| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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16.7.11
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COISAS DA SÁBADO: O TRABALHO DA CEIFEIRA
A ceifeira continua a trabalhar com eficácia, a matar gente. Vários amigos meus desapareceram e convém esclarecer que não eram amigos como aqueles que existem no Facebook, ou, como também é moda na blogosfera, amigos de ter trocado um email e passar-se a ser íntimo publicamente na hora da morte para ver se alguma sombra da fama alheia nos cai em cima por pressuposto contacto. Esta necrofilia é infelizmente muito portuguesa e uma variante do fishing for compliments, também muito habitual para esses lados. Da Maria José Nogueira Pinto já quase tudo foi dito com genuína emoção ou com muita hipocrisia. Que a mão do Pastor lhe dê a perpétua felicidade. Até porque ela fez mais pela fé em que acreditava do que uma Igreja inteira. O valor da propaganda pelo exemplo, uma expressão de origem anarquista, é o mais poderoso de todos. De Diogo Vasconcelos, basta apenas dizer que ele era uma dessas raridades na espécie humana, um homem genuinamente bom. Podia ser amanuense, trabalhador rural, electricista, ou génio da socialização das novas tecnologias, que o ser bom precede sobre tudo o resto. E falta aquele de que menos se fala, o Jorge Lima Barreto, um homem estranho e raro, solitário e tenaz na sua arte e ideias. Fiz com ele, numa semana de recepção aos novos alunos na Faculdade de Letras do Porto, um dos primeiros happenings que se fizeram em Portugal, num período em que a politização estava a vir por via da radicalização estética. Ângelo de Sousa também teve uma pequena participação no evento, de que resta apenas um cartaz, uma colagem e uns papéis manuscritos que guardo e nenhuma fotografia. O Jorge estava a tornar-se então uma raridade nos meios estudantis e intelectuais da época, no fim dos anos sessenta, à volta de 1968, pela maneira de ser e vestir. Lembro-me muito bem da mesa do Majestic que ocupava regularmente com um seu companheiro muito alto, mas que nunca abria a boca, um par absolutamente de filme até porque usava coisas tão estranhas como um fez na cabeça. O Jorge caminhava então para a mais árdua e solitária das artes em Portugal: ser músico experimental no limite de todas as vanguardas, algo de que “não se gosta” porque composto como “cosa mentale” e que não agrada aos sentidos, nossos senhores. Toda a vida experimentou e todas as vezes que nos falamos ele trazia esse entusiasmo da exploração, que fazia com os sons e com a vida. Uma vez disse-lhe que ele parecia o Santa-Rita Pintor. Ele gostou da comparação e eu disse-lhe “vê lá se vives um bocado mais do que ele”. Viveu.(url) HOJE DE NOVO
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COISAS DA SÁBADO: NÃO SABIA QUE OBAMA ERA DADO A CONSPIRAÇÕES CONTRA A EUROPA?
As pessoas que acham que as agências de rating são o instrumento de um plano americano para atacar a União Europeia e o euro são na sua maioria admiradores entusiastas de Obama. Uma das razões porque sempre o elogiaram foi por ser o mais europeu dos presidentes americanos, – uma asneira histórica, mas nestas coisas não se pode esperar muito conhecimento da história -, o presidente mais próximo dos “valores” que atribuem à Europa. Então, sendo assim, estamos pelo menos imersos numa contradição: o presidente mais europeu lidera um ataque do dólar contra o euro. Eu acho que tudo isto são tretas de mau pagador, mas convém registar quando se pensa mal. Ou seja, quando não se pensa.
(url) 2063 Footfalls echo in the memory Down the passage which we did not take Towards the door we never opened (T.S. Eliot)
(url) 15.7.11
COISAS DA SÁBADO: SERIA MUITO SAUDÁVEL… … se conseguíssemos ver de vez em quando os nossos problemas do ponto de vista de quem empresta e não de quem recebe. Talvez assim percebêssemos muita coisa melhor. Seria bom se conseguíssemos ver os nossos problemas do ponto de vista de um mineiro numa mina de carvão do Sarre, ou de uma professora de liceu de Darmstadt ou de um mediador de seguros na Turíngia. Sim, ainda há minas de carvão na Alemanha e a maioria dos seus mineiros são alemães. O trabalho é duro, como o de todos os mineiros, a aposentação é mais rápida, mas um mineiro é um mineiro. Sim, também na Alemanha os professores têm uma tarefa muito difícil e acham-se injustiçados pelo governo, mas um professor é um professor. Sim, também na Alemanha há aquilo a que chamamos “classe média baixa”, que é o que é o nosso mediador que não vende apenas seguros, mas também aconselha as pessoas da sua idade, que estão no início da sua actividade empresarial ou profissional, a investir de forma segura o dinheiro das suas poupanças. Muitos dos seus clientes são operários fabris que ainda nasceram na antiga RDA. Estes são os retratos dos alemães que podemos encontrar, por exemplo, nas emissões da Deutsche Welle. Nenhum destes alemães acha que a situação da Alemanha é boa. Preocupa-os o futuro dos filhos, o encerramento das minas, a sobrecarga horária das aulas, a segurança das poupanças dos trabalhadores. Eles vêem a Alemanha como as pessoas comuns vêem os seus países, a partir dos seus problemas, dificuldades e, acima de tudo, dos seus receios. Nós olhamos para lá e vemos alemães egoístas que votam contra a ajuda aos países do Sul porque os acham preguiçosos, mas eles fazem as suas opções de gente comum do mesmo modo que os portugueses comuns as fazem em Portugal. É o dinheiro deles que nós estamos a pedir emprestado. É natural que eles o queiram proteger, e é natural que eles se façam difíceis. A vida também não é fácil para eles, ou será que a gente pensa que o alemão típico é uma espécie de nazi em potência, comendo salsichas e bebendo cerveja, explorando os seus trabalhadores imigrados numa fabriqueta que por fora parece um moderno edifício de escritórios no meio de um bosque bem tratado e por dentro é uma sweatshop? É que se é assim, merecemos bem ser tratados de país do Club Méditerranée, um tenebroso insulto, admito.
(url) 2062 - Eclesiastes, 3 1. Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: 2. tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; 3. tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; 4. tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; 5. tempo para atirar pedras, e tempo para juntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se. 6. Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; 7. tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; 8. tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz. 9. Que proveito tira o trabalhador de sua obra? 10. Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens: 11. todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro. 12. Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida; 13. e que comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é um dom de Deus. 14. Reconheci que tudo o que Deus fez subsistirá sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir. Deus procede desta maneira para ser temido. 15. Aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que passou. (url) 13.7.11
2061 Adversity leads us to think properly of our state, and so is most beneficial to us. (Samuel Johnson)
(url) 11.7.11
PARAFERNÁLIA Todas as semanas entram-me em casa entre um e dois metros de papéis, livros, jornais, brochuras, panfletos, cartazes, autocolantes, emblemas, CD-ROM, DVDs disquetes, efémera, a que tenho de acrescentar alguns objectos, que não contam para a metragem, mas que também contam para a vida desta Parafernália. A palavra significa "os bens da esposa (noiva) para além do dote", ou os "bens pessoais", ou a "tralha". O dicionário de Samuel Johnson em que eu tinha alguma esperança de ter uma definição com o humor fino do autor fica-se pelos bens da esposa. O Webster é mais completo mas também anda por aqui e o Houaiss deixa os bens da noiva para o fim e começa pelos bens próprios e pela tralha. Ou seja, a Parafernália, uma bela palavra grega latinizada, não voa muito nos dicionários. Fiquemos pela tralha porque a tralha é boa companhia, nas alturas em que a política parece ter chegado a um beco sem saída, como é o caso dos dias de hoje em que metade do mundo diz-nos que mesmo que façamos tudo o que devemos fazer ficamos na mesma situação do que não fazendo nada e a outra metade diz-nos que se fizermos tudo o que temos a fazer, talvez possamos fazer outra coisa, cuja não se sabe bem qual é. Para uns, somos lixo; para outros, porcos. Nada é brilhante, tudo baço. Precisamos pois de algum ar puro e novo, ideias e imaginação, coisas novas e baratas e, não havendo forças endógenas, mais vale procurar fora aquilo que se pode aprender. Ora, como o único país estrangeiro pelo qual se pode viajar sem ser com muito dinheiro é o passado, vamos pois à tralha, ao dote da noiva para além do dote, ver o que é que a jovem senhora que preside ao reino da Parafernália trouxe nas suas arcas. O livro de L. P. Hartley, um autor pouco conhecido por estas bandas, começa com uma frase famosa: "The past is a foreign country: they do things differently there", "o passado é um país estrangeiro, lá fazem-se as coisas de forma diferente". E a enorme vantagem da Parafernália é precisamente permitir essa viagem. Como todas as viagens em que a nossa cabeça viaja mais do que o nosso corpo, nunca são inócuas. Na Parafernália está sempre este constante movimento para o país onde "se fazem as coisas de forma diferente". E como a estranheza é uma novidade, é um excelente meio para sair da nossa triste condição de povo emparedado entre o lixo e os PIGS, e trazer pérolas sem as dar aos porcos. Enriquecer, em suma, aprender, lidar com o diferente, a ver se somos capazes de fazer diferente. Aproveitemos. Nas colheitas recentes da minha Parafernália está um velho disco de vinil de 45 rotações. Já quase que não há máquinas para o ouvir e faz parte daquilo que os americanos chamam Dead Media. Na capa está um tanque hoje obsoleto (à data do 25 de Abril também já era obsoleto), com toda a Banda de Caçadores n.º 5 dependurada em cima, instrumentos e tudo. Fardada a preceito, uns com ar mais marcial, outros tentando manter o equilíbrio ou encostando-se ao canhão ou por cima das lagartas. No meio, o maestro da banda, capitão Sílvio Lindo Pleno, então o mais novo maestro de uma banda militar e, mais tarde, com uma carreira que o levou ao S. Carlos e a Paris, tendo antes e depois regido várias bandas de "Sociedades Filarmónicas". O disco chama-se Amanhecer Heróico e agrupa quatro músicas: "Marcha Patriótica 25 de Abril", "A Mais Bela Herança", "Grândola Vila Morena" e "Cravo Livre", adaptadas ou originais de José Afonso, José Calvário, Luís Alcaria e do próprio Capitão maestro. O disco, edição da Telectra, faz no verso um agradecimento ao Comando das Forças Armadas, à Banda, ao seu Maestro e ao Sr. Alberto Nunes "pelo milagre da captação do som deste disco, que o público irá julgar". O disco que possuo tem uma dedicatória de Dezembro de 1974, o que permite datar o disco dos primeiros meses após o 25 de Abril. Tudo certo e tudo bem dentro do "país estrangeiro" do passado. Arcaísmos: vinil, forças armadas, "amanhecer heróico", pátria. A unidade militar chamava-se "caçadores", já em si uma antiga designação e tivera origem num batalhão alentejano que participou em várias batalhas e escaramuças da Guerra Peninsular e que, para a memória mais recente, teve um papel destacado no 25 de Abril. Percebe-se o disco, a escolha das músicas e a escolha da banda. À data ainda o 25 de Abril era o "dia inicial inteiro e limpo" em que livres "habitamos a substância do tempo". Eis o passado em estado puro: dias de esperança, esperança dentro do tempo, que não costuma ser muito dador de esperança. No verso, há uma dedicatória de uma mulher a um homem. (A Parafernália é muito indiscreta.) Nela se diz: "Lembras-te em Julho na Manutenção Militar? Agora que estamos no fim de 1974 é bom recordar os dias felizes que todos nós vivemos e que nunca esqueceremos. Por isso desejo que toda a tua vida seja cheia de 25 de Abril (...)". Não sei se a dedicatória é amorosa ou apenas afectiva, mas esta dedicatória só pode ter sido feita, como foi, nos primeiros meses do 25 de Abril. Não diz "que eu vivi", mas que "todos nós vivemos", não diz "eu", mas "nós". Nós "nunca esqueceremos", uma promessa sobre a memória futura, uma das mais difíceis de cumprir. E o desejo que a mulher faz é que "toda a tua vida seja cheia de 25 de Abril". É um desejo que se percebe ser de aniversário, talvez para um dos homens que está dependurado no tanque, ou apenas um militar anónimo que participou no 25 de Abril. Não há réstia de politização nesta dedicatória, não há traços do modo como todas as palavras relativas ao 25 de Abril se tornaram menos "limpas", quando se passou do 25 de Abril para o "espírito de Abril". É História pura, tempo perfeito, passado, país estrangeiro onde "se fazem as coisas de forma diferente", um genuíno momento de participação em que o indivíduo e a História não são distintos. Bem longe de nós, bem longe do presente. Na Parafernália, é o nosso olhar que dá vida, o olhar que não esquece, o olhar que viaja para o país de onde vieram os papéis, os livros, os objectos e que os vê. Insisto: que os vê. Que vê o autocolante onde está a candidata presidencial da LCI Arlete, a fumar na fotografia, e que dizia que era uma coisa e não era. Teve de sair da campanha pela porta baixa. Hoje teria uma carreira gloriosa com tanta gente que diz que é uma coisa e é outra. Ou o folheto de caricaturas intitulado Alemão Nazi em 22 lições, compreendendo informações úteis para führers, "quinta-colunistas", gauleiters e quislings, produzido pela propaganda de guerra inglesa. Aí se explica em "alemão-nazi" o significado de "permuta": "sistema económico pelo qual um exército de ocupação se apodera de cereais, gado, lacticínios, minérios ou petróleo de um território ocupado dando em troca uma fotografia do Führer autografada". Quantas fotografias do Führer autografadas, quantos diplomas de bom comportamento recebemos em troca nesta "permuta" europeia! Ou uma fotografia do trabalho fabril usada numa exposição, com máquinas, operários, peças, stocks, tudo tão arqueológico como um dólmen na vastidão alentejana. Ou o Estatuto do Sindicato Nacional dos Alfaiates, agora que quase não há alfaiates, que me recorda a Academia de Corte Maguidal onde o velho Manuel Guilherme de Almeida, o último dos fundadores vivos do PCP, se queixava da indiferença com que uma menina que registou a sua nova ficha partidária depois de Abril tomou nota da sua data da filiação, 1921.A Parafernália vale a pena, aprende-se muito no dote da noiva. É que nos dias de hoje o passado tem mais futuro do que o presente. (Versão do Público de 9 de Julho de 2011.) (url) (url) 2060 Quand on parle de l'amour du passé, il faut faire attention, c'est de l'amour de la vie qu'il s'agit ; La vie est beaucoup plus au passé qu'au présent. Le présent est un moment toujours court et cela même lorsque sa plénitude le fait paraître éternel. Quand on aime la vie, on aime le passé parce que c'est le présent tel qu'il a survécu dans la mémoire humaine. Ce qui ne veut pas dire que le passé soit un âge d'or : tout comme le présent, il est à la fois atroce, superbe, ou brutal ou seulement quelconque. (Marguerite Yourcenar) (url) 10.7.11
2059 - The Fascination Of What's Difficult The fascination of what's difficult Has dried the sap out of my veins, and rent Spontaneous joy and natural content Out of my heart. There's something ails our colt That must, as if it had not holy blood Nor on Olympus leaped from cloud to cloud, Shiver under the lash, strain, sweat and jolt As though it dragged road-metal. My curse on plays That have to be set up in fifty ways, On the day's war with every knave and dolt, Theatre business, management of men. I swear before the dawn comes round again I'll find the stable and pull out the bolt. (William Butler Yeats) (url)
© José Pacheco Pereira
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