2. A CRISE TEM UM EFEITO CATÁRTICO, “ESCOLHE” OS MELHORES, DEIXA PARA TRÁS OS PIORES” – Esta variante de darwinismo social está longe de ser demonstrada, bem pelo contrário. Os que “lucram” com a crise, os que a crise “escolhe” para serem os “melhores” são por regra aqueles que estão disponíveis para as maiores malfeitorias. Os que exploram várias formas de usura, os que compram bens por uma ínfima parte do seu preço devido ao estado de desespero dos que precisam de os vender, os que se aproveitam da nova legislação para ajustar contas antigas nas suas empresas, os que têm agora caminho aberto para um lucro fácil, os chefes que usam o poder que vem do medo do desemprego, da despromoção, da "mobilidade" forçada, para serem ainda mais arbitrários e prepotentes, os que se dobram diante de chefes e patrões para não irem para os “disponíveis” ou para o desemprego ou para a nova fábrica que abre ao lado da outra que faliu, com menos operários e salários mais baixos e menos direitos, os que transitam para a economia paralela para continuar a fugir aos impostos, os que encontram novas oportunidades para corrupção, alta, média e baixa. As excepções só confirmam a regra, mas ainda está por demonstrar que um ambiente de "salve-se quem puder" serve para "escolher os melhores".
1. “VIVEMOS ACIMA DAS NOSSAS POSSES” – A frase podia ser dita com utilidade no passado, há um ano atrás. Como acontece com muitas frases certeiras do passado, ditas “por oposição”, “contra” o despesismo, tinham então todo o sentido. Hoje, as mesmas palavras servem para outro tipo de usos. A frase está envenenada pelo seu uso moralista, pelo seu uso como justificação e legitimação para todo o “ajustamento”.
As medidas de austeridade eram bem mais aceitáveis se não viessem coladas a lições de moral. Ao dar ao “vivemos acima das nossas posses” um significado de culpabilização, o alvo muda. Deixa de ser os governantes e políticos, para passar a ser as pessoas comuns. As jovens famílias que se endividaram para comprar casa no início da vida estavam a fazer uma opção racional sólida, visto que o bloqueio legislativo da lei das rendas fazia com que não houvesse mercado de arrendamento. E acaso esperariam que um funcionário que recebia 10, se oferecesse para só aceitar 5? E para quê poupar quando era mais barato gastar? Digam-me qual a sociedade em que alguém racionalmente faz outras opções para a sua vida, que eu gostava de conhecê-la. É para quem tinha poder e decidiu, em tempos de abundância, ser gastador e imprevidente, é a esses que a frase devia ser dirigida, porque para eles, racionalmente, as decisões deviam ter sido outras. Por isso, a frase hoje destina-se a culpar todos, para depois penalizar apenas alguns. As excepções só confirmam a regra.
A expressão
"meia bola e força" parece vir do futebol, um mau augúrio. O
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa remete para o Dicionário de Frases
Feitas, de Orlando Neves, que lhe dá o significado de "desajeitadamente;
de qualquer maneira". Acrescenta a génese futebolística por comparação
com "pontapé para a frente e fé em Deus", e "designa um modo de jogar
atabalhoado, sem arte", onde "a técnica da força se sobrepõe à força da
técnica". Parece-me bem, estamos no terreno certo do que quero dizer.
Mais à frente voltaremos aqui.
Agora vamos a outro lado: a "irritação". Os portugueses ainda não andam na rua a partir coisas e a deitar cocktails Molotov
à polícia diante do Parlamento como acontece em Atenas. Sejamos justos,
como os portugueses, também a esmagadora maioria dos gregos nunca
fizeram tal coisa, obra de pequenos grupos que tomaram o gosto ao dedo
da gasolina. Por cá também se estão a formar os mesmos grupos, mas ainda
não sabem fazer cocktails Molotov, mas aprenderão porque não é muito complicado.
Mas,
seja como for, a conflitualidade portuguesa ainda está longe de ser bem
medida pela rua, mas é mais que evidente que existe. Está na fase da
zanga e a caminho da imensa irritação. Convém não menosprezar este
caminho, porque a zanga pode ser muito passiva, viver com o desespero, a
depressão e a impotência, mas a irritação é mais complicada, porque ela
transporta uma violência latente muito superior. E os sinais dessa
irritação estão por todo o lado e em crescendo.
A vox populi
moderna chega hoje ao universo mediático, não tanto na sua forma
politizada, mas numa parte mais selvagem, sem regras, nem educação, nem
civilidade, nem moderação. Chega aos gritos. Por exemplo, nos fora das rádios e televisões, em que supostamente essa vox populi
se faz ouvir, o grau de violência verbal é cada vez maior. Eu sei que é
preciso muita prudência para aceitar esses programas como
representativos da vox populi, com todas as precauções para
depurar a parte de manipulação política desses "locais de fala", onde é
habitual alguns militantes partidários mais empenhados organizarem-se
para fazer barragens de falsos "ouvintes" a telefonar para defenderem o
seu clube político e esmagar os outros. Mas, quando os temas desses fora estão
longe da agenda politizada, o que se ouve é a voz dessa imensa
irritação, pura e dura e cruel, vociferando contra os "políticos",
contra "esta democracia", contra as prepotências dos ricos e poderosos e
os "arranjinhos" que fazem em conluio com os "políticos". Propostas:
deviam ir todos presos, devia "cortar-se-lhes a cabeça", deviam ser
proibidos de falar, deviam viver com salários abaixo do mínimo, deviam
ver os seus bens confiscados e "obrigados a trabalhar", etc., etc.
Nos
casos "mediáticos" da justiça encontra-se também um crescendo de
violência verbal e, embora o terreno pareça diferente, o facto desses
casos se passarem no espaço público sob o megafone de jornais, rádios e
televisões, torna o discurso nestes casos também um discurso sobre o
país e a política. Duas características manifestam-se nestes discursos
da vox populi: uma forte identificação com as vítimas, sejam
reais, sejam imaginárias, e uma vontade quase física de violência
punitiva, muito para além da lei. No caso de Lousada (o desaparecimento
de uma criança) e da pedofilia na Casa Pia, pode ouvir-se nos media
propostas de pena de morte, de tortura, de mutilação ("deviam-lhe
cortar os dedos um a um"), proibição de meios de defesa para os
arguidos, censura ("Carlos Cruz devia ser proibido de publicar livros e
dar entrevistas"), acompanhadas de tentativas concretas de agressão.
Pode
argumentar-se que se trata de casos especiais, mas o contínuo
discursivo, a mecânica social e psicológica da descrição das vítimas que
não obtêm justiça versus os poderosos que escapam a tudo, são
narrativas sobre o Portugal contemporâneo e são, na sua essência, sobre a
crise, entendida como uma violência dos "políticos" contra as pessoas
comuns, os pobres, os trabalhadores, o povo. É por isso que o pior que
se pode fazer na actual situação é provocar esta ira poderosa, mais
violenta do que qualquer cocktail Molotov.
Voltemos ao
"meia bola e força". Existe na actual governação uma forte dose de
"pontapé para a frente e fé em Deus", e de "um modo de jogar
atabalhoado, sem arte", onde "a técnica da força se sobrepõe à força da
técnica". E há dois aspectos em que este "meia bola e força" resultam
numa provocação desnecessária, inútil e perigosa para a irritação que já
por aí anda. Um diz respeito à incompetência e impreparação que nos deu
a baixa da TSU, as "gorduras do Estado", o "colossal desvio" resolvido
apenas por meio subsídio de Natal "irrepetível", a "meia hora de
trabalho suplementar", a saga dos feriados agravada pelo modus operandi do Carnaval.
Quanto a isto há pouco a fazer, há quem o atribua a um plano ideológico
"neoliberal" e há quem o atribua à ignorância do país. Existem as duas
coisas, mas eu tendo a hesitar em dar grandes roupagens ideológicas,
aquilo que me parece mais fácil de explicar por uma combinação de ideias
na moda (e aí de facto e pela primeira vez a sério, essas ideias
correspondem à caricatura do liberalismo que faz a esquerda) e falta de
experiência e competência, salvo excepções que nem precisam de ser
nomeadas porque são auto-evidentes.
Mas há um outro aspecto, mais
"politiqueiro" nas provocações, que também tem a ver com o tipo de
formação política do topo da governação, que é comum à liderança do PS, e
que faz e pode vir a fazer estragos consideráveis, corroendo o que de
positivo existe em muitas medidas tomadas recentemente. Voltemos, por
comparação, à fase "boa" de José Sócrates, os seus primeiros três anos,
2005-2008. O "boa" está entre aspas, porque, do meu ponto de vista,
sempre a achei péssima, embora saiba que muita gente do PSD está hoje
esquecida de a louvar. Nos seus primeiros anos, a narrativa de Sócrates
foi muito parecida com a actual: recebeu o país com um "défice
colossal", convenientemente cozinhado pelo Banco de Portugal, e com esse
pretexto, abandonou todas as promessas eleitorais e lançou-se no
controlo do défice. A comparação com a situação actual é legítima visto
que as promessas eleitorais do PSD fizeram-se já no contexto da
intervenção da troika e não antes, pelo que, como em 2005, a "surpresa" pelo que se "encontra" é fictícia.
Sócrates
obteve alguns resultados no controlo do défice, não aqueles de que se
gabou, mas alguns; reformou a Segurança Social e iniciou um conjunto de
medidas de "reformas" com muitas parecenças com a luta actual contra as
"gorduras do Estado". A retórica política é muito semelhante. Começou a
utilizar os argumentos do populismo e da inveja social, que são sempre
eficazes. Dois casos são exemplares: atacou os juízes e magistrados e em
seguida os professores. Fez o mesmo com os farmacêuticos e os médicos.
Em todos os casos, o discurso foi o mesmo, trata-se de grupos
profissionais privilegiados, com regalias inaceitáveis e pela primeira
vez havia um político com "coragem" para defrontar estes grupos.
Os
resultados estão à vista: alienando todos os aliados que podia
encontrar nesses grupos profissionais para fazer reformas, uniu-os como
nunca se uniram, e acabou por perder quase tudo, reforçando o sentimento
corporativo e bloqueando por muitos anos qualquer mudança nessas áreas.
Quando os ventos mudaram, e Sócrates começou a tombar do seu pedestal,
recebeu em dobrado o preço das irritações que tinha semeado, numa fúria
nacional que o correu do poder e de que o PSD beneficiou eleitoralmente.
Ora discursos como o do "piegas", a interpretação do país do
Carnaval como opondo diligentes formigas poupadas e trabalhadoras às
cigarras municipais com milhões de dívidas, o apontar dos funcionários
públicos como privilegiados face aos privados, o modo como os militares
profissionais foram convidados a irem-se embora se não concordavam com o
ministro e mais mil e um exemplos são versões actuais do mesmo
moralismo social que pode começar por ter resultados, mas que depois se
transforma numa fúria colectiva que volta para trás com raiva.
A
combinação do "meia bola e força" com um contexto de irritação
nacional, cada vez mais recebido pelos governantes como uma afronta aos
seus desígnios "revolucionários" de mudar o país de alto a baixo (e este
revolucionarismo verbal tem também um papel na retórica governamental),
pode levar a uma certa forma de autoritarismo político, num contexto de
grande crise social, o mais perigoso caminho no meio de uma crise
profunda. Há sinais, como no tempo de Sócrates, mas podem ser
epifenómenos e não the real thing. Benevolamente ainda me fico
pelo "meia bola e força", porque me parece uma explicação mais simples,
económica e, acima de tudo, mais portuguesa. Mas o terreno está a ficar
movediço.
(Versão do Público de 25 de Fevereiro de 2012.)
*
A expressão "meia bola e força" não vem
do futebol, vem do bilhar. "Meia bola" usa-se para definir a quantidade
de efeito imprimido à bola. Assim temos bola cheia (para tacada no meio
da bola), bola fina (para tacada num dos lados da bola) e meia bola
(tacada entre o meio e o lado da bola). Meia bola e força é a técnica
básica utilizada para as jogada directas, em que a nossa bola bate na
primeira e directamente na segunda sem uso das tabelas.