regra de ouro”. Que Merkel o faça, está no seu papel, embora o seu papel seja hoje mais perigoso e volátil sem o seu parceiro habitual, mas a corte de pequenos Merkel esquece-se que está a falar não só a Hollande como aos eleitores franceses, e, desrespeitando-os nas suas escolhas, a todos os povos europeus. E isso é inadmissível, que nas democracias os eleitores não possam escolher, mesmo que consideremos absurdas e perigosas as suas escolhas. O mesmo se aplica aos gregos.
O Pacto Orçamental é uma escolha política, que Portugal com o excesso de zelo habitual foi logo assinar prematuramente, juntando-se aos gregos com a corda na garganta, mas não é uma “política única”, nem está acima das escolhas democráticas. Os gregos votaram significativamente numa variante local do Bloco de Esquerda, cujas propostas, tenho pessoalmente poucas dúvidas, são um desastre para a Grécia. Mas em democracia é assim, dentro da lei, quem tem votos para governar pode governar, e a “regra de ouro” pode ser rejeitada pelas escolhas livres de cada povo.
O comportamento de chantagem europeu já é hoje um dos factores da crise grega suscitando o nacionalismo e radicalizando-o. Se, face a Hollande, se põe a dizer que a sua eleição e o seu programa são apenas para ser engolidos pela garganta abaixo na primeira ocasião, com mais ou menos discrição, e que está proibido sequer de fazer alguma coreografia de diferenciação, com medo que isso gere tentações em Espanha, na Itália, na Irlanda, Grécia ou Portugal, e assuste os “mercados”, arriscam-se a ter da próxima vez a senhora Le Pen.
In the highest civilization, the book is still the highest delight. He who has once known its satisfactions is provided with a resource against calamity.