Claro que o nosso sindicalismo, aquele que concretamente vai parar o trabalho em quase todo o país e que virá para a rua protestar, o da CGTP, não é apenas uma expressão dos interesses dos seus representados nos sindicatos filiados, é também o resultado de uma visão do mundo assente na luta de classes, no marxismo, na ideologia do comunismo e do PCP. E o PCP não está na rua apenas a protestar contra o assalto ao bolso dos trabalhadores que estão a pagar os desmandos do sistema bancário e as políticas criminosas do governo Sócrates. Está na rua por uma visão da sociedade revolucionária, mesmo que oculte essa vontade no meio de fórmulas de disfarce. O mesmo se passa com o BE, outra força cujas propostas só tem sentido numa sociedade em que a propriedade privada seria residual e em que o controlo estatal de toda a economia, seria também o controlo das liberdades dos cidadãos. Eles sabem que é assim, mas não o enunciam, mesmo num momento em que o PCP retorna a um vocabulário marxista-leninista menos deslavado. E, por isso, para eles a greve geral tem uma componente instrumental, muito para além da vontade subjectiva de muitos trabalhadores em fazê-la. E isso leva a que a greve geral, que não tem necessariamente que omitir o protesto em nome da crise, seja também um factor de agravamento da crise, reforçando os bloqueamentos já existentes. O mundo é sempre mais complicado do que parece, mesmo na sua simplicidade.
”The key to the age may be this, or that, or the other, as the young orators describe; the key to all ages is — Imbecility; imbecility in the vast majority of men, at all times, and, even in heroes, in all but certain eminent moments; victims of gravity, custom, and fear.”
I hear America singing, the varied carols I hear, Those of mechanics, each one singing his as it should be blithe and strong, The carpenter singing his as he measures his plank or beam, The mason singing his as he makes ready for work, or leaves off work, The boatman singing what belongs to him in his boat, the deckhand singing on the steamboat deck, The shoemaker singing as he sits on his bench, the hatter singing as he stands, The wood-cutter's song, the ploughboy's on his way in the morning, or at noon intermission or at sundown, The delicious singing of the mother, or of the young wife at work, or of the girl sewing or washing, Each singing what belongs to him or her and to none else, The day what belongs to the day- at night the party of young fellows, robust, friendly, Singing with open mouths their strong melodious songs.
É por isso que o sindicalismo é um mecanismo correctivo fundamental numa sociedade democrática, mesmo que gere efeitos perversos, o mais importante dos quais é favorecer quem tem emprego em detrimento de quem não o tem. Isto é verdade, mas também é verdade que quem não o tem sabe que se o tiver não pode ficar sempre suspenso no medo de o perder. E o sindicalismo como contra-poder não impede esse medo, mas impede que ele se torne o principal mecanismo da relação entre quem emprega e quem trabalha. Dirão os realistas da economia cínica – que se caracterizam quase sempre por não estar na situação laboral sobre a qual opinam – que, com medo ou sem ele, com sindicatos ou sem eles, quando a racionalidade económica obriga, não há outro remédio senão perder o emprego, a bem ou a mal. E a realidade dos dias de hoje parece comprová-lo: seja qual for a retórica sobre os direitos laborais, se a economia real não os suporta, eles não valem nada. Não é verdade, porque no mundo complexo do real, a racionalidade económica não é uma linha definida que deixa de um lado o branco e do outro o preto. As coisas são quase sempre cinzentas e o jogo de luz e sombra faz-se de múltiplos interesses contraditórios sem os quais haveria muitos abusos e prepotências.
Por tudo isto, mesmo em crise, o protesto sindical é uma manifestação de forças que equilibra e impede os desequilíbrios. Por tudo isto, a greve geral tem uma componente de resposta ao medo e à prepotência que, não contribuindo para “combater” a crise, impede que no seu decurso haja uma perda completa da dignidade pessoal de quem trabalha. Um trabalhador, que vê o seu rendimento drasticamente diminuído, pode até achar que não há outro remédio, – e muitos dos que vão fazer greve sabem que é assim, - mas nem por isso perde a vontade de protestar, bem pelo contrário. Não só entende que não teve “culpa”, como quer mostrar que ainda pode tomar uma atitude contra alguma coisa que pensa ser “injusta”.
Para se compreender o papel do sindicalismo, em bom rigor, da defesa organizada de interesses numa democracia, pode fazer-se este exercício que em muitos sítios é tudo menos absurdo. Imaginem que, em Portugal, em 2010, não havia sindicatos, nem os que existem (na sua maioria influenciados pelo PCP através da CGTP), nem quaisquer outros. Uma coisa seria certa, os salários seriam muito mais baixos, os desempregados muitos mais, o trabalho precário a norma, a vida dos trabalhadores muito mais fragilizada e a economia não seria muito diferente. Pelo contrário, teria continuado a viver de uma competitividade à custa dos baixos salários, mas mesmo assim longe dos salários chineses e indianos, romenos ou búlgaros. Haverá quem diga que não há problema porque é assim nos EUA, mas a verdade é que não é assim nos EUA. Nos EUA há legislação laboral, sindicatos e uma muito diferente mobilidade social, profissional e geográfica. E é para cima, por regra. Haverá também quem diga que não faria mal à competitividade da economia portuguesa uma nova “flexibilidade” especialmente com maior facilidade de despedir e empregar e menos rigidez da legislação laboral. É verdade, mas coloquem-se no lugar de alguém que tem emprego, e perguntem-lhe se está disposto a perdê-lo ou a torná-lo mais precário em nome da reparação da economia e da sua competitividade. Não está, porque uma coisa é a racionalidade económica e outra a expressão de interesses individuais e colectivos que partem das circunstâncias concretas das pessoas.
COISAS DA SÁBADO:TEORIAS SOBRE AS LEITURAS EM VIAGEM
(3)UM CAPÍTULO AQUI E OUTRO ALI: KISSINGER E BENJAMIN BRITTEN
Britten e Peter Pears
E começou então a leitura pêle-mêle, um capítulo aqui, outro ali, sem grande nexo a não ser a prisão da minha atenção, – ainda sou da geração que não sofre de ADD, Attention Deficit Desorder – por dois excelentes ensaios. Neste caso um sobre Kissinger, outro sobre o compositor inglês Britten. Tenho a a impressão que juntar este par , num texto deve ser a uma estreia mundial fruto de leituras verdadeiramente en vrac. Comprei em segunda mão, como novo, The Coming Anarchy, de Robert Kaplan, de que conhecia o livro sobre os Balcãs. E no meio do índice estava um ensaio sobre o “realismo” de Kissinger que faz justiça a um dos grandes diplomatas, políticos e teóricos das relações internacionais do século XX. Kaplan mostra como, contrariamente a outras leituras, Kissinger foi profundamente influenciado pela sua juventude na Alemanha nazi e por uma aversão profunda à “revolução” hitleriana e à política de apaziguamento que conduziu não à paz, mas à guerra. O seu “realismo” vinha da consciência de que nada melhor para gerar instabilidade e revolução do que políticas bem-intencionadas e diplomacias sem disponibilidade e capacidade para usar força. Obama devia ler Kissinger.
O outro ensaio, sobre Britten, vem no livro de Alex Ross, The Rest is Noise. Listening to the Twentieth Century. Era para mim um livro azarado que já tinha tentado comprar e desistido à última hora. Quando saiu, nas “novidades” da Waterstones de Londres, fresco na sua capa dura de primeira edição, atraiu-me logo a atenção, peguei nele para o levar, mas já tinha tanta coisa e tanto peso que desisti. Foi uma asneira de que só me estou a redimir agora, porque a julgar pelo ensaio sobre Benjamin Britten, o único capítulo que li, o livro merece os prémios e fama. Ross retrata Britten no contexto da sua Aldeburgh natal e onde está sepultado, uma terra de pescadores cinzenta, despida, inóspita, varrida pelo vento, com um estuário e um mar perigosos. O centro da análise é a opera Peter Grimes, passada exactamente no cenário trágico da sua terra de pescadores, com uma história do mal, da culpa e da loucura. À volta de Britten, da sua homossexualidade, dos dilemas artísticos da sua criação, solitária e fora de moda como a de Chostakovitch com que pode ser comparado, à margem do atonalismo e do experimentalismo vanguardista – Luigi Nono recusou-lhe um aperto de mão – Ross mostra os dilemas e contradições dos anos da Guerra Fria e da passagem de um mundo que tirou a homossexualidade do armário. Quando Britten morreu a Rainha Isabel mandou um telegrama de condolências a Peter Pears, o seu companheiro de quase uma vida toda. O mundo tinha mudado entretanto.
COISAS DA SÁBADO:TEORIAS SOBRE AS LEITURAS EM VIAGEM
(2) A OPÇÃO PÊLE-MÊLE OU SEJA UMA MISTURADA CAÓTICA
Desta vez, no meio desta viagem, a intenção foi semelhante à árctica, uma única e totalitária leitura de mais um volume da história de Oxford dos EUA (como já era o de McPherson), o livro de David Kennedy, The American People in World War II. Faltavam-me (faltam-me) cerca de cem páginas e pensei que ia acaba-lo na viagem de ida e compraria outro para o regresso. Nada disso, a colheita de imprensa foi tão vasta e rica, incluindo alguma imprensa cor-de-rosa, para actualizar quem anda com quem, que não lhe peguei. E no destino, a opção pêle-mêle acabou por se impor porque esta opção associa-se quase sempre a uma intensa pesca de arrasto no destino, livros e livros e papéis, folhetos, jornais, revistas, tudo. Uma misturada caótica que encontra rapidamente nas minhas mãos, ordem e progresso. E prazer.