ABRUPTO

28.5.11


COISAS DA SÁBADO: STRAUSS-KANH E SCHWARZENEGGER

Nos EUA, os casos de Strauss-Kahn e de Arnold Schwarzenegger são tratados nos noticiários e nos talk e reality shows como se fossem uma e a mesma coisa: um violou a empregada do hotel, outro enganou a mulher e fez um filho numa empregada doméstica e parece que outros existirão. Uma capa da Times explora a palavra que muitas comentadoras femininas na televisão usam: os homens no que diz respeito às mulheres são “pigs”. E acrescentam, sem desprimor para os porcos.

Primeiro, misturar estes dois casos é absurdo, a não ser que de facto se considere que ser homem implica uma compulsão incontrolada para o assalto sexual, com mais ou menos violência, com mais ou menos dolo, mas social e eticamente criminosa. Segundo, um eventual crime é comparado com o maior dos à vontades com um caso de infidelidade conjugal, que, pelos vistos, é também para o “povo” um crime. Terceiro, os americanos genuinamente odeiam os franceses, e basta um caso como o de Strauss-Kahn para lhes saltar a tampa. Quarto, isso da presunção da inocência é uma abstracção pelo menos até chegar aos juízes. Para polícias, comentadores, “povo” em geral, é absolutamente indiferente saber se Strauss-Kahn é culpado ou inocente, mas faça-se a justiça de considerar que não o é para os juízes americanos, cujos tribunais tem uma sólida tradição de levarem muito a sério esse princípio. Quarto, ser rico, andar na primeira classe dos aviões, ficar em hotéis de luxo, ser “poderoso”, nestes períodos de empobrecimento (milhões de americanos perderam a casa própria) é também um crime social. É este “crime” que justifica aos olhos de muitos a especial exibição dos “poderosos” no “perp walk”, nas algemas e toda a encenação da humilhação que só é relevante em termos públicos nestes casos. Quinto, a hipocrisia moral no caso de Schwarzenegger chega a ter tons totalitários e mesmo que Schwarzenegger tenha para isso contribuído, é insuportável de ver, como o é, a perseguição da senhora de que tem um filho (by the way, Marx também tinha um filho da sua empregada doméstica, e Jefferson tinha vários de uma sua escrava) e que caiu na asneira de ter uma página do Facebook, onde a comunicação social foi buscar fotografias.

É nestas alturas em que me sinto mais longe de um país e dum povo que muito estimo e admiro.

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HOJE DE NOVO

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  • Um dos projectos do EPHEMERA é a cobertura das eleições legislativas de Junho de 2011. Apesar de haver cada vez menos material em papel, substituído por publicações electrónicas, mesmo assim algum existirá. Para além disso, "brindes", T-shirts, objectos vários fazem também parte da realidade da camapanha. Faço aqui de novo um apelo a todos os amigos do EPHEMERA para a recolha do maior número desses documentos, de todo o espectro político, de modo a poder fazer-se uma cobertura nacional das eleições. AS CONDIÇÕES METEOROLÓGICAS E O "DIA SEGUINTE" SIGNIFICAM A DESTRUIÇÃO A CURTO PRAZO DE MUITA PROPAGANDA ELEITORAL QUE SE PERDE ALGUNS CASOS PARA SEMPRE .


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    ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE



    Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)


    Lisboa, agora.

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    NUNCA É TARDE PARA APRENDER: BOBBY FISCHER, A ANOMALIA

    Frank Brady, Endgame. Bobby Fischer’s Remarkable Rise and Fall — From America’s Brightest Prodigy to the Edge of Madness, Crown Publishers. 2010.

    Este livro  enquanto biografia  é uma muito capaz introdução à personagem anómala de Bobby Fischer: génio do xadrez, monstro afectivo, pessoa insuportável, puramente associal, conflituoso, racista, anti semita, obcecado por conspirações reais ou inventadas, ignorante em adulto de tudo o que não fosse xadrez, autodidacta tardio, crédulo até ao limite, céptico até ao limite, provavelmente doente mental, anti-soviético, patriota da Guerra Fria, mas mesmo assim vigiado pelo FBI (em grande parte por causa da mãe, activista e compagnon de route dos comunistas),  e mais tarde anti-americano, obcecado ao detalhe por dinheiro, por aí adiante. Ou seja, material excelente para um biografo que tinha duas grandes vantagens, conhecera pessoalmente Fischer e era e é jogador de xadrez a nível competitivo. 

    O melhor do livro é a análise do confronto de Bobby Fischer com a máquina trituradora do xadrez soviético, em que, nos campeonatos mundiais, jogadores russos jogavam com jogadores russos, porque ninguém lá sequer chegava. O carácter de jogo "de estado", emanação da superioridade do socialismo soviético sobre o mundo capitalista, instrumento de propaganda da URSS, tornava o confronto com os soviéticos uma representação no tabuleiro de xadrez da  Guerra Fria. A conquista por Fischer do título de campeão mundial a Spassky  é o capítulo central do livro, que retrata bem a dramaticidade do encontro.

    O pior do livro é a quase total ausência de análise dos grandes jogos de Fischer, mesmo que esquemática e feita para desconhecedores ou amadores do xadrez. Não existe um único diagrama, uma única reprodução de uma posição crucial, mesmo dos jogos de antologia. Bobby Fischer, jogador de xadrez  concreto, permanece quase fora do âmbito da biografia e isso desaponta quem esperava mais de um biografo que conhece bem o jogo e era certamente capaz de fornecer um retrato do jogador em acto para além de frases vagas como "Bobby Fischer tinha uma posição de vantagem", ou "Bobby Fischer cometeu um erro de palmatória".

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    COISAS DA SÁBADO:


    O DEBATE : VER

    Não pude ver o debate integral entre Sócrates e Passos Coelho, o debate que contava mais para os resultados eleitorais. Vi a parte final, que dizem foi a mais favorável a Passos Coelho, e, mais tarde ainda, vários excertos do debate considerados os jornalisticamente mais relevantes. Seja como for, a minha opinião formou-se rapidamente e sem muitas dúvidas. Se o debate pode ser avaliado como é, em termos de quem ganhou e quem perdeu (uma forma empobrecedora de ver as coisas, mas que corresponde à espectacularização mediática em que vivemos), Passos Coelho “venceu” o debate sob todos os pontos de vista. E mais do que “venceu” por si, Sócrates também “perdeu” por si, e estava, do ponto de vista da postura, nervoso, agitado, e cansado. Dou o desconto do cansado, porque para mim é óbvio que tem que estar muito cansado. Mas Sócrates estava mais do que cansado, estava derrotado. Por tudo isto, só Passos Coelho está em condições de obter vantagens líquidas com o debate e é natural que as sondagens o reflictam.

    O DEBATE : LER

    Foi por isso com grande surpresa que nos dias seguintes li sobre o debate nos jornais e não me revi em nada. Dar o debate por empatado, já me parece absurdo. Tudo contou a favor de uma “vitória” de Passos Coelho, as expectativas sobre Sócrates, a enorme distância entre ser o “senhor” da bancarrota e ser o “senhor” da crítica da bancarrota. A repetição dos mesmos argumentos neste caso desfavoreceu Sócrates, porque á medida que eles são repetidos dentro de um chavão ideológico – em vez de falar de saúde ou educação, fala de “saúde pública” e de “educação pública”, o que enfraquece a força do conteúdo. Apesar disso, a minha única dúvida a favor de Sócrates encontra-se aqui, no facto de não me ser certo que, mesmos repetidos, os argumentos não possam ser eficazes para uma parte do eleitorado menos versado no meta-discurso económico com que os dois, Passos e Sócrates, substituíram a política. Mas apesar de tudo, falar de empate é dar mais importância ao que já se pensava do que ao que se pode ver.
    E depois, aqueles que viram Sócrates ganhar, tem todo o direito à sua opinião, mas ela é puro desejo. Mas, até porque venho dos EUA onde milhares de pessoas acreditavam que o mundo ia acabar às 6 da tarde (não se sabia se era o “tempo” do Este ou do Oeste dos EUA), porque precisamente isto estava inscrito na Bíblia, eu não me espanto com nada.

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    LATE MORNING BLOGS
     

    2030
     
    Mas o provincianismo tem outro aspecto, um pouco mais provinciano. Não se pode ser adulto com uma mentalidade análoga à da criança sem com isso sofrer qualquer coisa.

    Assim vivemos em aldeia em Portugal inteiro. Conhecemo-nos todos, ou é como se nos conhecêssemos. Por isso avaliamos do trabalho de um ou de outro segundo a nossa simpatia ou antipatia por ele — simpatia ou antipatia baseadas em elementos totalmente estranhos a esse trabalho: aspecto físico, rivalidade pessoaI, política. Se falar em António Correia de Oliveira a um republicano, por culto que seja, já sei que dirá mal dele como poeta, porque é conservador. Se falar de Aquilino Ribeiro a um monárquico, por culto que seja, já sei que dirá mal dele, porque é radical. E se em um caso ou outro não disser mal, é porque sucede ser amigo dele. Assim tudo se traduz, em fim, numa política de campanário arruinado.

    (Fernando Pessoa)

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    27.5.11


    PODIA, MAS NÃO É A MESMA COISA 


    Podia escrever sobre a campanha eleitoral em Portugal, mas a 7000 quilómetros de distância não é a mesma coisa. As coisas estão no domínio do pormenor e do detalhe, onde habita o demónio, e esse demónio exige o flavour da proximidade e do contexto, e, estando noutro país, em que, as infidelidades conjugais do Terminator e os anúncios televisivos pagos pelo lobby judeu, a explicar por que razão é agora o Hamas a governar a Palestina, são o demo de cá. Na verdade, falar da dança do de lá sem o sentir perto não é mesma coisa. Podia falar dos debates televisivos, mas sem ver o único que conta não é a mesma coisa. Podia de facto ter a cabeça lá, e tenho muito, mas como o corpo é que paga não é a mesma coisa.

    Por isso, deixemos o Inferno, para ir ao Paraíso, vamos aos sítios dos livros, as livrarias, que, por muitos livros que se encomendem na Amazon, vê-los fisicamente ao alcance da mão também não é a mesma coisa. Aqui muita coisa está a mudar, na semana em que a Amazon vendeu mais livros electrónicos do que livros em papel, mas também outras coisas estão a mudar por causa do iPad e dos seus congéneres. É que também aqui o iPad não é a mesma coisa do que por lá, e neste caso o lá é a Europa. Não há comparação possível entre o que é possível obter na loja americana do iTunes e nas lojas europeias, presumo que por causa dos direitos de autor. Não é uma mera diferença, é uma diferença abissal, por isso a "experiência" do iPad europeia é muito menor do que a que qualquer americano pode ter e isso vê-se nas ruas. Digo nas ruas, não porque as multidões de latinos, que se percebe serem o grande contingente dos mais pobres entre os americanos, se passeiem de iPad (porém, nos cafés onde há WiFi, como nos Starbucks, o MacDonald dos cafés, há imensa gente com pelo menos trezentos dólares na mão), mas porque cada vez mais o iPad funciona como instrumento de trabalho, como uma nova consola de jogos especial e como uma combinação de DVD e televisão. Nos comboios, nos aviões, nas viagens mais longas, não direi que está toda a gente de iPad, mas está muita, muita gente e cada vez mais.

    Voltemos aos livros, porque pode-se ler num ecrã, mas ler em papel não é a mesma coisa. E não é a mesma coisa por duas razões principais que eu, como leitor compulsivo, e sem nada contra os e-livros, conheço de experiência feita: o texto ficcional, a narrativa, dá-se mal com o hipertexto, a glória da Net; e porque, quando se tem que consultar livros e andar para trás e para a frente à procura de uma passagem ou de uma frase, o livro em papel é melhor e mais rápido. Por isso, a Amazon não chega, mesmo para o mercado dos livros em inglês, e esta é uma das razões por que nunca percebi que, com medo da Amazon, que é o argumento que mais tenho ouvido dos livreiros, não haja nenhuma livraria inglesa em Lisboa, para que penso existe mercado. Pelo menos para uma, como em todas as cidades europeias.

    Por isso, voltemos ao Paraíso, começando por aqueles que dele estão excluídos, as livrarias em crise, as livrarias que vão fechar. O melhor exemplo dessa crise é a grande cadeia de livrarias da Borders, que ainda tem muitas lojas abertas, mas que está póstuma. Entrei numa dessas livrarias, que serve os clientes dos jogos no Madison Square Garden, os viajantes na Penn Station e a massa eclética de gente da 7.ª Avenida. Entra-se na Borders e percebe-se que está morta, tudo está coberto com um pó muito especial mesmo estando limpa. Esse pó é uma falta de dinamismo, uma incúria na arrumação, uma falta de atenção ao detalhe, uma estandartização forçada, que, numa grande livraria americana, é imediatamente visível e mortal. Está lá tudo como nas outras, as mesas habituais na entrada, a "nova ficção", a "nova não-ficção", os novos paperbacks destas duas categorias, as estantes organizadas como habitual, mas, quando se entra na Barnes and Noble, uma centena de metros ao lado, percebe-se a diferença. E como eu tenho um cartão da Borders, também sei como a minha caixa de correio está cheia de apelos a que compre na Borders, com 50% de desconto, ou anunciando-me o fecho de uma qualquer loja na província, ou nos subúrbios da cidade, com tudo a preço de saldo.

    Mas como numa vez anterior falei das grandes livrarias americanas (o texto está acessível no Abrupto), falarei hoje duma outra espécie ameaçada de extinção: as pequenas livrarias radicais, ligadas aos movimentos da contracultura, às questões do género, feministas, vegan, a movimentos em defesa dos animais, a movimentos sociais, quer laborais, quer de defesa dos emigrantes, e a movimentos políticos radicais, do anarquismo ao comunismo, em todos os matizes. Já foram muito mais abundantes e muitas desapareceram, mas algumas resistem, constituindo locais comunitários, muito mais do que apenas livrarias. É um mundo que visito com regularidade e cada uma é um caso à parte, com uma forte identidade própria, e muito diferentes umas das outras.

    Vejamos dois casos, a Revolution Books em Nova Iorque e o Lucy Parsons Center em Boston. A de Nova Iorque é maoísta, a de Boston é anarquista e não pode haver maior diferença no aspecto de uma e de outra, no seu interior, no que se pode perceber da sua organização interna, dos seus clientes, e nas actividades a que dá guarida. A livraria anarquista de Boston é um caos, a maoísta de Nova Iorque a personificação da ordem. Dois mundos.

    A livraria anarquista, uma velha sobrevivente dos anos 60, expõe uma enorme variedade de panfletos com a mais diversa origem, sem cuidar de qualquer orientação ideológica especial, indo desde os movimentos de solidariedade com as mulheres afegãs à literatura queer, a diários em formato de fanzine de raparigas bissexuais vivendo num subúrbio qualquer com demasiados filhos vindos cedo de mais e receitas de chocolate para famílias gigantes ao anarchist cookbook, que ensina a fazer bombas caseiras. Tudo está colocado de forma mais ou menos caótica, panfletos, fanzines, jornais, revistas, apenas com uma relação aparente. E fazer uma conta extensa é um problema de muito tempo, pois o voluntário que lá está demora séculos a encontrar preços e a preencher uma detalhada factura. Esta tem Visa, mas há algumas livrarias anarquistas em que só com dinheiro à vista.


    A livraria de Nova Iorque, a Revolution Books, é uma espécie muito mais rara e com muito maior risco de extinção do que as livrarias anarquistas. A Revolution Books está ligada ao mais importante grupo maoísta americano e um dos poucos que conseguiu sobreviver, o Partido Revolucionário Comunista, e existem várias por todos os EUA, em Chicago, Boston, Berkeley, etc. Tudo é cuidadosamente mantido, limpo (as anarquistas deixam muito a desejar na limpeza), e o espaço organizado, com grande destaque para as obras e a figura do "camarada Bob", o que se segue a Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Zedong. Bob Avakian, cujas obras em inglês e espanhol cobrem metade da livraria, acabou agora de editar uma espécie de livro de citações como Mao Zedong e a obra merece o maior relevo nos expositores. Mas há mais: há T-shirts e pins com o camarada Bob, e livros sobre a importância da sua obra para a revolução mundial. Na parte que sobra há uma escolha cuidadosa de obras dos clássicos do marxismo-leninismo, sobre a China, sobre as lutas no Terceiro Mundo, sobre poesia e literatura revolucionária, assim como bancas com o jornal do partido, em edição bilingue. Literatura LGBT ocupa uma modesta fila de estante, que não chega a encher e são só livros, o que faz uma enorme diferença com a pletora de livros, panfletos, cartazes, boletins comunitários sobre lésbicas, homossexuais, bissexuais, transexuais, que enchem as paredes e as estantes do Lucy Parsons Center. E na Revolution Books também não há lugar para os livros de cozinha vegan, nem para manuais de tricot, ou para as reuniões do clube de leitura feminista do bairro, mas sim estudo dos clássicos e da obra do camarada Bob para os jovens negros e latinos de Nova Iorque.

    Bom, parece que estou fora de Portugal, mas não estou. É que mesmo estando muito por cá, a 7000 quilómetros, estou demasiado por lá. Poder fugir podia, mas fora da pátria não é a mesma coisa. Regresso para votar.

    (Versão do Público de 21 de Maio de 2011.)

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    LEMBRANÇA A TEMPO POR CAUSA DO TEMPO: 
    QUANDO ALGUNS MUITO SE INDIGNAVAM POR MANUELA FERREIRA LEITE TER DITO QUE ERA PRECISO "RASGAR" VÁRIAS POLÍTICAS DO PS, ESCREVI ISTO EM PRINCÍPIOS DE JULHO DE 2009

    Há tanta coisa que é preciso "rasgar" na política portuguesa que os exemplos não faltam. Aqui vão algumas sugestões de coisas que é preciso "rasgar" no futuro imediato, quer nas políticas actuais do PS, quer nas políticas passadas do PSD:

    - "É preciso "rasgar" a crescente promiscuidade entre o Estado, por via do governo, e os "grandes negócios", uma tendência que cresceu exponencialmente com o último governo e que atingiu um paroxismo com a situação da crise. Esta tendência é especialmente perversa, abrindo caminho não só a uma indevida influência do governo e do partido do governo, como a uma cada vez maior tendência para fugir às regras de transparência da administração pública, e ao escrutínio parlamentar. É igualmente uma receita garantida para o aumento da corrupção. Esta promiscuidade enfraquece a independência da economia privada e fere a autonomia já de si frágil da sociedade civil.

    - É preciso "rasgar" o poder crescente dos muitos aprendizes de feiticeiro que gravitam à volta dos gabinetes governamentais, estabelecendo "pontes" pouco conhecidas e escrutinadas quer no mundo dos negócios quer no mundo da "influência" política. A política deve voltar a ter faces conhecidas e que respondam pelo que fazem, o que significava caminharmos na tradição de alguns países em que os decisores políticos vêm do parlamento e dos órgãos dos partidos. É aí que deve haver um esforço de qualificação e não favorecer o crescimento de uma espécie de segunda linha (na realidade a primeira) que existe entre os assessores, empresas de comunicação, os altos quadros das empresas, escritórios de advogados e muitos "intermediários" com acesso fácil à governação.

    - É preciso "rasgar" a interferência do Estado, por via do governo, na comunicação social, quer dando verdadeira independência a qualquer instância reguladora, quer diminuindo a tutela do Estado de órgãos de comunicação social. Tal não é possível sem a privatização da RTP e da RDP, em todas as suas componentes de órgão de informação, mantendo-se apenas um "serviço público mínimo", quer de carácter cultural e patrimonial, quer no âmbito de emissões que correspondem a objectivos estratégicos do Estado português, como seja a manutenção de uma área de influência lusófona nos PALOP, ou de integração e ligação nacional das comunidades emigrantes. Também nestes casos os objectivos deste "serviço público mínimo" podem ser contratados às estações privadas ou a entidades que se constituam para o garantir. Sem completa independência dos órgãos de comunicação social de qualquer forma de tutela directa ou indirecta (como aquela que permite a golden share em empresas como a PT).

    - É preciso "rasgar" o programa de entrega de computadores "Magalhães". A medida de "um computador por cada criança" é desadequada à idade dos que os recebem, pedagogicamente inútil, mal preparada e com contornos ainda por esclarecer. Para salvar o que ainda pode ser salvo, devia-se favorecer tudo o que seja transformar os "Magalhães" já distribuídos numa consola de jogos, com algum componente pedagógico, que isso sim é adequado à idade, e fazer esforços para um programa "um adolescente - um computador", um objectivo muito mais significativo e mais útil. Não são as crianças que devem ter um computador individual, mas sim os adolescentes e para cima na idade. Para isso é preciso favorecer o acesso à compra de computadores, visto que a "unicidade" do programa "Magalhães" não pode nem deve ser mantida num mercado aberto. Outras medidas que levem ao embaratecimento do acesso à banda larga são muito mais importantes do que o objectivo errado do "Magalhães", próprio de um país do Terceiro Mundo em que as crianças não têm acesso a computadores nem em casa, nem na escola, por regra.

    - É preciso "rasgar" a tendência mais recente das Novas Oportunidades de "trabalhar para as estatísticas" e reconduzir o programa para um esforço sério de qualificação das pessoas nos diferentes graus de ensino e aprendizagem. O programa tem méritos, mas tem sido abastardado pela crescente intervenção política do Governo no sentido de fazer incorporar dezenas de milhares de pessoas em pequenos períodos de tempo, de forma quase administrativa, concedendo depois os diplomas, em particular os de nível mais elevado como os do 12.º ano, sem garantir a qualidade da formação. O programa que se destinava a aumentar o nível de qualificação dos portugueses, a continuar assim, terá um impacto muito menor do que o que pressupõem os seus elevados custos, podendo vir a repetir o desperdício do Fundo Social Europeu.

    - É preciso "rasgar" o desleixo com a segurança que se desenvolveu neste último Governo numa combinação de leis penais laxistas, com uma desvalorização dos corpos policiais e sua deslegitimização junto dos portugueses. Tal só se passará no momento em que o Governo tenha, quer na área da administração interna, quer em geral, uma cultura de segurança. Esta implica que se compreenda o que significa, para a sociedade, a crise de segurança e, para os corpos de segurança, a solidariedade com o risco.

    - É necessário despolitizar de imediato os serviços de informação, em particular os serviços civis, proceder a uma reavaliação de fundo da sua qualidade e produção e estabelecer uma firewall mais eficaz entre o Governo e os serviços, evitando que mecanismos de dependência funcional se politizem, e garantir que se diminua a excessiva centralização do poder de decisão à volta do gabinete do primeiro-ministro.

    - É necessário "rasgar" de forma muito acentuada a subsídio-dependência na área da cultura, remetendo quer para as autarquias a "animação cultural", quer para ministérios próprios (Economia, Comércio e em particular Educação) o financiamento de actividades de "indústria cultural", ou de "formação cultural". Os recursos aí libertados devem ser canalizados para uma política cultural essencialmente patrimonial, destinada a salvaguardar o nosso património, a que apenas chega uma parte muito reduzida dos escassos recursos da cultura.

    Estes são apenas alguns exemplos. Há muitos mais.

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    2030
     
    Est hominum penuria tanta bonorum, ut non miremur te modo iura dare.

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    25.5.11


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    Tanti capi, tante opinioni.

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    24.5.11

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    ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


    Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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    NOTAS DE CAMPANHA (11 e 12) 


    A ideia de que os debates fundamentais são estes frente-a-frente em que todos os líderes partidários têm de se encontrar uns com os outros significa uma cedência do jornalismo à aritmética falsamente equilibrada do debate eleitoral. Por exemplo, o interesse jornalístico do debate Jerónimo de Sousa-Louçã é residual, enquanto o debate Louçã-Portas só serve para umas pequenas picardias espectaculares porque nem um nem outro competem directamente. Já o mesmo não se pode dizer do debate Sócrates-Passos Coelho, Sócrates-Louçã, ou Passos Coelho-Portas, que são os únicos que um critério jornalístico justifica.

    Outro factor absurdo é o facto de os debates, que têm sido essencialmente sobre economia, terem como moderadores jornalistas que nada sabem da matéria e, por isso, não podem ter qualquer papel na discussão nem orientá-la.

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    NOTAS DE CAMPANHA (10) 


    A reprimenda mal-educada que Passos Coelho recebeu de Santana Castilho devia lembrar-lhe a actual deriva de um grupo de professores para um radicalismo insubordinado que reage à mais pequena crítica e diferença de opinião com uma violência verbal e de atitudes inusitadas. Esse grupo, em artigos e em blogues, põe em causa sequer a possibilidade democrática de com eles se discordar sem se ser um energúmeno ignorante, vendido a qualquer interesse obscuro. Quando o PSD fez aquele triste voto na Assembleia para acabar com a avaliação dos professores, mau pelo conteúdo e tão mal preparado que não passou no Tribunal Constitucional, tive ocasião de dizer que tão cedo nenhum ministro da Educação, seja do PS seja do PSD, vai ter qualquer capacidade para governar as escolas. Alimentaram a fera, agora não podem queixar-se se ela morder.

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    NOTAS DE CAMPANHA (8 e 9) 


    O PS e Sócrates sangram-se em saúde contra as "brejeirices", alusão pouco velada à afirmação de Eduardo Catroga, legitimamente furioso com o tropismo dos jornalistas para a trivialidade e os "casos". Que nunca lhe doam as mãos nem as palavras, e como eu percebo bem aquela fúria! Aquele homem trabalhou intensamente no Programa do PSD, animado por uma genuína intenção de fazer serviço público pelo seu país, tentou estudar soluções para problemas, fez um esforço que muita gente com o seu estatuto não está hoje disposta a dar, e depois assiste ao sucesso da máquina casuística do PS que percebe bem demais como funciona a comunicação social e a manipula.

    Danado, usou um plebeísmo que há uns anos era de uso comum, fazendo bater com a mão no peito aqueles que acham que os pêlos púbicos devem ser tratados apenas pela sua designação científica ou até eventualmente ignorados na anatomia humana. E um mundo de gente habituada às causas fracturantes, que acha que é moderna e desempoeirada, transforma pentelhos em "pent..." e berra contra as "brejeirices". Não leram as cantigas de escárnio e maldizer, não leram Gil Vicente, não contaram anedotas do Bocage? Se calhar não.

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    ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


    Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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    2028
     
    Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.

    Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido.

    Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele. Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso de El-Rei D. Sebastião que os portugueses da saudade imperial projectam a sua fé de que a famí1ia se não extinguisse.

    Estes três tipos do português têm uma mentalidade comum, pois são todos portugueses mas o uso que fazem dessa mentalidade diferencia-os entre si. O português, no seu fundo psíquico, define-se, com razoável aproximação, por três característicos: (1) o predomínio da imaginação sobre a inteligência; (2) o predomínio da emoção sobre a paixão; (3) a adaptabilidade instintiva. Pelo primeiro característico distingue-se, por contraste, do ego antigo, com quem se parece muito na rapidez da adaptação e na consequente inconstância e mobilidade. Pelo segundo característico distingue-se, por contraste, do espanhol médio, com quem se parece na intensidade e tipo do sentimento. Pelo terceiro distingue-se do alemão médio; parece-se com ele na adaptabilidade, mas a do alemão é racional e firme, a do português instintiva e instável.

    (Fernando Pessoa)

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