ÍNDICE DO SITUACIONISMO (119):ESTRANHA COMPLACÊNCIA
A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida.
Quanto mais leio sobre o que se vai sabendo das tentativas governamentais e socialistas de desenvolverem uma grande operação de controlo dos media no ano eleitoral de 2009, utilizando abusivamente recursos públicos e o próprio poder político directo, pelo menos no limiar do crime, mas bem dentro do abuso do poder e no exercício de uma manipulação flagrante da opinião pública em ano eleitoral, mais me surpreende a enorme complacência que muitos jornalistas mostram perante o que se passou. Surpreende-me a enorme facilidade com que gozam e ridicularizam colegas seus que, umas vezes pior ou melhor, conforme a sua facilidade de expressão e idiossincrasias próprias, denunciam pressões de que foram sujeitos, e a sistemática minimização de algo de muito mais sério do que qualquer tentativa do passado.
Há muitas razões para essa complacência, nenhuma boa. Muitos jornalistas, nestes momentos de confrontação política, alinham pelas suas simpatias e são selectivos nas suas indignações (se fosse Jardim o alvo quantos editoriais inflamados já teriam sido escritos?), o que não é novidade. Mas há mais: a crescente promiscuidade entre os jornalistas que estão no topo da hierarquia dos seus orgãos de comunicação e as administrações desses órgãos, fazendo coincidir "linhas editoriais" com posições e interesses dos proprietários ou, no caso da comunicação social pública, com o governo que em última instância, escolhe e nomeia. E por fim, mas não menos importante, há jornalistas directamente envolvidos em todo este processo, a quem foi pedido que controlassem os estragos do que se ia sabendo e que moldassem a informação aos interesses do poder político, e, apesar desses pedidos serem inaceitáveis legal e deontologicamente, nunca os denunciaram nos seus jornais, tornando-se cúmplices do que aconteceu. Nada do que aconteceu teria sido possível sem a colaboração de jornalistas, principalmente nas chefias dos órgãos de comunicação social e nas redacções. Por isso, o que aconteceu em 2009, é tão incómodo para o governo e Sócrates como o é para muitos jornalistas.
COISAS DA SÁBADO: PROPAGANDA FALSA PAGA COM O NOSSO DINEHIRO
Este cartaz, profusamente distribuído em Lisboa. é pago com o nosso dinheiro e é um exemplo mais de como o dinheiro dos contribuintes e dos munícipes lisboetas de há muito tempo é usado para alimentar as chamadas causas “fracturantes” e os grupos radicais que as suportam, na sua maioria ligados ao Bloco de Esquerda. Não é novidade nenhuma mas nunca vi uma discussão sobre os abusos do financiamento público que tivesse em conta esta realidade: o dinheiro dos contribuintes é usado para promover causas políticas em que a maioria não se revê, de organizações cuja contabilidade e accountability desconhece, deturpando a transparência da vida pública . Basta colar a uma organização qualquer o título de que luta contra a “discriminação” ou o “racismo” (o caso do SOS Racismo é outro exemplo de organizações do Bloco de Esquerda financiadas pelo dinheiro dos contribuintes) para se pensar justificado dar-lhes dinheiro público.
No caso deste cartaz acresce que estamos a financiar uma mentira. A pergunta do cartaz é uma pura sugestão de falsidade e a resposta que sugere é pura e simplesmente falsa. “Se a tua mãe fosse lésbica, mudava alguma coisa?” Claro que mudava muita coisa, por boas e más razões, principalmente por más, mas reais. O cartaz no fundo está a dizer-nos, em nome da luta contra os preconceitos à volta da homossexualidade, que esses preconceitos não existem tornando inútil o cartaz.
Ama a criança a sua mãe, seja lésbica, amarela, militante da “vida”, punk ou apenas mãe? Certamente que sim, mas não se fazem cartazes sobre os afectos. Existem ou não, o Estado não cura, ou não deve curar de os tornar em propaganda. No resto, a resposta séria tem que ser “muda” e nalguns casos muda muito, e esse é que é o terreno da discriminação. Aliás o cartaz tem implícita outra falsidade no modo de fazer a pergunta: porque não se pergunta “se as tuas mães fossem lésbicas, mudava alguma coisa?”, porque essa seria a situação que justificaria a pergunta. A mãe lésbica vive com uma mulher que na família é o quê senão a outra mãe, mesmo sem o nome nem a biologia? Ou pode viver com o pai, supostamente separado pelas preferências de género da mãe, ou, caso esta seja bissexual, em conúbio carnal, como se dizia? Pode no meio disto tudo nada “mudar” para a criança? Pode, muito excepcionalmente, mas nunca como a regra que o cartaz indicia com falsidade.
Esta maneira pouco séria como se tratam questões de grande complexidade afectiva, cultural, social e societal, como se fossem (como são) “causas” de grupos, gera muitos mais problemas do que os que resolve. Mas que nos mintam com o nosso dinheiro para servir agendas radicais cujo alcance permanece obscuro, isso é pouco admissível.
TEXTO INTEGRAL DAS RESPOSTAS DADAS AO PÚBLICO EM JANEIRO DE 2010
(e que foram utilizadas em parte num artigo de Luciano Alvarez)
1 – Como viu o debate político nos blogues e redes sociais durante as campanhas eleitorais do ano passado?
Muito incipiente e dominado pelas actuais pragas da blogosfera: tribalismo, competição a preto e branco, baixo nível da linguagem e insultos, dependência mútua entre a agenda dos media e a agenda dos blogues, e já muita desinformação disseminada pelo poder político em intervenções profissionalizadas, quer por via de agências de comunicação, quer através de falsos blogues criados para o efeito. Há uma diferença abissal, para pior, entre a campanha das presidenciais, que tinha blogues de apoiantes genuínos, o Super Mário e o Pulo do Lobo, e a selvajaria actual.
2 – Muitos políticos e candidatos criaram blogues e entraram nas redes sociais durante a campanha, mas, depois das eleições, saíram por completo. Os políticos portugueses tiram o melhor proveito da internet para a passagem da mensagem política?
Para muitos políticos, por ignorância ou desinteresse, o uso da internet é mais uma obrigação de campanha do que uma actividade sistemática. Por isso dizem-lhes em campanha que tem que fazer umas coisas na internet e eles fazem ou mandam alguém fazer por eles. Depois vão-se embora.
Infelizmente, os políticos que “melhor proveito” tiram da internet fazem-no no contexto do ambiente que descrevi acima: destruição simbólica do adversário, desinformação, condicionamento da comunicação social, com falsas “vagas” de opiniões. Há muitos jornalistas que se comportam da mesma maneira, logo a simbiose dá resultados num empobrecimento dos media em geral.
3 – A blogosfera e as redes sociais marcam o debate político? De que forma e quais as diferenças entre o debate político nos blogues e nas redes sociais?
A discussão política propriamente dita é hoje muito pobre, superficial, feita de anátemas e processos de intenções. Há excepções, mas confirmam a regra.
Fame, wisdom, love, and power were mine, And health and youth possessed me; My goblets blushed from every vine, And lovely forms caressed me; I sunned my heart in beauty’ eyes, And felt my soul grow tender; All earth can give, or mortal prize, Was mine of regal splendour.
I strive to number o’er what days Remembrance can discover, Which all that life or earth displays Would lure me to live over. There rose no day, there rolled no hour Of pleasure unembittered; And not a trapping decked my power That galled not while it glittered.
The serpent of the field, by art And spells, is won from harming; But that which soils around the heart, Oh! who hath power of charming? It will not list to wisdom’s lore, Nor music’s voice can lure it; But there it stings for evermore The soul that must endure it.
February. Get ink, shed tears. Write of it, sob your heart out, sing, While torrential slush that roars Burns in the blackness of the spring.
Go hire a buggy. For six grivnas, Race through the noise of bells and wheels To where the ink and all you grieving Are muffled when the rain shower falls.
To where, like pears burnt black as charcoal, A myriad rooks, plucked from the trees, Fall down into the puddles, hurl Dry sadness deep into the eyes.
Below, the wet black earth shows through, With sudden cries the wind is pitted, The more haphazard, the more true The poetry that sobs its heart out.
(Boris Pasternak)
Февраль. Достать чернил и плакать! Писать о феврале навзрыд, Пока грохочащая слякоть Весною черною горит.
Достать пролетку. За шесть гривен Чрез благовест, чрез клик колес Перенестись туда, где ливень Еще шумней чернил и слез.
Где, как обугленные груши, С деревьев тысячи грачей Сорвутся в лужи и обрушат Сухую грусть на дно очей.
Под ней проталины чернеют, И ветер криками изрыт, И чем случайней, тем вернее Слагаются стихи навзрыд.
Cada vez mais me convenço de que, de tanto fugirmos de uma crise política e da possibilidade de haver novas eleições, não sei até que ponto estamos a incubar uma crise muito maior e muito mais profunda. A verdade é que nas semanas em que a Moody"s mandou em Portugal, todos os cuidados foram poucos e o PS levou um Orçamento aprovado para casa única e exclusivamente porque não o ter levado significava um descalabro nacional. Mas agora, cada dia que passa, estamos cada vez mais encurralados num destino sem ter destino, num futuro sem ter futuro.
Quem assistiu ao debate do Orçamento, pôde ver até que ponto ele representou um momento particularmente sombrio da vida parlamentar. O discurso inicial do primeiro-ministro não gerou um átomo de entusiasmo na bancada do PS. Pretendendo ser mais um exercício de optimismo habitual em José Sócrates, foi pronunciado com um semblante carregado, sem ânimo nem convicção. Manuela Ferreira Leite, ouvida em silêncio respeitoso (quem lá esteve, sabe que foi assim) por toda a oposição e pelo PS, perguntava, perplexa: "Como é que o senhor pôde falar este tempo todo sem nunca se referir ao problema mais grave do país, o da dívida e do descontrolo orçamental?". Se tinha alguma coisa preparada de antemão, certamente não a usou, porque se percebia o genuíno espanto com o que José Sócrates dissera.
Depois, começou a cena habitual e Sócrates animou-se no confronto politiqueiro, falando pela enésima vez da Madeira. A Lei das Finanças Regionais, leia-se o "dinheiro para Jardim", foi talvez mais falado em todo o debate por parte do tandem Sócrates-Teixeira dos Santos-Lacão, do que qualquer outra coisa. Parecia que se estava em campanha eleitoral. A irritação com o refrão governamental foi tanta que Jerónimo de Sousa abriu a sua primeira intervenção virando contra o primeiro-ministro uma sua imprecação sobre a Madeira, pedindo que a oposição fosse explicar a um habitante de Bragança porque razão se dava mais dinheiro à Madeira, que era "rica". Jerónimo de Sousa, interpelando Sócrates, indignado, retorquiu-lhe que fosse ele mesmo explicar a um habitante de Bragança o que é que tinha feito por Bragança em vez de estar a atacar o povo da Madeira. A Madeira foi o único e monotemático lubrificante do discurso governamental, tudo o resto foram as habituais picardias de Sócrates (e as aborrecidas imprecações de Lacão), tudo sem qualquer ânimo ou réstia de fulgor.
Havia um enorme cansaço em tudo aquilo. Louçã estava particularmente baço e Portas voltou aos tempos de Manuel Monteiro e pediu uma redução dos salários dos políticos. O CDS-PP e o PSD, que garantiam a passagem do Orçamento pela abstenção, tinham, como se deve prever, um bathos absoluto. O Orçamento é um documento pouco sério, que em nada inverte a política de desastre dos últimos anos, e que a Unidade Técnica de Apoio Orçamental, uma entidade independente do Parlamento, no seu relatório, mostra como este está cheio de truques de desorçamentação e como, mudando de critérios de um ano para o outro, impede fazerem-se as comparações devidas. O ministro das Finanças, que sabe o sarilho em que o país está metido, esteve sempre de cara fechada e foi o único que, nas suas intervenções, ainda permitia algum vislumbre da realidade. Pelo contrário, José Sócrates gabava-se da performance portuguesa na crise: os últimos a entrar na crise, os primeiros a sair da recessão técnica, número sobre número melhor do que os congéneres europeus, para concluir que a "economia portuguesa resistiu melhor à crise do que as suas congéneres europeias", assim mesmo. Os seiscentos mil desempregados, os milhares de pequenas empresas falidas estavam nalgum remoto lugar que não naquela "economia" de que falava.
O problema é que já ninguém acredita no primeiro-ministro, que foi, várias vezes, e vindo de diversas bancadas, de forma mais ou menos eufemística, chamado de mentiroso, já sem qualquer reacção. Nem ele reage, nem ninguém mexe uma palha por ele, tornou-se habitual. Ninguém, naquela sala, era capaz de antever qualquer esperança em nada. O Governo, percebe-se, está encurralado e sem fulgor, apesar de ter poucos meses, e a oposição, que não deseja eleições, e em particular o PSD, que não está preparado para elas, sente-se impotente. Impotência, é isso mesmo, é a palavra que melhor descreve o enorme desânimo que atravessa a política portuguesa. Impotência e cansaço.
Os motivos próximos são dois, actuando cada um de forma diferente, mas com resultados semelhantes. Um, foi o cataclismo nos mercados que coincidiu com as vésperas da apresentação do Orçamento. Toda a gente percebeu que, mesmo que se passe os dias a dizer que Portugal não é a Grécia, a possibilidade de uma crise "grega" tornou-se um possibilidade demasiado assustadora. A realidade da nossa situação económica, e em particular da nossa dívida, entrou pela primeira vez pela porta grande, para todos verem, e, mesmo os que negam o problema (e o continuam a negar), não podem deixar de ficar assustados. A outra causa, que continua em curso, são as revelações sobre as tentativas de controlo da comunicação social em ano de eleições, que atingem o âmago do poder da Casa de Sócrates.
O efeito de deslegitimação política é cada vez maior. Sócrates tem todos os dias mais coisas para explicar e cada vez mais dificuldade em fugir a fazê-lo. A paralisia política do Governo mete-se pelos olhos dentro. A crise económica e social alastra. A percepção pública do papel da justiça vai desde a suspeita de que existem protecções inexplicáveis, à do conflito aberto entre diferentes instâncias, e decisões contraditórias. É difícil tudo estar pior, mas sei lá se para a semana está pior. Assim não vamos lá. Repito: cada vez mais me convenço que, de tanto fugirmos de uma crise política e da possibilidade de haver novas eleições, estamos a incubar uma crise muito maior e muito mais profunda.
EARLY MORNING BLOGS 1736 - To David, About His Education
The world is full of mostly invisible things, And there is no way but putting the mind’s eye, Or its nose, in a book, to find them out, Things like the square root of Everest Or how many times Byron goes into Texas, Or whether the law of the excluded middle Applies west of the Rockies. For these And the like reasons, you have to go to school And study books and listen to what you are told, And sometimes try to remember. Though I don’t know What you will do with the mean annual rainfall On Plato’s Republic, or the calorie content Of the Diet of Worms, such things are said to be Good for you, and you will have to learn them In order to become one of the grown-ups Who sees invisible things neither steadily nor whole, But keeps gravely the grand confusion of the world Under his hat, which is where it belongs, And teaches small children to do this in their turn.