Se tivessem feito aquilo que hoje parece ser anti-“gastador” continuavam a viver em casa dos pais, tinham amealhado uns escassos milhares de euros, e hoje estariam na mesma, já sem as poupanças, sem a casa e na mesma com um duro corte nos rendimentos e sem emprego. Ah! dizem os nossos propagandistas, aqui está aprova de que “viviam acima das suas posses”, e agora estão voltam pela “moralização” que o governo está a fazer ao estado natural dos seus rendimentos, ou seja vão a caminho de serem pobres. Talvez valha a pena lembrar que uma decisão racional tomada nos anos oitenta ou noventa, era tomada por aquilo que era o “mundo” na altura e presumo que o determinismo histórico não chega ao ponto de considerar que os “produtos tóxicos” fossem uma inevitabilidade da história. Havia sinais de risco, mas cabia em primeiro lugar aos decisores interpretá-los e tomar cautelas. Esses sim decidiam “acima das suas posses”.
Ah! dizem os nossos gurus do empreendorismo, deviam ter ido para o “privado”, talvez fazer uma pequena empresa, e se o tivessem feito, o mais provável seria estarem na mesma situação ou pior e muito mais endividados. Ah! Diriam os mesmos gurus, mas teria que ser no sector exportador, ou apostando na “inovação”, depois de um profundo estudo do mercado. Sim, sim, nem uma em mil sobreviveu, e as reportagens televisivas de há anos estão cheias de empresas muito “inovadoras”, apontadas como exemplo e já mortas e enterradas. Isto é o mesmo que dizer às pessoas comuns que devem ser absolutamente brilhantes para serem a excepção à regra. Não é uma injunção democrática, nem meritocrática, é uma patetice social. Não era e não é uma decisão racional. Nem cá, nem nos EUA.
"Ma poi mi rendo conto che il problema della Stupidità ha la stessa valenza metafisica del problema del Male, anzi di più: perché si può persino pensare (gnosticamente) che il male si annidi come possibilità rimossa del seno stesso della Divinità; ma la Divinità non può ospitare e concepire la Stupidità, e pertanto la sola presenza degli stupidi nel Cosmo potrebbe testimoniare della Morte di Dio."
“Vivemos acima das nossas posses” é a frase que melhor explica a legitimação da “guerra social” dos dias de hoje. A questão está toda em saber quem é o sujeito desta frase: quem é que viveu acima das suas posses? Na sua forma propagandística a melhor resposta é que fomos todos. É desculpabilizante e funciona como legitimação aparentemente sem destinatário, Todos “viveram acima das suas posses”, estado, famílias, empresas, pessoas. No discurso oficial muitas vezes as empresas não estão incluídas, o que não é um esquecimento, é uma relutância, uma incomodidade.
Se “todos” nos endividamos, mesmo aqueles que nunca se endividaram, o jovem casal que adquiriu uma casa com crédito bancário relativamente fácil e barato, está no mesmo oceano de culpa que o engenheiro Sócrates. Não adianta lembrar que o casal que o fez, - por exemplo um tipo casal da “classe média baixa” (estas tipologias horrorosas…), um funcionário público e uma professora em Pombal ou Faro,- tinham rendimentos suficientes para suportar o esforço do empréstimo, e queriam começar a construir uma vida própria fora da tutela dos pais. Não tinham a opção do arrendamento desde as medidas populistas e demagógicas que vinham de Salazar e que destruíram o mercado do arrendamento e, pelo caminho, grande parte da renovação urbana de Lisboa e Porto. E achavam que os seus salários estavam garantidos, eram ambos funcionários públicos, e podiam eventualmente subir com a progressão nas carreiras. Entendiam que havia um contrato com o estado, que ninguém imaginava podia ser quebrado.
CARACTERIZAÇÃO DO IN
Todas estas atitudes são hoje violentamente vilipendiadas. Ambos estão do lado do IN, como se diz no vocabulário militar, ambos cometeram o crime de fazer parte do funcionalismo público, e de acharem que tinham aquilo, que hoje se refere com desprezo, como “direitos adquiridos”. São apontados a dedo como fazendo parte das “gorduras” do estado, preguiçosos institucionalizados, vivendo à custa do contribuinte, que se deviam sentir contentes por terem o “emprego garantido”. Entretanto, ele perdeu já cerca de 30% do rendimento e ainda vai perder mais, e ela já está desempregada, a casa está em risco de ter que ser devolvida ao banco e a família de procurar o estatuto de insolvente.
Como já disse e repito, as decisões deste casal-tipo eram decisões racionais, que não tinham nada de “gastadoras”. Mas é a essas pessoas que se dirige o “nós” colectivo do “vivemos acima das nossas posses”. Diferentemente do engenheiro Sócrates, eles não sabiam, nem tinham que saber, como estavam as finanças do estado, nem se milhões estavam a ser delapidados já quando as trombetas da crise se faziam ouvir. Se quisermos, a sua única responsabilidade foi ter votado nele. E não é pequena.
As multidões em 1914 batiam palmas aos soldados que partiam para a frente e as inscrições nos comboios que os levavam aos campos de matança da Flandres eram entusiásticas e optimistas. Acabou, como acabou, milhões de mortos depois e, na verdade, só acabou em 1945, e em 1945, só acabou em 1989. Berlim estava longe e Paris também.
Hoje, as guerras travam-se em surdina, sem declaração de guerra, tornada um anacronismo, e regra geral, só duram o que a comunicação social quer que durem. Terminam em impasses, em meias vitórias e tudo permanece na mesma. No Médio Oriente, em Israel, no Iraque, no Afeganistão. Só quando as guerras são civis, como na Líbia e na Síria é que talvez haja fim, até à próxima.
Nos nossos dias, de crise, as guerras são “sociais”, ou seja, também civis e têm igualmente o seu grito de guerra. Na que estamos a atravessar, o inimigo é o “Estado gordo”, e os representantes terrestres desse estado são os funcionários públicos, os serviços públicos, a “mão-de-obra rígida”, os “direitos adquiridos”, e todos aqueles que “vivem acima das suas posses”. Esta última frase é a mais significativa, porque o modo como a entendemos define os lados desta guerra.
Isto está confuso. À data em que escrevo, os temas de “actualidade” nacional são dominados pela saga do Ministro da Economia versus o Ministro das Finanças. Não me interessa particularmente, é um conflito secundário, resultante da hegemonia nestes tempos das finanças sobre a economia. A interpretação extremista do memorando da troika, o tal de que se dizia ter virtualidades para permitir o desenvolvimento económico, conduz a essa prioridade e o Ministro das Finanças é o seu fiel depositário.
Depois, numa pequena parte, é também o resultado dos megaministérios ingovernáveis que resultaram da demagogia populista dos primeiros dias de governo. Outro tema recorrente são as faltas, de medicamentos, de pessoal, de pagamentos a horas, de dinheiro por todo o lado. A concentração dos problemas com o fornecimento de medicamentos ou de compressas para as operações por falta de pagamento, mostram a dimensão dos problemas na área da saúde. Também não surpreende, era tudo tão previsível.
O nosso quotidiano não tem nenhum mistério e vai continuar assim por muito tempo. Vivemos os “tempos interessantes” da maldição e descobrimos todos os dias que eles não têm interesse nenhum. A história torná-los-á interessantes, só que nessa altura já estamos todos mortos. Mas se olharmos mais fino, no interstício destes dias luminosos, está um nuvem espessa, aquilo que os militares chamam o “nevoeiro da guerra”. Sim, porque o que torna estes dias “interessantes” como na maldição, é que está uma guerra em curso, subterrânea, larvar, caótica, que ainda não explodiu à superfície, mas que afecta milhões de pessoas na sua vida.
Numa
suprema ironia e crueldade, o Estado chinês faz as famílias dos
condenados à morte pagar a bala da sua execução. Portugal comprou esta
semana a bala da sua execução, com alguma pompa, circunstância e uma
gigantesca cegueira e subserviência aos poderosos da Europa. Refiro-me à
assinatura do texto do novo "tratado" cisionista da UE, que deixa de
fora o Reino Unido e a República Checa. A assinatura por si só não
significa a ratificação do tratado, que tem que ir aos Governos, aos
Parlamentos nacionais, passar nos tribunais constitucionais onde é caso
disso, e, no caso irlandês, a referendo. Mas conhecendo os nossos
costumes, para Portugal, é como se já fosse de pedra e cal, perante a
subserviência de Governo, do PSD e do PS, a complacência presidencial, o
olhar para o lado do Tribunal Constitucional, e a abulia da opinião
pública. Mais uma vez, fomos colocados sob o signo da nova lei da
inevitabilidade, para aprovar a "regra de ouro", de que é feita a bala
que, destruindo tecido, osso e massa encefálica, deu a outros o
instrumento para a nossa execução.
Essa execução pode assumir
três formas, todas mortíferas para muitos e bons anos: uma, a de o novo
tratado, assinado de cruz, ser o instrumento para nos obrigar a sair do
euro; outra, a de servir para nos expulsar como incumpridores da UE e,
por último, a de nos condenar a uma longa recessão e estagnação na cauda
da Europa. O que assinamos de cruz é o instrumento que vai dar
legalidade e legitimidade à nossa marginalização, submissão, dependência
e mediocridade. Por uma razão, que entra pelos olhos dentro de todos,
mas que ninguém verdadeiramente discute tão mergulhados num curto prazo
acéfalo como estamos: é que as regras que assinamos são impossíveis de
cumprir por Portugal e, por isso, aconchegamos bem de mais a cabeça à
pistola do executor, com a bala que compramos. O chamado, em
perfeito burocratês, Tratado Sobre a Estabilidade, Coordenação e
Governação na União Económica e Monetária impõe como obrigação,
desejavelmente vertida nas constituições nacionais, um limite de 0,5% de
défice estrutural e uma dívida pública que não pode ultrapassar os 60%
do PIB. No primeiro caso, estamos a falar da diferença entre as receitas
e as despesas públicas, não comportando expedientes como as receitas
extraordinárias. Praticamente todos os países da Europa estiveram longe
destes objectivos na última década e Portugal ainda mais. Embora o nosso
ministro das Finanças (e o FMI) considere que em matéria de défice
estrutural Portugal vá estar próximo da Alemanha e da Finlândia entre
2012 e 2016, exactamente porque Portugal não é a Alemanha e a Finlândia é
que o outro objectivo, a redução da dívida, neste momento de 110% do
PIB, para quase metade é uma absoluta impossibilidade. A dívida subiu,
aliás, em 2011, já em pleno programa do memorando da troika. As
duas coisas juntas, défice e dívida, são, para Portugal, do domínio do
milagre. E na Europa, serão também do domínio do milagre para vários
países signatários do tratado. Por isso, ou se aplica e será uma
contínua guerra na Europa, ou não se aplica e será mais um passo na
descredibilização da UE. Já sabemos que o seu pretendido efeito nos
mercados tem sido nulo. Tenho poucas dúvidas de que os membros
do Governo conhecedores destas matérias, em particular o ministro das
Finanças, sabem bem como em teoria se pode chegar aos números exigidos
pelos tratados. Há receitas by the book que os bons técnicos conhecem, mas duvido que percebam por que razão os países não podem ser governados by the book. Duvido que saibam o que é o "ruído" de que sociólogos como Weber teorizaram. É que se os países fossem governados by the book,
seria fácil governá-los e nada falhava. É aliás esse o mito
tecnocrático, o de que o saber puro, uma espécie de matemática de
soluções interligadas, de modelos, quando aplicadas com rigor, dão os
resultados pretendidos. Esta é, aliás, uma ilusão muito típica dos
economistas que, como agora estamos no tempo deles, arrastam atrás de si
a admiração embasbacada dos comuns mortais. Talvez valha a pena
lembrar que a maioria dos modelos que foram aplicados à economia
mundial e nacional falhou estrondosamente e que na génese de muitos
problemas actuais está uma coligação muito próxima de economistas e
políticos, ambos unidos por essa redução da política ao "economês". Hoje
liga-se uma televisão e comentador atrás de comentador, personalidade
atrás de personalidade repete o seu "economês", dizendo exactamente as
mesmas coisas num solilóquio que bem merece a classificação de
"pensamento único". O pequeno e imenso problema é o "ruído" do
mundo. As acções humanas, sejam na economia, na sociedade, na cultura,
na política, estão cheias de "ruído", que gera um enorme fosso entre as
intenções proclamadas e os resultados obtidos. Quase que se pode dizer
que a regra é os resultados serem muito diferentes das intenções. É a
regra que Weber lembrava aos políticos de que a maioria das suas acções
tem resultados exactamente opostos ao pretendido. Aplica-se também aos
economistas a fazer política. No caso português, o mesmo se
passa, embora os governantes sejam os últimos a sabê-lo. Assiste-se no
actual Governo a uma mescla interessante de um discurso tecnocrático,
que ninguém melhor do que o ministro das Finanças desenvolve, mas que
também impregna o primeiro-ministro, e um discurso messiânico e
profético, com laivos de um certo revolucionarismo voluntarista, em que
os propagandistas e legitimadores do actual poder participam. Ora isto é
uma excelente demonstração do efeito do "ruído" porque estes discursos,
combinados um com o outro, autodestroem-se a prazo. O ministro das
Finanças diz-nos que se fizermos isto e isto e isto, conseguiremos
cumprir o "ajustamento" pretendido e desse "ajustamento" resultará a
prazo um boom de crescimento económico do país. Ele actua
conforme uma vulgata económica, conhecida e, em si, tão legítima como
qualquer outra, de que ele possui a utensilagem técnica. Ele não é
keynesiano nem krugmaniano, e por isso pensa, fala e actua assim. Por
outro lado, a legitimação política do Governo necessita de preencher
este esqueleto com uma qualquer carne política e diz-nos que depois de o
país ter sido colocado nos eixos do défice e da dívida, acordará um dia
renovado, "magro", quando não atlético, mais rico e melhor. O boom é para o ministro das Finanças o resultado de uma equação dentro de um modelo; o boom para os políticos da situação é uma regeneração moral feita pela pobreza.
Não estão a falar do mesmo, mesmo quando parece. O ministro das
Finanças está a falar das finanças e, em menor grau, da economia; os
políticos do Governo estão a falar do estado, da sociedade e das
pessoas. Os segundos serão o "ruído" do primeiro, porque estão a dar uma
cobertura utópica, moralista e messiânica aos modelos das finanças, o
que o ministro sabe muito bem que é perigoso. Ele não quer saber de
atavios políticos, mas do cumprimento linear do rigor orçamental. A
última coisa que pretende é separar os "preguiçosos" dos "competitivos"
como estandarte moralista, ou fazer um Portugal "melhor", porque sabe
que esse caminho é perigoso para a eficácia. Os propagandistas do actual
poder, pelo contrário, têm-se em tão alta noção de si próprios que
acham que estão a "mudar Portugal", a "fazer um país diferente", um
típico revolucionarismo messiânico, em versão chã. O ministro
das Finanças acredita na eficácia do tratado e quer cumpri-lo, os
propagandistas do Governo vêem-no como um instrumento para uma
contra-revolução social, que crie o mundo simples que eles acham ser bom
para as "empresas", para os "jovens competitivos e descomplexados" e
para o "futuro", que é, no fundo, o que eles acham que são. O resto se
verá a seu tempo, porque mais do que tudo precisam de comprar tempo,
mesmo assinando de cruz uma sentença de morte a prazo. Cada um tem a sua
ilusão, cada um despreza o seu "ruído", ambos serão o "ruído" uns dos
outros.
(Versão do Público de 3 de Março de 2012.)
*
Apesar de ler com regularidade o seu bloigue não costumo
normalmente fazer comentários, mas achei piada à referência sobre o
"ruído" que afecta a implementação dos planos.
Eu conhecia um outro conceito, criado também por um alemão (ou
mais correctamente prussiano) chamado von Clausewitz, chamado "fricção" -
é uma analogia mecânica, produto do século em que o Sr Von Clausewitz
viveu. Como decerto reconhecerá von Clausewitz foi um dos grandes
estrategas do exército alemão (prussiano!) após as guerras napoleónicas e
no seu tratado seminal "Sobre a Guerra" ele explica a influência que a
"fricção" tem nos melhores planos desenhados pelos generais, em que os
resultados diferem das intenções...
Não sei se Weber, sendo posterior, conhecia "Sobre a Guerra" e pegou nestas mesmas ideias mas não deixa de ser curioso.
Um livro recente sobre isto, fácil de ler, caso esteja interessado,
é: The Art of Action - How Leaders Close the Gaps Between Plans,
Actions and Results
7. NO FINAL DO “AJUSTAMENTO” PORTUGAL VAI SER MUITO DIFERENTE E MELHOR – Esta interessante variação messiânica mostra mais a alta conta que os governantes têm de si próprios, e a sua crença numa forma peculiar de revolucionarismo pela pobreza, mas duvido que se “saia” tão cedo. E duvido que se “saia” assim tão diferente, e acima de tudo que se “saia” melhor. As excepções só confirmam a regra
6. “PORTUGAL TEM QUE MUDAR DE PARADIGMA” – Esta frase nos dias de hoje é para mim um mistério, embora eu perceba o que os que a afirmam querem dizer: que o saneamento das finanças públicas, o pagamento da dívida, as obrigações do “pacto orçamental” mudam a nossa economia e a nossa sociedade. Mudar mudam, mas é noutro sentido. Vamos competir ou porque saímos do euro, ou porque temos salários baixos e dumping social. Assim, sim. As excepções só confirmam a regra
ÍNDICE DO SITUACIONISMO (146): "COMPARAÇÕES" CRIATIVAS
A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.
Aliás, na sequência do Índice anterior, o Diário de Notícias tem outra "notícia" que revela um zelo interessante para com Passos Coelho: o acrescento à notícia da sua reeleição com 95,5% dos votos de uma "comparação" enganadora que não vi os outros jornais fazerem (caso esteja enganado peço que me corrijam). Nessa "comparação" refere-se o número absoluto de votos em Passos Coelho e compara-se com outros líderes eleitos, esquecendo este pequeno pormenor de que todos concorreram em eleições disputadas com outros candidatos, pelo que o número de votantes global era muito superior. De facto, a comparação que seria interessante era saber quantos militantes votaram no universo dos que tinham essa capacidade. Dou de barato que uma lista única, ainda por cima no actual contexto, pode explicar alguma desmobilização e não retira os méritos eleitorais da candidatura e do candidato, mas se a abstenção foi muito grande, isso tem relevo analítico e para o jornalismo, porque o "estado" do PSD como partido do poder é de interesse público. Saliente-se que aqui o Diário de Notícias foi acompanhado por outros jornais que também mostraram indiferença perante esse indicador. Mas nenhum, que eu saiba, fez esta "comparação" que, como todas as manipulações, serve para esconder alguma coisa, neste caso a eventual baixa participação eleitoral. E duvido, podendo estar enganado, que Calvão da Silva tenha feito tal "comparação" ao anunciar os resultados.
NOTA: existem na Rede algumas notícias, nalguns casos com números concretos, com origem em participantes no processo eleitoral, que mereceriam a atenção dos jornalistas, em particular daqueles que tão activos são em blogues. Não estou a dizer que as aceitassem sem contraditório e investigação, mas talvez ajudassem os leitores a compreender, mais do que o apoio a Passos Coelho, o estado de saúde do partido. Vejam-se estas considerações de um dos eleitos de ontem para delegado ao Congresso e apoiante de Passos Coelho, no seu blogue:
No entanto, esta vitória foi obtida com uma participação relativamente
baixa dos militantes. Votaram menos de 20.000 militantes.
Na Secção de Lisboa (a maior do país) votaram apenas 716 militantes, de um
caderno eleitoral que tinha 3751 militantes, com capacidade para votarem, o que
representa uma participação eleitoral de apenas 19,09%!
Em Novembro passado, nas eleições para a Comissão Politica Distrital e para
os Delegados à Assembleia Distrital, votaram 1645 militantes. Em menos de 4
meses, votaram menos 929 militantes! Ou seja votaram menos 56,5% dos
militantes!
(...)
É também importante criar mecanismos que obriguem à informação dos
militantes. Não pode voltar a acontecer um acto eleitoral, com a importância do
que decorreu ontem sem o envio de uma convocatória aos militantes (o
que aconteceu pelo menos em Lisboa). É preciso termos a consciência que uma
faixa muito grande dos nossos militantes não tem acesso ou não utiliza as novas
tecnologia e que muitos dos endereços de e-mail que constam das listagens de
militantes estão desactualizados.
Tive oportunidade de contactar alguns militantes nos 2 ou 3 dias que
antecederam o acto eleitoral e a maior parte deles não sabia que ia haver
eleições. Isto não pode continuar a acontecer.
Por outro lado, pelo menos em Lisboa, o debate politico praticamente
acabou. Não houve no último ano uma única Assembleia Concelhia em Lisboa
(excluindo as que, como ontem, foram exclusivamente eleitorais). A
transformação das próprias Assembleias Distritais, em sessões de
esclarecimento, com a presença de membros do governo e outros convidados, e que
são sem dúvida importantes, não podem servir de pretexto para a
não existência de verdadeiras Assembleias Distritais, que permitam o
debate sobre a situação política e autárquica do Distrito.
(...)
Não posso deixar de referir a forma amadora como decorreu o acto eleitoral
ontem em Lisboa. Desde a inexistência dos boletins de votos, que provocou um
atraso de 30 minutos na abertura das urnas, a cadernos eleitorais com falta de
mais de dez páginas (na mesa 5, onde votei), à inexistência de locais onde com
algum alguma reserva se pudesse assinalar o voto nos boletins - de tudo
aconteceu um pouco, o que em nada dignificou este acto eleitoral.
Também a escolha da sede do Campo Pequeno, num 3º andar sem elevador, não
foi de certeza uma escolha feliz. Infelizmente votaram poucos militantes. Mas
se tivesse havido uma afluência idêntica à de Novembro passado, teria
sido caótico.
ÍNDICE DO SITUACIONISMO (145): ONDE É QUE EU JÁ VI ISTO?
A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.
"Ainda não tinha
aberto o DN online de 21 de fevereiro, terça-feira de Carnaval, e já um
leitor "meio ensonado" me alertava para a manchete do jornal:
"Trabalhadores dos transportes não pagam medicamentos e recebem baixa
por inteiro." O leitor, AJF, que me escrevera "às 5 e 43" da manhã,
declarava-se "incrédulo": "Sou funcionário da CP e não tenho essas
benesses (nem outras que alguns jornais têm vindo a anunciar)."
A manchete saía no primeiro dia de uma greve de trabalhadores da CP e do metro de Lisboa.
Pouco
depois, chegava-me outro e-mail: "Os trabalhadores dos transportes nem
têm medicamentos gratuitos nem recebem o salário quando estão de baixa",
escreveu o leitor MH. "Nisso são iguais a todos os restantes
trabalhadores. Não sei quem deu essas informações, o certo é que o DN
não se preocupou sequer em confirmar as mesmas."
Solicitei
esclarecimentos à Direção do DN, que remeteu as explicações para o autor
da notícia, Francisco Almeida Leite, o qual respondeu: "A notícia a que
se refere o provedor é de interesse público manifesto. Nesse dia
realizava-se mais uma greve na CP, daí que o dever de informar os nossos
leitores sobre as regalias e benefícios dos trabalhadores de algumas
empresas de transportes seja mais do que óbvio. [...]"
O
jornalista acrescenta: "Sobre o conteúdo da notícia por mim redigida e
assinada, reafirmo a sua veracidade e faço notar que as queixas ao
provedor são apresentadas através de duas cartas anónimas que pretendem
pôr em causa o trabalho de um jornalista sénior da casa. Os dados que
constam da notícia fazem parte de um documento interno do Governo, usado
pela tutela no desempenho da sua ação política. A sua divulgação não
era suscetível de obter um contraditório junto dos sindicatos porque a
matéria que ali está vertida faz parte dos acordos de empresa.Quem
tiver dúvidas sobre o assunto, faça o favor de consultá-los. O DN pensa
no interesse dos leitores, milhares dos quais são utentes da CP e de
outras transportadoras também referidas no texto, e têm o direito de
conhecer as regalias e benefícios que ali vigoram e que todos nós
pagamos com os nossos impostos. O dever do jornalista é divulgá-los,
sobretudo num tempo em que, por exemplo, são cortadas isenções de taxas
moderadoras a idosos que têm dificuldades graves no acesso à saúde,
comparticipações em remédios de doentes crónicos em fase terminal ou
prestações sociais como sejam complementos de reforma. Por muito que
isso custe a certos leitores anónimos."
Preciso, desde já,
esclarecer que os dois leitores que citei se identificaram perante mim
de modo suficiente, não podendo ser considerados anónimos. Não dou
atenção a correspondência anónima. No caso, fui eu que guardei a
confidencialidade das suas identidades - e dispenso-me de explicar
porquê.
Confesso que a resposta de Francisco Almeida Leite me
deixou perplexo porque conseguiu a proeza de não me dar um único
argumento jornalístico para a notícia que fez: há trabalhadores que
fazem greve, pelo que é preciso dizer à população as regalias que têm os
que fazem greve e os que a não fazem; há idosos que veem cortadas as
suas taxas moderadoras, daí que seja necessário conhecer as regalias dos
trabalhadores dos transportes. Nada mau para um argumentário
político-partidário, mas que é do jornalismo?
Deixo uma reflexão
sobre o tema do "interesse público" para o outro texto nesta página e
volto à resposta de Francisco Almeida Leite.
Argumentário.
Palavra-chave. É que a notícia em causa foi integralmente baseada num
documento de circulação interna a que o jornalista teve acesso no
ministério de tutela, e que ele próprio descreveu como "relatório
interno que funciona como uma espécie de argumentário do Governo de
resposta à greve". Não há nenhum mal em um jornalista divulgar um
argumentário interno de uma entidade pública. Mas mandariam as regras
básicas do jornalismo que o fizesse de uma de duas maneiras: ou para
denunciar a existência do documento como elemento de propaganda ou
contrapropaganda política; ou para verificar a veracidade e consistência
dos "argumentos". Ora, esta verificação faz-se através de investigação
autónoma, confrontando documentos e informações disponíveis; ou, no
mínimo, estabelecendo o contraditório, ouvindo aqueles contra quem se
dirigem os argumentos.
Francisco Almeida Leite entendeu que não
devia confrontar os sindicatos "porque a matéria que ali está vertida
faz parte dos acordos de empresa". Isso significa que ele próprio se deu
ao trabalho de investigar, ponto por ponto, todos os acordos de empresa
para concluir, por exemplo, que os "trabalhadores DOS transportes não
pagam medicamentos e recebem baixa por inteiro", o que, logo por azar,
tirou da modorra um funcionário da CP às 5 e 43 da manhã! Receio
bem que essa investigação não tenha sido feita e que Francisco Almeida
Leite haja dado como boas as informações que recebeu do Governo. Este
meu receio é convertido em certeza por outro leitor que aqui identifico
como MG: "O DN publica um 'trabalho' sem realizar qualquer investigação,
sem exercício do contraditório, sem sequer tentar esclarecer a
veracidade das informações que dá ou o seu verdadeiro enquadramento.
Como resultado, mente aos seus leitores sempre que a sua fonte - o
Governo - mente ao DN, engana os seus leitores sempre que a sua fonte
enganou o DN. Um exemplo particularmente fácil para ilustrar isto mesmo:
o DN coloca em título que os trabalhadores da Carris têm 30 dias de
férias, contrapondo implicitamente no título e explicitamente no texto
esses 30 dias aos 22 dias dos restantes trabalhadores portugueses -
omite, por falta de profissionalismo ou má-fé, que esses 30 dias são de
calendário (devido ao facto de se tratar de uma empresa com laboração
contínua) e os 22 dias com que compara são dias úteis. Ou seja, um mês
de férias tanto tem 30 dias de calendário como 22 dias úteis!"
O
diretor de serviço naquele dia, subdiretor Nuno Saraiva, informou-me de
que "neste caso, subscreve" a argumentação de Francisco Almeida Leite.
Só me cumpre dizer-lhe que faz muito mal. Como explico no texto em
baixo, invocar o interesse público e não cumprir o dever de lealdade
para com os visados de os ouvir não é jornalismo, é propaganda. Foi
esse, consciente ou inconscientemente, o exercício que o DN fez naquela
manhã de terça-feira de Carnaval." (sublinhados meus)
Este texto de autoria do Provedor do Diário de Notícias Óscar Mascarenhas retrata bem o modo como alguns jornalistas actuam na propaganda governamental. É o retrato do puro situacionismo, antes com o governo PS, agora com o governo PSD-CDS. A "notícia" referida nesta nota era tão evidentemente um "recado" governamental que estava a preparar um comentário meu num "mau trabalho" para o Ponto Contraponto na SICN. Talvez, insisto talvez, já não valha a pena fazê-lo depois deste texto do Provedor. Mas, a seu propósito, fui reler alguns comentários antigos de 2009, ainda na era Sócrates, do "índice do situacionismo" que envolvem o mesmo jornalista. Se tiverem paciência voltem lá, está lá tudo: intenção, métodos, manipulação, "recados" e serviços. É por isso que, ao ler o Óscar Mascarenhas, tenho esta enorme sensação de déja vu.
5. PASSADAS AS DIFICULDADES VAI TUDO CORRER BEM, À RECESSÃO VAI SUCEDER UM DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO EQUILIBRADO – pode ser, mas é muito pouco provável que tal aconteça. Quem diz esta frase está a pensar no relativo curto prazo. Todos os dias há oscilações na data dessa “viragem”, dentro do curto prazo. As mais recentes datas apontam a “viragem” para o final de 2012, ou início de 2013. Não é preciso ser um sábio de economia para se perceber aquilo que o senso comum nos diz: não vai acontecer tão cedo. E, se não acontecer tão cedo, não será o mesmo que o lugar-comum acima enuncia, será outra coisa. Se for daqui a dez anos, a relação de causa (“austeridade”, “ajustamento”) - efeito (crescimento económico, “democratização” da economia) não existe. É outra coisa qualquer. As excepções só confirmam a regra.
4. A CRISE SEGUE O MODELO SCHUMPETERIANO DA “DESTRUIÇÃO CRIATIVA” – Nem todas as crises exercem esse efeito, bem pelo contrário. A crise de 1929 teve enormes repercussões na alteração e modernização do sistema financeiro, no repensar do papel do estado, na criação de uma nova economia industrial, em particular nos EUA. Mas tais efeitos, que parecem demonstrar a existência de uma capacidade de “destruição criativa” como modo de desenvolvimento do capitalismo, fazem esquecer que as coisas não aconteceram bem assim. A crise de 1929 só pode funcionar como paradigma dessa “destruição criativa” na economia se considerarmos todos os seus efeitos sociais e políticos, como por exemplo a ascensão do nazismo na Alemanha, ou a guerra. Foi só durante a guerra que o desemprego exponencial, posterior a 1929, terminou e esse efeito “criativo” esteve directamente associado ao esforço do “complexo militar-industrial” criado depois de 1941. As excepções só confirmam a regra
I am as I am and so will I be
But how that I am none knoweth truly,
Be it evil be it well, be I bond be I free
I am as I am and so will I be.
I lead my life indifferently,
I mean nothing but honestly,
And though folks judge diversely,
I am as I am and so will I die.
I do not rejoice nor yet complain,
Both mirth and sadness I do refrain,
And use the mean since folks will fain
Yet I am as I am be it pleasure or pain.
Divers do judge as they do true,
Some of pleasure and some of woe,
Yet for all that no thing they know,
But I am as I am wheresoever I go.
But since judgers do thus decay,
Let every man his judgement say:
I will it take in sport and play,
For I am as I am who so ever say nay.
Who judgeth well, well God him send;
Who judgeth evil, God them amend;
To judge the best therefore intend,
For I am as I am and so will I end.
Yet some that be that take delight
To judge folks thought for envy and spite,
But whether they judge me wrong or right,
I am as I am and so do I write.
Praying you all that this do read,
To trust it as you do your creed,
And not to think I change my weed,
For I am as I am however I speed.
But how that is I leave to you;
Judge as ye list, false or true;
Ye know no more than afore ye knew;
Yet I am as I am whatever ensue.
And from this mind I will not flee,
But to you all that misjudge me,
I do protest as ye may see,
That I am as I am and so will I be.
3. “A CRISE GERA OPORTUNIDADES” – de um modo geral é falso: a crise destrói mais oportunidades do que as que gera. A regra é a crise reduzir muito significativamente as oportunidades disponíveis a cada um – de emprego, de ganhar dinheiro, de viver como se quer, de ter melhor vida que a dos pais, de se poder escolher a profissão para que se tem mais aptidão, etc.. As excepções só confirmam a regra.
When things go wrong as they sometimes will;
When the road you're trudging seems all uphill;
When the funds are low, and the debts are high
And you want to smile, but have to sigh;
When care is pressing you down a bit-
Rest if you must, but do not quit.
Success is failure turned inside out;
The silver tint of the clouds of doubt;
And you can never tell how close you are
It may be near when it seems so far;
So stick to the fight when you're hardest hit-
It's when things go wrong that you must not quit.