Liberty for wolves is death to the lambs.
(Isaiah Berlin)
DANÇAR COM PUTIN
Sempre que na televisão quero falar da situação internacional, os meus bons amigos dizem-me para não o fazer porque os telespectadores fogem do assunto e com eles as televisões. O mundo lá fora continua sem Norte ou com Nortes a mais, e pelo caminho com alguns Polos Sul a mais, mas ninguém quer saber disso para alguma coisa.
No meio das nossas misérias, o que interessa a Rússia ou o Irão? Putin está a fazer campanha eleitoral para se tornar um Presidente perpétuo, ou seja aquilo que os secretários-gerais do Partido Comunista da URSS eram, prometendo um grande plano de rearmamento “sem precedentes” explicitamente apontado à OTAN e aos EUA.
Os comentadores da escola do “apaziguamento” lembram que este discurso é feito para dentro, para obter votos com o sentimento anti-ocidental e nacionalista dos russos, que ressentem a queda da Rússia como grande potência. Será, mas convinha que, mesmo sem o tomar á letra, não nos esquecêssemos que Putin para chegar onde chegou não hesitou em fazer a segunda guerra da Chechénia, um violento conflito roçando o genocídio, provocado por uns misteriosos atentados bombistas atribuídos ao mesmo “serviço” que Putin chefiava. Se há coisa que Putin já demonstrou é que é capaz de tudo para ter poder.
Liberty for wolves is death to the lambs.
(Isaiah Berlin)
DANÇAR COM OS GREGOS
Dancem, dancem… que isto um dia acorda muito torto. Muito torto mesmo.
Os gregos vão ter mais um plano irrealista de “ajustamento”. Se fosse apenas um plano de “ajustamento”, vá que não vá. Mas é um plano irrealista, por isso é uma receita para o desastre, ou melhor, para a continuação do desastre. Obrigar os gregos a destruirem parte da sua economia que, mal ou bem ainda funciona, para baixar a dívida de 160% para 120,5% até 2020, é uma impossibilidade que pode atrair os partidários do “economês”, mas põe os cabelos no ar do cidadão “senso-comunês”. Diga-se de passagem, que nós não podemos falar muito porque vamos assinar um “pacto orçamental” com idênticas medidas irrealistas.
Vão ter uma variante do gauleiter, ou seja, no eufemismo tecnocrático, vão ter uma “presença permanente" para os vigiar. São eles que vão governar a Grécia em nome dos credores, o povo grego passa a sujeito e súbdito. Há quem diga “é bem feito” porque andaram a viver à custa do que não tinham. Diga-se, mais uma vez, de passagem que o mesmo se diz de nós, lá fora e cá dentro. Mas quem diz que “é bem feito” devia ser declarado inimputável, porque não sabe o que diz e em que caldeirão de feitiços está a meter a colher.
Vão ter que mudar a Constituição á força, o que é o supremo vexame para quem acha que as Constituições são mais do que um textozinho precário e que mexer nelas é intrinsecamente um elemento de soberania nacional. Nós também não podemos falar muito porque aceitámos o mesmo diktat. O objectivo é incluir na Constituição uma “regra da prioridade absoluta ao pagamento da dívida”, um absurdo constitucional, uma maneira de afixar na porta da Grécia que esta já teve a visita do cobrador de fraque e este obrigou-a, por escárnio, a anunciar isso numa tabuleta.
*
Lendo os "posts" acima, lembrei-me dum mail muito curioso que
recebi sobre como se forma um paradigma. Cruzando-o com estes seus 2
"posts", realmente as palavras têm muito mais poder do que aquilo que
lhes atribuímos.
Ainda
esta semana escrevi numa caixa de comentários de um artigo de opinião
"postado" na edição electrónica de um jornal de economia. Não usando
pseudónimos ou outras capas, escrevi um comentário de resposta a um
comentário.
Não apoiei o
articulista nem insultei o opinador a quem respondi, apenas fui
questionando, na troca de comentários subsequente que o mesmo me
concedeu, as minhas dúvidas sobre a "receita" económica que está a ser
aplicada a Portugal e à Grécia e se não haveria outro caminho possível,
nem que fosse mudando de paradigma.
Quase
todas as minhas interrogações foram ignoradas, ficando como resposta à
última, um simples "Não há outro caminho". A este, vendo que tinha
chegado a uma parede ideológica (sem qualquer ofensa para o meu
interlocutor que escreveu ao abrigo do manto de um "nickname"), deixei
um último "post" onde deixei expresso o meu receio que a Grécia seja
Portugal com algum tempo de avanço (a expressão é de Miguel Portas e
parece-me adequada para ilustrar o pensamento). Porque o facto de amanhã
os meus filhos, mesmo não vindo a passar pela situação, poderem ter
colegas que desmaiam de fome na escola, não me descansa nada, mesmo
nada!
O resultado de tudo isto foi a eliminação
sistemática de toda a sequência de posts, ficando a caixa de
comentários apenas com os (infelizmente) já
típicos comentários de insulto ao articulista e nada mais.
A
minha interrogação é esta: Independentemente do como se chegou a este
ponto de intolerância, como é que se dá faz evoluir um País e construir
um espaço onde as pessoas vivam felizes e realizadas? Como é que se pode
fazer evoluir o pensamento de uma sociedade no sentido de uma maior
tolerância e cooperação entre pares, mesmo havendo naturais divergências
de pensamento?
Ou estaremos condenados a um
monocromismo ideológico que quando substitui o anterior tudo arrasa para
começar de novo e quando é substituído pelo seguinte, idem idem aspas
aspas?
Não haverá por aí, neste mundo tão grande, bons exemplos de modelos de sociedade que mereçam ser evidenciados e copiados?
Liberty for wolves is death to the lambs.
(Isaiah Berlin)
DANÇAR COM AS PALAVRAS
O problema com as palavras é que elas mandam mais em nós do que o que supomos. São como uma variante mais mansa do Id freudiano, não sabemos que ele lá está, nem o que é (é o animal em nós), mas que manda mais do que o ego, essa nossa gigantesca ilusão, manda. Pois as palavras são assim. Dizemos de uma coisa que é “irremediável” e deixa de ter sentido procurar remédios. Dizemos de uma coisa que é “inevitável” e deixamos de fazer qualquer esforço para a evitar. Dizemos de uma coisa que é “irrealista” que mude, e logo a realidade se impõe sem apelo nem agravo.
É assim que o discurso oficial trata o desemprego: é “irremediável” que vai haver aumento do desemprego; é “inevitável” que mais uns milhares de pessoas fiquem sem emprego por dia. É “irrealista” pensar que é possível fazer alguma coisa para travar o desemprego, e nada se faz a não ser algumas coreografias de circunstância. Como é óbvio, assim o crescimento acelerado do desemprego é inexorável, irremediável, inevitável e está na natureza dos factos, é a realidade. Não adianta lutar porque lutar é esbracejar e o governo não esbraceja, mas os desempregados vão gloriosamente ao fundo. A culpa é das palavras. Elas tomam-se a sério, nós é que dançamos à sua música.
I am a house, says Senlin, locked and darkened, Sealed from the sun with wall and door and blind. Summon me loudly, and you'll hear slow footsteps Ring far and faint in the galleries of my mind. You'll hear soft steps on an old and dusty stairway; Peer darkly through some corner of a pane, You'll see me with a faint light coming slowly, Pausing above some gallery of the brain . . .
I am a city . . . In the blue light of evening Wind wanders among my streets and makes them fair; I am a room of rock . . . a maiden dances Lifting her hands, tossing her golden hair. She combs her hair, the room of rock is darkened, She extends herself in me, and I am sleep. It is my pride that starlight is above me; I dream amid waves of air, my walls are deep.
I am a door . . . before me roils the darkness, Behind me ring clear waves of sound and light. Stand in the shadowy street outside, and listen— The crying of violins assails the night . . . My walls are deep, but the cries of music pierce them; They shake with the sound of drums . . . yet it is strange That I should know so little what means this music, Hearing it always within me change and change.
Knock on the door,—and you shall have an answer. Open the heavy walls to set me free, And blow a horn to call me into the sunlight,— And startled, then, what a strange thing you will see! Nuns, murderers, and drunkards, saints and sinners, Lover and dancing girl and sage and clown Will laugh upon you, and you will find me nowhere. I am a room, a house, a street, a town.
O
fim anunciado da Livraria Portugal, a decadência penosa da Sá da Costa,
o fim da Buchholz, assim como de várias livrarias na província, ou de
pequenas livrarias temáticas em Lisboa, mostra a dimensão de uma crise
que afecta directamente o livro, mas, mais ainda, aquilo que se pode
chamar o "mundo dos livros". A mesma decadência se nota em livrarias que
ainda sobrevivem, cuja aproximação do fim um olho treinado percebe,
como sejam as mudanças que pouco a pouco se percebem com a falta de
renovação dos stocks, a invasão de títulos de "papel pintado" de uma só
editora, a crise nas distribuidoras e modo como a consignação de livros é
hoje feita, a caótica distribuição dos títulos, tudo isto mostra uma
mudança que não é só provocada pela crise, ou pela concorrência das
grandes superfícies como a Fnac, ou com as compras pela Internet.
A livraria tradicional caminha para uma dimensão de "culto", e isso
permite algumas pequenas livrarias, livrarias de "autor", se se quiser,
livrarias especializadas, livrarias que combinam os livros novos com os
antigos, que são dirigidas por livreiros no sentido nobre do termo,
pessoas que conhecem muito bem os livros, os seus leitores-clientes, o
modo como o mercado, mesmo neste nicho evolui, e que usam o seu know-how
para sobreviver. Mas, enquanto antes este sector, que sempre existiu,
era entendido como especializado e funcionando em complemento com as
grandes livrarias generalistas clássicas, agora estamos perante um
dualismo entre as livrarias de supermercado, ou as Fnac - que faça-se
justiça não são livrarias de supermercado -, e os espaços de "culto" dos
livros. A grande livraria clássica está a desaparecer.
Veja-se o
caso da Livraria Portugal, localizada num espaço privilegiado, e cuja
cobiça certamente lhe acelerou o fim, para além da perigosa proximidade
com a Fnac do Chiado. A livraria existia há 70 anos, fundada em 1941 em
plena Segunda Guerra Mundial. A data não é irrelevante, porque em 1941
era difícil ver-se o presente sem muito receio. Portugal podia a
qualquer altura ser sugado para o conflito, e, se virmos o passado com
os olhos de hoje, os livros deveriam parecer bem pouco necessários e
importantes. Os três amigos que a fundaram, bibliófilos que mereciam
este nome, tinham um programa simples: "Levar a toda a parte e a cada um o
livro necessário." A livraria cumpria-o pelos livros que oferecia, pela
qualidade do seu serviço (os velhos empregados da livraria conheciam
mesmo os livros), como pelo seu Boletim Bibliográfico, que não só divulgava as novidades como tinha artigos originais.
Conheço a livraria há cerca de 40 anos. Como em todas as livrarias que
crescem connosco, obrigam a um trajecto próprio. Na Livraria Portugal,
onde as mudanças sempre foram muito lentas, esse trajecto representava a
apreensão do "corpo" e da identidade da livraria. As livrarias
conhecem-se como as pessoas, e a única mudança substancial no meu
trajecto interior foi ter deixado de ir ao andar de cima e ficar apenas
pelo andar térreo. Mas o andar de cima era, já há muitos anos, único,
porque a livraria tinha o exclusivo das publicações de uma série de
instituições internacionais, a UNESCO, a OCDE, a ONU, e outras, que
faziam do andar de cima uma livraria técnica muito especial. Mas o "meu
andar" foi e é, até ao fim do mês de Fevereiro, o de baixo.
Entrava-se pela rua, depois de ver as montras, em particular a da
direita e as vitrinas junto da porta, porque, como a livraria tinha
muitos livros únicos, os que estavam expostos ou se viam à porta ou não
existiam lá dentro. A primeira mesa à direita passava-a apenas com um
olhar rápido: eram publicações de direito e algumas especializadas de
arte, sem serem álbuns de mesa de chá. À direita - o meu trajecto
fazia-se sempre pelo "corredor" da direita -, começava a animar-se, e a
tornar o meu bolso mais leve, a partir da segunda mesa, onde havia uma
série de publicações académicas que não se encontravam em nenhuma outra
livraria. Depois havia uma terceira mesa com publicações de pequenos
editores ou de autor, também sem paralelo noutras livrarias
"generalistas". Começavam aí as compras. Depois fazia o mesmo corredor
para trás, para a zona direita das mesas centrais. Aí, também, não sei
por que mistério, apesar de estarem livros das grandes editoras, havia
sempre alguma coisa de história ou política, que nunca tinha visto
noutro sítio. É isso que torna uma livraria única: descobrem-se livros
que nunca se viram, e essa é também a grande vantagem das livrarias.
Pegar e folhear um livro, ler o índice, ou, para um incorrigível
bibliógrafo, dar uma vista de olhos às referências e às citações. Com o
actual panorama da distribuição, em que o "papel pintado" ocupa o espaço
todo, encontrar livros diferentes "faz" uma livraria diferente.
Chegado ao fundo, onde arrancavam as escadas para o andar de cima,
havia uma pequena montra de revistas, que com o tempo foi tendo cada vez
menos coisas, mas na qual a Seara Nova, a Política Operária e a revista de emigrados Latitudes permaneciam valentemente até ao fim. Era na Livraria Portugal que as comprava, com excepção da Política Operária que, depois de mudar de formato, passei a comprar na Letra Livre.
Estou
agora a dirigir-me à porta, do outro lado do U. Aí havia uma outra
banca única, com revistas em formato livro, monografias, estudos
históricos, com um número significativo de livros estrangeiros,
brasileiros, franceses e ingleses. Era também aí o único sítio em que
passava para trás das mesas acedendo às estantes, porque os fundos
especializados da livraria eram também únicos. História, geografia,
genealogia, monografias locais, portuguesas e "ultramarinas", eram já
uma sobrevivência do tempo em que a livraria servia de novidades os
departamentos das universidades americanas, que usavam o Boletim Bibliográfico
para as suas encomendas. Olhava para o lado esquerdo das mesas do meio,
mas aí já era raro encontrar alguma coisa e passava por cima da última
mesa que tinha livros médicos. Estava junto da caixa, e era aqui que
normalmente conversava com quem trabalhava na livraria, gente, como já
disse atrás, muita sabedora que conhecia o mundo dos livros como
ninguém. Numa entrevista dada ao jornal i, quando se soube do encerramento, um deles disse: "Nunca tive outra vida senão esta."
Não
foi por minha falta que a livraria fechou, sempre lá comprei muitos
livros e mesmo já com a Fnac em vida, fiz sempre questão de passar pela
Livraria Portugal antes de subir a rua e de lá ir comprar mais uns
livros. Mas o fim da livraria estava já anunciado há muito tempo. Ainda o
discuti com os seus empregados, chamando a atenção para que em Lisboa
não havia (e não há) uma única livraria inglesa decente, e que isso
oferecia um "nicho de mercado" que ninguém ocupava. Mas sabia, como
sabiam os meus interlocutores, que para arrancar um projecto deste tipo
era preciso investir muito dinheiro e ninguém o tinha.
Vai pois
acabar a Livraria Portugal e juntar-se às minhas memórias da velha
Leitura no Porto, da Buchholz sob a férula alemã "não se pode mexerrr" e
de mais alguns fantasmas. Eram livrarias de pessoas, feitas de pessoas e
para as pessoas, em que os livros não eram instrumentais, mas eram um
"mundo" em que todos participavam. Esse mundo está a desaparecer para o
comum dos portugueses e a deslocar-se para os consumidores "de culto" ou
para os consumidores de "papel pintado" e capas todas iguais, ou para
aqueles que dizem que lêem no iPad e não lêem coisa nenhuma.
Parte desta mudança é inevitável, e não é má em si porque para muita
gente significa que vai continuar a ler: não faço parte dos nostálgicos
do cheiro dos livros, nem das más livrarias, mesmo com cem anos. Mas das
boas livrarias tenho pena que despareçam e prescindo que me dêem lições
de mercado e da "destruição criativa" schumpeteriana. Não é isso que
está em causa, mas aquilo que, num balanço geral, feito por qualquer
Deus que veja tudo, significa mais pobreza, menos qualidade, mais
deserto afectivo como os "likes" do Facebook, mais tijolos da moda, e menos livros que sejam livros na mão de quem os vende e na mão de quem os compra.
(Versão do Público de 18 de Fevereiro de 2012.)
*
Também recebi a notícia do fecho da Portugal com
resignação, mas sem grande surpresa; a lista de livrarias de Lisboa
desaparecidas nas últimas duas décadas, e donde tenho muitas memórias da
minha juventude, não pára de aumentar: a Escolar Editora dos
Restauradores, a Arco-Íris, a Citação, na Rua dos Fanqueiros (não tenho a
certeza se esta já desapareceu mas, da última vez que lá fui, era
apenas um resquício do que tinha sido).
Mas o serviço bibliográfico da Portugal era único, e
é uma perda real. Não posso dizer que tenha grandes saudades do
atendimento do andar de baixo que, tal como na maior parte das livrarias
da Baixa, era fortemente classista (agora, nalgumas até mais antigas, é
simplesmente incompetente), mas a Portugal não era das piores e esta
pequena crítica não se estende ao atendimento do serviço bibliográfico,
nem ao "meu" andar, o de cima.
O meu percurso na Portugal também tinha os seus
rituais: entrava e dirigia-me, a direito, à escada espelhada, com
corrimão de madeira, do fundo; daí subia e parava na estante logo a
seguir, onde habitavam, por esta ordem, a Geografia, a Metemática e as
Ciências Biológicas, inspeccionava a mesa à esquerda, onde também se
encontravam livros científicos que não existiam em mais lado nenhum, e
seguia para aqueles curiosos nichos, que ficavam junto das janelas; no
que dava para Santa Justa, estava a Física e a Quimica, noutro, que dava
para a Rua do Carmo, estava a Engenharia Electrotécnica (o meu estudo
"oficial"). No piso térreo, um destes nichos (se não me engano, o
terceiro a contar da porta de entrada), tinha livros muito curiosos de
Filosofia e Linguística.
Quando soube do fecho fui ver, nos meus livros, os
que tinham o característico autocolante prateado; muitos, já não os
consulto há anos, desde que mudei a minha língua principal de leitura do
Português para o Inglês e, em boa verdade, nas nossas livrarias era
muito mais comum encontrar péssimas traduções brasileiras (as da MIR
eram uma fonte interminável de anedotas), do que as obras originais,
cujo preço então era proibitivo, e só se podiam obter de encomenda
(mesmo assim, ainda aprendi muito com os agora velhinhos dois volumes do
"Cálculo" do Tom Apostol, com a "Física" do Alonso & Finn e com os
vários volumes do Landau & Lifshitz). Também aprendi muito com um
outro nicho do andar de baixo, que já mencionei: foi lá que encontrei
traduções portuguesas, hoje provavelmente já esquecidas, dos Diálogos de Berkeley, dos Problemas de Russell (a tradução de António Sérgio), a Razão, Verdade e História de Putnam e uma (surpreendentemente boa) tradução da obra principal do primeiro filósofo que estudei sistematicamente: The Logic of Scientific Discovery,
de Popper (que eu saiba, ainda não há hoje uma tradução portuguesa
deste livro, mas não acho isto surpreendente: os filósofos da escola
Anglo-Saxónica têm muito pouca expressão cá). Também não consigo
resistir a escrever sobre as razões que levaram um Engenheiro
Electrotécnico, com inclinação para a Matemática, para estes filósofos. A
principal delas é a de ser um primitivo (por muitos anos) Pré-Bolonha;
na altura, uma das cadeiras do primeiro ano do Técnico era justamente
História e Filosofia da Ciência (espero que o nome, tirado apenas da
memória, esteja correcto), e eu encontrei tantos pontos de desacordo com
o responsável, o já falecido Prof. Resina Rodrigues, que resolvi
começar a ver algumas coisas por conta própria; esta vontade, que ainda
mantenho, devo-a a ele. Bom, mas hoje isso é um "saber inútil", tal como
tantos outros que estudei e que apenas atrapalham (ou será que devia
dizer "complexam"?) a minha função de engenheiro; coisas que os
"qualificados" (palavra que, tal como dizia o outro, me dá uma vontade
enorme de sacar da pistola) de hoje já não sofrem...
Quando comecei a poder comprar mais alguma coisa, o
meu percurso mudou: logo a seguir às estantes, virava à direita, pela
porta envidraçada, subia as escadas e estava no serviço bibliográfico.
São daí as minhas últimas recordações da Portugal: a procura nas dezenas
de gavetas de arquivo e nos catálogos, o preenchimento da encomenda e
depois os dois meses de espera da praxe, até que chegava o postal a
dizer que já tinham lá o livro. Quando este serviço começou a
degradar-se, confesso que deixei de ir à Portugal (e à maior parte das
livrarias de Lisboa) pois, para quem tem o seu ponto de referência do
lado anglo-saxónico, o aparecimento da Amazon foi uma libertação.
Concordo consigo quando diz que "não é a mesma coisa" mas, no meu caso, a
liberdade de escolha mais que compensa o ritual da ida à livraria e,
por isso, assumo a minha parte da culpa do seu desaparecimento, e esta
não é tão leve quanto possa parecer: desde há anos que assisto ao
desaparecimento de muitos marcos da minha juventude, não vendo aparecer
outros que sirvam de renovação, e esta forma particular da Seta do Tempo
deixa-me triste.
João Carlos M. A. Soares
*
Muito interessante o seu post sobre a livraria Portugal.
Eu nunca fui frequentador assíduo da Portugal, mas gostava de lhe deixar uma reflexão:
O
ritual do “passeio” pela livraria, o ser surpreendido e trazer algo
que, se não nos aparecesse à frente dos olhos, nunca procuraríamos, é
uma alegria para um leitor.
Mas,
tenho para mim, que, paradoxalmente, essa é a razão para o declínio das
livrarias com livreiros, com escolha editorial, com livros que fogem da
medíocre oferta presente - no fundo, com qualidade.
É que isso implica escala.
Eu
frequentava muito uma pequena livraria em Lisboa – era óptima, os
empregados eram os donos; dava gosto ir lá e não andar à procura de
literatura pelo meio de lixo.
Qualquer
pergunta sobre autor/livro era prontamente respondida, como se
conhecessem todos os livros que vendiam (e, provavelmente, assim era).
Aconselhavam, criticavam, sugeriam e, muitas vezes até, impunham – que
bom!
Mas
aconteceu-me uma coisa curiosa, depois de ir lá 20-30 vezes, comprando
alegremente muitos livros, começou-se a tornar monótono – já conhecia as
prateleiras de cor e salteado. Sempre que queria um livro específico,
muitas vezes não havia, acabando por encomendar. E, confesso, isso
tirava-me algum prazer – o de ir lá, e à noite não estar já a devorar o
que queria; ou, o ser surpreendido, e trazer um substituto ou um
complementar (ou todos!). Comecei a ir cada vez menos – e fechou!
Assaltou-me um sentimento de perda, e de culpa (pois, quando criamos uma
relação sentimental, acabamos por considerar que tivemos alguma
responsabilidade; que podíamos ter feito mais).
Concluindo,
o seu (meu) ritual é a morte das livrarias de qualidade – as grandes,
como a Portugal, não conseguem concorrer com as Fnacs; as pequenas,
sendo poucas, e não tendo grande movimento/rotação, rapidamente tornarão
esse ritual monótono e previsível.
Como
é que isto se resolve? Só com massa crítica – que, em Portugal,
claramente não temos (nem me atrevendo a calcular quantas gerações
precisaremos para a ter!).
TALVEZ NA GRÉCIA FOSSE POSSÍVEL FAZER DE OUTRA MANEIRA (5)
A CEGUEIRA EUROPEIA
A grande vantagem hoje de serem os gregos a gerirem a sua própria crise, é a de travar um nacionalismo anti-europeu e anti-alemão, agravado pelos elefantes europeus que bailam no meio da loja de porcelana. É que este é um factor que dá aos extremistas, de direita e de esquerda, um terreno favorável, muito mais do que a austeridade por si só. Mas, como isto está para lá do economês, os praticantes desta arte ainda pensam que é só a austeridade que mobiliza os gregos. Infelizmente é outra coisa muito diferente e cada vez mais perigosa.