| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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26.11.11
(url) 25.11.11
O MUNDO QUE ESTAMOS A CRIAR (4)
Mas há pelo menos um aspecto que, não sendo novo, veio com clareza ao de cima. Eu acho uma patetice pensar que só a esquerda tem “sensibilidade social” e penso até que tem muito pouca e muito menos do que corpos sociais que a esquerda hostiliza, como a igreja. Mas o que transpira no actual discurso governamental é não só indiferença face ao empobrecimento generalizado dos portugueses, como a ideia implícita de que esse empobrecimento é moralmente bom, “purifica”, regenera. Salazar pensava assim, que a pobreza era uma virtude e muitos dos nossos governantes, como acham que tudo o que a mão do estado toca é por natureza impuro, aconselham dieta aos magros, como se a mortificação a que eles presidem fosse um castigo divino executado pela troika e seus mandantes.
Passos Coelho retirou 25% do poder de compra a centenas de milhares de portugueses, que estão longe de ser mais do que remediados, na melhor das hipóteses, e não teve para com eles uma palavra sequer. Bem pelo contrário, apontou-os no dia seguinte como privilegiados, e como alvo para todos os trabalhadores do sector privado. Nem o ministro das Finanças e nem o Ministro da Economia, são capazes de incorporar no seu discurso algo que revele qualquer preocupação social pelos efeitos das medidas que tomam. Bem pelo contrário aparece desprezo e um certo revanchismo social, seja por ignorância do que é o país, seja por razões ideológicas. O modo como se trata da questão do desemprego, é pelo menos, chocante na sua abstracção. Para eles, estar desempregado é uma pura abstracção, um número, uma estatística, infeliz por certo, mas nada mais.
Que os tempos são duros e a margem de manobra escassa, tudo bem. Mas não precisamos de tanto entusiasmo verbal em aplicar medidas gravosas para a maioria dos portugueses, não precisamos de tanta empatia com o programa da troika, precisamos era de mais simpatia pelos portugueses que estão a empobrecer. E acima de tudo não precisamos de todo da antipatia activa com os que estão a perder, como se eles fossem os culpados do que nos está a acontecer. Ou será que alguém pensa que um banqueiro, desses que influenciaram e patrocinaram a política de todos os nossos governos, tem menos culpas do que um motorista da Carris? É que parece que sim.
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O MUNDO QUE ESTAMOS A CRIAR (3)
Alguém que conheça os políticos e os partidos portugueses, o PS e o PSD, pensa que eles e os seus dirigentes têm hoje qualquer impulso para “reformar” seja o que for? O que se vê é que o que os mobiliza verdadeiramente é manter a sua base de apoio – regiões e autarquias – que é, por interessante coincidência, exactamente as áreas onde o governo mais tem cedido e onde o programa da troika é quase letra morta. Vão atirar sobre as freguesias, o elo mais fraco, onde há menos poder, porque nos concelhos não se pode mexer. No meio de cortes generalizados, as autarquias vão poder manter o nível de endividamento. Por aí adiante, como se vê com a televisão. Vejam lá se o governo prescinde do controlo da informação? Não prescinde, reforça.
Convém não esquecer que Passos Coelho e António José Seguro, o PSD e o PS, estariam hoje a fazer exactamente as mesmas propostas “desenvolvimentistas” que sempre fizeram, se não fosse terem a corda na garganta. Seguro nunca fez outra coisa naquilo que vagamente transpareceu para o público em geral da sua acção política passada. E Passos Coelho ainda há dois anos, já a crise batia em pleno, acusava Manuela Ferreira Leite de “não dar esperança ao país” e querer acabar com o TGV. Tirem-lhes a rédea da troika e vão ver que tipo de propostas apareceriam em cima da mesa.
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ESTA SEMANA DE NOVO
EM ACTUALIZAÇÃO
MANIFESTAÇÕES EM DIA DE GREVE GERAL (LISBOA, 24 DE NOVEMBRO DE 2011) – 3ª SÉRIE
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O MUNDO QUE ESTAMOS A CRIAR (2)
A maior das ilusões que está na essência da propaganda governamental, e que identifica quem a repete como um propagandista, é que o que se está a passar representa um plano reformista de “mudar o estado”, “mudar a sociedade”, e, infinita arrogância, “mudar de vida”. Quando ouço dizer que “temos que mudar de vida” apetece-me puxar da pistola que pulveriza os repetidores de slogans, mesmo sabendo que estamos a “mudar de vida”, estamos a empobrecer.
Não, não estamos a “mudar” nada, conforme um plano, conforme uma ideia estruturante, conforme um ideal político ou ideológico, ou sequer uma concepção do estado e da sociedade. Estamos pura e simplesmente em estado de pura necessidade a cortar despesas, poucas vezes com discernimento, a maioria das vezes à bruta, sem medir que as consequências podem sair bastante mais caras. Estamos, pura e simplesmente, nas mãos dos nossos credores mais benévolos, e em risco de cair nas mãos dos menos benévolos. Estes só mandam ocasionalmente dar um murro, os outros fazem a colecta à força de partir ossos e, para dar o exemplo, não se coíbem de despachar um devedor para o outro mundo. É a diferença entre credores benévolos e credores da mafia, a única motivação racional da vida política portuguesa.
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O MUNDO QUE ESTAMOS A CRIAR (1)
A crise vai durar muitos anos e a última coisa que está à vista é o seu fim. A metáfora do túnel é errada: não é um túnel, mas um poço, não estamos a caminhar na horizontal no escuro, estamos a cair na vertical no escuro. Stephen King saberia certamente descrever o terror que cresce com a consciência da queda inexorável.
(Continua.)
(url) (url) 24.11.11
EARLY MORNING BLOGS
2140 - Indifference
When I am dead I will not care
Forever more, If sky be radiantly fair Or tempest roar. If my life-hoard in sin be spent, My wife re-wed,-- I'll be so damned indifferent When I am dead. When I meet up with dusty doom What if I rest In common ditch or marble tomb, If curst or blest? Shall my seed be to wealth or fame, Or gallows led,-- To me it will be all the same When I am dead. So say for me no pious prayer, Be no tear shed; In nothingness I cannot care, I'll be so dead. I shall not reck of war or peace When I go hence: Lord, let me win sublime release,-- INDIFFERENCE!
(Robert William Service)
(url) 23.11.11
ESTA SEMANA DE NOVO
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EARLY MORNING BLOGS
2139 - The Descent
The descent beckons
as the ascent beckoned.
Memory is a kind
of accomplishment,
a sort of renewal
even
an initiation, since the spaces it opens are new places
inhabited by hordes
heretofore unrealized,
of new kinds—
since their movements
are toward new objectives
(even though formerly they were abandoned).
No defeat is made up entirely of defeat—since
the world it opens is always a place
formerly
unsuspected. A
world lost,
a world unsuspected,
beckons to new places
and no whiteness (lost) is so white as the memory
of whiteness .
With evening, love wakens
though its shadows
which are alive by reason
of the sun shining—
grow sleepy now and drop away
from desire .
Love without shadows stirs now
beginning to awaken
as night
advances.
The descent
made up of despairs
and without accomplishment
realizes a new awakening:
which is a reversal
of despair.
For what we cannot accomplish, what
is denied to love,
what we have lost in the anticipation—
a descent follows,
endless and indestructible .
(William Carlos Williams)
(url) 22.11.11
NEM UMA COISA NEM OUTRA
O
relatório do grupo de trabalho (GT) para a definição do serviço público
de comunicação social tinha que inevitavelmente suscitar polémica, em
particular porque toca em velhos tabus ideológicos que são transversais
da direita à esquerda. A direita entende que a televisão pública é um
factor "orgânico" de intervenção do Estado e da identidade nacional, e
desconfia, com uma intensidade quase semelhante à esquerda, da
liberalização da comunicação social. A esquerda acha que o "público", na
maioria dos casos apenas uma descrição da propriedade sem qualquer
significado em termos de conteúdos, é intrinsecamente superior ao
"privado" pelo próprio facto de ser... "público". Um aspecto, aliás,
muito interessante é ver a indiferença generalizada com que, à direita e
à esquerda, se acha normal o "público" perder a electricidade, a rede
eléctrica, algum controlo sobre os combustíveis, as águas, os
aeroportos, os transportes, e entra em guerra com as bandeiras
desfraldadas quando se trata dos órgãos de comunicação social do Estado.
Mesmo a esquerda assiste às privatizações da EDP, da Galp e da REN, já
em curso, com muita indiferença, enquanto o entusiasmo comprometido se
concentra todo na discussão sobre a RTP. Felizmente que a imprensa
escrita já foi privatizada, senão teria um remake das mesmas vozes que queriam que o Diário de Notícias e outros jornais permanecessem no Estado.
Tudo neste grupo de trabalho e no seu relatório me merece discordância: a comissão era um equívoco ambulante desde início, como, aliás, já tinha sido uma comissão semelhante no Governo Barroso; continuou a funcionar, salvo algumas honrosas demissões, quando decisões que deveriam esperar pelos seus resultados eram tomadas pelo ministro Relvas todos os dias e a desautorizavam; e, por fim, quando as suas conclusões, não sendo carne nem peixe, não servem nem para o Governo, que já tem há muito um plano definido para a RTP. Faltou ao grupo de trabalho prudência no existir e coragem no concluir e, por isso, acabou por ficar num vazio insatisfatório para todos e por prestar um serviço às ideias contrárias àquelas que tentou, em certas partes do relatório, exprimir. O Governo, depois de o utilizar como propaganda, condenou-o à irrelevância. Os defensores de que o Estado não deve ter órgãos de comunicação social (como é o meu caso) não se reconhecem no "serviço público" lá definido, e os seus adversários chamaram um pitéu às inconsequências e ambiguidades das suas conclusões. Saliente-se, no entanto, que o grupo de trabalho teve pelo menos a hombridade de, no relatório final, reconhecer que foi "ultrapassado nas suas funções" pelo ministro Relvas e que só continuou o trabalho porque recebeu garantias de que as decisões ministeriais entretanto tomadas sobre a RTP se aplicavam apenas aos anos de 2011-12. Também, com justiça para o grupo de trabalho, se deve salientar que este não acreditou no que lhe estava a ser dito porque é fácil, analisando essas medidas, perceber que elas correspondem ao modelo que o Governo pretende implementar, com grupo de trabalho ou sem ele. E o tipo de televisão que o Governo pretende fazer é claramente denunciado no relatório em palavras duras, que têm sido esquecidas pela comunicação social: "o GT teme em especial pelo modelo de informação que o Governo aparenta defender, por considerarmos que permitirá perpetuar a influência, quando não a interferência, do poder político, quer na televisão e na rádio públicas, quer na agência de notícias. Parece-nos por isso perniciosa a orientação (...) quanto às modalidades do serviço de informação do operador público e quanto à definição do modelo institucional e seus canais, assim como quanto à continuação da publicidade, que não só prejudica todo o sector, como inevitavelmente contamina os conteúdos e a programação." Por tudo isto, deixemo-nos de ingenuidades, ninguém tenha ilusões. A maioria dos violentos ataques que têm sido dirigidos ao relatório é feita por puras razões políticas pelos defensores da actual RTP, em que os canais públicos existentes (de televisão, mas também de rádio) são considerados intangíveis, como se a actual configuração de canais fosse em si mesmo o "serviço público". Os ataques são políticos e puramente políticos, mesmo quando se disfarçam de ataques "técnicos", como se a actual configuração da RTP fosse uma manifestação da "natureza" intrínseca do que é a televisão "europeia", logo civilizada. Aquilo a que alguns chamam os "erros técnicos" do relatório são um puro disfarce para fazer passar opções políticas face ao destino da RTP e que são tão técnicas como alguém decidir ser do Bloco de Esquerda, do PSD ou do PCTP/MRPP, ou gostar de frango ou de trutas. É política e pura política. O Governo, por sua vez, tentará colocar o relatório debaixo do tapete em tudo o que não lhe interessa e não desgosta de ver a pancada que este tem recebido, porque desvia as atenções para o que ele está a fazer na televisão e porque, em muitos aspectos, vai fazer o que os defensores da televisão do Estado desejam, com a provável excepção da privatização da RTP1. E o que pretende é claro: "modernizar" o modelo governamentalizado de televisão e rádio do Estado, deixando os anéis, e concentrando tudo nos dedos, e os dedos são, obviamente, o controlo da informação. A ênfase na RTP Informação, concorrendo no cabo contra os perigosos e imprevisíveis SICN e TVI24, feita com a enorme vantagem dos dinheiros dos contribuintes, somar-se-á à concessão da RTP, caso haja privatização a curto prazo, a favor de um grupo privado "amigo", cuja lógica só pode ser a da influência política, dado que, a tomar a sério todas as declarações dos principais actores privados na comunicação social, ZON, Vodafone, PT, Media Capital e Impresa, não há racionalidade económica para mais um canal privado. Neste contexto, o relatório abre, e bem, com a recusa da imutabilidade do chamado "modelo de serviço público europeu", que, "orwellianamente", não é nem "serviço público", nem europeu, na medida que o panorama televisivo é muito diferente no Reino Unido, em França, na Itália e na Polónia, sendo antes uma amálgama propagandista que confunde modelos muito distintos. Mas, como serve para "legitimar" a RTP tal como existe, usa-se. O relatório afirma, e de novo bem, que "a definição desse "serviço público" é (...) contingente e tem variado no tempo e no espaço. A sua associação aos ideais democráticos da Europa ocidental no pós-guerra é abusiva e enganadora. Países com outra dimensão territorial e populacional, assim como outra unidade linguística, como os Estados Unidos e o Brasil, não possuem "serviço público" de comunicação social com relevância mínima e não são menos democráticos por isso. Inversamente, não há ditadura - a começar pela portuguesa (1926-1974) - que não tenha desenvolvido aparelhos de comunicação e propaganda financiados pelo Estado e apresentados como sendo "serviço público"". E, para irritação dos paladinos das televisões do Estado, acrescenta que modelos como o que aqueles defendem são muito mais próximos das televisões sob controlo estatal, típicas dos regimes de ditadura, ou dos regimes híbridos que têm eleições, mas que não têm liberdade e primado da lei. Há, pois, que, antes de tudo, definir o que significa o "serviço público" de televisão, abandonada a concepção de que este significa canais de televisão e de rádio do Estado, e como é que, a partir daí, se devem definir os instrumentos desse "serviço". Continuaremos para a semana.
(Versão do Público de 19 de Novembro de 2011.)
(url) 21.11.11
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COISAS DA SÁBADO: LEITURAS PARA A CRISE DA DEMOCRACIA
A crise que atravessamos não é apenas económica, social e financeira, é também uma crise da democracia. Ela surge já há vários anos de forma larvar e agora apresenta-se com cada vez maior clareza aos nossos olhos. A crise do sistema económico capitalista, aquilo a que muitas vezes se chama eufemisticamente “economia de mercado”, impregna inevitavelmente a democracia como sistema político, arrastando-se numa crise conjunta. É irónico que poucos anos depois da afirmação universal do “fim da História”, pela vitória universal da democracia, se veja esta resvalar para uma “democracia restritiva”, com o retorno de velhas ideias sobre o “governo das competências” e a tecnocracia.
Vale a pena, por isso, voltar a ler os textos que resultaram de algumas das mais importantes experiências históricas da democracia, quer da Atenas (e não só) no século V AC, mas também desse outro momento fundador que foi a Revolução Americana do final do século XVIII. Uma reedição de um clássico editado pela Gulbenkian, com o título de O Federalista merece menção porque se trata de proporcionar uma antologia dos textos publicados por alguns dos “fundadores” da democracia americana. Hamilton, Madison e John Jay fazem parte de um grupo de homens absolutamente excepcionais que não só tiveram um papel crucial na própria revolução, incluindo a participação no combate militar, como puderam fazer uma reflexão intelectual sobre que “governo” queriam para o novo país.
Não a fizeram a partir do zero, mas da experiência da história grega e romana antiga, que conheciam bem, e de uma vontade de criar uma entidade política ex-nihilo que correspondesse a ideais fundamentais em política: liberdade, democracia, equilíbrio de poderes, respeito pela lei, participação popular, progresso material, direitos dos estados, “bom governo”.
A um dado momento da revolução, James Madison disse aos seus companheiros que iria retirar-se para estudar “todos as experiências de governo” na história, para poder sugerir a melhor para o novo país. Os textos de O Federalista são por isso vitais para percebermos o que está a funcionar mal na nossa democracia, porque, como estes homens de acção muito cultos já sabiam, não há muita coisa de novo sobre a terra e há sempre uma vantagem em estudar e debater.
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(NOT SO) EARLY MORNING BLOGS
2138 - Good-bye, and Keep Cold
This saying good-bye on the edge of the dark
And cold to an orchard so young in the bark
Reminds me of all that can happen to harm
An orchard away at the end of the farm
All winter, cut off by a hill from the house.
I don't want it girdled by rabbit and mouse,
I don't want it dreamily nibbled for browse
By deer, and I don't want it budded by grouse.
(If certain it wouldn't be idle to call
I'd summon grouse, rabbit, and deer to the wall
And warn them away with a stick for a gun.)
I don't want it stirred by the heat of the sun.
(We made it secure against being, I hope,
By setting it out on a northerly slope.)
No orchard's the worse for the wintriest storm;
But one thing about it, it mustn't get warm.
"How often already you've had to be told,
Keep cold, young orchard. Good-bye and keep cold.
Dread fifty above more than fifty below."
I have to be gone for a season or so.
My business awhile is with different trees,
Less carefully nourished, less fruitful than these,
And such as is done to their wood with an axe—
Maples and birches and tamaracks.
I wish I could promise to lie in the night
And think of an orchard's arboreal plight
When slowly (and nobody comes with a light)
Its heart sinks lower under the sod.
But something has to be left to God.
(Robert Frost)
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© José Pacheco Pereira
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