ABRUPTO

12.11.11


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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COISAS DA SÁBADOREMAKE

O único debate feito entre os dois concorrentes ao cargo de Primeiro-ministro em Espanha. Mariano Rajoy do PP, o putativo vencedor e Rubalcaba do PSOE, o socialista que substitui Zapatero, parecia um remake do debate Sócrates – Passos Coelho de antes das eleições portuguesas. Uma coisa é certa, haverá também, daqui a uns meses, no You Tube um vídeo de Rajoy, quando este for Primeiro-ministro, muito semelhante ao que por cá corre de Passos Coelho a fazer com enorme convicção (“comigo não contem para aumentar impostos…” “conheço bem a situação nacional…”) todo um vasto conjunto de promessas eleitorais que não vai cumprir.

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COISAS DA SÁBADO: GREVES 




Esta semana é de greves, a contestação, que é também um exercício democrático, que não está na moda. Não são os “indignados” dos cartazes engraçados que as fazem, mas gente mais dura, menos “mediática”, com outro mundo social e político, mais velha. É verdade que muitos são comunistas, ou companheiros dos comunistas, outros sindicalistas próximos do PCP e do PS, mas muitos são aqueles a quem a palavra “trabalhadores”, tão desvalorizada no “economês”, se aplica com pleno sentido. 

É um mundo cada vez mais desprezado pelo discurso dominante, os restos de um Portugal que já teve alguma indústria, alguns caminhos-de-ferro, algum transporte urbano e fluvial. São motoristas, electricistas, mecânicos, revisores, pessoal da secretaria, serralheiros, pessoal da linha, mil e uma profissões diferentes que hoje classificamos mais por serem do “sector público” do que por serem modos honrados de trabalhar. Não são os mais pobres nem os mais desprotegidos dos trabalhadores, mas seria suicidário criarmos uma sociedade que os culpabilizasse por isso, por razões que pouco têm a ver com a vida difícil que muitos levam. 

Se começamos a considerar que justos só são os absolutamente pobres, e que tudo por aí acima são privilegiados – um típico ponto de vista de quem está “por aí acima” - caminhamos para a visão da sociedade que tinha António de Oliveira Salazar. Que abominava as greves, como se sabe.

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EARLY MORNING BLOGS  

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« Le modernisme est un système de complaisance. La liberté est un système de déférence. La liberté est un système de courage. La liberté est la vertu du pauvre. »

(Charles Péguy)

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11.11.11


EARLY MORNING BLOGS
 


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不会撑船怪河弯 

"Um mau trabalhador queixa-se sempre das suas ferramentas".

(Provérbio chinês)

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8.11.11


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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OS GREGOS FIZERAM TUDO MAL E NO ENTANTO...

 Votos na democracia ateniense a favor do ostracismo.

Os gregos fizeram tudo mal, a começar por Papandreou, mas o seu anúncio de um referendo serviu para chamar a atenção da cada vez maior contradição entre o "processo europeu" e a soberania dos Estados, a democracia e a política democrática. Não é novidade para quem anda há muitos anos a chamar a atenção para as tendências anti-democráticas do processo europeu, mas talvez sirva agora para despertar os incautos. Nos últimos anos, a "construção europeia" tem sido essencialmente uma desconstrução da Europa dos fundadores, quanto às intenções, quanto ao método, quanto aos procedimentos. Substitui-se uma construção prudente e defensiva, que avançava lentamente e só perante grandes consensos dos Governos e dos povos, sublinho dos povos, para uma ideia iluminista de engenharia política utópica, sem legitimação popular e sem clareza e transparência por parte dos Governos. 

Escrevo isto no mais europeísta dos jornais portugueses, onde pouco se leu e muito menos se ouviu as críticas dos eurocépticos, que se revelam hoje mais sábias do que as proclamações optimistas dos "constitucionalistas europeus". Quando, no processo da Constituição Europeia, que implicava profundas mudanças na soberania dos Estados europeus e criava os fundamentos de uma entidade política nova com poder sobre os Estados soberanos, era evidente que era um erro avançar sem uma forte legitimação popular, exactamente o contrário do que se fez, após o fantasma do "canalizador polaco" ter pulverizado o iluminismo europeísta. Os governantes mais prudentes teriam travado e pensado de novo, os que nos caíram em sorte resolveram acelerar em vez de travar. Começou então uma correria de ludibrio e dolo, de que o melhor exemplo é o Tratado de Lisboa, aprovado com mil e um truques com um único objectivo: impedir as consultas populares que a rejeição da Constituição Europeia mais do que nunca obrigava, para dar legitimidade a um processo já ferido. Quebrou-se assim o elo de confiança entre o projecto europeu e os povos europeus, que, umas vezes melhor, outras pior, existia desde a II Guerra Mundial na Europa não-comunista. Associado ao processo de unificação europeia depois da queda do Muro de Berlim - algo que a NATO sempre conseguiu melhor do que a UE -, avançou-se a toda a velocidade numa cegueira que perseguirá sempre os seus responsáveis. Apenas a Alemanha se portou bem ao anexar a sua metade até então ocupada e pagar o preço altíssimo para a unificação que ainda hoje os alemães ocidentais pagam.

Asneira sobre asneira, aceitou-se que a Grécia entrasse no euro quanto toda a gente sabia que o dracma e a economia grega não reuniam as condições para a entrada, fez-se entrar na UE um conjunto de países de Leste com democracias frágeis, como a Roménia e a Bulgária, andou-se à roda dos problemas da agricultura polaca para evitar colocar em causa a agricultura francesa, alienou-se a Turquia, a quem se prometeu a entrada para depois a adiar indefinidamente, andou-se a brincar à competição com os EUA, ao mesmo tempo que todos os projectos credíveis para uma defesa europeia ficavam no papel, etc., etc. O que sobrou funciona bem, mas não é recomendável: a PAC de que ninguém fala mas continua a subsidiar um pequeno grupo de europeus, a indústria de armamento, que continua a vender armas aos gregos ao mesmo tempo que lhes exige a máxima contenção de despesas, o aumento da burocracia europeia como Serviço Europeu de Acção Externa, o único projecto efectivo da UE em política externa que avança.

O que os gregos sobressaltaram com a proposta de referendo foi a lógica iluminista desta série de asneiras, mais do que as porem em causa, porque o estado de necessidade do país implica engolir muita coisa. O que perturba governantes, que se comportam ou como altos funcionários europeus, ou como membros de um directório, ou como as duas coisas ao mesmo tempo, foi a súbita emergência da política, da democracia, da soberania, por esta ordem. Chamaram à política, politiquice, à democracia, irresponsabilidade e à soberania, "deslealdade" com o projecto europeu. E reagiram em consequência com uma violência pública de que só me recordo com as declarações de Chirac literalmente "passado" quando meia dúzia de chefes de Estado e de Governos europeus expressaram solidariedade com os EUA na guerra do Iraque. Papandreou vergou-se à pressão, mas obteve uma declaração de apoio às medidas de austeridade por parte da oposição grega, ligada aos partidos de Sarkozy e de Merkel no PPE, mas que estes nunca tinham conseguido colocar ao lado dos socialistas do PASOK, e abriu caminho para novas eleições.
 

Para os portugueses, o que se passa na Grécia deve merecer algum cuidado e não apenas alinhar no coro de condenações, porque nós próprios fizemos algo de semelhante no período crucial em que foi pedida a ajuda externa, chumbando um plano de austeridade acordado com a Europa, o PEC IV, e levando a eleições em pleno período de crise financeira. O resultado foi positivo com um Governo com maior estabilidade institucional, com uma sólida maioria parlamentar e com um PS domado. Mas, quando se soube que o PSD iria derrubar o Governo, a senhora Merkel deu uma descompostura a Passos Coelho, que é da mesma natureza da que foi dada a Papandreou.

A ordem é simples: deixem-se lá de fazer política se ela introduz ruído no que decidimos, e cuidado com as eleições porque o resultado é sempre incerto. Nestas alturas quem deve, obedece e paga primeiro, e só depois consulta o povo, caso ainda sobrar democracia. E depois, há sempre o risco de o exemplo pegar e haver em vários países quem queira levar à consulta popular decisões que franceses e alemães se arrogam o direito de tomar. Quer seja manter-se no euro, a pergunta sugerida aos gregos, quer seja boicotar toda a ajuda externa como os finlandeses estiveram a um átomo de decidir. É que os referendos têm a perversa tendência de responder que não às perguntas a que os Governos e a UE querem que se responda sim. Mais vale fugir deles como o diabo da cruz. Dos referendos, de eleições, de tomadas de posição dos Parlamentos, de qualquer coisa que coloque um grão de areia no caminho imperial da UE. 

No caso grego, a decisão de propor um referendo veio em conjunto com a demissão de todas as chefias militares, o que também devia iluminar as cabeças europeístas, a não ser que não tenham nada contra em negociar planos de austeridade com um grupo de coronéis, em vez de ser com governantes eleitos, por muito maus e erráticos que ele sejam. E eu suspeito de que, se não fossem as conveniências, os burocratas de Bruxelas prefeririam a cadeia de comando militar, para as suas ordens, a essa coisa menor que é a política. Na Grécia duas instituições têm muito poder, em nada parecido com o que acontece na maioria dos países europeus: a Igreja Ortodoxa, e o Exército. A Ortodoxia é um factor importante de identidade nacional, são-lhe reconhecidos direitos de um quase-Estado no monte Athos e mosteiros vizinhos e é a razão por que num país da UE não se pode construir uma mesquita em Atenas. O segundo é poderoso porque existe um inimigo externo, a Turquia, e em menor grau todos os que ameaçam ou limitam a ideia que os gregos têm do seu território natural e cultural, sejam os macedónios, sejam os albaneses que "ocupam" o Epiro do Norte. E teve, há 60 anos, uma dura guerra civil, que só acabou com uma intervenção estrangeira, o que ajuda a explicar a força do radicalismo de esquerda na vida política. 

A Grécia é, por tudo isto e muito mais, um país complicado, no que não se diferencia da Alemanha ou da França, numa Europa de países complicados por razões nacionais, culturais e económicas. Os gregos estão há muito tempo a fazer erros clamorosos no plano económico e a alimentar um Estado social sem meios para subsistir. Mas a Europa fechou sempre os olhos a essa realidade que agora lhe cai em cima sob a forma da falência grega arrastando grandes bancos e o euro. Mas a pior maneira de a resolver é responder como se as nações europeias deixassem de ter direito á política e à democracia, porque o que seria bom era ter lá um Gauleiter qualquer. E seria bom não confundir sermos responsáveis com comer tudo que nos põem no prato. É que também há um Gauleiter para nós.

(Versão do Público de 5 de Novembro de 2011.)

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"Those who profess to favor freedom, and yet deprecate agitation, are men who want crops without plowing up the ground. They want rain without thunder and lightning. "

(Frederick Douglass)

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7.11.11


  ESTA SEMANA DE NOVO 



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COISAS DA SÁBADO: E SE A GENTE LHES “ALAVANCASSE” A CABEÇA EM PORTUGUÊS 

Repito mais uma vez: nos últimos tempos, declaração sobre declaração, os nossos governantes, a começar pelo Primeiro-ministro, deixaram de falar português e, pior ainda, deixaram de falar para os portugueses. A utilização de um jargão económico cerrado em declarações políticas torna-as completamente incomunicáveis a não ser para os leitores da imprensa económica e para os jornalistas que são miméticos a repetirem novas palavras em curso. Para além disso, há um efeito orwelliano neste jargão em que desemprego significa “flexibilização do mercado do trabalho”, e “desvalorização fiscal” o fim do subsídio de natal e de férias.

Veja-se esta declaração de Passos Coelho na semana passada: "Não conversámos directamente sobre essa possibilidade e, portanto, não sei se haverá fundos brasileiros que venham a demonstrar interesse em entrar em veículos dessa natureza, mas isso é perfeitamente possível, dentro dos mecanismos do processo de alavancagem do Fundo Europeu". Exemplar. Tirem-lhes os “ajustamentos”, as “alavancagens” e “desalavancagens”, os “veículos”, a “desvalorização fiscal” e mais meia dúzia de expressões inglesas e vejam lá se eles conseguem falar?

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"A general dissolution of principles and manners will more surely overthrow the liberties of America than the whole force of the common enemy. While the people are virtuous they cannot be subdued; but when once they lose their virtue then will be ready to surrender their liberties to the first external or internal invader."

(Samuel Adams)

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6.11.11


“GUERRINHAS”



A concertação social pode ser, em grande parte, uma ficção, mas a democracia vive dessas ficções que incluem elementos de procedimento que são vitais para que o jogo de interesses contraditório não resulte de imediato em conflitualidade social. O modo como o governo tem vindo a lidar com a concertação social mostra uma profunda incompreensão do que se está passar ”lá fora” e uma ideia muito perigosa sobre a impunidade social das suas medidas, mesmo quando erradas. 

As últimas declarações do ministro da Economia, então, são deitar gasolina para a fogueira, etiquetando de “guerrinhas” as diferenças de opinião mais que legítimas entre os participantes e o governo. Para além de os seus assessores de imprensa terem tentado manipular a informação sobre a reunião, dando informações erradas sobre o modo como ela estava a correr, o governo está a colocar-se de tal maneira colado às posições do patronato, que consegue ser mais papista do que os próprios patrões. A alienação dos sectores sindicais mais moderados era patente na fúria de um habitualmente calmo João Proença que acusou o governo de “brincar com a Concertação”, para impor soluções destinadas a salvar a face do Ministro, que nem os patrões acham razoáveis ou sequer eficazes. A única hipótese plausível é que o governo quer mesmo que a greve geral seja um sucesso, para exorcizar qualquer coisa, ou para colocar o que acha a incarnação do Mal nas ruas para todos o verem.

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"It should be your care, therefore, and mine, to elevate the minds of our children and exalt their courage; to accelerate and animate their industry and activity; to excite in them an habitual contempt of meanness, abhorrence of injustice and inhumanity, and an ambition to excel in every capacity, faculty, and virtue. If we suffer their minds to grovel and creep in infancy, they will grovel all their lives." 

(John Adams)

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© José Pacheco Pereira
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