| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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17.7.10
UMA HISTÓRIA DA CAROCHINHA QUE PASSA POR "IDEOLOGIA" A palavra "ideologia" não tem culpa dos tratos de polé a que tem sido submetida quer por políticos, quer pelos seus ampliadores naturais, os jornalistas. A palavra tem uma história complicada e nem sempre unívoca desde que, com Desttut de Tracy, entrou no vocabulário político e das ciências sociais. Mil polémicas interpretativas rodeiam o conceito e, nos tempos arqueológicos do althusserianismo da minha geração, era muitas vezes por aí, pela discussão da "verdadeira" interpretação marxista da ideologia, que se começava. A ideologia era a ciência ao contrário, ou seja, a ocultação deliberada da realidade pelos interesses de classe que produziam um discurso (ideológico) que mascarava a realidade. A ela se opunha o socialismo, inerentemente científico, o reverso da ideologia. Mas a esquerda esqueceu a sua tradição marxista e como sofreu vários abalos à sua identidade, o maior e mais recente, o fim do "socialismo real", voltou a uma nostalgia da identidade, ou seja, da distinção ideológica com a direita. Circula por isso, um pouco por todo o lado, essa enorme orfandade e nostalgia do mundo da Guerra Fria, onde não havia pretos de cabelos louros, nem brancos de carapinha. Tudo quanto é articulista faz elogios a qualquer coisa que pareça ser um "retorno à ideologia", quer à esquerda, quer à direita, e aceita como sinal desse retorno qualquer frase, declaração e posição que se auto-intitule de "ideológica", mesmo que seja apenas um discurso deslavado, muitas vezes apenas auto-justificativo e propagandístico. Um festim deste "retorno à ideologia" deu-se nas últimas jornadas parlamentares do PS, onde, de Mário Soares a Sócrates, se tentou formular uma vaga teoria justificativa das posições de "esquerda" do PS, em contraponto à direita, ao "neoliberalismo" do PSD. Não por acaso todo este discurso é feito completamente à margem daquilo que é a prática dos mesmos que hasteiam a bandeira ideológica do Governo, como se houvesse dois níveis na realidade, um é o do discurso puramente ideológico, outro o que se faz na realidade, como se este segundo nível fosse resultado de um estado de necessidade, de um qualquer deus ex-machina que implica políticas fora do discurso ideológico dos que a aplicam, como se fossem resultado de um obrigação da natureza, como a fome, a sede, e o sexo. Como disse um responsável socialista, o "défice não é de esquerda nem de direita", o que é uma bem estranha afirmação, mas bem significativa dos tempos que correm. Um malévolo discípulo de Alain diria que esta é uma típica frase de direita. Já comparei a "narrativa" que se fez nas jornadas parlamentares do PS da história das últimas décadas que levaram à crise actual a uma história da Carochinha, mais uma das que correm na vida política portuguesa com abundância nos tempos socráticos. Sem desprimor para a Carochinha, nem para o seu consorte Ratão. É não só uma "narrativa" sem qualquer correspondência com a realidade, como não tem qualquer consequência na política, na acção concreta. Chamar a isto "ideologia" é também dar uma palavra-caução a uma história auto-justificativa, sem substância teórica e... sem ideologia. Se é assim que a esquerda hoje "pensa", está bem arranjada a esquerda.Em traços largos a história da Carochinha é esta: desde a senhora Thatcher que o mundo é governado por uma espécie particular de criminosos que são chamados "neoliberais". Mário Soares salientou este aspecto criminoso dos "neoliberais" lamentando-se de que apenas Madoff esteja preso (claro que esta esquerda faz de conta que um dos seus gurus anti-especulação é George Soros...). Em Portugal, Sócrates dixit, o "neoliberal" máximo dos dias de hoje é Passos Coelho, cujo objectivo é o "desmantelamento do Estado social", e este perigoso "neoliberal" é o dirigente social-democrata mais elogiado por Mário Soares e aquele com que José Sócrates co-governa o país. Encaixam as coisas umas nas outras? Nada, mas não têm importância. Basta a enunciação "ideológica", para épater le bourgeois e a ignorância jornalística e chega. O resto não importa. A mesma história da Carochinha considera que estes criminosos "neoliberais", representados por sinistras figuras como Reagan, os dois Bush e presumo que Berlusconi, desregularam tudo, incentivaram a passagem de uma economia industrial para uma "economia de casino", assente na especulação financeira, nos offshores, no papel sobre papel sobre papel sobre papel, cujo vazio teria que estourar mais dia, menos dia. É óbvio que algumas destas coisas aconteceram, havia muito papel sobre papel sobre papel, mas os Estados usaram esta "economia de casino" para aumentar o welfare state, mesmo nos EUA onde muita da especulação imobiliária que estourou com a crise do Fredie Mac (nome completo: Federal Home Loan Mortgage Corporation) e Fannie Mae (nome completo: Federal National Mortgage Association), o primeiro acto da crise actual. Ambos eram government sponsored enterprises (GSE) e os nomes não enganam na sua filiação rooseveltiana, assim como a sua história recente, quando aquilo que mais tarde veio a ser metido na classificação genérica de "economia de casino" foi resultado de impulsos "sociais" da presidência Clinton para que muitos americanos pudessem aceder a habitação. Encaixa? Não encaixa, mas nunca são Carter, nem Clinton que são lembrados. E mesmo na Europa, quem são esses tenebrosos "neoliberais" que desregularam tudo e encurralaram o Estado num minimalismo criminoso? Não foi certamente Chirac, um conservador estatista, no qual os defensores da golden share teriam um mestre. No entanto, tal descrição calha bem, por exemplo, em Blair. Blair, membro do Partido Trabalhista, que canta a "Bandeira Vermelha" nos congressos do partido. Encaixa? Não encaixa, mas pouco importa. O discurso corrente é que todas as medidas actuais, que os socialistas deveriam abominar, se tomassem a sua própria ideologia a sério, são justificadas para garantir a "sustentabilidade do Estado social". Na verdade, a realidade é bem diferente. O alvo de todas estas medidas é o próprio Estado social que se diz defender. Cortes de salários e de regalias sociais, fim de subsídios de desemprego, subida da idade de reforma, cortes no investimento público (esse tributo que se paga a um keynesianismo de bolso), são medidas que os socialistas incluiriam no catálogo daquilo que acham ser o "neoliberalismo". Ou seja, os socialistas tomam medidas "neoliberais", para defender o "Estado social", o que também não encaixa lá muito bem. Estamos mais uma vez no domínio da Carochinha. O problema é outro: é que nem a crise teve origem naquilo que dizem ter acontecido, nem aquilo que consideram ser o "neoliberalismo" existe enquanto tal, nem a narrativa histórica dos últimos anos corresponde a não ser a um fragmento da realidade. Eles deliberadamente ignoram que mais do que o papão do "neoliberalismo", quem esteve à frente dos destinos da Europa foram estatistas quer de esquerda, quer de direita, e que o que se fez foi acima de tudo criar um Estado-providência, o chamado "modelo social europeu", impossível de sustentar, quer pela demografia, quer pelo efeito de competição da globalização. Ou seja, a crise actual, tendo uma componente financeira que é a única de que os socialistas falam, foi muito para além e acabou por mostrar a dimensão de fragilidade do "modelo social" construído na dívida e no défice, e por isso impossível hoje de se manter. E como não havendo dinheiro não há vícios, os socialistas fazem à contre coeur aquilo que abominam, porque acabou o período em que o dinheiro permitia viver-se muito acima das possibilidades. Agora o acordar é duro, mas podiam poupar-nos a esta fábula inventada da Carochinha para encontrarem nos outros uma responsabilidade que também partilham, e continuar a esperar que nada mude, quando tudo mudou. É que, se há "ideologia" que não se come, é esta e o comer vai estar muito no centro das preocupações dos povos. (Versão do Público de 10 de Julho de 2010.) (url) 1835 - El hilo de la fábula El hilo que la mano de Ariadna dejó en la mano de Teseo (en la otra estaba la espada) para que éste se ahondara en el laberinto y descubriera el centro, el hombre con cabeza de toro o, como quiere Dante, el toro con cabeza de hombre, y le diera muerte y pudiera, ya ejecutada la proeza, destejer las redes de piedra y volver a ella, su amor. Las cosas ocurrieron así. Teseo no podía saber que del otro lado del laberinto estaba el otro laberinto, el del tiempo, y que en algún lugar prefijado estaba Medea. El hilo se ha perdido; el laberinto se ha perdido también. Ahora ni siquiera sabemos si nos rodea un laberinto, un secreto cosmos, o un caos azaroso. Nuestro hermoso deber es imaginar que hay un laberinto y un hilo. Nunca daremos con el hilo; acaso lo encontramos y lo perdemos en un acto de fe, en una cadencia, en un sueño, en las palabras que se llaman filosofía o en la mera y sencilla felicidad. (Jorge Luis Borges) (url) 16.7.10
(url) 1834 Lear: "Nothing can come of nothing: speak again." (Shakespeare, King Lear.) (url) 14.7.10
1833 "That which we persist in doing becomes easier, not that the task itself has become easier, but that our ability to perform it has improved." (Ralph Waldo Emerson) (url) 13.7.10
COISAS DA SÁBADO: A VULGATA IDEOLÓGICA DOS SOCIALISTAS Nesta cena da PT veio mais uma vez ao de cima a paupérrima vulgata que passa por ideologia no PS. Ele é alimentada por várias fontes: Mário Soares, o principal esquerdista do PS, José Sócrates, o principal bipolar do PS, Santos Silva, o principal propagandista do PS e o azorrague dos seus inimigos da “direita”. Todos têm andado nos últimos dias a repetir uma espécie de versão ideológica sobre a crise que atravessamos, cá dentro e lá fora. Na verdade, esta vulgata já dura há muito mais tempo, e não é “dos últimos dias”, mas o facto de estarem a repeti-la em Julho de 2010, dá-lhe um tom particularmente irrealista, isolado da realidade, e, no sentido não clínico da palavra, autista, assim como, no sentido surrealista da palavra, absurdo. Absurdo em tudo: primeiro, como análise é um puro discuso propagandista; segundo, como ideologia, mesmo à esquerda, é grosseiro e primitivo; terceiro, como prática, não existe. Em que é que consiste a “narrativa” dessa vulgata: nos últimos quarenta anos,com altos e baixos, mas coincidindo com o ciclo Thatcher – Reagan – Bush pai e acima de tudo o tenebroso Bush filho, o mundo foi governado por “neo-liberais”, gente que construiu uma “economia de especulação financeira”, assente em variedades globais de sistemas como o da D. Branca, esse prócere do “neo-liberalismo” caseiro. Abandonou-se a “economia real” e caminhou-se para uma “economia de casino”, desregulando tudo, reduzindo o estado a um malfeitor envergonhado, pisando as “políticas sociais”, e criando uma “bolha” que o Nouvel Observateur e o Le Monde Diplomatique (se existisse) já dizia há quarenta anos que ia rebentar. Rebentou e dos criminosos “neo-liberais” apenas o senhor Madoff foi parar à cadeia, deixando o mundo em pantanas. Tão em pantanas que nem Santo Obama ainda recuperou, nem a Santa União Europeia se recompôs, porque, com excepção dos socialistas, é governada por gente que ainda vem dos tempos do Madoff, como a senhora Merkel. O que é que há a fazer? Os socialistas sabem muito bem: mais investimento público, mais Keynes, mais Marx, um estado com maior presença na economia, aperto na regulação, confisco dos ricos que andaram a “empochar” à Madoff (esta parte Louçã faz melhor) e defesa intransigente do “estado social”. Pois, pois. Se não fosse um insulto à história da Carochinha, esta fábula mereceria um prémio. A PRÁTICA DOS SOCIALISTAS O problema é que , para além da fábula, há a realidade, a prática, aquilo que os marxistas aprendiam como sendo o “critério de verdade na teoria do conhecimento do materialismo dialéctico”. A parte prática, executada por Sócrates – Teixeira dos Santos, martelada contra os infièis por Santos e Silva e apoiada ainda mais à esquerda por Soares, é a que mostra o absurdo a que chegou a vulgata, porque enchendo a boca com o “estado social”, propõe-se salva-lo exactamente com a medicina dos “neo-liberais”, ou seja com medidas cuja lógica é a que é exorcisada pelo discurso ideológico. Parece confuso? É confuso e intelectualmente muito pobre, mas é o que a casa socialista hoje gasta. Claro que na prática, a vulgata tem os seus custos. Ela funciona como uma resistência, como os maus condutores resistem à passagem dos electrões: gera enormes desperdícios, atrasa tudo e produz uma enorme quantidade de calor inútil que se dissipa no ar. É o que hoje o PS parece: faz a política que diz abominar, e retira-lhe muita da eficácia, porque a faz sempre com má fé, atrasado, mal, com desperdício e mais caro. Se o mundo fosse como na fábula ideológica acima contada, os socialistas deveriam estar a fazer exactamente o contrário daquilo que fazem: a avançar com as grandes obras públicas em nome de Keynes, a não mexer em salários, nem reformas, a aumentar as regalias sociais, a fortalecer o estado nacionalizando e a apertar o pescoço do BES. Pois, pois. Isso teria sido muito bonito, se pudéssemos continuar a viver de dinheiro emprestado que cada vez menos temos capacidade de pagar, e que cada vez menos gente nos empresta. E como não há dinheiro, não há vícios nem socialismo. Podemos apenas vociferar contra os “especuladores” e essa tenebrosa conspiração internacional que “de lá de fora” nos quer tirar o euro e abater a Europa, para além de destruir a gloriosa obra de José Sócrates, tão perfeita, tão perfeita que levou a nossa dívida aos píncaros e o nosso défice ao clímax. A culpa de facto é do Madoff, o socialismo pode continuar intangível na sua perfeição moral e política a cavar a sepultura da esperança dos portugueses em viverem um pouco melhor, só um pouco melhor. (url) HOJE DE NOVO NO (url) 12.7.10
(NOT SO) EARLY MORNING BLOGS ![]() 1832 As a single footstep will not make a path on the earth, so a single thought will not make a pathway in the mind. To make a deep physical path, we walk again and again. To make a deep mental path, we must think over and over the kind of thoughts we wish to dominate our lives. (Henry David Thoreau) (url) 11.7.10
COISAS DA SÁBADO: MOSTRAR PODER Tenho tido um curso aprofundado de golden share: na Comissão de Inquérito à operação da TVI, ouvi tudo e o seu contrário sobre os poderes das ditas e então, por razões de ofício, estudei algum do material académico disponível sobre o assunto. Tenho uma opinião sobre a substância da coisa, mas não digo porque não é relevante, porque não é a substância da coisa que conta. Contam os homens e o mando, as relações de poder que tem entre si e o resto é paisagem. O que digo é que sendo o que é a relação entre o governo de José Sócrates (é melhor dizer assim porque é mais exacto), a actual administração da PT (ou seja com Granadeiro e com Bava e ainda com outros menos visíveis publicamente), com a CGD, o BES, a Ongoing e outros parceiros, sendo o que é hoje a situação política, e estando Portugal como está, a golden share só serve para exercer poder, dizer quem manda de forma errada e no sítio errado, e com muito espalhafato e pouca substância. Os prejuízos só não serão piores porque este “não” durará quinze dias e depois quem quer vender vai vender, quem quer comprar vai comprar e aquilo que o Primeiro-ministro chama com desprezo o “neo-liberalismo” impor-se-á ao “estado”, essa forma moderna de designar um socialismo pobre e endividado. Podemos não gostar e andar a agitar a bandeirinha que sobrou do futebol contra os espanhois, mas as coisas são como são. (url) (url)
© José Pacheco Pereira
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