ABRUPTO

31.7.10


APRENDENDO COM RUY BARBOSA


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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (123) : SERVIÇO PÚBLICO PARA ZOMBIES


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

A RTP no seu principal noticiário da manhã às 9 horas: um acidente, futebol-1, um jogo qualquer; futebol-2, outro jogo qualquer; futebol-3, um treinador que regressa de férias e uma longa entrevista de aeroporto, malas na mão. Antes das 9 já tinham passado 30 minutos de futebol e desportos vários (uma imagem valia: a de um homem esgotado que desistiu dos cinquenta quilómetros de marcha, a explicar que todo o corpo dói, e a sua imensa culpa por desistir).  Treze minutos depois das 9, entrava o Portugal que não é para zombies, uma notícia mais importante do que tudo: a hecatombe das notas de matemática. "Serviço público" da RTP é uma típica expressão da novilíngua orwelliana.

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UMA PAISAGEM PÓSTUMA: O RIO TÂMEGA EM VAU 
(QUE VAI DESAPARECER COM A CONSTRUÇÃO DA BARRAGEM DO FRIDÃO)

(Fotos de Hélder Barros)

Uma das heranças deste governo é a destruição acelerada de tudo o que resta de paisagem natural em Portugal. As preocupações ecológicas param sempre à porta das energias renováveis e do deslumbramento tecnológico que ofusca o nosso Primeiro. A energia é um bem, mas a paisagem natural é outro e essa ponderação hoje não se faz. Não há cume de monte que não seja povoado de ventoinhas, e nenhum rio vai sobrar no seu estado natural. A destruição do Rio Tâmega atinge uma sucessão de vales, com rápidos e pequenas quedas de água, povoados de uma fauna e flora únicas. Conheço-os bem, tendo feito parte do primeiro grupo que o desceu em canoa em 1979 (junto com Ana Barbosa e Pedro Vilas Boas), o que motivou algum espanto nos jornais da época e uma recepção popular na Ribeira do Porto, porque o rio era tido como impossível de navegar. E na verdade, mais do que descer, era cair por ali abaixo, principalmente em zonas como a de Arcossó em Vidago, em Ribeira de Pena, junto à foz do seu afluente  Rio Beça, cujas trutas passavam ao nosso lado, até à entrada no Douro, tão assoreada que se fez quase a pé. O Tâmega tinha várias represas e mesmo uma pequena barragem industrial  meia abandonada, mas continuava a ser no essencial um rio, com rochas afiadas pela erosão da água, rápidos e quedas numa paisagem intocada. Vai acabar, como vai acabar o Tua e o Sabor, às mãos de gente de gabinete que nunca olhou para o céu pelo intervalo escuro das margens agrestes de um vale escavado, desconhece o que é água límpida a correr e o cheiro de urze. Quando já for tarde vamos todos lamentar não saber o que é um rio.

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COISAS DA SÁBADO:  PROTEGE A “JUSTIÇA” O PRIMEIRO MINISTRO ? (2)


Também não percebo nada da destruição completa nos despachos do PGR das referências às escutas do PM. Não percebo mesmo nada porque o PGR disse à Comissão de Inquérito sobre a TVI, para justificar não enviar os despachos, que esses só seriam divulgados no fim do processo chamado “Face Oculta”. Tal frase só tem sentido se essa divulgação fosse integral, porque a parte conclusiva desses despachos era já conhecida. Não percebo que agora houvesse esta reviravolta. Mas há mais: face a uma nova insistência para que o PGR enviasse os despachos sem a transcrição das escutas do PM, o PGR respondeu que não sabe o que é isso de despachos “truncados”, pelo que se negou pela segunda vez . E agora o próprio PGR trunca os seus próprios despachos... Não percebo como é que se pode saber da correcção da decisão do PGR sem ser pela integralidade dos seus despachos, visto que as acusações a que decidiu não dar andamento, só podem ser analisadas pelo seu todo. Não percebo mesmo nada disto. A única coisa que eu sei é que um elemento fundamental para o julgamento da atitude do PM e da decisão do PGR foi destruído. Isto é normal, até à luz das sucessivas contradições do PGR? Não o é de todo. É completamente anormal.

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EARLY MORNING BLOGS
1844

There are people who strictly deprive themselves of each and every eatable, drinkable, and smokable which has in any way acquired a shady reputation. They pay this price for health. And health is all they get for it. How strange it is. It is like paying out your whole fortune for a cow that has gone dry.

(Mark Twain)

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30.7.10


COISAS DA SÁBADO:  PROTEGE A “JUSTIÇA” O PRIMEIRO MINISTRO ? (1)


Aparentemente “acabou” o caso Freeport dando origem a acusações de corrupção. Havia portanto, na visão do Ministério Público, alguma coisa de irregular no processo de licenciamento do empreendimento. Essas acusações envolvem os representantes nacionais dos promotores, e delas foram excluídas à ultima hora, um autarca e alguns funcionários menores do Ministério do Ambiente. Pode ser que esta lista seja aquela para que o MP entende haver indícios suficientes para incriminar, não o contesto. Só que não conheço um único cidadão, um único político, que sendo envolvido por acusações directas de corrupção por parte de terceiros, não tenha pelo menos sido ouvido. Dito com toda a clareza: admito que José Sócrates, então Ministro do Ambiente, nada tenha a ver com o assunto e o seu nome tenha sido abusivamente usado, e haja apenas responsabilidade objectiva, só não admito que num caso como este nunca tenha sido ouvido pela justiça. Isto é que é absolutamente excepcional, para alguém que é sujeito a acusações directas de corrupção, para alguém que estava objectivamente envolvido no processo quer como decisor, quer pelos seus familiares. Qualquer Presidente da Câmara teria sido imediatamente ouvido, mas neste caso, o antigo Ministro de um ministério onde tudo aconteceu, e actual Primeiro-Ministro, parece ter sido sujeito a uma protecção especial, que mais do que o proteger de suspeitas, o deixa ficar para sempre envolvido nelas, Pode-se argumentar que houve cuidado dos investigadores de não envolver desnecessariamente o Primeiro-Ministro pelas suas funções oficiais, e admito que esta possa ser uma razão de peso. Mas, neste caso, essa razão inplica também uma gigantesca protecção, visto que não existe nenhum precedente de um político tão directamente envolvido que não tenha sido ouvido. Na verdade há uma excepção, Mário Soares no caso Emaúdio.

(Escrito antes de se saber o que entretanto se veio a saber...)

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EARLY MORNING BLOGS
1843 -  Aubade: Lake Erie

When sun, light handed, sows this Indian water
With a crop of cockles,
The vines arrange their tender shadows
In the sweet leafage of an artificial France.


Awake, in the frames of windows, innocent children,
Loving the blue, sprayed leaves of childish life,
Applaud the bearded corn, the bleeding grape,
And cry:
"Here is the hay-colored sun, our marvelous cousin,
Walking in the barley,
Turning the harrowed earth to growing bread,
And splicing the sweet, wounded vine.
Lift up your hitch-hiking heads
And no more fear the fever,
You fugitives, and sleepers in the fields,
Here is the hay-colored sun!"


And when their shining voices, clean as summer,
Play, like churchbells over the field,
A hundred dusty Luthers rise from the dead, unheeding,
Search the horizon for the gap-toothed grin of factories,
And grope, in the green wheat,
Toward the wood winds of the western freight.

(Thomas Merton)

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29.7.10


COISAS DA SÁBADO: A QUERELA CONSTITUCIONAL


Eu bem sei que muito do barulho vem de uma mistura da silly season, com as necessidades socialistas de terem alguma coisa “ideológica” a que se agarrar no meio de uma governação muito mais “liberal” do que as propostas “liberais” de Passos Coelho. É certo que é uma governação obrigada pelo estrangeiro, de má fé e a contre coeur, mas é o que é. Depois acrescenta-se o facto da nossa Constituição ter os donos vivos e os donos não gostam que se lhes mexa na propriedade e querem tudo no sítio onde o colocaram há quase 35 anos. E há também, numa Constituição que já foi mexida e remexida dezenas de vezes, muitas vezes inutilmente por causa da Europa, o facto de ela ser considerada simbólica à esquerda, sacrossanta e até um pouco de fetiche, o que em tempos de vacas magras ideológicas, conta. E depois, com a Constituição, tudo é grátis, não se prevê que alguma coisa vá mudar de decisivo no actual contexto, e por isso mexer com ela pelo menos de boca, não custa dinheiro e não tem consequências. Isto é válido para o PS, mas acima de tudo para o PSD que pode propor o que quiser, que sabe que nada vai passar no crivo da maioria qualificada.

Dito tudo isto, mesmo assim, e sem conhecer em detalhe e por escrito qual é a proposta do PSD, muita coisa parece-me ir no bom sentido. Acabar com a gratuitidade da saúde e da educação não é uma medida “liberal”, é abrir caminho para uma justiça social que coloque todos os recursos do estado a favor dos mais pobres. A “gratuitidade” universal é do domínio do puramente ideológico, mas na prática tem os efeitos exactamente contrários aos proclamados. O actual sistema é mais do que injusto, é socialmente favorável aos mais ricos cuja saúde e educação são pagas também pelos pobres, Mantendo-se um principio de solidariedade social, em que os que tem mais posses continuam a contribuir para a saúde e educação dos que necessitam, não há razão para se manter uma gratuitidade universal injusta.

Muitos bloqueios que a Constituição suporta, em nome longínquo das “conquistas da revolução”, são sempre pagos por quem é mais fraco. A enorme rigidez do contrato de trabalho só é boa para quem tem um emprego sólido, porque o seu custo é a institucionalização da precariedade, e o desemprego colectivo. Parece proteger, mas não protege ninguém. Não é preciso ser especialmente “liberal”, um termo papão que cobre tudo de um manto do mal, para chegar a esta evidência. E por aí adiante.
Se o PSD não estragar a pintura com propostas inconsideradas e conjunturais sobre o sistema político (espero para ver o texto de algumas que foram “sopradas” à comunicação social, em particular ao órgão oficioso da actual direcção, o Diário de Notícias), o saldo é positivo. Mas é preciso ter atenção ás consequências; o programa do PSD tem que ser alterado nalguns aspectos chave, mantendo o património genético do partido, o que exige muito saber e rigor político e ideológico. Ao mesmo tempo, para estas propostas não serem apenas “constitucionais”, o que no contexto actual as pode tornar apenas propagandísticas, é preciso moldar a actuação prática do partido ao seu conteúdo, o que não tem acontecido por exemplo no Parlamento onde tem havido posições erráticas em relação a este “molde” constitucional.

Vamos ver.

(Escrito antes de se saber  o texto final das propostas do PSD, que afinal ainda não é final.)

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(António Leal)

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PONTO / CONTRAPONTO

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Aqui.

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EMPANCADOS



Está tudo dito sobre o todo e o todo tem muita força. Está aí pousado em cima de nós, com o peso dos milhares de milhões da dívida, com o olhar desconfiado dos "mercados" e das tenebrosas agências de rating, com as ordens, ainda assim suaves, da Comissão Europeia, e está para ficar. Debaixo deste todo, nada mexe. Por isso, não vale a pena estar a repetir-me. Mas tenho que repetir-me, porque nesta canção só há refrão e sempre o mesmo refrão. Empancados.


Está tudo dito sobre o pequeno navio encalhado que é hoje Portugal. Ou se quiserem sobre o Titanic de uma qualquer linha obscura do mar Negro, que se afunda já nem sequer ao som da orquestra. Nesse país encalhado, tudo está bloqueado: o Governo não governa, o primeiro-ministro vocifera impotente com a má sorte que lhe calhou devido aos demónios neoliberais do estrangeiro, o ministro das Finanças anda curvado ao peso da dívida e do défice. A oposição que conta está errática: diz ter a obrigação "patriótica" de apoiar o Governo nas medidas anticrise, mas logo em seguida ameaça a aprovação do OE, num contexto que não é diferente da mesma crise que justificava os votos favoráveis aos PEC. Ainda estou para perceber o que se passou entretanto. Deixou de haver ameaça de bancarrota nacional? Duvido. Tudo isto dá uma sensação de impasse e de impotência. Empancados.


Uma das coisas que se dizem é que o Governo não passa de 2011 e que haverá eleições. Importam-se de me explicar como? Há várias hipóteses, nenhuma especialmente convincente. Depois das presidenciais, Sócrates demite-se? Duvido que o faça sem que pense ganhar alguma coisa com isso, o que me parece difícil de imaginar. O PS muda de líder para novas eleições? É provável, e dá-lhe uma oportunidade real, mas isso pressupõe que Sócrates quer ir-se embora. E para onde? Para gerir uma empresa de eólicas? Para uma fundação? Para uma embaixada política algures no Vanuatu? Difícil arranjar algum lugar dourado para um antigo primeiro-ministro pouco qualificado. Uma coisa me parece certa, o PS só força eleições se pensar que as pode ganhar. Empancados.

Depois quem vai "derrubar" o Governo em 2011? O Presidente se for Manuel Alegre? Impossível. Se for Cavaco Silva? Não é impossível, mas será difícil. Aqui deixemos uma hipótese que depende e muito do contexto de 2011. Admito que esse contexto é muito volátil para se excluir esta hipótese. O PSD apresenta uma moção de censura? Para que daqui resulte a queda do Governo é preciso que haja todos os votos da oposição, o que não é certo. Não me parece que BE, PCP e CDS queiram eleições antecipadas. Empancados.

E depois 2011 será no pleno da crise. Quem se atreverá a provocar eleições em plena conflituosidade social, em ambiente que será de hostilidade populista aos políticos, em dimensões nunca vistas desde o 25 de Abril? Só mesmo em condições muito excepcionais é que o PSD poderá correr o risco de fazer cair o Governo e assumir o ónus de eleições, porque o próprio acto de provocar a queda muda muito o ambiente político. Empancados.


A linha de argumentação de um PS com um novo líder baterá forte e feio na "imaturidade" da liderança do PSD, que o PS está hoje a experimentar e tem mais pés para andar do que se imagina. E o debate feio, em que algum PS e algum PSD são mestres, ainda não saiu da gaveta, mas sairá então. A actual direcção do PSD tem gozado de um estado de graça que, quando as coisas apertarem, evaporar-se-á como já se começa a ver. No PSD pensa-se nas sondagens favoráveis de 2010, mas as sondagens de 2010 premeiam o "consenso", as de 2011 punirão a ruptura. Pode não chegar para contrariar o desgaste imenso de Sócrates, mas o PS e Sócrates não têm a mesma usura. Por tudo isto, pode ser muito imprudente fazer cair o Governo em 2011, na lógica da mera alternância do poder. Empancados.

Admito o exacto contrário do que disse antes: um levantamento nacional do género "livrem-me desse homem", "qualquer coisa é melhor do que continuar com Sócrates". Não é impossível, mas o grau de descrença na mudança, a falta de esperança, a indiferença de quem já ouviu e viu tudo sem nenhuma consequência gerou tal anomia que a fúria pode permanecer mansa e alheada. E tudo continuar na mesma até 2013. Nesse caso, quando os partidos que contam para o Governo, PS, PSD e CDS, perceberem que têm que lidar com um tempo mais longo, terão um dilema sério visto não poderem continuar como até aqui: a viver num tempo curto que implica sempre uma crise política a prazo de meses. O Governo tem que tentar governar, a oposição estabilizar uma linha de actuação e abandonar o curso errático actual de arranques e recuos. Empancados.

Seja como for, não é brilhante. Encalhados, dentro de um pequeno navio, com os bens cada vez mais escassos e muita fome, com um capitão que pensa que o navio está a singrar alegremente para a terra do mel e das rosas e nem sequer olha para o banco de areia onde repousa, com uma tripulação entre o Navio Fantasma e a Nave dos Loucos, ninguém parece ter vontade, nem saber para tentar escavar alguma areia à espera de uma salvadora maré. Empancados.

É difícil viver num país sem esperança

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28.7.10

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EARLY MORNING BLOGS
1842 - Não Quero

Não quero recordar nem conhecer-me.
Somos demais se olhamos em quem somos.
Ignorar que vivemos
Cumpre bastante a vida.


Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
Quando passa conosco,
Que passamos com ela.


Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?)
Melhor vida é a vida
Que dura sem medir-se.

(Ricardo Reis)

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27.7.10


EARLY MORNING BLOGS
1841 -Voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento


Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se
não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

(Jorge de Sena)

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26.7.10

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COISAS DA SÁBADO: MAIS EXEMPLOS DE “CULTURALÊS”


Na semana passada referi aqui vários exemplos do “culturalês”, uma forma de linguagem burocrático-cultural, que tem ligações próximas com o “politiquês” e o “eduquês”. Eu criei o termo “politiquês”, com algum sucesso, e o “jornalistês”, sem nenhum sucesso, Marçal Grilo criou o “eduquês” com muito sucesso, espero agora contribuir para se perceber a identidade profunda entre estes falares correntes no nosso Portugal contemporâneo. É através deles que as nossas pequenas e médias elites falam com o Estado, de cima ou para o lado, e com o resto do povo de cima para baixo. Muitos exemplos de “culturalês” ficaram na gaveta na semana passada porque não cabiam no texto e vão agora, para acrescento e proveito dos ignaros incultos, ser aqui refereridos.

Veja-se este exemplo do Teatro do Vestido. Não estou a falar de nada que tenha visto e por isso não é o espectáculo em si que comento, que até pode ser genial, mas da sua apresentação ao público potencial. Estou a falar do que os seus “criadores” dizem sobre o que fazem, neste caso a “3ª edição do projecto de intervenção e colaboração do Teatro do Vestido, Esta é a minha Cidade e Eu Quero Viver Nela, em que Joana Craveiro (...) convidou o criador e performer Miguel Bonneville”. O espectáculo tinha entrada livre com a seguinte nota: “Cada intervenção tem a duração aproximada de 15 minutos e uma entrada limitada a 5 pessoas. Recomendamos marcação prévia”. 5 pessoas, não parece haver gralha. E o que se passa nessa “intervenção”:
“Este espectáculo acontece em dois quartos de hotel com comunicação entre si.(...) . Este espectáculo é sobre estranhos, camas, lençóis sujos, telefones e telefonemas, comunicação, divisão, desencontrarmo-nos uma vez, o Navio Night, estar perdida de noite sem saber o caminho de regresso a casa, ser salvo por alguém, não haver salvação possível, arranjar uma alternativa, portas entreabertas, levantar o chão, cofres atrás de quadros, segredos, a solidão, não é sobre cartas, é sobre o depois das cartas, é uma carta-postal mais do que um telegrama, é sobre ter um lugar num daqueles restaurantes que está aberto a noite inteira e que tem a um canto um casal improvável e nós sozinhos noutro canto, é sobre uma música em específico, a solidão da Gena Rowlands no Opening Night, enganares-te num número, quase conseguir alguma coisa, uma declaração que é feita e para a qual não tens resposta, teres uma sensação de não caberes em lado nenhum, é sobre ele me ter deixado, é sobre acordar várias vezes durante a noite. Este espectáculo é sobre ser português. “
 Esta “intervenção” foi apoiada pela Fnac, Internacional Design Hotel, Teatro Nacional D. Maria II e financiado pelo Ministério da Cultura. Eu gosto mesmo é de que “este espectáculo é sobre ser português”.

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NOVOS DESCOBRIMENTOS: PEDRAS


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EARLY MORNING BLOGS
1840 - Atrás Não Torna

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.

(Ricardo Reis)

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© José Pacheco Pereira
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