ABRUPTO

10.1.11


O MUNDO DOS LIVROS (14)


No chão de uma rua em Nova Iorque, EUA.

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COISAS DA SÁBADO:  OS BLINDADOS NÃO TÊM CULPA, O GOVERNO TEM

A saga dos blindados encomendados para as operações de segurança quando da Cimeira da NATO continua. Um equipamento pesado como este só tem uso em condições excepcionais e o governo, num acto de enorme incompetência, encomendou-os e deixou-os vir fora do prazo. Depois, aflito com o clamor, andou a dizer que afinal não era muito importante que eles não tivessem chegado a tempo, porque Lisboa tinha muitos bairros problemáticos e entrar neles de blindado é que era bom. Mais um caso de fulminação pelo ridículo. E por fim, cheio de peito feito, agora não os quer receber quando as razões para neste caso a sua entrega tardia são mais que atendíveis: o mau tempo, cuja neve acumulada nos aeroportos entrava pelos olhos dentro. Com enorme má fé, o governo, que não sabe o que fazer com os blindados, pensa lavar as mãos da sua incompetência na praça pública dizendo agora, sem razão, que se não vieram, já não vem. E vai para tribunal para gastar numa causa inglória mais umas centenas de milhares de euros.

Se tivesse razões para proceder judicialmente seria para o adiamento inicial, mas sabemos que este foi resultado da própria gestão da encomenda pelo governo. Mas como aí não podia piar, porque era co-responsável pelo atraso, pia agora que é mais que óbvio que os blindados só não vieram por motivos de força maior evidentes. É que, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas e tudo isto há-de sobrar para outro governo.

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O MUNDO DOS LIVROS (13)

 Livraria Sousa e Almeida, Porto.

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COISAS DA SÁBADO: O ANO NEFASTO DE 2011 COMEÇOU


Estão já cortados salários e pensões, mas a factura só chegará em vésperas de eleições presidenciais. Aí é que se vai ver o rombo. Já subiram os impostos, já subiu tudo. Subiu a gasolina, água, luz, transportes colectivos, telefones, portagens, rendas de casa, táxis, tabaco, taxas moderadoras, pão e vinho. Depois há as grandes coisas que começam: nos colégios começou o despedimento de professores. E as pequenas: desbloquear carros nas cidades custa o dobro. Há muito de austeridade necessária, mas também muito de esbulho. Respirar sai mais caro, na inspiração engole-se cada vez menos ar, na expiração sai cada vez mais dióxido de carbono.

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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EARLY MORNING BLOGS

1944 - City Without a Name

6.

The sun goes down above the Zealous Lithuanian Lodge
And kindles fire on landscapes "made from nature":
The Wilia winding among pines; black honey of the Żejmiana;
The Mereczanka washes berries near the Żegaryno village.
The valets had already brought in Theban candelabra
And pulled curtains, one after the other, slowly,
While, thinking I entered first, taking off my gloves,
I saw that all the eyes were fixed on me.

(Czeslaw Milosz )

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9.1.11


O MUNDO DOS LIVROS (12)


Uma livraria em Cochim, Índia (Luis Filipe Castro Mendes).

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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JÁ NINGUÉM QUER SABER DISTO, ATÉ PORQUE NÃO CONVÉM, MAS FICA REGISTADO



Diego : Mentir est toujours une sottise.


Nada : Non, c'est une politique.

(Albert Camus)

Da minha declaração de voto na Comissão de Inquérito sobre o caso TVI

"Sim, houve participação governamental (em particular com origem no primeiro-ministro e executada por quadros do PS colocados em posições cimeiras em empresas em que o Estado tem qualquer forma de participação directa ou indirecta) numa tentativa de, em ano eleitoral, controlar vários órgãos de comunicação social, nomeadamente a TVI"

"Sim, o primeiro-ministro sabia, foi informado pessoalmente do que se passava e, por via indirecta, conhecemos indicações suas sobre o modo como os executantes deviam proceder. E, por isso, mentiu ao Parlamento. Ele não queria ter a fama (de controlar a comunicação social), sem ter o proveito (de a controlar de facto) e procedeu e permitiu que procedessem em consequência, conforme as suas intenções publicamente anunciadas no congresso do PS."


"(...) no momento em que existir a reposição plena da verdade dos factos, perante todos os portugueses, haverá um julgamento político sobre o modo como esta CPI foi abusivamente impedida de chegar às conclusões a que poderia ter chegado, com a denúncia de um comportamento muito grave e abusivo de manipulação da comunicação social, com ainda maior gravidade por se ter realizado em ano eleitoral e com objectivos de obter vantagens eleitorais e de um Primeiro-ministro que não hesita em mentir ao Parlamento a que deve a verdade sobre o seu comportamento como governante e como político."



(Expresso, 8 de Janeiro de 2010.)


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OS PGMIN E OS PGMAX


A beatice das coisas felizes e optimistas que hoje se procuram de lanterna como o Diógenes dão aquela falsa sensação de que tudo isto que passamos é transitório, os amanhãs cantarão amanhã, e isso comunica rapidamente com a procrastinação, o eterno "farei amanhã o que posso fazer hoje". Usei três vezes a palavra "amanhã", porque é disso que se trata: é sempre tudo para amanhã. Talvez por isso, e como no primeiro dia do ano o coração é mole, aqui vai, pois, um artigo optimista sobre 2020. Amanhã.

Depois de dez anos de grande crise económica, financeira e social, em que existiram várias intervenções do FMI, e com ajuda de vários planos de emergência europeus, Portugal encontrou uma certa forma de mediocridade estável. A partir daí pode começar a crescer um pouco, muito pouco, mas sempre era a crescer fechando os longos anos de recessão que atravessara.

O país fazia agora parte de um novo conjunto, onde também estava a Grécia, de países classificados como PGMin, Países de Governo Mínimo. A Alemanha, o Reino Unido, a Holanda, os países nórdicos, a França e outros eram classificados como PGMax, Países de Governo Máximo. A classificação tinha tido origem num muito controverso estudo europeu, Die Fähigkeit zu schrumpfen. Eine Studie über die Reduzierung der Rolle der Regierung in Portugal und Griechenland (A Capacidade de Encolher. Um estudo sobre a redução do papel do Governo em Portugal e na Grécia), feito por uma equipa da Universidade Humboldt de Berlim, que, após alguma discussão e indignadas reacções dos PGMin, acabou por se tornar canónico.

Portugal era agora um PGMin e daí vinham vantagens e inconvenientes. As vantagens eram, no fundo, só uma: havia um limiar de pobreza e de tristeza a partir do qual, não havendo guerra, a UE impedia que se baixasse mais. Uma espécie de Rendimento Mínimo Garantido. Esse limiar era muito baixo em termos europeus, mas, mesmo assim, Portugal era mantido aceitavelmente acima das desgraças africanas e algumas latino-americanas. Por uma vez a nossa geografia, no canto da Europa, mas mesmo assim na Europa, salvou-nos. No conflito que atravessou a década entre os europeístas federalistas e os eurocépticos soberanistas, este era o grande argumento dos europeístas: "Vejam lá o que nos aconteceria se não estivéssemos na Europa".

Um PGMin era um país que mantinha uma soberania nominal, mas cuja política financeira era sediada em Bruxelas, sendo o seu orçamento preparado por uma Direcção-Geral da União Europeia (DGMIN), ou seja, pela burocracia internacional (a maioria dos funcionários era alemã, inglesa, francesa, holandesa, espanhola, belga, por esta ordem). Decisões sobre impostos, salários da função pública, pensões, investimentos, dimensão e forma da administração pública, sector nacionalizado (havia vários bancos e instituições financeiras nacionalizadas no fim da década), sector empresarial do Estado, etc., eram tomadas em Bruxelas. Qualquer euro2 gasto em Portugal (esqueci-me de referir que havia agora dois euros, o euro1, o da Alemanha, Estónia, República Checa, França, etc., e o euro2 para os PGMin) tinha que ter autorização da UE, do FMI, que consultavam os credores de Portugal antes de elaborarem qualquer orçamento.

Os burocratas da DGMIN deslocavam-se várias vezes ao Dubai, a Tripoli e a Pequim, para elaborarem planos de financiamento da dívida, levando consigo o ministro português das relações com Bruxelas, cujo gabinete era numa ala recuada do edifício da Comissão e que raras vezes vinha a Portugal. Nas viagens à China, e ao Médio Oriente, ao abrigo da legislação portuguesa, o ministro ia em segunda classe no avião e os funcionários em primeira. Em Pequim, os funcionários ficavam no Beijing Raffles Hotel e o ministro no Beijing Huafu International Hotel, que, apesar de tudo, tinha karaoke. Num momento de lucidez, o ministro acordou a meio da noite a pensar na ironia que era a de estar ali também a fazer karaoke, a cantar mal com as palavras dos outros. Mas, depois, a inevitabilidade impôs-se. Era "incontornável", uma palavra muito usada no jornalismo português desses dias.

Apesar da miséria do hotel de três estrelas num arrabalde de Pequim, um site português na Internet intitulado Vigilância sobre os Políticos, também conhecido como Cuidado com os Ladrões, argumentava que o ministro devia era ficar no King Parkview Hotel Beijing, cujos seis quilómetros de distância do centro da cidade onde havia as reuniões "bem podia Sua Excelência fazer a pé", como dizia um comentário de "J. Silva" no mesmo site.

Este ambiente de revanchismo social e de animosidade contra os políticos em democracia percorrera toda a década, quase sempre em crescendo. Vários políticos tinham crescido explorando esse sentimento, alguns vindos das televisões para obter votos bramando contra os "ladrões", outros principalmente na extrema-esquerda chique exigindo uma "economia moral", ou seja, o comunismo disfarçado de exigência ética. Houve mesmo, na década de 10 a 20, uma tentativa de cópia do Tiririca, quando um cómico que passava na SIC Radical às duas da manhã concorreu a eleições como o Palhaço Chamuça, visto que o Palhaço Croquete já existia e ele, que era muito do Bloco de Esquerda, queria um nome multicultural. Num dos raros vislumbres de racionalidade ocorridos numa década muito dada à irracionalidade (bruxas, curandeiros e leitoras de cartas do Tarot passaram a comentadores dos telejornais), os portugueses não deram muitos votos ao Palhaço Chamuça, que voltou para a SIC Radical sem glória. Mas outros palhaços sem usar o nome tiveram muito mais sucesso.

Compreende-se porquê. Os portugueses tinham perdido quase trinta por cento do seu rendimento durante a década, uma redução brutal que tinha provocado uma grande conflitualidade social, e uma ainda maior diferença entre os mais ricos e os mais pobres. O Correio da Manhã fazia agora um novo concurso, sobre o melhor slogan surgido na rua e, no ano em que apareceu o Die Fähigkeit zu schrumpfen, o slogan que ganhou foi uma representação do engenheiro Sócrates (no cartaz engenheiro aparecia entre aspas) e que dizia "querida eu encolhi o país". O Diário de Notícias não concordava porque convinha recordar que também Cavaco Silva era responsável assim como Manuela Ferreira Leite, como escreveu um jornalista isento mas autor de um blogue pró-Passos Coelho. O PS também era então praticante activo da arte de meter tudo no mesmo saco, mas, para o bem e para o mal, muitos portugueses achavam mesmo que era Sócrates o grande responsável e a polarização política na primeira metade da década fazia-se à sua volta.

Portugal como PGMin também já não era a mesma coisa. Ao fim destes dez anos já quase não havia embaixadas portuguesas, e as que se mantinham eram cada vez mais simbólicas, Madrid, Caracas, Luanda, Tripoli. Toda a nossa diplomacia é agora europeia, e está integrada no Serviço Europeu de Acção Externa da UE. Temos uns embaixadores no Gabão, no Vanuatu, na Quirguízia, no Paraguai, e, o melhor posto onde está um português é o do Vaticano, o único que temos na Europa, porque ganhamos uma discussão com a Polónia invocando Fátima e a Virgem Negra de Czestochowa estava aborrecida com o crescimento do laicismo na sua terra.

Também as nossas Forças Armadas praticamente já não existem, com excepção de uma pequena unidade de protocolo com banda, para receber dignitários estrangeiros nos Jerónimos, uma guarda costeira, umas equipas de helicópteros de salvamento no mar que ainda são nominalmente da Força Aérea. Há um corpo de comandos que acabou por ter que assumir funções policiais aquando dos tumultos de 2012. Todos os cortes orçamentais começaram sempre por aí, extinguindo-se a Lei de Programação Militar, e eliminando-se unidades militares, vendendo-se o seu património urbano como receitas extraordinárias. Houve nesta década um clamor quando Portugal perdeu direitos sobre a plataforma marítima atlântica, mas um PGMin não pode ter veleidades de grande nação. Um velho numa manifestação gritava "lembrem-se do Ultimato", mas a nova geração não sabia o que era o Ultimato e os blogues ridicularizaram o homem, um "Velho do Restelo".

Mas cá estamos no fim da crise. A má notícia é que ficamos na situação de, para a pagar, estragar o país. Ou encolhê-lo como dizia a equipa do Herr Professor Dr. Schmidt que coordenou a Capacidade de Encolher. A boa notícia é que acabou a crise. Em 2020.

Estão a ver como se pode ser optimista?

(Versão do Público de 8 de Janeiro de 2011.)

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EARLY MORNING BLOGS

1943 - The Old Stoic

Riches I hold in light esteem,
And Love I laugh to scorn;
And lust of fame was but a dream
That vanish'd with the morn:

And, if I pray, the only prayer
That moves my lips for me
Is, 'Leave the heart that now I bear,
And give me liberty!'

Yea, as my swift days near their goal,
'Tis all that I implore:
In life and death a chainless soul,
With courage to endure.

(Emily Bronte)

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O MUNDO DOS LIVROS (11)
No chão de uma rua em Nova Iorque, EUA.

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© José Pacheco Pereira
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