| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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3.3.12
LUGARES COMUNS DOS TEMPOS DE HOJE
2. A CRISE TEM UM EFEITO CATÁRTICO, “ESCOLHE” OS MELHORES, DEIXA PARA TRÁS OS PIORES” – Esta variante de darwinismo social está longe de ser demonstrada, bem pelo contrário. Os que “lucram” com a crise, os que a crise “escolhe” para serem os “melhores” são por regra aqueles que estão disponíveis para as maiores malfeitorias. Os que exploram várias formas de usura, os que compram bens por uma ínfima parte do seu preço devido ao estado de desespero dos que precisam de os vender, os que se aproveitam da nova legislação para ajustar contas antigas nas suas empresas, os que têm agora caminho aberto para um lucro fácil, os chefes que usam o poder que vem do medo do desemprego, da despromoção, da "mobilidade" forçada, para serem ainda mais arbitrários e prepotentes, os que se dobram diante de chefes e patrões para não irem para os “disponíveis” ou para o desemprego ou para a nova fábrica que abre ao lado da outra que faliu, com menos operários e salários mais baixos e menos direitos, os que transitam para a economia paralela para continuar a fugir aos impostos, os que encontram novas oportunidades para corrupção, alta, média e baixa. As excepções só confirmam a regra, mas ainda está por demonstrar que um ambiente de "salve-se quem puder" serve para "escolher os melhores".
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LUGARES COMUNS DOS TEMPOS DE HOJE
1. “VIVEMOS ACIMA DAS NOSSAS POSSES” – A frase podia ser dita com utilidade no passado, há um ano atrás. Como acontece com muitas frases certeiras do passado, ditas “por oposição”, “contra” o despesismo, tinham então todo o sentido. Hoje, as mesmas palavras servem para outro tipo de usos. A frase está envenenada pelo seu uso moralista, pelo seu uso como justificação e legitimação para todo o “ajustamento”.
As medidas de austeridade eram bem mais aceitáveis se não viessem coladas a lições de moral. Ao dar ao “vivemos acima das nossas posses” um significado de culpabilização, o alvo muda. Deixa de ser os governantes e políticos, para passar a ser as pessoas comuns. As jovens famílias que se endividaram para comprar casa no início da vida estavam a fazer uma opção racional sólida, visto que o bloqueio legislativo da lei das rendas fazia com que não houvesse mercado de arrendamento. E acaso esperariam que um funcionário que recebia 10, se oferecesse para só aceitar 5? E para quê poupar quando era mais barato gastar? Digam-me qual a sociedade em que alguém racionalmente faz outras opções para a sua vida, que eu gostava de conhecê-la. É para quem tinha poder e decidiu, em tempos de abundância, ser gastador e imprevidente, é a esses que a frase devia ser dirigida, porque para eles, racionalmente, as decisões deviam ter sido outras. Por isso, a frase hoje destina-se a culpar todos, para depois penalizar apenas alguns. As excepções só confirmam a regra.
(url) (url) 2.3.12
2163 - January in Detroit or Search for Tomorrow Starring Ken and Ann
I think it is interesting
though not exactly amusing
how we go from day to day
with no money. How do we
do it, friends ask, suspecting
we really have some stash
stacked away somewhere.
But we certainly do not
and we also do not know
how we do it either.
You sure are lucky,
some of our friends say. I am
none too sure of that though,
as I wait for the winning
lottery numbers to be announced
on CKLW. Thursday in Detroit
is the day of dreams. We have
been dreaming of a place
in the country lately and I’m
none too sure that is very healthy.
And speaking of health that’s
also been a problem that probably
has something to do with no money,
since we’ve all been sick lately,
taking turns politely of course.
Could you bring me some more
tea one of us will ask,
and the other will.
In between the coughing and
worrying our thoughts
have often turned to crime.
We seriously wonder how we can
get away with a bundle with
as little risk as possible.
Last week we took our last
$12 out of the bank
and noticed how much more
they had there though
we had none. Of course
we wouldn’t rob that bank,
they know us there
as the ones who bring
the rolls of pennies in.
And just yesterday they
fish-eyed us for trying
to cash our son’s xmas bond
from his grandparents
after only one month.
So we wouldn’t try to rob that bank,
but I do know of one up north
that may be possible. . .
I know this just seems like
romantic dreaming
but I practically make a career
of reading detective stories,
and God knows, I have no other.
Anyway if the right opportunity
comes along, we are more
than ready to meet it.
But this is a time of waiting,
the I Ching says, though it does
not say how we are to eat
while waiting. And soon
we will have another mouth to feed—
Ann now in her seventh month,
and that is often in our thoughts.
Besides all that we are both
over thirty, artist and poet,
still waiting to cross the great water.
Meanwhile, day after day,
there is still Detroit
to be dealt with — a small pond
says our friend Snee.
Big fish we used to answer him,
but that was a while back.
Now we think maybe Lake Erie
is the great water referred to
in the I Ching, and if we wait
long enough we can
walk across — to Buffalo
or Cleveland. In a healthy person,
says the philosopher, self-pity
can be a forerunner to action:
once the problem is seen clearly,
a solution may be found at hand.
And as I said, I think it is interesting
though not exactly amusing.
(
(url) 27.2.12
UMA IMENSA IRRITAÇÃO
E A POLÍTICA DO MEIA BOLA E FORÇA
A expressão
"meia bola e força" parece vir do futebol, um mau augúrio. O
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa remete para o Dicionário de Frases
Feitas, de Orlando Neves, que lhe dá o significado de "desajeitadamente;
de qualquer maneira". Acrescenta a génese futebolística por comparação
com "pontapé para a frente e fé em Deus", e "designa um modo de jogar
atabalhoado, sem arte", onde "a técnica da força se sobrepõe à força da
técnica". Parece-me bem, estamos no terreno certo do que quero dizer.
Mais à frente voltaremos aqui.
Agora vamos a outro lado: a "irritação". Os portugueses ainda não andam na rua a partir coisas e a deitar cocktails Molotov à polícia diante do Parlamento como acontece em Atenas. Sejamos justos, como os portugueses, também a esmagadora maioria dos gregos nunca fizeram tal coisa, obra de pequenos grupos que tomaram o gosto ao dedo da gasolina. Por cá também se estão a formar os mesmos grupos, mas ainda não sabem fazer cocktails Molotov, mas aprenderão porque não é muito complicado. Mas, seja como for, a conflitualidade portuguesa ainda está longe de ser bem medida pela rua, mas é mais que evidente que existe. Está na fase da zanga e a caminho da imensa irritação. Convém não menosprezar este caminho, porque a zanga pode ser muito passiva, viver com o desespero, a depressão e a impotência, mas a irritação é mais complicada, porque ela transporta uma violência latente muito superior. E os sinais dessa irritação estão por todo o lado e em crescendo. A vox populi moderna chega hoje ao universo mediático, não tanto na sua forma politizada, mas numa parte mais selvagem, sem regras, nem educação, nem civilidade, nem moderação. Chega aos gritos. Por exemplo, nos fora das rádios e televisões, em que supostamente essa vox populi se faz ouvir, o grau de violência verbal é cada vez maior. Eu sei que é preciso muita prudência para aceitar esses programas como representativos da vox populi, com todas as precauções para depurar a parte de manipulação política desses "locais de fala", onde é habitual alguns militantes partidários mais empenhados organizarem-se para fazer barragens de falsos "ouvintes" a telefonar para defenderem o seu clube político e esmagar os outros. Mas, quando os temas desses fora estão longe da agenda politizada, o que se ouve é a voz dessa imensa irritação, pura e dura e cruel, vociferando contra os "políticos", contra "esta democracia", contra as prepotências dos ricos e poderosos e os "arranjinhos" que fazem em conluio com os "políticos". Propostas: deviam ir todos presos, devia "cortar-se-lhes a cabeça", deviam ser proibidos de falar, deviam viver com salários abaixo do mínimo, deviam ver os seus bens confiscados e "obrigados a trabalhar", etc., etc. Nos casos "mediáticos" da justiça encontra-se também um crescendo de violência verbal e, embora o terreno pareça diferente, o facto desses casos se passarem no espaço público sob o megafone de jornais, rádios e televisões, torna o discurso nestes casos também um discurso sobre o país e a política. Duas características manifestam-se nestes discursos da vox populi: uma forte identificação com as vítimas, sejam reais, sejam imaginárias, e uma vontade quase física de violência punitiva, muito para além da lei. No caso de Lousada (o desaparecimento de uma criança) e da pedofilia na Casa Pia, pode ouvir-se nos media propostas de pena de morte, de tortura, de mutilação ("deviam-lhe cortar os dedos um a um"), proibição de meios de defesa para os arguidos, censura ("Carlos Cruz devia ser proibido de publicar livros e dar entrevistas"), acompanhadas de tentativas concretas de agressão. Pode argumentar-se que se trata de casos especiais, mas o contínuo discursivo, a mecânica social e psicológica da descrição das vítimas que não obtêm justiça versus os poderosos que escapam a tudo, são narrativas sobre o Portugal contemporâneo e são, na sua essência, sobre a crise, entendida como uma violência dos "políticos" contra as pessoas comuns, os pobres, os trabalhadores, o povo. É por isso que o pior que se pode fazer na actual situação é provocar esta ira poderosa, mais violenta do que qualquer cocktail Molotov. Voltemos ao "meia bola e força". Existe na actual governação uma forte dose de "pontapé para a frente e fé em Deus", e de "um modo de jogar atabalhoado, sem arte", onde "a técnica da força se sobrepõe à força da técnica". E há dois aspectos em que este "meia bola e força" resultam numa provocação desnecessária, inútil e perigosa para a irritação que já por aí anda. Um diz respeito à incompetência e impreparação que nos deu a baixa da TSU, as "gorduras do Estado", o "colossal desvio" resolvido apenas por meio subsídio de Natal "irrepetível", a "meia hora de trabalho suplementar", a saga dos feriados agravada pelo modus operandi do Carnaval. Quanto a isto há pouco a fazer, há quem o atribua a um plano ideológico "neoliberal" e há quem o atribua à ignorância do país. Existem as duas coisas, mas eu tendo a hesitar em dar grandes roupagens ideológicas, aquilo que me parece mais fácil de explicar por uma combinação de ideias na moda (e aí de facto e pela primeira vez a sério, essas ideias correspondem à caricatura do liberalismo que faz a esquerda) e falta de experiência e competência, salvo excepções que nem precisam de ser nomeadas porque são auto-evidentes. Mas há um outro aspecto, mais "politiqueiro" nas provocações, que também tem a ver com o tipo de formação política do topo da governação, que é comum à liderança do PS, e que faz e pode vir a fazer estragos consideráveis, corroendo o que de positivo existe em muitas medidas tomadas recentemente. Voltemos, por comparação, à fase "boa" de José Sócrates, os seus primeiros três anos, 2005-2008. O "boa" está entre aspas, porque, do meu ponto de vista, sempre a achei péssima, embora saiba que muita gente do PSD está hoje esquecida de a louvar. Nos seus primeiros anos, a narrativa de Sócrates foi muito parecida com a actual: recebeu o país com um "défice colossal", convenientemente cozinhado pelo Banco de Portugal, e com esse pretexto, abandonou todas as promessas eleitorais e lançou-se no controlo do défice. A comparação com a situação actual é legítima visto que as promessas eleitorais do PSD fizeram-se já no contexto da intervenção da troika e não antes, pelo que, como em 2005, a "surpresa" pelo que se "encontra" é fictícia. Sócrates obteve alguns resultados no controlo do défice, não aqueles de que se gabou, mas alguns; reformou a Segurança Social e iniciou um conjunto de medidas de "reformas" com muitas parecenças com a luta actual contra as "gorduras do Estado". A retórica política é muito semelhante. Começou a utilizar os argumentos do populismo e da inveja social, que são sempre eficazes. Dois casos são exemplares: atacou os juízes e magistrados e em seguida os professores. Fez o mesmo com os farmacêuticos e os médicos. Em todos os casos, o discurso foi o mesmo, trata-se de grupos profissionais privilegiados, com regalias inaceitáveis e pela primeira vez havia um político com "coragem" para defrontar estes grupos. Os resultados estão à vista: alienando todos os aliados que podia encontrar nesses grupos profissionais para fazer reformas, uniu-os como nunca se uniram, e acabou por perder quase tudo, reforçando o sentimento corporativo e bloqueando por muitos anos qualquer mudança nessas áreas. Quando os ventos mudaram, e Sócrates começou a tombar do seu pedestal, recebeu em dobrado o preço das irritações que tinha semeado, numa fúria nacional que o correu do poder e de que o PSD beneficiou eleitoralmente. Ora discursos como o do "piegas", a interpretação do país do Carnaval como opondo diligentes formigas poupadas e trabalhadoras às cigarras municipais com milhões de dívidas, o apontar dos funcionários públicos como privilegiados face aos privados, o modo como os militares profissionais foram convidados a irem-se embora se não concordavam com o ministro e mais mil e um exemplos são versões actuais do mesmo moralismo social que pode começar por ter resultados, mas que depois se transforma numa fúria colectiva que volta para trás com raiva. A combinação do "meia bola e força" com um contexto de irritação nacional, cada vez mais recebido pelos governantes como uma afronta aos seus desígnios "revolucionários" de mudar o país de alto a baixo (e este revolucionarismo verbal tem também um papel na retórica governamental), pode levar a uma certa forma de autoritarismo político, num contexto de grande crise social, o mais perigoso caminho no meio de uma crise profunda. Há sinais, como no tempo de Sócrates, mas podem ser epifenómenos e não the real thing. Benevolamente ainda me fico pelo "meia bola e força", porque me parece uma explicação mais simples, económica e, acima de tudo, mais portuguesa. Mas o terreno está a ficar movediço.
(Versão do Público de 25 de Fevereiro de 2012.)
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© José Pacheco Pereira
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