O precedente português (embora fosse italiano) de Louçã é o padre jesuíta Gabriel Malagrida. O jesuíta tinha fama de santo e conheceu altos e baixos na sua carreira de pregador entre Portugal e o Brasil, entre um rei e outro. Só quando chegou ao Marquês é que tudo acabou mal, na fogueira. Malagrida notabilizou-se por um texto que escreveu sobre o terramoto de 1755, em resposta a um panfleto explicativo das causa naturais do fenómeno, encomendado pelo Marquês que era homem das Luzes. Anote-se desde já, que não foi esse texto que motivou a sua execução, apenas o seu desterro, mas sim outros escritos considerados de “lesa-majestade“.
Hoje, um Malagrida moderno teria muitos votos pelas suas pregações, se em vez do terramoto, se tratasse de “explicar” a “crise”. E, em vez do cadafalso, teria o prime-time da televisão, onde os jornalistas babados pela sua oratória lhe dão o papel ímpar de ser o julgador moral do PS e do PSD. Ele não está lá no ecrã para dizer o que pretende o Bloco de Esquerda, mas sim para, sempre com os mesmos trejeitos, flamejar de ameaças os infames que causaram o tremor de terra. Por trejeitos refiro-me a capacidade histriónica de Louça de conseguir não só falar como sublinhar com um traço facial e uma inflexão de voz, as sua próprias palavras, não vá a gente não as perceber.
Também Malagrida apelava a ideias simples, embora erradas, a fés que não se questionam, a medos comuns, aos traumatizados pelo desastre e aos crédulos de sempre, aos zangados pela vida e aos que esperam por milagres, acima de tudo aos que procuram em tempos difíceis uma ilusão a que se agarrar, porque o real é demasiado pobre e fraco e mau. Malagrida propunha-lhes práticas salvíficas e imediatas, procissões e devoções. O mundo de Malagrida era simples e os maus e os bons estavam separados por um abismo fundo. Os maus mandavam na terra e os bons sabiam como se ia para o Céu. Os maus propunham “causas naturais” para os desastres para iludir a sua responsabilidade, os bons acreditavam que um Deus feroz tinha que ser aplacado na sua vingança, pela restituição das coisas mundanas a uma “ordem natural” que tinha sido rompida pela incredulidade. Para Malagrida, as causas do terramoto eram divinas:
Sabe Lisboa, que os únicos destruidores de tantas casas e palácios, assoladores de tantos templos e conventos, homicidas de tantos habitantes, os incêndios devoradores de tantos tesouros não são cometas, não são estrelas, não são vapores ou exalações, não são fenómenos, não são contingências ou causas naturais, mas são unicamente os nossos intoleráveis pecados.
O discurso de Louçã tem a mesma lógica do de Malagrida. O mal, os “intoleráveis pecados”, é uma coisa a que ele chama de “ganância” dos ricos e poderosos, ou seja, o capitalismo, embora ele prefira a classificação moral à política, porque esta última podia ser muito reveladora na sua genealogia. Para restaurar a Jerusalém divina, é necessário que se entre no reino da “Justiça”, ou seja, da igualdade, da solidariedade, onde todos os homens são felizes. Quem é que ousa contestar a “justiça”? Só os maus. Quem é que ousa questionar a ira divina? Só os ímpios.
A experiência histórica tem precedentes para estas palavras de Louça. Elas só são novas porque a memória é muito curta. É que se as tomarmos como elas são, desnudadas da sua ganga retórica, trata-se de um discurso de extrema-esquerda assente numa visão comunista da sociedade, onde há um brutal intervalo entre a “justiça” exigida e a “justiça” realizada. Esse intervalo é o de uma sociedade totalitária, de uma ditadura do Bem sobre o Mal. Malagrida perceberia muito bem este mundo.
EARLY MORNING BLOGS 1627 -Goody for Our Side and Your Side Too
Foreigners are people somewhere else, Natives are people at home; If the place you’re at Is your habitat, You’re a foreigner, say in Rome. But the scales of Justice balance true, And tit leads into tat, So the man who’s at home When he stays in Rome Is abroad when he’s where you’re at.
When we leave the limits of the land in which Our birth certificates sat us, It does not mean Just a change of scene, But also a change of status. The Frenchman with his fetching beard, The Scot with his kilt and sporran, One moment he May a native be, And the next may find him foreign.
There’s many a difference quickly found Between the different races, But the only essential Differential Is living different places. Yet such is the pride of prideful man, From Austrians to Australians, That wherever he is, He regards as his, And the natives there, as aliens.
Oh, I’ll be friends if you’ll be friends, The foreigner tells the native, And we’ll work together for our common ends Like a preposition and a dative. If our common ends seem mostly mine, Why not, you ignorant foreigner? And the native replies Contrariwise; And hence, my dears, the coroner.
So mind your manners when a native, please, And doubly when you visit And between us all A rapport may fall Ecstatically exquisite. One simple thought, if you have it pat, Will eliminate the coroner: You may be a native in your habitat, But to foreigners you’re just a foreigner.
ÍNDICE DO SITUACIONISMO (102): AMÁLGAMA À BLOCO DE ESQUERDA
A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida.
No Público de hoje. A amálgama, a junção de coisas muito diferentes para que o negativo duma seja dissolvido pela companhia de outra, ou a junção de duas coisas muito diferentes para que ambas sejam sujeitas ao mesmo olhar crítico, é um processo de manipulação da informação demasiado conhecido. Na verdade, o despesismo que sugere o título é injusto para o PSD, que o jornal reconhece ter cortado drasticamente nas despesas, e só é verdadeiro para o PS, como revela o quadro junto e o texto do próprio jornal. Mas para muita gente só o título conta e o título tem uma sugestão de falsidade: a de que ambos os partidos, sem distinção, estão a ser despesistas na campanha eleitoral. Quem costuma fazer este tipo de amálgamas é o Bloco de Esquerda.
Notificou Moisés ao povo de Israel como tinha Deus resoluto que de ali por diante governasse um anjo, e diz o texto sagrado que, ouvida esta nova, «todo o povo se pôs a chorar em pranto desfeito e todos se cobriam de luto»: populus luxit, et nullus (...) indutus est cultu suo. Quem imaginaria de tal notícia tão encontrados efeitos? Antes parece que todos se haviam de vestir de gala e dar muitas graças a Deus por tal governador. Que melhor ;governador se podia desejar que um anjo? Um anjo que não come, nem veste, nem granjeia; um anjo que não tem parentes, nem criados, nem apetites; um anjo tão sábio e tão verdadeiro, que nem pode enganar, nem ser enganado, benévolo, afável sempre do bom rosto; enfim, um anjo? Pois se todas as outras nações se contentam ou sofrem ser governadas por homens «e os trazem sobre a cabeça»: Imposuisti homines super capita nostra; que razão teve o povo de Israel para receber com lágrimas e lutos a nova de o haver de governar um anjo? __ Muito grande razão. Porque até ali quem governava aquele povo era Deus por si mesmo; e suceder a Deus um anjo, não era favor, senão rigor; não era benefício, senão castigo; eram sinais da majestade divina ofendida e irada e demonstrações de que antes queria desamparar e destruir aquele povo, que conservá-lo. Esta foi a justa razão daquelas lágrimas; e já temos concluído que, ainda que S. Pedro fora um anjo, não seria digno sucessor de Cristo, nem ele deixaria dignamente provida a sua Igreja, e ela por aquela eleição e sucessão, não se devia vestir de festa, como hoje a vemos, senão chorar e cobrir-se de lutos.
ÍNDICE DO SITUACIONISMO (101): INTERESSANTES TÍTULOS
A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida.
No Diário de Notícias. Aquele "apenas" é todo um programa.
No i. Mais um exemplo de como a expressão "campanha negra" se tornou nos jornais numa espécie de passe-partout, num rodriguinho, num estereotipo, como o "tabu" ou a "pequena Esmeralda" (ou Maddie, ou Alexandra, ou...), já sem qualquer referência ao sentido original. Nada na notícia tem a ver com qualquer "campanha negra".
Little things that no one needs— Little things to joke about— Little landscapes, done in beads. Little morals, woven out, Little wreaths of gilded grass, Little brigs of whittled oak Bottled painfully in glass; These are made by lonely folk.
Lonely folk have lines of days Long and faltering and thin; Therefore——little wax bouquets, Prayers cut upon a pin, Little maps of pinkish lands, Little charts of curly seas, Little plats of linen strands, Little verses, such as these.
COISAS DA SÁBADO: MAU AMBIENTE, TANTA COISA EM JOGO, TANTA COISA A PERDER…
… na próxima campanha eleitoral, que corremos o risco de ter uma das campanhas mais agressivas, mais violentas da história da democracia depois do 25 de Abril. O grau de violência verbal que já se manifesta nos blogues, o grau de ataques e contra-ataques, a prevalência de argumentos contra as pessoas, o inquinar da campanha pelas questões judiciais, tudo isto associado a uma imprensa que necessita do incidental e do conflitual como pão para a boca, é uma receita para o desastre. Se não houver A a falar contra B, enganos, tropeções, populares a gritar contra os políticos, cenas infelizes, a campanha será “chata”, pouco interessante, pouco espectacular e não vende jornais nem telejornais. Para além disso, a comunicação social tem há muito tempo um estereótipo de cobertura de campanhas e não sabe fazer doutra maneira: os políticos não falam dos problemas do país e só se interessam por questiúnculas menores. Se não existirem inventam-se, ou então os “protagonistas” são uns maçadores estruturais que “nada dizem aos portugueses”. O enfado dos editoriais dos jornais já quase que está definido com antecedência. Perdido por ter cão, perdido por não ter.
Os políticos têm também muita culpa. O tom do populismo agressivo tem crescido por sua responsabilidade nos últimos anos e partidos como o PP e o BE capitalizam com os excessos pretendendo ao mesmo tempo ficar “fora do sistema”. A personalidade muito especial do Primeiro-ministro e o rastro de conflitos que deixou atrás de si, sem praticamente nenhuma reforma sólida, também semeia muita intolerância. O facto dos portugueses estarem cansados, sem esperança e sem qualquer ilusão sobre os maus tempos que estão e vão passar, cria também um pano de fundo de radicalismo que se volta contra os políticos e a democracia.
A questão está em como compatibilizar uma campanha que não conheça tabus, naquilo que é fundamental julgar - o que também inclui assuntos tão espinhosos como o BPN ou o Freeport nas matérias que são do domínio estritamente político e só nisso, - com a capacidade de manter os limites da pessoalização e da agressividade. Vai ser difícil encontrar este equilíbrio, porque está muita coisa em jogo e o resultado está em aberto, sem vencedor antecipado.
O God, O Venus, O Mercury, patron of thieves, Give me in due time, I beseech you, a little tobacco-shop, With the little bright boxes piled up neatly upon the shelves And the loose fragment cavendish and the shag, And the bright Virginia loose under the bright glass cases, And a pair of scales not too greasy, And the votailles dropping in for a word or two in passing, For a flip word, and to tidy their hair a bit.
O God, O Venus, O Mercury, patron of thieves, Lend me a little tobacco-shop, or install me in any profession Save this damn'd profession of writing, where one needs one's brains all the time.