ABRUPTO

21.7.10


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


Passagem do tempo por um banco de um  jardim de Cracóvia. (SC)

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COMEMORAÇÕES DA REPÚBLICA OU COMEMORAÇÕES DA PRIMEIRA REPÚBLICA?

Outro dia, à minha frente um eléctrico trazia pintado um dos símbolos da República, uma figura feminina com barrete frígio com um seio desnudado, uma variante, mesmo assim mais púdica, da figura de Delacroix da "liberdade guiando o povo". Um seio nu em vez de dois, certamente porque a Carris obedece aos bons costumes. Neste ano do centenário da República, actos dessa comemoração estão por todo o lado, mas toda esta sucessão de publicações, eventos, sessões, não escapam a uma ambiguidade que remete mais para uma história "oficial" do que para a história pura e simples, mais agnóstica quanto à política e à ideologia republicana. Ou dito de forma mais exacta, quanto à nossa tradição republicana jacobina e maçónica, que encontrou expressão numa parte da oposição à ditadura, quer nos sobreviventes da própria Primeira República, quer no oposicionismo não comunista, socialista, uma continuidade. Resumindo e concluindo, o que se está a comemorar não é a forma republicana de governo, mas sim a Primeira República de 1910 a 1926, através da imagem laudatória e mítica que se fixou nos anos da oposição ao regime do Estado Novo. É uma coisa bem diferente da República, até porque o próprio regime de Salazar e Caetano não só foi republicano na forma, como o foi muitas vezes mais do que na forma, na essência, sendo que a Salazar se deve o fim da querela república-monarquia que até aos anos 50 permanecia viva. Só que era outro tipo de republicanismo e esse não o estamos a comemorar.

Antes do 25 de Abril o republicanismo maçónico tinha sido absorvido na aliança que o PCP tinha feito com os elementos da velha oposição republicana e com os socialistas que representavam de alguma maneira a sua "juventude". Esta aliança conheceu altos e baixos e foi posta à prova pela aparição nos anos 60 de novos actores, os grupos esquerdistas, que obrigaram o PCP a ter que lidar não só com a sua direita, mas também com a sua esquerda. Até meados da década de 60, no calendário oposicionista, o 31 de Janeiro e o 5 de Outubro eram mais importantes do que o 1º de Maio ou a data da Revolução Russa, o 7 de Novembro. Nas romagens que se faziam aos cemitérios ou aos monumentos das figuras republicanas, no Porto e em Lisboa, manifestações sem-ilegais, havia sempre um grito emocionado de "Viva a República!", atirado para o ar. Recordo-me, no Porto, de um velho popular, penso que alfaiate, que aparecia sempre e que tinha uma voz possante, apesar de ser muito pequeno e atarracado e que gritava o "Viva a República" quase a chorar. Mas essa emoção já estava então a esmorecer, e, nas cadeias, esquerdistas e comunistas digladiavam-se pelas datas que se deviam comemorar pelos presos e, cá fora, aparecia uma nova geração de intelectuais esquerdistas que descobriam uma Primeira República bem diferente da que a oposição mitificara.


Essa Primeira República era intolerante, pouco democrática, anti-operária, anti-sindicalista, tão corrupta como todos os regimes, tinha uma clientela venal e convivia bem quer com milícias violentas, quer com o embrião de uma polícia política, a partir da qual a própria PVDE, depois, PIDE, depois DGS, evoluiu. Havia eleições, mas dificilmente se podiam considerar mais do que um simulacro, quer pelo desenho dos círculos eleitorais, quer pela escassa participação popular, num sistema que funcionava na base do clientelismo e do patrocinato, a favor do Partido Democrático.

Havia corrupção e grossa incompetência, de que são exemplo a companhia dos Transportes Marítimos do Estado, criada a partir dos barcos alemães apresados nos portos portugueses, quando da declaração de guerra, e a construção de bairros sociais, que acabaram apenas de ser construídos em pleno salazarismo, que não deixou de usar o contraste entre a sua "obra" e a ineficiência republicana. Havia mais censura do que se imaginava e as perseguições políticas eram comuns, assim como o número de presos e deportados. A prática de deportações em massa, para Timor, Guiné era habitual, assim como o exílio forçado de monárquicos, jesuítas, e mesmo dos republicanos que tinham que fugir da sequência de golpes militares que caracterizavam a enorme instabilidade política nas ruas e nos governos. E a Primeira República foi manchada igualmente pelos assassinatos políticos, em particular a célebre "noite sangrenta", em que foram mortos António Granjo, Machado Santos, José Carlos da Maia, Freitas da Silva, Botelho de Vasconcelos, entre outros. Por contraste, o único assassinato político que merece ser classificado como tal no Estado Novo foi o de Humberto Delgado, embora haja ainda muitas obscuridades quanto ao que se passou. Houve gente morta pela PIDE, nos campos de concentração, nas cadeias, sob tortura, em confrontos de rua, mas não existem provas de que se tratava de assassinatos deliberados.

Claro que os 16 anos da República não podem ser comparados aos 48 anos da ditadura, que instituiu todas as formas de violência numa organização estatal estável e muito mais eficaz, e que penetrou a sociedade portuguesa com mecanismos repressivos ao lado dos quais os da Primeira República parecem amadores. Mas esta é uma comparação que é perigosa, que posso fazer, mas que não desejo que se preste a uma confusão historicista, porque se trata de coisas muito diferentes, de regimes muito diferentes. Se quisermos fazer uma comparação mais compreensiva, é entre o republicanismo de 1910 a 1926 com o constitucionalismo monárquico, que os republicanos ajudaram a denegrir e que sob muitos aspectos era, esse sim, muito mais tolerante do que os momentos mais negros da República. Basta ler As Farpas, ou os jornais onde Bordalo Pinheiro colaborava, os Pontos nos Iis, o António Maria, a Paródia, para o perceber.

Na Primeira República havia partidos, liberdade de imprensa, competição eleitoral, tudo muito imperfeito e longe da visão idílica dos republicanos, mas no Estado Novo não só não havia nada disso, como a institucionalização num Estado protofascista nos anos 30, e depois conservador-autocrático, tornou o conformismo pela coacção num pano de fundo que castrou gerações inteiras. Quem desculpa o Estado Novo com os excessos da Primeira República não sabe do que está a falar ou então está a fazer outra coisa. Mas também convém não nos iludirmos que as comemorações deste ano conseguiram ultrapassar de forma significativa a visão do republicanismo maçónico e jacobino, preso à mitificação da Primeira República, e sem perspectiva crítica. Há excepções, mas esta foi a regra. Viva a República!

(Versão do Público de 17 de Julho de 2010.)

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EARLY MORNING BLOGS
1839 - Each Life Converges to some Centre 

Each Life Converges to some Centre --
Expressed -- or still --
Exists in every Human Nature
A Goal --


Embodied scarcely to itself -- it may be --
Too fair
For Credibility's presumption
To mar --


Adored with caution -- as a Brittle Heaven --
To reach
Were hopeless, as the Rainbow's Raiment
To touch --


Yet persevered toward -- sure -- for the Distance --
How high --
Unto the Saint's slow diligence --
The Sky --


Ungained -- it may be -- by a Life's low Venture --
But then --
Eternity enable the endeavoring
Again. 

(Emily Dickinson)

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20.7.10


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (122) : PONHAM LÁ COBRO À HISTERIA SFF


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

RTP - Telejornal das 20 Horas: o PSD de Passos Coelho em guerra, nem mais nem menos, do que com a "civilização", a pretexto do projecto de revisão constitucional. Para além do serviço à estratégia de dramatização do PS, aproveitando a silly season, (pobre país, que esse é que pedia dramatização...), é um pouco ridículo, não é? Ou, quando se fala da Constituição, estamos no domínio do sagrado?

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(António Leal)

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COISAS DA SÁBADO: O “CULTURALÊS” E O PODER DA AUTO-CLASSIFICAÇÃO

Olhando para os encontros dos “artistas” que venceram a Ministra encontramos um dos mundos menos conhecidos e escrutinados da vida pública portuguesa. Porém, existe uma relação directa entre a ausência de escrutínio do seu trabalho e a capacidade que têm de influenciar os media a favor das suas causas, quer porque o seu lugar é central em certas “indústrias culturais”, a que os media estão associados, quer pelo preconceito da intangibilidade da “cultura”, da “criação”, da “arte”.

Este mundo funciona em circuito fechado, e desconhece-se que critérios presidem ao seu funcionamento e como são verificados os resultados dessa aplicação do dinheiro dos contribuintes. Sabe-se que não é pelo interesse do público, visto que estes ramos de “cultura” e “arte” abominam tal critério vulgar, de serem avaliados, entre outras coisas, pelo interesse que suscita o seu trabalho pelo comum dos portugueses.

É verdade que a verba que gastam do erário público não é elevada, mas é dinheiro dos contribuintes que tem direito de saber onde e com quem é gasta. Os grupos de “artistas”, principalmente na área do teatro e da “performance”, empregam um número significativo de pessoas, cuja trabalho individual é desconhecido e não avaliado. São “artistas” e como se auto-classificam como tal, quase tudo lhes é permitido, e respondem com enorme arrogância a qualquer avaliação.

Organizados em várias “plataformas”, Plataforma do Teatro, das Artes Plásticas, do Cinema, a que se juntaram a Associação Portuguesa de Realizadores, da Plataforma do Cinema, a Plateia - Associação dos Profissionais de Artes Cénicas e a REDE - Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea, representam uma miríade de grupos cuja existência pública é quase ignorada se exceptuarmos alguns realizadores de cinema, o Teatro da Comuna, o Teatro da Cornucópia, e os Artistas Unidos. A REDE “reúne 26 estruturas transdisciplinares e de dança contemporânea” e a Plateia “agrega cerca de 70 profissionais e 20 estruturas do norte de Portugal, maioritariamente da Zona Metropolitana do Porto, das áreas do teatro e dança”. Só a Plataforma do Teatro inclui a Ar de Filmes, Barba Azul, Casa Conveniente, Chão de Oliva, Joana Teatro, KARNART C. P. O. A., A Mala Voadora, Mundo Perfeito, O Bando, Plateia, Primeiros Sintomas, Qatrel, Teatro da Garagem, Teatro da Rainha, Teatro do Vestido, Teatro dos Aloés e o Útero.

Tanto “artista”, tanto “criador”, que nós temos por metro quadrado! O modo como se apresentam tem toda a prosápia burocrática e cultural. O Teatro do Vestido quer com ousadia “criar uma dramaturgia original” para o que constituiu “uma equipa multidisciplinar, que aposta numa forte relação com os espaços de apresentação, valorizando-os, bem como numa relação de partilha com o público”. A Casa Conveniente explica-nos que no seu “espaço” no Cais do Sodré “todos têm os seus lugares: bares, prostitutas, clientes, actores, actrizes, espectadores – todos coexistem sem se misturarem, marcando diferenças e aceitando vizinhanças e influências.”. Uma coisa chamada KARNART C. P. O. A., (“Criação e Produção de Objectos Artísticos, explica-nos que a dita é “uma associação privada sem fins lucrativos (...) tem por objectivo aliar aos valores teatrais clássicos vertentes artísticas de outras áreas na criação de objectos de grande dimensão estética e forte impacto interventivo, quer do ponto de vista antropológico quer do ponto de vista sociológico (...) Valores tradicionais em vias de extinção, minorias sociais, direitos de animais, problemas ambientais, religiões e seitas, globalização, etc., são algumas das temáticas que ao colectivo interessa abordar numa perspectiva de arte interventiva e interactiva”. E por aí adiante.

Este bla-bla do “culturalês” é como o “politiquês” e o “eduquês”, mas ninguém lhe toca. Só faltava tratar os “artistas” como gente vulgar!

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EARLY MORNING BLOGS
1838

—La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad así como por la honra se puede y debe aventurar la vida, y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres . Digo esto, Sancho, porque bien has visto el regalo, la abundancia que en este castillo que dejamos hemos tenido; pues en mitad de aquellos banquetes sazonados y de aquellas bebidas de nieve me parecía a mí que estaba metido entre las estrechezas de la hambre, porque no lo gozaba con la libertad que lo gozara si fueran míos, que las obligaciones de las recompensas de los beneficios y mercedes recebidas son ataduras que no dejan campear al ánimo libre . ¡Venturoso aquel a quien el cielo dio un pedazo de pan sin que le quede obligación de agradecerlo a otro que al mismo cielo ! 

(Cervantes)

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19.7.10



(António Leal)

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COISAS DA SÁBADO: O MINISTÉRIO DA CULTURA DEIXOU DE TER MINISTRA

A implosão da Ministra da Cultura deu-se esta semana e cabe nesta frase:
"Consegui meios para não fazer cortes nenhuns no resto do ano. Foi possível porque o Ministério da Cultura se empenhou e obteve da parte do Governo solidariedade e, em particular do senhor primeiro-ministro, as condições para não aplicar os cortes."
 Andam a gozar connosco, o Primeiro-ministro e a Ministra, porque há uma semana era tudo ao contrário. Na verdade, a Ministra acabou, está póstuma, tanto faz lá estar como não estar. Ou melhor: como no sítio onde antes havia uma ministra está hoje apenas um fantasma que vagueia pelo Palácio da Ajuda e este não pode ser transportado para a sede do Conselho de Ministros, o governo que já soma quase tantos problemas como ministros que tem, passou a ter mais um.O que aconteceu à Ministra da Cultura é exemplar do vazio em que se tornou este governo. Infelizmente para o país é um vazio confuso, fragilizador, caótico, propício a asneiras caras, que se pega à nossa crise como um miasma a mais. A senhora que ocupa o lugar resolveu dar-nos um exemplo de como não se governa: anuncia um corte de 10% nos subsídios da cultura, passou uns dias a ouvir a gritaria dos subsidiados da cultura, cuja capacidade para se fazerem ouvir foi sempre grande, e veio depois anunciar que os 10% de corte, que há uma semana entendia serem absolutamente necessários, são agora superáveis pelo “empenho do Primeiro-ministro”. E manteve tudo na mesma.

Nessa mesma semana cometeu outros erros que lançam a suspeita sobre a sua preparação para o cargo. Não é preciso ser muito culto para se ser ministro da cultura, como já se viu no passado, mas algum trato com essas coisas bizarras da cultura ajuda. Principalmente quando se trata de uma Ministra que acha que Jorge Luís Borges se chama José Luís Borges (quando ouvi isto no Parlamento nem queria acreditar e gritei de lá de cima “Jorge”, que espero tenha sido ouvido no registo dos apartes...), e que acha que uma acção é “meritosa” em vez de meritória (gritei de lá de cima “meritória” a ver se havia correcção. Nada...). Ainda perguntei aos meus colegas açorianos se seria uma “açoreanismo”, mas parece que ninguém ouviu tal palavra. E assim vamos continuar tão “meritosa” função de estar no lugar de Ministra da Cultura e não o ser.

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EARLY MORNING BLOGS
1837 - Shakespeare

Others abide our question. Thou art free.
We ask and ask: Thou smilest and art still,
Out-topping knowledge. For the loftiest hill,
That to the stars uncrowns his majesty,
Planting his steadfast footsteps in the sea,
Making the Heaven of Heavens his dwelling-place,
Spares but the cloudy border of his base
To the foil'd searching of mortality:
And thou, who didst the stars and sunbeams know,
Self-school'd, self-scann'd, self-honour'd, self-secure,
Didst walk on earth unguess'd at. Better so!
All pains the immortal spirit must endure,
All weakness that impairs, all griefs that bow,
Find their sole voice in that victorious brow.

(Matthew Arnold)

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18.7.10

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1836 - Good Books, Good Times

Good books, good times
Good stories
Good rhymes
Good beginnings
Good ends
Good people
Good friends
Good fiction
Good facts
Good adventures
Good acts
Good stories
Good rhymes
GOOD books
GOOD times

(Lee Bennett Hopkins)

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