MAS QUE TRETA É ESSA DA “AGENDA PARA O EMPREGO E O CRESCIMENTO””?
Há pessoas que acreditam que basta enunciar uma palavra mágica para mudar a realidade. Pelos vistos é o que António José Seguro acredita porque todos os dias centra a sua actividade política na insistência em que se vote um documento qualquer, vago e inócuo, que tem no seu título as palavrinhas mágicas do “emprego” e do “crescimento”, como se essa mera proclamação de intenções resolvesse magicamente ambos os problemas. O governo, se não fosse autista, já o tinha feito, e depois podia continuar na mesma, porque votar ou não votar aquilo não muda nada.
O PS com este procedimento coloca-se numa situação de elo fraco daquilo que é uma complementaridade com o governo. À muito mais concreta indiferença governamental face ao desemprego, e à sua secundarização intencional da recessão, - atitudes duras, pesadas, consistentes, - o PS acena com um leque de palavras e nada mais. É possível actuar de outra maneira face ao desemprego e à recessão económica, é possível ter outro tipo de escala de prioridades, mesmo no actual contexto de austeridade, porque há muita coisa que o governo faz que está para além do cumprimento do acordo com a troika, mas nada disso será barrado por esta coisa mole e inócua que o PS actual lhe põe à frente. Na realidade, o PS permite tudo de pior ao governo, como o fez em matéria laboral, fazendo finca-pé e exigindo em troca apenas abstracções e vacuidades. Não vai longe.
There was a Young Lady of Portugal, Whose ideas were excessively nautical: She climbed up a tree, To examine the sea, But declared she would never leave Portugal.
Nem
sempre é fácil escrever algumas coisas. O senhor Alexandre Soares dos
Santos é um homem por quem tenho estima e consideração pessoal. Tem
mostrado como um grande empresário pode não só servir o seu país na sua
actividade de "negócios", no sentido preciso do termo, mas também como
compreendia as suas obrigações, em primeiro lugar perante os seus
trabalhadores, coisa que pouca gente faz. Permitiu, com a fundação que
criou, um trabalho excepcional para uma autognose do país. António
Barreto tem materializado uma actividade meritória mostrando como não
chega o "economês" para nos percebermos a nós próprios, e a Fundação
Francisco Manuel dos Santos, com a Pordata, tem sido, nestes anos, a
única produtora de instrumentos fiáveis para o pensamento, mas também
para a acção.
O senhor Alexandre Soares dos Santos falou como
devia, sem papas na língua, contra o Governo Sócrates, e a tragédia que
ele significou para o país. Pagou os custos dessa atitude, muito mais
franca e descomprometida do que o silêncio de muitos poderosos que
andaram na corte a obter vantagens e que, ainda em 2009-10, defendiam
agressivamente o primeiro-ministro de então com a mesma "convicção" com
que o fazem agora para o poder vigente. Mas o senhor Alexandre Soares
dos Santos fez mais: assumiu no início da crise uma vontade pública de
não despedir qualquer trabalhador e de cuidar do seu bem-estar material
em tempos difíceis e cumpriu.
Não partilhei, nem partilho, o
coro de críticas à decisão de transferir a sua sede para a Holanda,
porque, se se espera que o seu grupo económico seja bem gerido, - e ao
ser bem gerido manter-se como criador de riqueza e emprego -, tem que se
aceitar decisões racionais para um grupo económico desta natureza. E ir
para a Holanda, onde, aliás, a maioria das nossas grandes empresas,
incluindo as que têm dinheiro do Estado, estão sediadas, é uma decisão
de boa gestão. Foi muito atacada, porque a gente de Sócrates e os seus
aliados esquerdistas não lhe perdoam a dureza das críticas. Mas eu troco
bem o que se possa perder em impostos com o que se ganha em emprego
mais sólido em Portugal.
Dito isto, o senhor Alexandre Soares dos
Santos, a quem a última responsabilidade de tudo o que acontece com o
Pingo Doce vai dar, e que não a rejeita, cometeu um erro que o lado
"forte" deste Portugal dos nossos dias não pode cometer. E o Pingo Doce
está certamente desse lado "forte" para ter que ter extremo cuidado em
lidar com todos aqueles que estão do outro lado, não do lado da força,
mas da fragilidade.
Procedeu como se no meio de um ajuntamento
qualquer, de "manifestação", seja pelo que for, atirasse um molho de
moedas para mostrar que era fácil levar as pessoas a andar pelo chão a
apanhá-las, quebrando o ajuntamento. As pessoas ficam melhor com o
dinheiro que apanharam, mas sabem muito bem que isso significou andar de
gatas pelo chão e isto humilha-as. O modo como se escolheu o 1.º de
Maio, o mais politizado dos feriados portugueses, também o mais "social"
dos feriados portugueses, o único que está associado a uma simbologia
de luta e de reivindicação dos trabalhadores, para fazer isto tem um
significado que não pode ser ignorado. O modo como as coisas correram
não foi muito diferente de abrir promoções de 50% na carne na
Sexta-feira Santa, o que naturalmente seria visto como uma provocação
desnecessária aos crentes que aceitam as obrigações dietéticas da sua
religião.
Para além desta desnecessária provocação, pode até
haver quem pense, entre os responsáveis pelos descontos de 50%, que se
tratou apenas de um acto altruísta em tempos de crise, mas então não
mediram a amplitude da necessidade que fez a corrida tumultuosa às
prateleiras, ajudando a criar o primeiro "assalto" a mercearias do
pós-25 de Abril, émulos dos que ocorreram nos anos de 1917-9, onde tais
assaltos foram habituais no fim da Grande Guerra.
Os pobres que
correram lá pelos 50% para comprar "géneros de primeira necessidade",
com o parco dinheiro do mês de Abril ainda fresco no início de Maio, não
se escondem, nem têm vergonha, que é um produto que nunca tiveram na
vida, um produto para os ricos que têm espaço nas casas, que não vivem
uns em cima dos outros. Por isso, não têm qualquer problema em exibir as
suas compras e a sua rudeza de "canalha". Vi com atenção muitas
fotografias e filmes do "assalto" aos supermercados e lá estão muitos
deles, os pobres de sempre, cuja roupa, modos e postura são
imediatamente reconhecíveis. Muitas mulheres, barulhentas e
"desavergonhadas", com a falta de compostura que caracteriza sempre as
"classes baixas", e que muito horroriza "os de cima". Os mais
silenciosos entre esses pobres eram negros dos subúrbios e dos bairros
sociais, emigrantes brasileiros, e ciganas, com a sua mole de filhos e
olhar desafiador.
Estes pobres consomem. Isto pelos vistos é uma
surpresa para alguns meninos finos, que acham que ser pobre é viver numa
coluna de estatística e para quem aparecerem aos magotes num
supermercado a comprar fraldas mostra que "afinal" a crise não é assim
tão funda ou então que há subsídios a mais. As televisões, cujos
repórteres estão ali como em Marte, são alheios ao sentido do que se
está a passar, porque também não é essa a sua "condição" social. Faziam
todas as perguntas erradas, fascinados pelos incidentes e pelo tumulto,
pelo bom espectáculo televisivo. Tentavam obter declarações sobre se
"tinha valido a pena" estar três, quatro, cinco, seis horas a arrastar
pilhas de compras sem carrinhos até uma caixa onde esperavam séculos
para pagar, e nem sequer percebiam por que razão algumas pessoas mais
bem vestidas fugiam de dar a cara e se escapavam das câmaras,
cabisbaixas.
Essas pessoas tinham vergonha de exporem a sua
necessidade, porque só se espera seis horas numa compra de supermercado,
quando se precisa do desconto. E também tinham vergonha por estarem
"misturados" com as mulheres do povo, com uma ralé que desprezavam e
ignoravam e de que estão cada vez mais próximas. No dia da corrida ao
Pingo Doce exibiu-se um dos poucos retratos genuínos da chamada "nova
pobreza" que se puderam ver, sem ser através de voluntários assépticos e
estereotipados que querem aparecer na televisão e que se queixam que
tiveram que "cortar" nas férias a Cancún ou passaram a ter só um carro.
O
Portugal dos dias de hoje está como um daqueles cristais muito frágeis
que, só de se tocarem, correm o risco de quebrar. O erro do Pingo Doce
foi dar um abanão desnecessário e inútil nessa fragilidade, feito a
partir de uma posição de força de quem pode escolher, contra a
fragilidade de quem não pode.
Não sei se foi para marcar um
ponto político, ou para mostrar fraquezas que toda a gente sabe que
existem. Porém, enganam-se aqueles que pensam que é o confronto Pingo
Doce-CGTP que fica deste dia, porque não fica, nem verdadeiramente conta
muito, por muito que algumas cabeças simples, de um lado e do outro da
barricada virtual dos blogues e redes sociais, pensem numa espécie de
futebol adolescente de que eles são jogadores e intérpretes. Nem sequer
fica o confronto entre "consumidores" e produtores/trabalhadores, outro
simplismo sem sentido, e nem muito menos os elogios ao "golpe de
marketing". Bem pelo contrário, o que fica deste dia é a imagem do que
aconteceu no interior dos supermercados, a brutal revelação do "estado"
do país e uma directa negação da ideologia da "adaptação" virtuosa e
pacífica à crise, uma variante social do "ajustamento" do ministro
Gaspar. A corrida aos 50% de desconto diz mais sobre o Pingo Doce e
Portugal do que sobre a CGTP ou o 1.º de Maio.
Humilhação é uma
palavra pesada. Num certo sentido, a palavra é mais pesada do que o
próprio sentimento, porque este pode ser escondido, pode ser engolido em
seco, se for secreto. A palavra e a imagem revêem um efeito de
revelação e por isso dá pleno sentido ao sentimento de se ser humilhado.
Reconheço que aqui se entra no terreno do subjectivo, da impressão, e
que nem toda a gente vê o mesmo nos idos destes anos tristes. Mas penso
não estar enganado, ao pensar que o que vai ficar é um reforço de um
mal-estar difuso e perigoso que anda por aí. Os 50% do Pingo Doce ajudam
à instabilidade, porque é mais fácil incendiar o conflito social pela
humilhação do que pela austeridade de per se. O senhor Alexandre Soares dos Santos merece a consideração de isto lhe ser dito sem ambiguidades.
(Versão do Público de 5 de Maio de 2012.)
NOTA: este artigo e a intervenção em termos semelhantes que fiz na Quadratura do Círculo (na SICN), provocaram um surto de correio, quer electrónico, quer por carta, muito considerável. A esmagadora maioria das cartas e mensagens foram escritas num tom pessoal e emotivo, nalguns casos com os seus autores a falarem longamente sobre o seu testemunho pessoal dos tempos duros que estão a passar. Em todas as missivas existe um forte sentimento de abandono e solidão, de revolta pela deserção de muitos, - políticos, poderes públicos, intelectuais, comunicação social, - face à sua sorte e destino. Sentem-se do lado errado das ideias e mitos dominantes, sentem-se culpabilizados sem razão, sentem-se "apanhados" por uma reviravolta da vida com que não contaram e que têm a certeza de não merecer.
Este "assunto" tocou uma corda sensível em muita gente e a todos, na impossibilidade de responder a cada um, lhes agradeço o interesse e apoio, as palavras intensas que escreveram.
Farewell, and when forth I through the Golden Gates to Golden Isles Steer without smiling, through the sea of smiles, Isle upon isle, in the seas of the south, Isle upon island, sea upon sea, Why should I sail, why should the breeze? I have been young, and I have counted friends. A hopeless sail I spread, too late, too late. Why should I from isle to isle Sail, a hopeless sailor?