ABRUPTO

17.12.11


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE

Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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PROBLEMAS DO PRESENTE OCULTADOS PELO ECRÃ SÓCRATES – TROIKA 


O problema de uma verdadeira reforma administrativa em Portugal, cuja organização do território em unidades administrativas e políticas data em grande parte do século XIX, é real. É fonte de desperdício, de desigualdades profundas no plano político e social e de distorções na representação democrática. É igualmente caro e ineficaz. 

A troika identificou esse problema e propôs uma solução: extinguir municípios e freguesias. A partir daí nós devíamos fazer bastante melhor e abrir uma discussão em que as pessoas, as organizações, os saberes (geografia, por exemplo), e uma ideia do “desenho” de Portugal, tivessem a capacidade de racionalizar o país. Não é nada que não se pudesse fazer bem em cerca de dois anos, máximo. Fazer bem, não à trouxe-mouxe. 

Mas nada disso vai acontecer. Vamos mexer nas freguesias, o que eu acho bem desde que essa mexida, extinções e fusões, fosse ligada com idêntico processo nos concelhos. Só assim é que poderia haver coerência nas soluções e consistência nos ganhos, em custos, representação, democracia local e nacional. Mas isso não vai acontecer porque o mesmo governo que anda sempre com a palavra troika na boca, cedeu aos interesses partidários locais e não vai mexer nos concelhos, mas apenas nas freguesias. As freguesias são elo político mais fraco e é por aí que se vai. Mas, uma coisa sem a outra, torna tudo ainda mais perverso. Sem redesenhar os concelhos e, nesse processo, mudar as freguesias que nalguns casos teriam mais sentido unindo territórios entre concelhos, não haverá verdadeira reforma administrativa, mas uma desfiguração de aldeias e territórios, sem ganho para ninguém.

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  HOJE DE NOVO 



  • TANGOS
  • REINO UNIDO – CAMPAIGN FOR NUCLEAR DISARMAMENT (CND)
  • PROJECTO “AMIGOS MAIORES QUE O PENSAMENTO”
  • LA CROISADE CONTRE-RÉVOLUTIONNAIRE
  • PCP – 1º ENCONTRO NACIONAL DE PEQUENOS E MÉDIOS COMERCIANTES (1975)
  • EUA – AUTOCOLANTES FEMINISTAS DOS ANOS 60-70 DO SÉCULO XX
  • A INTERNACIONAL – VERSÕES E EDIÇÕES
  • SPGL – PROPOSTAS E VOTAÇÃO DA REVISÃO DOS ESTATUTOS (FEVEREIRO DE 2006)
  • TRIBUNAL CÍVICO HUMBERTO DELGADO – BOLETIM
  • DIRECÇÃO-GERAL DE CENSURA À IMPRENSA – BOLETIM Nº 3 – SEMANA DE 28 DE MARÇO A 2 DE ABRIL DE 1932
  • DIRECÇÃO-GERAL DE CENSURA À IMPRENSA – BOLETIM Nº 2 – SEMANA DE 20 A 27 DE MARÇO DE 1932
  • PLATAFORMA 15 DE OUTUBRO – CARTAZES
  • EUA – SOCIALIST PARTY USA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2012 – CANDIDATURA DE STEWART ALEXANDER
  • SINDICATO NACIONAL DOS OPERÁRIOS ALFAIATES, COSTUREIRAS E OFÍCIOS CORRELATIVOS DO DISTRITO DE AVEIRO
  • ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS DE 1997 – PSD – OEIRAS
  • ELEIÇÃO DO REPRESENTANTE DOS TRABALHADORES PARA A COMISSÃO DE FISCALIZAÇÃO DA TABAQUEIRA (26 DE FEVEREIRO DE 1987)
  • SBSI – ELEIÇÕES DE 1 DE ABRIL DE 1978
  • COMISSÃO DE TRABALHADORES DA TLP – ELEIÇÕES DE 14 DE FEVEREIRO DE 1980
  • DIRECÇÃO-GERAL DE CENSURA À IMPRENSA – BOLETIM Nº 1 – SEMANA DE 13 A 20 DE MARÇO DE 1932
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 5399 (19 DE AGOSTO DE 1955) / RELATIVO A “LES MAINS SALES” DE JEAN-PAUL SARTRE
  • IRLANDA – IRISH REPUBLICAN SOCIALIST PARTY
  • DOCUMENTOS SOBRE A REVOLTA DE 7 DE FEVEREIRO DE 1927
  • EUA – NOVA IORQUE / LOS ANGELES – MARCH TO END THE WAR (22 DE ABRIL DE 1972)
  • LE JEUNE GARDE ROUGE
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 2805 (18 DE ABRIL DE 1945) / RELATIVO A “TERRA MORTA” DE CASTRO SOROMENHO
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 2920 (17 DE SETEMBRO DE 1946) / RELATIVO A “BLOCO” DE JAIME SALAZAR SAMPAIO
  • DINAMARCA – ENHEDSLISTEN (VENSTRESOCIALISTERNE+ DANMARKS KOMMUNISTISKE PARTI +SOCIALISTISK ARBEJDERPARTI+KOMMUNISTISK ARBEJDERPARTI)
  • COLECÇÃO DE EPHEMERA DE MAURÍCIO PINTO – PUBLICIDADE ESTRANGEIRA
  • UM GRUPO DE PATRÕES DESEMPREGADOS
  • DINAMARCA – DET RADIKALE VENSTRE
  • ALAMBIQUE
  • EL AVISPERO
  • CENSURA – S.T. (BOLETIM ZONA SUL?) SEMANA DE 23 A 31 DE JANEIRO DE 1933
  • CENSURA – CORTES FEITOS NAS PUBLICAÇÕES CENSURADAS NAS DELEGAÇÕES DA ZONA SUL (DE 16 A 29 DE JANEIRO DE 1933)
  • MOVIMENTO SOCIAL DEMOCRATA
  • COMISSÃO PARA A LIBERTAÇÃO DE RUI GOMES
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 7888 (3 DE JULHO DE 1962) / REVISÃO DE 1965 / RELATIVO A “UMA NOITE E NUNCA” DE URBANO TAVARES RODRIGUES
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 6922 (23 DE AGOSTO DE 1961) / RELATIVO A “NUS E SUPLICANTES” DE URBANO TAVARES RODRIGUES
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 7876 (21 DE SETEMBRO DE 1966) / RELATIVO A “IMITAÇÃO DA FELICIDADE” DE URBANO TAVARES RODRIGUES
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 8989 (19 DE ABRIL DE 1971) / RELATIVO A “AS TORRES MILENÁRIAS” DE URBANO TAVARES RODRIGUES
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 8863 (30 DE SETEMBRO DE 1970) / RELATIVO A “MAIO E A CRISE DA CIVILIZAÇÃO BURGUESA” DE ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA
  • EMBLEMAS E PINS ANTI-RACISTAS
  • FEDERAÇÃO MUNDIAL DA JUVENTUDE DEMOCRÁTICA – 17º FESTIVAL MUNDIAL (JOANESBURGO, ÁFRICA DO SUL) – (DEZEMBRO DE 2010
  • GRUPO DA ASSEMBLEIA DE CRISTÃOS DA SÉ / GRUPO DE CRISTÃOS PROGRESSISTAS DA SÉ / COMISSÃO DE MORADORES DAS FONTAINHAS / CENTRO SOCIAL DE SANTANA / CENTRO SOCIAL DA JUVENTUDE DO CODEÇAL / COMISSÃO DE MORADORES DA SÉ
  • ELEIÇÕES LEGISLATIVAS DE 1969 – BOLETINS DE VOTO

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    EARLY MORNING BLOGS  



    2122 -  Resolution And Independence
    But, as it sometimes chanceth, from the might
    Of joy in minds that can no farther go,
    As high as we have mounted in delight
    In our dejection do we sink as low,
    To me that morning did it happen so;
    And fears, and fancies, thick upon me came;
    Dim sadness, and blind thoughts I knew not nor could name.

    I heard the Sky-lark singing in the sky;

    And I bethought me of the playful Hare:
    Even such a happy Child of earth am I;
    Even as these blissful Creatures do I fare;
    Far from the world I walk, and from all care;
    But there may come another day to me,
    Solitude, pain of heart, distress, and poverty.

    My whole life I have liv'd in pleasant thought,

    As if life's business were a summer mood;
    As if all needful things would come unsought
    To genial faith, still rich in genial good;
    But how can He expect that others should
    Build for him, sow for him, and at his call
    Love him, who for himself will take no heed at all?
     
    (continua.)

    (William Wordsworth)

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    16.12.11


    TIREM SÓCRATES E A TROIKA DO MAPA VERBAL E DEIXA DE HAVER DISCURSO POLÍTICO EM PORTUGAL 

    Imaginem que se podia proibir dois elementos chave do discurso político em Portugal: de um lado, a pesada herança e Sócrates o seu autor, e do outro a troika e o seu “plano” maquiavélico. PSD. PS. CDS, PCP, e BE ficavam sem discurso político. Será que não se pode pensar sem estes dois bordões, que já cumpriram o seu papel? 

    Eu não estou a dizer que nem Sócrates, um dos grandes culpados, nem a troika, a face da nossa desgraça de país endividado, não sejam fundamentais para perceber o presente, só estou a perguntar se nada aconteceu depois e se não há mais nada para dizer. Não é a sombra de Sócrates que explica a maioria das posições do PS hoje, é a sombra do PS e dos seus mitos e do seu discurso vulgar. Não são as obrigações com a troika que explicam tudo o que o governo Passos Coelho tem feito ou não. São outras coisas, outras ideias, outros interesses. 

    Enquanto ficarmos no discurso tipo partidário-parlamentar do “fizemos isto porque vocês deixaram o país em mísero estado” versus “a culpa é da troika estrangeira que nos leva a uma solução desastrosa à grega”, não conseguimos sequer pensar o mínimo sobre a situação actual. A vida política parece um “combate” de blogues. É que cada dia que passa, o contexto, o país, a memória, a realidade, se afastam mais da situação de Janeiro de 2011 e é necessário outro escrutínio, outro posicionamento das questões.

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    COISAS DA SÁBADO: A DOENÇA QUE ROÍ POR DENTRO A UE…


    … vai tornar inútil quase tudo o que foi decidido na cimeira da “última oportunidade”, como aliás os temíveis mercados já começaram a mostrar. A cimeira assentou num diagnóstico errado, logo numa terapêutica igualmente errada e depois foi conduzida de maneira tão autoritária por Sarkozy e Merkel que conseguiram a alienação do Reino Unido, um soar de finados sobre a Europa. Para além disso abriram uma caixa de Pandora de problemas institucionais, legais, constitucionais e de legitimação política, pura a simplesmente gigantescos. Cegueira pura e cegueira deliberada, porque todas as prevenções foram feitas em devido tempo.

    A doença é outra, de natureza muito diferente das maleitas que têm sido diagnosticadas pelos europeístas mais extremos, e tem a ver com o modelo europeu, a posição da Europa num mundo globalizado, a crise da indústria europeia, os problemas de competitividade gerados pelo “modelo social” e pela demografia e por aí adiante. Nenhum destes problemas precisa, para ser defrontado, de novos tratados ou alterações dos tratados. Precisa de vontade política, prudência e “espírito europeu”. 

    Para os europeístas extremos, o que falta é ir mais longe no federalismo, é haver “governo económico”, emissão de moeda do BCE ou eurobonds, tudo soluções que levantam dois problemas que, esses, ninguém quer defrontar. Um é que o federalismo e o “governo económico” não correspondem à vontade dos povos e das nações e só encontram verdadeiro entusiasmo numa minoria muito minoritária de intelectuais, funcionários e políticos que sonham com uns Estados Unidos da Europa, e em países endividados que estão dispostos a tudo para aliviar as suas finanças, mesmo a prescindir da sua soberania e da sua democracia. É aqui que o primeiro problema remete para o segundo: é que todas as medidas propostas têm um ónus: são os alemães a paga-las.

    A questão não é a Alemanha não querer soluções como a emissão de moeda pelo BCE, com a inflação que isso traria, ou os eurobonds que agravariam o preço do dinheiro dos alemães que tem tripo A, ou incumprimentos sem sanções, é que todas estas soluções assentam num facto indesmentível: sem haver alemães a pagar do seu superavit o deficit alheio, não há “governo económico” possível. Esta realidade poderia ser ultrapassada se o projecto europeu de coesão social estivesse vivo, mas foi morto na última década pela engenharia utópica de um upgrade europeu que ninguém desejou, nem validou. Agora é interesse nacional, versus interesse nacional, sem ecrã, sem mediação, sem moderação. Os países que se preparam para assinar um acordo de divisão da Europa, vão institucionalizar este sistema e matar de vez a UE.

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    EARLY MORNING BLOGS  



    2122 -  Resolution And Independence
    There was a roaring in the wind all night;
    The rain came heavily and fell in floods;
    But now the sun is rising calm and bright;
    The birds are singing in the distant woods;
    Over his own sweet voice the Stock-dove broods;
    The Jay makes answer as the Magpie chatters;
    And all the air is fill'd with pleasant noise of waters.

    All things that love the sun are out of doors;
    The sky rejoices in the morning's birth;
    The grass is bright with rain-drops; on the moors
    The Hare is running races in her mirth;
    And with her feet she from the plashy earth
    Raises a mist; which, glittering in the sun,
    Runs with her all the way, wherever she doth run.

    I was a Traveller then upon the moor;
    I saw the Hare that rac'd about with joy;
    I heard the woods, and distant waters, roar;
    Or heard them not, as happy as a Boy:
    The pleasant season did my heart employ:
    My old remembrances went from me wholly;
    And all the ways of men, so vain and melancholy.



    (continua.)

    (William Wordsworth)

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    12.12.11


    ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE

    Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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    REFERENDO SIM!


    Pensam que está tudo resolvido e que o "Pacto" vai de vento em popa? 
     
     “O presidente do "Bundestag", Norbert Lammert, manifesta dúvidas sobre a constitucionalidade das medidas acordadas na Cimeira Europeia da última sexta-feira. Estas podem ser chumbadas pelo Tribunal Constitucional, teme. (...) Especificamente, Lammert questiona a hipótese de a Comissão Europeia vir a interferir na gestão do Orçamento do Estado. ” (Jornal de Negócios – Negócios online, 12 Dezembro 2011 | 11:09).

    Bem pelo contrário, só agora é que começaram  as complicações.  Veja aqui.

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     EU SEI QUE NÃO VALE A PENA

    Parece que incomodo uns radicais de esquerda e outros de direita, muito irmanados nos ataques ad hominem. Percebo muito bem porquê: conheço-os bem demais do que eles gostariam que os conhecesse. Eles sabem disso e incomoda-os, porque os tomo ao ridículo e eles tomam-se demasiado a sério. Para além disso, há uma frase de George Bernard Shaw que contém uma verdade muito universal: “I learned long ago, never to wrestle with a pig. You get dirty, and besides, the pig likes it”. A blogosfera está cheia de exemplos de que “eles gostam” e de como se promovem assim. Por isso, por regra, nunca respondo 

    Há porém agora uma nova versão destes ataques que é a invenção de histórias falsamente testemunhais em que apareço como parte e que são, pura e simplesmente, inventadas. Nem sequer são apenas deturpadas, falsas, são inventadas. De uma ponta a outra. E como na Internet nada se cria e tudo se transforma, elas circulam repetidas dia a dia ganhando nessa repetição o estatuto de verdadeiras. Desde os 20.000 livros que eu teria dito ter lido, história que Baptista Bastos repete ano sim, ano não, mesmo depois de eu lhe ter perguntado onde é que tinha ido buscar tal "afirmação" e ele não ter respondido, às várias  audições "embevecidas"  de Duarte Lima a tocar órgão, igualmente inventadas, por aí adiante.

    Talvez o melhor exemplo é uma história  retirada do livro da Zita Seabra, que se percebe no contexto, porque era assim que uma comunista do PCP pensava em 1965, - (como é que era possível que alguém conhecesse Marx e não quisesse fazer parte do glorioso partido da classe operária?), - mas que contém suficientes incongruências cronológicas para não ser tomada a sério. Aliás, já a desmenti várias vezes, inclusive numa entrevista recente ao i, mas lá está na minha “biografia” da Wikipedia e um pouco por todo o lado. Só quem não viveu aqueles tempos é que pode pensar que os mais de seis anos passados entre o princípio da história e o seu fim não fossem seis séculos em que tudo mudou e tudo estava mudado. Mas não é a veracidade da história, desta e doutras,  que as fazem circular, é a vontade de alguns de que sejam verídicas porque lhes é útil, um mecanismo muito comum na propulsão destas “histórias”. 

    De vez em quando aparece outra. Uma delas, com origem num blogue extremista de esquerda, envolve um morto que não pode ser chamado à colação, André Martin. Martin teria contado a terceiros uma conversa comigo na TSF, que, ou foi inventada por ele, ou por quem a relata como se fosse dele. Qualquer pessoa que me conhece sabe que tal conversa seria impossível comigo, ponto final. Aliás, como quase todas as histórias inventadas, é demasiado perfeita para ser verdadeira. Gozar alguém por ser torturado ou com alguém que fala com sotaque, é uma impossibilidade num ou noutro caso. Juntos os dois casos, porque, como é tudo invenção, valem o mesmo. Sei o bastante sobre a tortura na América latina para nunca o fazer, e gosto de sotaques, pouca sorte para os inventores desta história. Não excluo a hipótese de Martin, com quem praticamente nunca falei a não ser bom dia e boa tarde, a ter inventado. Há um mecanismo psicológico que faz com que as pessoas inventem “factos“ que as relacionam com alguém que tem a maldição de ser demasiado conhecido, quer positiva, quer negativamente. Já não é a primeira vez que isso me acontece e não será a última. Sei também que não adianta desmentir nada, a história, essa e outras, continuarão a circular. Como disse antes, é a vontade de alguns de que seja verídica, que a faz circular, porque isso é útil para os ataques de carácter.

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    EARLY MORNING BLOGS  

    2121 - Blowin' in the Wind


    How many roads must a man walk down
    Before you call him a man?
    Yes, 'n' how many seas must a white dove sail
    Before she sleeps in the sand?
    Yes, 'n' how many times must the cannon balls fly
    Before they're forever banned?
    The answer, my friend, is blowin' in the wind,
    The answer is blowin' in the wind.

    How many times must a man look up

    Before he can see the sky?
    Yes, 'n' how many ears must one man have
    Before he can hear people cry?
    Yes, 'n' how many deaths will it take till he knows
    That too many people have died?
    The answer, my friend, is blowin' in the wind,
    The answer is blowin' in the wind.

    How many years can a mountain exist

    Before it's washed to the sea?
    Yes, 'n' how many years can some people exist
    Before they're allowed to be free?
    Yes, 'n' how many times can a man turn his head,
    Pretending he just doesn't see?
    The answer, my friend, is blowin' in the wind,
    The answer is blowin' in the wind.


    (Bob Dylan)

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    11.12.11

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    ESTRAGAR O POUCO QUE RESTA 


    Eu sou o último dos ecologistas, "verdes", ou coisa semelhante. Sempre tive uma grande desconfiança com as posições ecologistas e um enorme cepticismo quanto ao pano de fundo dos seus argumentos. Não fui muito sensível às "gravuras que não sabiam nadar". Sou céptico quanto aos movimentos, discursos e demagogias sobre o "aquecimento global", transformados numa vaga ideologia anti capitalista e anti-industrial, que ignora que o nosso modelo de desenvolvimento, predador que seja, e é, garante apesar de tudo um mínimo de qualidade de vida para biliões de pessoas que nunca conseguiriam aceder a esse limiar sem estragar parte da natureza quase sempre sem conta, peso, nem medida. Desconfio da retórica catastrofista com o "aquecimento global" e estou muito do lado de Bjorn Lomborg nos seus argumentos contra a demagogia ambientalista que se tornou um discurso politicamente correcto nos últimos anos, nos países simultaneamente mais ricos e nos únicos que podem controlar alguma coisa a predação da natureza, exactamente porque são ricos e podem pagar esse luxo que China, Índia e Brasil não podem.

    Dito isto, que me coloca na lista negra dos ambientalistas - já no Parlamento Europeu, eu e Vasco Graça Moura estávamos na lista dos menos "verdes" dos deputados -, vou terçar as frágeis armas da opinião pela causa do vale do Tua e, por extensão, do Alto Douro vinhateiro e do que não é vinhateiro, mas simplesmente belo como pouca coisa portuguesa que reste. E isto significa que entendo que é um verdadeiro crime e uma asneira, infelizmente com uma sólida tradição de outras asneiras por trás, construir a barragem prevista para o Tua.

    O que temos no vale do Tua, o rio, o vale, a linha ferroviária, o equilíbrio da terra, da água, das escarpas, da vegetação, do vento, da solidão agreste, é hoje único em Portugal. Ou seja, não há mais. Acaba-se com o vale do Tua e com excepção de alguns trechos fluviais, muito mais pequenos e sem a dimensão agreste do Tua, já não existe nada de semelhante em lado nenhum. Estamos diligentemente a acabar com outro destes vales, o do Sabor, pelo que sobra apenas o Tua.



    Eu tive ainda o privilégio de andar na Linha do Tua (como na do Corgo, igualmente encerrada) e era uma viagem inesquecível, que certamente será um must em qualquer turismo de amadores de comboios, popular em países como o Reino Unido e nos EUA. A "composição" era uma mescla de velho material ferroviário reciclado, que incluía máquinas espanholas e jugoslavas e carruagens italianas dos anos 30. A linha não era então turística, nem nada que se pareça, mas uma linha ferroviária normal, servindo o tráfego normal, as pessoas da terra e das aldeias que tinham no comboio o único meio de transporte que existia. Era um mundo do passado, percebia-se por tudo, pela lentidão, pelo trajecto, pelo mundo que estava a acabar por detrás de estações com nomes bárbaros e som germânico, ou de santos cristãos.

    Mas o vale do Tua era o vale do Tua, um sítio belíssimo, onde o calor a pique do Verão, ou o despertar da Primavera ou as primeiras chuvas de Outono faziam a terra cheirar a terra, a urze, aos mil e um cheiros mediterrânicos que hoje só conhecemos dos livros, quando lemos os clássicos. Num sítio muito diferente e distante, conheci os mesmos cheiros e o silêncio quente perturbado apenas pelos besouros e por um vento suave e denso. Na Turquia, ao lado de velhas ruínas por escavar, algures no interior da Anatólia, já bem dentro da Jónia antiga. É o mesmo país, a mesma terra, a mesma história, a mesma pátria antiga que nos fez. Estivessem vivos homens como Orlando Ribeiro, e eles dir-nos-iam os elos que estamos a quebrar, não com o passado, mas com o presente e connosco próprios.

    Portugal é um país que tem destruído intensamente a sua paisagem natural nos últimos anos, tem uma grande densidade de barragens a norte e cada barragem é um vale de um rio que desaparece. As cumeadas dos montes já estão cheias de eólicas, e quase que não é possível em lado nenhum olhar à volta de um ponto alto, mesmo nos parques naturais, sem ver artefactos colocados bem diante dos nossos olhos nos últimos 20 anos. Já não sabemos, por exemplo, o que é uma noite escura, e por isso o espanto homérico com o céu e as estrelas é uma experiência que já "não nos assiste", para assentar os pés na terra em que verdadeiramente vivemos, a das trivialidades boçais.

    Eu sei que uma parte desta destruição era inevitável e faz parte de um difícil trade-off entre a economia, fonte de riqueza, os recursos a explorar, e o ambiente, mas, como estamos a chegar aos limites de tudo - últimos vales, últimos montes, ultimas paisagens -, esse trade-off esgotou-se nas suas virtualidades, e é hoje uma desvantagem cujos custos se pagarão num futuro próximo. As crianças que hoje nascem vão viver num mundo dominado pela poluição luminosa, de caos urbanístico, construções clandestinas mal-amanhadas e sem paisagem natural. Nunca vão ver a Via Láctea a não ser em fotografias, não sabem o que é um vale selvagem de um rio a não ser nos filmes americanos, nunca cheirarão a urze, nem saberão o que é uma giesta, não terão o vento na cara no cimo duma montanha, sem este trazer a marca conspurcada do mundo de lixo que começa logo uns metros mais abaixo, nunca verão um carvalho, nunca comerão uma truta sem ser de viveiro, não saberão o que é o silêncio "habitado" que muda o coração dos homens que o sabem ouvir.




    E, por isso, a sua relação com o mundo é, à partida, muito mais pobre e nunca compreenderão milhares de páginas da literatura da sua língua, nem Camilo, nem Eça, nem Aquilino, nem os poetas que falam de coisas que para eles são tão longínquas como ervas, arbustos, flores e frutos, que não estejam no hipermercado dos subúrbios. Estão a perder a língua, destruída alegremente entre os SMS e o Acordo Ortográfico, e a aumentar a geral dificuldade de leitura e compreensão de qualquer texto que tenha palavras que não constem do vocabulário gutural dominante.

    A EDP, que nos saúda com uma nova imagem (quantos milhões gastos e para quê?) e com um slogan Viva a nossa energia!, será vendida em nome do fim do Estado na economia, a uma qualquer empresa estatal brasileira ou chinesa, que certamente se está nas tintas para o que resta de paisagem natural em Portugal. Quase que posso jurar que, nas conversas de gabinete que ninguém escrutina, e que acompanham a privatização, a nossa "flexibilidade" (uma palavra dos tempos de hoje) para acomodar o pacote de barragens está a ser valorizada para subir o preço da empresa. Entre elas está o vale do Tua.

    Por isso, combater a barragem que destruirá o vale do Tua transformou-se numa luta de último recurso, uma última oportunidade para termos outra paisagem que não seja eucaliptal, albufeiras artificiais, praias sobrelotadas, montanhas esventradas por pedreiras, na maioria dos casos ilegais, mas a trabalhar diante dos olhos de todos há décadas, num Portugal já demasiado estragado.

    Estamos pois numa última fronteira, se é que não a ultrapassámos já.

    (Versão do Público de 10 de Dezembro de 2011.)

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    EARLY MORNING BLOGS  


    2151 - - Liberty

    For a hundred years the pulse of time
    Has throbbed for Liberty;
    For a hundred years the grand old clime
    Columbia has been free;
    For a hundred years our country's love,
    The Stars and Stripes, has waved above.
    
    Away far out on the gulf of years--
    Misty and faint and white
    Through the fogs of wrong--a sail appears,
    And the Mayflower heaves in sight,
    And drifts again, with its little flock
    Of a hundred souls, on Plymouth Rock.
    
    Do you see them there--as long, long since--
    Through the lens of History;
    Do you see them there as their chieftain prints
    In the snow his bended knee,
    And lifts his voice through the wintry blast
    In thanks for a peaceful home at last?
    
    Though the skies are dark and the coast is bleak,
    And the storm is wild and fierce,
    Its frozen flake on the upturned cheek
    Of the Pilgrim melts in tears,
    And the dawn that springs from the darkness there
    Is the morning light of an answered prayer.
    
    The morning light of the day of Peace
    That gladdens the aching eyes,
    And gives to the soul that sweet release
    That the present verifies,--
    Nor a snow so deep, nor a wind so chill
    To quench the flame of a freeman's will!

    (James Whitcomb Riley)

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    © José Pacheco Pereira
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