COISAS DA SÁBADO:TEORIAS SOBRE AS LEITURAS EM VIAGEM
Quando viajo tenho sempre uma opção difícil de leituras que me faz andar um pouco tonto de estante em estante, ou de pilha em pilha de revistas e jornais para decidir o que vou levar. As opções são duas: ou sou leitor de um livro só, a opção totalitária, ou levo uma tonelada de coisas e faço leituras pêle-mêle ou en vrac. Hoje isto vai de galicismos em vez de anglicismos. Normalmente decido não decidir e levar livros e revistas para as duas opções, a que se soma a única coisa boa que há em aeroportos, a imprensa internacional do dia.
Claro que há dois factores a condicionar esta opção; a duração dos voos ou das esperas, e a existência de livrarias em línguas estendíveis nos destinos. Esta última avaliação sobre os livros que vou comprar sai sempre errada, porque foi a opção que fiz para duas recentes viagens, para a Letónia e para a Gronelândia, e tive que comprar sacos de viagem no regresso porque os livros não cabiam. Mesmo em letão havia sempre uma história ilustrada das guerrilhas anticomunistas do pós-guerra, e, no meio dos icebergs, sempre aparecia um livrinho sobre Narsarsuaq, a sua pista aérea e os seus 158 habitantes. De qualquer modo nas longas viagens árcticas a opção totalitária por um livro só, neste caso a grande, no duplo sentido de excelente e volumosa, história da guerra da secessão americana de James McPherson, revelou-se acertada. No meio da escassa luz de um avião militar, brilhavam as personalidades excepcionais de Lincoln e os seus generais da fase final da guerra e de Robert Lee e os seus companheiros de mil combates. Não se estava mal.
COISAS DA SÁBADO: NADA DE NOVO NA FRENTE OCIDENTAL
Não havendo autonomia na politica portuguesa, dependente nas suas decisões fundamentais do exterior, ou mais cruelmente dito, do estrangeiro, dos “mercados” e da Alemanha, e não querendo ou não podendo os principais actores políticos nacionais fazer alguma coisa para diminuir essa dependência, não vale a pena desperdiçar muito espaço com uma coisa que não há.
A uma semana da cimeira da NATO, Lisboa enche-se de inscrições, cartazes, murais contra a organização. Alguns dos cartazes são em inglês e alemão, o que mostra internacionalização do protesto. Na sua maioria, as inscrições são do PCP e de alguns dos seus avatares criados para a ocasião, e do Bloco de Esquerda cujas posições merecem alguma atenção mais à frente. O resto provém de alguns grupos esquerdistas ínfimos, como aqueles ligados à Internacional de que faz parte o POUS. Com a ignorância habitual, a televisão deu a estes pequenos e insignificantes grupos portugueses o papel de espantalhos para meter medo, certamente com informações sopradas para justificar as despesas com a segurança pela central de contra-informação que actua junto do Governo. Fossem apenas estes os participantes no mais que legítimo direito democrático de protestar, e pouco mais poderia haver do que alguns incidentes isolados, ou nem isso. Mas não é assim.
No plano internacional já a coisa fia mais fino, porque há grupos especializados e profissionalizados em criar tumultos nestas ocasiões, não por a cimeira ser em Lisboa, um país irrelevante para eles, mas por virem cá os grandes do mundo e uma coorte de jornalistas. Muita televisão, muitos jornais, muitas agências, logo grande cobertura mediática, o isco para pequenos grupos violentos que fazem este turismo caro da pancadaria anti-capitalista, anti-imperialista, antimilitarista, anti-etc. Um autocolante em inglês de um grupo "antifascista" alemão, colado nas ruas de Lisboa, mostra uma velha camponesa a "fazer o dedo", e tem uma legenda significativa; "Fuck off!" os "racistas, fascistas, anti-semitas, suprematistas da espécie ("speciesists"), sexistas, homofóbicos, nacionalistas e patriotas". Como catálogo dos inimigos não está mal, incluindo a luta contra os "speciesists", uma palavra difícil de traduzir, mas que denota a vinda de um grupo de gente muito radical que promete fazer a vida negra aos donos dos aviários, para combater os preconceitos contra as espécies não humanas...
Estes grupos anarquistas (uma designação que utilizo pelo costume habitual, mas que é pouco rigorosa) e esquerdistas, alguns com história conhecida de protestos violentos, prometem animação. Alguma sarrafusca haverá, mas espero que a nossa polícia não seguirá as práticas mansas que tem com as claques, mesmo desprovida das viaturas antimotim que deviam vir a tempo e não vieram, e que quando vierem vão gloriosamente apodrecer no mesmo armazém que deve ter os equipamentos de protecção antinuclear que o engenheiro Guterres comprou em plena histeria do "urânio enriquecido". Estas histórias de sumo ridículo são mais uma contribuição dos nossos incapazes governantes para ajudar a deslegitimar uma organização de que Portugal faz parte e cujo destino devia tomar muito a sério.
Os veteranos do combate contra a NATO e aqueles que vão dar o grande contingente de rua (e o mais pacífico) são os comunistas. Os bloquistas vão ter um pé nos dois grupos, um na massa pacífica dos herdeiros da geoestratégia da URSS, outro nos grupos mais agressivos. Mas os comunistas levarão à rua uma curiosa contradição que revela o peso da história e da tradição (o PCP é uma das mais conservadoras organizações da vida política portuguesa) e a sua incongruência com as realidades contemporâneas, a começar pela suprema ironia de ver o descendente directo do "sol na terra", sob a forma do Presidente Medveded, a participar numa cimeira da NATO, descendo na Portela num avião com a bandeira de Pedro, o Grande. Os comunistas, quer a organização-mãe, quer as sobrevivências do mundo póstumo do internacionalismo pró-soviético, como esse curioso Conselho Português para a Paz e a Cooperação, muito anos financiado pela URSS, e que não era nem português, nem pacífico, nem cooperante, transportam para as ruas de Lisboa o mundo orwelliano das últimas abencerragens da política externa soviética, agora sem URSS.
O que ficou dessa geoestratégia soviética foi um forte antiamericanismo que se dissolveu em múltiplas versões menores, em particular no novo esquerdismo antiglobalizador que cresceu com o desastre do Iraque e com as dificuldades do Afeganistão. Esse antiamericanismo global acaba por ser também o terreno natural em que se coloca o Bloco de Esquerda, herdeiro de outras tradições do movimento comunista, como a da IV Internacional e a do maoísmo, irmanadas também elas nesse mesmo manto de causas difusas, agora sem guia nem vanguarda. Nesse sentido há pouca autonomia real do Bloco de Esquerda em relação à posição de orfandade do PCP, apesar de uma retórica que tenta a diferenciação através de uma valorização de causas e de direitos que nenhum papel tinha na subserviência face à URSS da posição comunista.
Quem combatem todos estes grupos? A única organização armada que é hoje constituída na sua esmagadora maioria por democracias. Nem sempre foi assim no tempo da guerra fria e concedo que não o possa ainda ser inteiramente, para deixar em aberto o caso especial da Turquia, de qualquer modo muito mais democrática do que a plêiade dos mais virulentos opositores da NATO como Cuba, a Venezuela e a Coreia do Norte. A NATO venceu a guerra fria ao Pacto de Varsóvia e foi o instrumento fundamental para travar o expansionismo soviético na Europa do pós-guerra, mantendo uma força de dissuasão permanente que impediu a URSS de ultrapassar os seus já ilegítimos domínios nos países do Centro e Leste da Europa e a ocupação dos países bálticos.
Porém, terminada a guerra fria, que papel pode ter a NATO? Esta é a questão que mais uma vez estará presente na actual revisão do conceito estratégico da NATO, numa altura em que esta está presente no mais complexo teatro de guerra mundial, o Afeganistão. O complexo processo de encontrar um novo consenso sobre as regras de intervenção da organização num mundo pós-guerra fria, para além da regra da defesa colectiva dos seus membros, incluindo as novas parcerias de segurança, a mais importante das quais é com a Federação Russa, não pode, no entanto, esconder uma realidade nua e crua. É que sem a NATO o mundo fica muito mais perigoso e inseguro. Mesmo que desaparecesse a ONU, os riscos para a segurança mundial seriam maiores, se as democracias perdessem a sua organização de defesa e segurança. E é por isso que o papel dos EUA, a única verdadeira democracia armada que subsiste no mundo, é crucial. Também por isso se compreende que o antiamericanismo esteja no âmago da luta anti-NATO que andará à solta pelas ruas de Lisboa.
COISAS DA SÁBADO: TEA PARTY / FOX NEWS VERSUS JON STEWART
Mas a América foi sempre assim e dessas contradições também nasceu Jon Stewart, o homem tido como “mais influente” nos EUA, facto de que, muito respeitosamente, duvido. Aliás Stewart não resistiu a esta tendência, tão populista como a do Tea Party, de colocar palhaços, sem ofensa, a competir com políticos nas eleições. Tudo começou com Coluche, depois foi Beppo Grillo, Jon Gnarr, e Tiririca, todos com sucesso. Gnarr é presidente da câmara de Rekjavik e Tiririca bateu em votos todos os outros. Só que Stewart quis medir-se com o Tea Party em comícios (e implicitamente em votos) e perdeu para Sarah Palin e os seus amigos da Fox News… É por isso que o Rally To Restore Sanity And / Or Fear foi fraquito de gente, argumentos, e, como sempre acontece quando há estas cavalarias altas, de graça. Vamos ver agora no que dá o Rally To Determine Precisely The Percentage Of Blame To Be Doled Out To The Left And The Right For Our Problems Because We All Know That The Only Thing That Matters Is That The Other Guys Are Worse Than We Are And / Or Fear. É muito difícil de traduzir, mas o inglês técnico chega.
COISAS DA SÁBADO: OBAMA OBSCURECIDO PELO SEU PRÓPRIO BRILHO
Obama foi eleito com tanto esplendor que a chama iria obscurecer alguém. A curto prazo foi McCain e os republicanos, a médio (o médio cada vez mais curto que o encolher do tempo mediático gera) foi o próprio Obama a vítima. É que a sua presidência tem sido pouco mais do que entre o medíocre e o suficiente, enredada em promessas irrealistas e em esperanças exageradas. Como diz um provérbio com base na física popular, tudo o que sobe tem que descer. A gravidade é uma coisa muito séria.
Mas quem iria imaginar que a Nemésis da vitória pessoal de Obama iria ser não uma pessoa mas um movimento colectivo? Com a história é sempre a aprender… Há muitos lunáticos no Tea Party mas o movimento é do mais puramente americano que há. Mário Soares chama-lhe “movimento de extrema-direita”, com o mesmo radicalismo com que no Tea Party há quem ache que Obama é comunista. Mas o Tea Party derrotou esmagadoramente um Obama que há um ano parecia invencível e pode estar aí para durar. Pode, mas não é certo.
Movimento populista, grosseiro nas críticas, como é típico na chamada vox populi, fundamentalista religioso nalguns sectores, mas liberal-libertário noutros, o Tea Party exprime a desconfiança face ao estado, ao big government que é genética na democracia americana. Só o afastamento dos democratas e de Obama dessa fonte original, querendo fazer política “à europeia”, explica muito do radicalismo das suas críticas.
O individualismo também lá está, mas é o individualismo que Stuart Mill descreveu nestes termos: “apenas a parte da conduta de cada um que se reflecte na sociedade diz respeito a outros. Na parte que apenas diz respeito a si próprio, na sua independência é absoluta. Sobre si próprio, sobre o seu corpo e a sua mente, o individuo é soberano”. Claro que para muita gente que vai para a rua e votou nos candidatos apoiados pelo Tea Party, este individualismo é genuinamente contraditório, por um lado são contra a liberdade nas condutas sexuais, por outro não querem o governo a decidir a que médicos podem ir, quando podem.
COISAS DA SÁBADO:A HAGIOGRAFIA DE PEDRO PASSOS COELHO NO SOL
Pode ser que, quanto ao resto, alguma coisa seja verdadeira, mas desconfio muito pela amostra. No que me diz respeito directamente, ou a factos, reuniões e acontecimentos de que fui testemunha directa, em particular nos anos de Cavaco Silva (de cuja Comissão Política fui membro), tudo o que lá está são reconstruções a posteriori de eventos, com o objectivo explícito de gerar uma determinada imagem biográfica, mas muito longe da verdade. No que mais directamente se me refere, por exemplo quanto às eleições na Distrital de Lisboa, não há um único facto que seja verdadeiro: os números estão errados, as descrições são falsas, o que se passou grosseiramente deturpado. E é que não é um problema de interpretação, se fosse isso deixaria passar com caridade, mas são factos, números, eventos, testemunhos. Portanto a autora Felícia Cabrita confiou nas suas fontes, que a enganaram, e deveria tirar daí as suas ilações, mas também não verificou o que lhe disseram, o que devia ter feito. Até porque vem tudo nos jornais da época, ou quase tudo. E, felizmente, para a história futura, eu guardo os papéis todos e tenho uma excelente memória
As más notícias de ontem parecem um bálsamo diante das más notícias de hoje. E as de amanhã parecerão um pesadelo face às péssimas notícias de hoje. É assim quando se está num plano inclinado, é sempre pior, é sempre para baixo.