| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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31.3.12
NESTES DIAS
E HOJE
(em directo)
SUÉCIA – SYNDIKALISTISKA UNGDOMFÖRBUNDET (SUF)
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Comecemos pela imagem, toda ela um equívoco. Como não há nenhuma fotografia genuína de uma manifestação “contra os direitos adquiridos”, a imagem é tirada de uma manifestação da CGTP, com um contingente de jovens, incluindo umas jovens mães com crianças, integrados nos manifestantes da função pública. Alguém explique à JSD que a bandeirola no carrinho de bebé que diz FP, não é a marca do carrinho, é o símbolo dos sindicatos e da Federação da função pública. E os funcionários públicos que se manifestam estão certamente a fazê-lo pelos seus “direitos adquiridos”. O grafismo é copiado do Bloco de Esquerda, incluindo o megafone, embora a JSD, desde que participou na manifestação dos “indignados”, ainda na era Sócrates, que se saiba, não fez nenhum uso ao megafone. Nem sequer há aqui qualquer humor negro: percebe-se que é a juventude dos manifestantes que serviu para “pintar” a falsa faixa que diz “Estamos em Luta! Contra os Direitos Adquiridos”, a principal mensagem da imagem.
(Continua.)
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COISAS DA SÁBADO:
PAI, VAI PARA O DESEMPREGO, PARA EU, TEU FILHO, PODER TER EMPREGO
Quando me chamaram a atenção para esta imagem pensei que fosse uma montagem ou uma falsificação. Tudo me parecia absurdo e por muito que a JSD queira cultivar uma imagem de irreverência como factor de identidade (se a realidade corresponde à imagem é outra coisa), nunca pensei que fosse verdadeira. Depois de a ver reproduzida um pouco por todo o lado na Internet, acabei por confirmar a sua veracidade como ilustração da capa da Moção L intitulada “sustentabilidade das futuras gerações”, de autoria da JSD, apresentada ao Congresso do PSD. Passada a dúvida quanto à veracidade, ficou o espanto quanto ao conteúdo e significado da dita imagem, a enorme confusão ideológica e política que ela representa e a certeza da incompatibilidade profunda com qualquer coisa que tenha a ver com o sentido da acção política de um partido que se intitula de “social-democrata”. Escrevi “espanto”, mas é uma figura de retórica, porque na verdade já nada me espanta.
(Continua.)
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2182 - To Memory
Strange Power, I know not what thou art,
Murderer or mistress of my heart. I know I'd rather meet the blow Of my most unrelenting foe Than live---as now I live---to be Slain twenty times a day by thee. Yet, when I would command thee hence, Thou mockest at the vain pretence, Murmuring in mine ear a song Once loved, alas! forgotten long; And on my brow I feel a kiss That I would rather die than miss.
(Mary Elizabeth Coleridge)
(url) 29.3.12
(url) 28.3.12
2181 - In the Library
for Octavio
There's a book called
"A Dictionary of Angels."
No one has opened it in fifty years,
I know, because when I did,
The covers creaked, the pages
Crumbled. There I discovered
The angels were once as plentiful
As species of flies.
The sky at dusk
Used to be thick with them.
You had to wave both arms
Just to keep them away.
Now the sun is shining
Through the tall windows.
The library is a quiet place.
Angels and gods huddled
In dark unopened books.
The great secret lies
On some shelf Miss Jones
Passes every day on her rounds.
She's very tall, so she keeps
Her head tipped as if listening.
The books are whispering.
I hear nothing, but she does.
(Charles Simic)
(url) 26.3.12
ESTÁ O ESTADO A TORNAR-SE MAIS FORTE OU MAIS FRACO?
Como uma grande quantidade de portugueses, recebi a carta das Finanças
exigindo-me que "efectue a activação da caixa postal electrónica no
serviço Via CTT". Isto foi corrigido para a ortografia portuguesa
em vigor, porque o que lá vinha era "ativação", "efetue" e
"eletrónica", tudo erros de ortografia. O Estado não respeita sequer a
lei, visto que o Acordo Ortográfico não está em vigor. Depois explica-me
que a "activação" é "obrigatória" e que se não o fizer até 30 de Março
terei uma multa.
A carta é típica do burocratês associado a um claro
laivo autoritário que todas as comunicações das Finanças têm. Para as
Finanças não há cidadãos, mas potenciais fugitivos dos impostos e
fala-lhes sempre num tom inadmissível num Estado democrático, para quem
não cometeu nenhum crime, e não passou nem a servo, nem a súbdito.
Informa-me a extensa carta de determinados procedimentos, de um modo
geral complicados para o comum dos mortais, impõe-me um prazo curto e,
de uma ponta à outra, está cheia de ameaças que se percebe serem
expeditas e sem contradita. Caso se pretenda contestar, paga-se primeiro
e depois entra-se numa via-sacra, cara e demorada, que o comum dos
cidadãos não tem conhecimentos, nem saber, nem dinheiro para percorrer.
A ironia da história é que esta "obrigação" vem tentar ressuscitar um dos grandes falhanços, com correspondente prejuízo dos dinheiros públicos, do Governo Sócrates no seu início: criar um endereço electrónico para todos os portugueses, a Via CTT. A dita Via, na qual foi investido dinheiro, publicidade, máquinas colocadas nas estações dos CTT, tudo inaugurado pelo primeiro-ministro de então, que exibiu ao país o seu novo endereço electrónico, falhou redondamente. Apenas um escasso número de pessoas aderiu ao novo serviço, os relatos testemunhais sobre o serviço mostram a sua péssima qualidade e o mau atendimento nas estações dos CTT. As reclamações eram respondidas com sobranceria pelo então gestor socialista dos CTT, depois as máquinas avariaram e foram retiradas, e a Via CTT passou ao esquecimento. O Governo Passos Coelho veio retirá-la do lixo, para a tornar obrigatória na relação com as Finanças. Para muitas pessoas isso vai aumentar a sua dependência de ajudas - há gente que não tem computador, nem acesso à Internet, nem literacias para o usar, nem estação do correio próxima da sua localidade, nem junta de freguesia que faça o apoio, etc., etc. - e para outras, os que se movem à vontade no computador e na Internet, vai aumentar a complicação, obrigando a um endereço electrónico complementar, a uma nova caixa de correio suplementar a ver ou a agregar, tudo obviamente inútil porque bastava que houvesse a obrigação de ter um endereço de e-mail declarado às Finanças e nada mais. Mas o Estado obriga à força a complicar a vida às pessoas, e há multas no dobrar da esquina. Este é um exemplo menor num mundo maior, o das Finanças, onde o autoritarismo do Estado e o chicote antecedem a informação e a normal relação entre a administração pública e os cidadãos. Veio do Governo Sócrates, que usou politicamente o fisco e a ASAE, para criar uma imagem de autoridade e determinação e, quando lhe convinha, metia a autoridade no bolso para dar ares de amigo do povo, como aconteceu com a ASAE. Mas não sofreu qualquer recuo, bem pelo contrário, com o actual Governo. Ora, uma das narrativas usadas na actual legitimação do poder é a de que se está a emagrecer o Estado, a remeter o Estado para as suas funções essenciais - que no discurso liberal clássico eram as funções de soberania, relações internacionais, defesa e segurança, mas agora não se sabe quais são, não sendo nenhuma destas de certeza. Um pseudodiscurso liberal circula como elemento legitimador, acentuando aquilo a que os anglo-saxónicos chamam o empowerment das pessoas e da sociedade. Ora, com excepção do real empowerment de certos sectores económicos e da elite que circula entre a política, os grupos económicos, as fundações, os bancos, as "comissões de acompanhamento", etc., uma coisa é certa: empowerment dos cidadãos é que não há. Para os que pensam que isto é marxismo, talvez uma ou duas prateleiras de estante de autores liberais, e várias estantes de autores "burgueses", lhes expliquem alguma coisa sobre os malefícios de pensar a preto e branco sobre o poder social, as classes sociais, as elites, a exclusão e as oligarquias. É por tudo isto que já há algum tempo escrevo sobre o risco real de sairmos deste processo com um Estado mais forte, mais poderoso, mais intrusivo, mais autoritário. Como no discurso pseudoliberal só se considera o liberalismo económico, confundindo-o com a pulsão liberal, que vê a liberdade nas sociedades como muito mais do que a retirada do estado da economia, ainda por cima feita mais por necessidade do que escolha, percebe-se pouco o que se está a passar. Percebe-se pouco que o que se está a passar é mais uma redistribuição do poder, do que uma libertação da sociedade,
O
Estado está mais pobre, deixou de ter dinheiro para muito que fazia?
Verdade, mas isso não significa que esteja mais fraco, significa apenas
que tem menos dinheiro. Está o Estado-providência a encolher, com uma
progressiva retirada do Estado de muitas funções sociais? Verdade, mas a
substituição de um Estado-Providência por um estado assistencialista
não diminui o seu papel "providencial", apenas muda a concepção do seu
lugar e função, substituindo-se um mundo regulado de direitos colectivos (e de
expectativas) por um mundo mais pontual de protecção individualizada aos
pobres. Está o Estado a recuar de algumas das suas prerrogativas de
decisão em matéria de economia, de sociedade, de vida das pessoas? Não
está. Bem pelo contrário. Continua a ser impossível fazer um grande
negócio em Portugal, sem o beneplácito do Governo, e, a um nível mais
localizado, sem o apoio da autarquia, processos como as privatizações
continuam a ser feitos de forma discricionária, ao mesmo tempo que a
regulação não existe ou está subordinada aos interesses dos sectores
regulados. Mudou-se significativamente a subsidiodependência, em áreas
como a cultura? Não, apenas não há dinheiro para manter os subsídios e
mesmo assim não todos. Como acontece em muitas áreas, a falta de
dinheiro impede a manutenção dos velhos hábitos de "encosto" ao Estado,
principalmente para os pequeno e médio-subsidiados, mas o princípio não
foi alterado. Quando tornar a haver dinheiro, ele correrá pelas mesmas
valas para os mesmos campos. O Acordo Ortográfico, um exemplo que devia
envergonhar todos os liberais genuínos, tem sido travado? Bem pelo
contrário, este Governo continua a implementá-lo na fase crítica da sua
imposição às escolas. O Estado acabou com abusos de vencimentos e
desigualdades escandalosas nos salários e prebendas que paga? Não,
passou a haver "excepções" para regras cada vez menos gerais e isso
ainda reforça mais o poder de quem decide.
Os exemplos são muitos e a
continuidade com o Governo anterior uma regra, embora a crise acentue a
fragilização do cidadão face ao Estado e essa seja uma diferença
importante. Não é o Estado que está mais fraco, é o cidadão que está mais débil. O navio-almirante continua a ser as Finanças, cujo poder vai
muito para além da lei (para os remediados e pobres), seguido, pela
discricionariedade nas decisões económicas, associado a um processo
geral de concentração do poder num momento de grande fragilização
institucional. Com excepção meritória do Tribunal de Contas, a justiça
está descredibilizada e actua de modo pontual e caótico, ou seja,
injusto. O Tribunal Constitucional tornou-se numa letra morta,
permitindo, em nome das costas largas da "emergência nacional", a
subversão da sua função. O Parlamento, dominado pela sua lógica habitual
situação/oposição, desprestigiado e acossado, não tem papel na
expressão das preocupações populares. Os sindicatos ou estão domados ou
enfraquecidos, e a sociedade civil, atingida pela crise do seu sector
mais activo em termos de opinião pública, a classe média, não tem vigor
nem voz que se faça ouvir. A comunicação social ou funciona como espelho
mimético do poder, ou, atravessada pela situação de crise, apenas
sobrevive.
É verdade que o Estado faz muita coisa porque o deixam fazer, quer porque os cidadãos não têm poder, nem capacidade financeira, para se opor ao que pensam ser injustiças, quer porque concordam com medidas intrusivas da sua liberdade e privacidade, principalmente no caso da segurança. Operações-stop com buscas, câmaras de videovigilância, formulários estatais ou consentidos aos bancos e instituições de crédito com devassa da privacidade, muito para além do aceitável e muitas vezes cláusulas abusivas, tornaram-se "habituais". O abuso de posição dominante tornou-se uma regra na economia, na sociedade, no Estado, em nome da crise e da "emergência". Não, caros amigos liberais, daqui não vai sair um Estado esbelto e essencial, acompanhado por uma sociedade vigorosa e dinâmica. Vai continuar um Estado torto, excessivo e injusto, mas mais prepotente e autoritário.
Eu não queria vir com o argumento da
história, mas não surpreende quem a conheça, porque os partidos são elementos
endógenos do poder estatal e a partidocracia não mudou, reforçou-se. Tem
sido sempre assim, o que nasce torto dificilmente se endireita.
(Versão do Público, 24 de Março de 2012.)
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2180 - The Soul Selects Her Own Society
The soul selects her own society, Then shuts the door; On her divine majority Obtrude no more. Unmoved, she notes the chariot's pausing At her low gate; Unmoved, an emperor is kneeling Upon her mat. I've known her from an ample nation Choose one; Then close the valves of her attention Like stone. (Emily Dickinson) (url) 25.3.12
NESTES DIAS
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2179 - The Bad Old Days
The summer of nineteen eighteen
I read The Jungle and The
Research Magnificent. That fall
My father died and my aunt
Took me to Chicago to live.
The first thing I did was to take
A streetcar to the stockyards.
In the winter afternoon,
Gritty and fetid, I walked
Through the filthy snow, through the
Squalid streets, looking shyly
Into the people’s faces,
Those who were home in the daytime.
Debauched and exhausted faces,
Starved and looted brains, faces
Like the faces in the senile
And insane wards of charity
Hospitals. Predatory
Faces of little children.
Then as the soiled twilight darkened,
Under the green gas lamps, and the
Sputtering purple arc lamps,
The faces of the men coming
Home from work, some still alive with
The last pulse of hope or courage,
Some sly and bitter, some smart and
Silly, most of them already
Broken and empty, no life,
Only blinding tiredness, worse
Than any tired animal.
The sour smells of a thousand
Suppers of fried potatoes and
Fried cabbage bled into the street.
I was giddy and sick, and out
Of my misery I felt rising
A terrible anger and out
Of the anger, an absolute vow.
Today the evil is clean
And prosperous, but it is
Everywhere, you don’t have to
Take a streetcar to find it,
And it is the same evil.
And the misery, and the
Anger, and the vow are the same.
(Kenneth Rexroth)
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COISAS DA SÁBADO:
JÁ NÃO BASTA PAGAR A RTP, AINDA POR CIMA TEMOS QUE PAGAR A EURONEWS
A Euronews está para as instituições europeias, Comissão, Parlamento e Conselho, como a RTP África está para a política externa portuguesa: nem num caso nem noutro se trata de verdadeiros órgãos de comunicação, mas sim de veículos transmissores de políticas de estado, seja o nacional, seja o de Bruxelas.
Quando estive no Parlamento Europeu manifestei-me com dureza contra a existência e a cobertura tendenciosa da Euronews, uma estação televisiva cuja ideologia é o “europeísmo” militante, e cujo patrão é a Comissão Europeia. Foi criada numa altura em que os franceses queriam atacar a política americana e aquilo que consideravam a hegemonia da CNN no mercado global da informação. A sua origem foi resultado de uma decisão política, o seu programa é político e a sua “justificação” é a mesma de muitos outros “serviços públicos”, uma ideologia da superioridade da racionalidade do estado na comunicação, acima dos interesses privados.
É por isso que a Euronews com o seu “espírito europeu” nenhum papel tem no debate europeu, porque está de um lado e o seu reporting, débil aliás, está cheio de silêncios e censuras. Do mesmo modo que defendo o fim da comunicação social do estado, também defendo o fim da participação portuguesa na Euronews, e, em bom rigor, o fim da Euronews. Estados, nacionais e proto-estados transnacionais, não devem ter órgãos de comunicação social. Ponto.
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© José Pacheco Pereira
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