ABRUPTO

14.2.09


APRENDENDO COM O PADRE ANTÓNIO VIEIRA:
E que seria se estes, depois de roubarem uma cidade, fossem promovidos ao governo de cinco, e, depois de roubarem cinco, ao governo de dez?



Um rei, diz Cristo, Senhor nosso, fazendo ausência do seu reino à conquista de outro, encomendou a administração da sua fazenda a três criados. O primeiro acrescentou-a dez vezes mais do que era, e o rei, depois de o louvar, o promoveu ao governo de dez cidades: Euge bone serve, quia in modico fuisti fidelis, eris potestatem habens super decem civitates. O segundo também acrescentou à parte que lhe coube cinco vezes mais, e com a mesma proporção o fez o rei governador de cinco cidades: Et tu esto super quinque civitates. De sorte que os que o rei acrescenta e deve acrescentar nos governos, segundo a doutrina de Cristo, são os que acrescentam a fazenda do mesmo rei, e não a sua. Mas vamos ao terceiro criado. Este tornou a entregar quanto o rei lhe tinha encomendado, sem diminuição alguma, mas também sem melhoramento, e no mesmo ponto, sem mais réplica, foi privado da administração: Auferte ab illo mnam. Oh! que ditosos foram os nossos tempos, se as culpas por que este criado foi privado do ofício foram os serviços e merecimentos por que os dagora são acrescentados! Se o que não tomou um real para si, e deixou as coisas no estado em que lhas entregaram, merece privação do cargo, os que as deixam destruídas e perdidas, e tão diminuídas e desbaratadas, que já não têm semelhança do que foram, que merecem? Merecem que os despachem, que os acrescentem e que lhes encarreguem outras maiores, para que também as consumam e tudo se acabe? Eu cuidava que, assim como Cristo introduziu na sua parábola dois criados que acrescentaram a fazenda do rei, e um que a não acrescentou, assim havia de introduzir outro que a roubasse, com que ficava a divisão inteira. Mas não introduziu o divino Mestre tal criado, porque falava de um rei prudente e justo, e os que têm estas qualidades — como devem ter, sob pena de não serem reis — nem admitem em seu serviço, nem fiam a sua fazenda a sujeitos que lha possam roubar: a algum que não lha acrescente, poderá ser, mas um só; porém a quem lhe roube, ou a sua, ou a dos seus vassalos — que não deve distinguir da sua — não é justo, nem reis quem tal consente. E que seria se estes, depois de roubarem uma cidade, fossem promovidos ao governo de cinco, e, depois de roubarem cinco, ao governo de dez?

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (42): "PASSOSCOELHISMO"


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.



no Diário de Notícias. What else?

SITUACIONISMO +2

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EXTERIORES: CORES DE HOJE



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (41):
O PAÍS EM QUE SOMOS TODOS PRIMOS UNS DOS OUTROS



A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

O Público tem hoje uma excelente nota jornalística (de autoria de Clara Viana) intitulada "O mundo pequeno do caso Freeport". Um dos problemas portugueses é este: isto é tudo tão pequeno, está toda a gente em cima da de toda a gente, os bens são escassos, a fome é muita, logo a independência é raríssima. Ou dito de outra maneira: num país em que somos todos primos uns dos outros, é difícil haver uma democracia. Muito do situacionismo endémico em que vivemos vem daí.

O "mundo pequeno do caso Freeport" mostra as interacções entre os protagonistas, numa rede pessoal (a endogamia em certos grupos profissionais é forte), de carreiras, de nomeações, de lugares. E mostra algo que devia estar sempre presente na nossa cabeça: existe um establishment nacional à volta do PS e que só ocasionalmente toca no PSD, no PP e só marginalmente no PCP. É menos "bloco central" do que se pensa e mais PS do que se imagina. Atravessa praticamente todos os lugares onde realmente há poder e dinheiro em Portugal, seja fundações, old boys networks, gabinetes "técnicos", o mundo da "cultura" subsidiada, universidades, lobbies organizados como agências de comunicação, empresas públicas, grupos ligados à Maçonaria com uma presença forte no sistema judicial e nos serviços de informação. Inclui bancos e grandes empresas muito próximas do estado e do poder político socialista. Era no sector empresarial que ainda havia algum pluralismo, mas mesmo aí tem havido uma significativa perda de independência. E quem escapa a este establishment e fere os seus interesses nunca terá um bom emprego, terá sempre a reputação em perigo (um dos aspectos mais importante deste establishment é o de dador de "legitimidade" simbólica, através de lugares, prémios, homenagens, protecção) e parece sempre "excessivo".



Clara Viana nota e bem que "os Governos de António Guterres funcionaram como epicentro" e depois descreve proximidades perigosas: Cândida Almeida "membro da comissão de honra da candidatura de Mário Soares à Presidência da República nas eleições de 2006", que reune no Eurojust "actualmente presidido pelo português José Lopes da Mota", procurador que "foi secretário de Estado da Justiça do primeiro Governo de António Guterres (1996-1999), na altura em que José Sócrates era secretário de Estado do Ambiente" e que "chegou a ser um dos nomes falados para substituir o PGR, mas na altura foram tornadas públicas suspeitas de que teria fornecido a Fátima Felgueiras uma cópia da denúncia anónima sobre o "saco azul" socialista. O inquérito aberto pelo procurador-geral Souto de Moura foi arquivado por falta de qualquer tipo de provas nesse sentido. Na década de 80, tinha sido procurador em Felgueiras. " (Clara Viana não referiu que Sócrates também está ligado a Felgueiras). Nessa reunião do Eurojust teria estado António Santos Alves, ex-inspector do Ambiente e Magistrado do Ministério Público, representante português no Eurojust. que "era inspector-geral do Ambiente em 2002, quando a construção do Freeport foi viabilizada pelo Ministério do Ambiente, então tutelado por Sócrates. Foi este, como ministro do Ambiente, que o nomeou para o cargo de inspector-geral em Dezembro de 2000. (...) " E continua num enorme etc. Vale a pena ler tudo.

. SITUACIONISMO - 4

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EARLY MORNING BLOGS

1486 - A True Account Of Talking To The Sun At Fire Island (fragmento)

The Sun woke me this morning loud
and clear, saying "Hey! I've been
trying to wake you up for fifteen
minutes. Don't be so rude, you are
only the second poet I've ever chosen
to speak to personally
............................ so why
aren't you more attentive? If I could
burn you through the window I would
to wake you up. I can't hang around
here all day."
..................... "Sorry, Sun, I stayed
up late last night talking to Hal."

"When I woke up Mayakovsky he was
a lot more prompt" the Sun said
petulantly. "Most people are up
already waiting to see if I'm going
to put in an appearance."
............................................. I tried
to apologize "I missed you yesterday."
"That's better" he said. "I didn't
know you'd come out." "You may be wondering why I've come so close?"
"Yes" I said beginning to feel hot
and wondering if maybe he wasn't
...... burning me
anyway.

(Frank O'Hara)

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13.2.09


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: ECOLOGIA E PROPAGANDA



Como muitos portugueses, também eu fiquei contente quando recebi em casa este VALE que me dava direito a 5 lâmpadas economizadoras! O problema só surgiu quando me dirigi a um dos locais indicados para as levantar, o «Feira Nova», onde fui informado que já estavam esgotadas há muito tempo... e não esperavam receber mais.
Esclareceram-me, também, que não me valeria a pena ir aos outros locais indicados no prospecto pois sucedia o mesmo em todos.

Mas, felizmente tudo fora previsto! O mesmo papel sugeria-me que telefonasse para o 800 501 501 (EDP, chamada gratuita) e fizesse o pedido; em seguida, as lâmpadas ser-me-iam enviadas para uma estação dos CTT à minha escolha!

Assim fiz, no passado dia 22 de Janeiro, e a resposta que me deram ficou-me no ouvido: «A campanha está suspensa por ruptura de stock». Mas, pensando bem, não se perdeu nada. Já viram que as lâmpadas que se propunham dar-me têm a rosca invertida?!

(C. Medina Ribeiro)

*
O colega Medina Ribeiro é um brincalhão e não disse tudo, que ele próprio sabe : não são as lâmpadas que têm a rosca invertida, mas sim a foto das lâmpadas que foi impressa do avesso. Trata-se de uma situação muito frequente, até com fotos de pessoas em revistas e jornais, em que, por vezes, só quem conhece a pessoa é que repara num sinal do lado oposto da cara, como aconteceu há uns anos com uma foto da modelo Cindy Crawford.



Mas não é de todo surpreendente que os promotores desta campanha não tenham reparado na inversão da foto das lâmpadas. As empresas de marketing não possuem especialistas em todos os produtos que promovem, nem tal seria de esperar, pelo que os responsáveis da entidade patrocinadora têm de estar atentos ao aspecto final dos suportes promocionais. Só que, numa certa concepção da gestão das empresas, que ultimamente tem feito escola, infelizmente até em empresas de energia, em que economistas, juristas e publicistas têm vindo a ocupar lugares que seriam mais apropriados para profissionais com sólida formação técnica, aceita-se a ideia de que o importante não é saber do assunto, é fazer "outsourcing". O pior é que quem não sabe é como quem não vê. Aconteceu isto com as lâmpadas economizadoras, um caso inocente, que ainda tem alguma graça, mas pode acontecer, por exemplo, com uma central de ciclo combinado, em que a ignorância pode ter outras consequências.

(Jorge Pacheco de Oliveira
)

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (40): UM BOM EXEMPLO


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

O programa Nós por Cá da SIC (de hoje) deu um bom exemplo do escrutínio que se deve fazer às medidas do governo e apanhou outra caso de pura propaganda. E de desperdício de dinheiros públicos, acrescento eu. Conceição Lino, intrigada pelos reclames de página inteira que apareceram na imprensa a anunciar os benefícios do programa de incentivo às energias renováveis, com 50% de desconto na compra de painéis solares, pretendeu saber o que tinha que fazer para obter tal benefício. No reclame, não havia nenhuma indicação concreta, a não ser a assinatura do Ministério da Economia. Telefonaram ao dito Ministério e seguiu-se uma conversa bizarra, em que se percebeu de imediato que uma coisa foi o Primeiro-ministro aparecer a anunciar a medida com pompa e circunstância, outra a campanha publicitária que já estava preparada para acompanhar o discurso de José Sócrates, e outra, muito diferente, a preparação da medida. Ficou-se a saber, após muitas perguntas, num diálogo de surdos, que se devia ir aos bancos em Março, como e porquê não se sabe. Imaginem que eu quero comprar os painéis e pagar com dinheiro meu, sem pedir empréstimos, como devo fazer? O que acontece é que estes reclames são pura propaganda, porque não servem para informar ou dar eficácia à medida, visto que saem muito antes de estar montado o esquema para a sua materialização. Quem os vê e pretende aproveitar a campanha, - o efeito ideal de uma boa publicidade -, defronta-se com o nada. A razão da antecipação dos reclames é apenas acompanhar o primeiro-ministro em mais um anúncio com aparato de propaganda. O mais provável é em Março ter que se repetir a campanha. E gastar mais dinheiro.

. SITUACIONISMO - 4

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COISAS DA SÁBADO: SÓCRATES E OS IMPOSTOS

O Primeiro-ministro deixou há muito de governar e ocupa os dias a fazer comícios de propaganda eleitoral, que passam reverentemente nas televisões como se fossem informação. Corrijo: passa parte dos dias, porque outra parte passa a lidar com o caso Freeport. Entre uma coisa e outra pouco tempo sobra para os negócios da nação, que está à deriva a guiar-se pelas estrelas. Espero que saibam que há pelo menos uma que não sai do sítio a não ser em milhares de anos e que se chama Polar.

Exactamente porque são estes os tempos em que vivemos, convinha ao Primeiro-ministro ter alguma prudência antes de se colocar no papel de Robin dos Bosques, uma personagem cuja actividade não é propriamente recomendável, mesmo com o pretexto de “ser para os pobres”. Nessa função de Robin, anunciou que no futuro haveria um agravamento dos impostos dos ricos para que seja possível desagravar os da “classe média”, medida que apresenta no mesmo estilo de Louçã nos comícios do BE. Como todos os economistas dizem e qualquer pessoa que pare para pensar também, a medida não tem qualquer efeito na intenção pretendida, visto que só daqui a pelo menos dois anos, na hipótese académica do PS ganhar as eleições, se poderia aplicar. E mesmo assim, está por saber se nos “ricos” se incluirá como de costume muita classe média e se entre a actividade lucrativa do Robin e os pobres de Sherwood não ficará muito dinheiro pelo caminho para pagar os custos de gestão do bando e a comida do Frei Tuck.

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Calandrucci, Estudos de mãos, século XVIII.

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 13 de Fevereiro de 2009.

Retratos do trabalho na estiva aqui.

*
Retratos da política aqui:
Enquanto o petit-comité da intriga e do telemóvel anda por aí aos tombos - entretidos uns com os outros e inchados de frivolidade - cada dia que passa conhece mais desempregados. Ao governo importaria controlar o que é que, a reboque da crise, é mais do que crise e redunda em mero oportunismo. Todavia, a insolência mediática que nos pastoreia ignora alarvemente os terríveis problemas sociais que estão a emergir. Veja-se, aliás, o que é que preocupa a esquerda, do BE ao PS da moção de Sócrates. O país é um e eles derramam para outro que só existe no papel. A vida das pessoas interessa pouco ao circo regimental e partidário. É irónico que seja o partido mais à direita - o CDS/PP - quem ainda, pelo menos ao nível do discurso, se preocupa com o "terreno". Ferreira Leite, com Rangel no Parlamento, também vai apresentando as suas alternativas e falando com quem pode, mas os abutres - ajudados por pequenos candidatos a futuros artistas de circo como Passos Coelho - estabeleceram um firewall praticamente intransponível. No meio disto tudo, o PS absolutista quer "discutir" casamentos, a "parentalidade", regiões, eutanásia e outras "prioridades" como se estivéssemos nos tempos áureos do bonzinho Guterres. Não aprenderam nada.
e aqui :
Recentremos as coisas. O casamento de homossexuais e a eutanásia são assuntos que não podem ficar enterrados porque estamos em crise. Isto é óbvio para qualquer pessoa com um gene ateniense. Que se discuta sem incómodo.
Outro osso é saber não largar o osso. De um lado temos MFL que não cede às sondagens, do outro temos um PS que vive para as sondagens: essas hárpias dão-lhe vantagem.
O que se deve perguntar. Se, por um acaso, esta crise vier a ser muito mais grave do que a representação que dela fazemos actualmente, qual das seguintes atitudes é uma traição à cidade: a que nos retira a ilusão, mas nos reforça o sentido colectivo - ainda que correndo o risco de ser desprezada - , ou a que pretende apenas a manutenção do poder?
e aqui:
Televisão ligada para assistir à competência desalmada (sem anima) e polida de Pedro Passos Coelho. Nunca aquele homem me faz abrir um pouco mais os olhos, me faz mudar a expressão dos lábios, me faz franzir um sobrolho. Tudo nele é liso, estudado, aprendido, ensaiado e competente. Não há nunca um rasgo de humor, um lapso (então gaffes nem falar), um tom confessional a permitir um desabafo. Tudo dito como manda o manual de como ser líder e primeiro ministro com um mínimo de risco, de investimento pessoal e de esforço. Mas o pior é a dificuldade que PPC tem em lidar com a verdade pois, tal como aquelas flores que de tão bonitas até parecem de plástico, também ele respira plástico, falso e hipocrisia. Senão vejamos: para quê insistir na legitimidade de Manuela Ferreira Leite, valorizar que ele cumpra o seu mandato se no minuto a seguir ele se diz disponível para ser primeiro-ministro e se o seu percurso é o de sistematicamente contradizer e opor qualquer declaração da líder do PSD? Porque é que ele investe tanto em, sempre que MFL toma uma posição, vir para a comunicação social dizer o contrário e o oposto. Se acredita que é importante estabilidade no PSD porque é que a sua intervenção política é tão activa enquanto oposição. PPC parece ser mais um deste políticos que infelizmente tão bem representam o pior dos políticos em Portugal, para quem a verdade é um conceito oco e que demonstram inconstância e desajuste entre as suas palavras e os seus actos, bem como nenhum respeito pelos cidadãos que o ouvem dizer num dia e desdizer no dia a seguir.

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COISAS DA SÁBADO: O BLOCO DA EXTREMA-ESQUERDA POPULISTA



Seria injusto para Miguel Portas, Luís Fazenda, Fernando Rosas e para muitos outros dirigentes do BE acusá-los de demagogos populistas, mas Francisco Louçã é-o até à medula dos ossos. As suas intervenções políticas tem esse condimento que no populismo engana muita gente: a promessa de soluções fáceis, imediatas e apocalípticas, sempre com um “nós” e um “eles” inscrito a fogo no discurso, apelando a distinções que começam no moral e terminam no político, com a divisão absoluta a preto e branco que um qualquer inquisidor faria na sua doutrina.

Ele transporta a rigidez das distinções morais para a política, num discurso inflamado que procura publicidade para um lado que ele quer iluminado (e a comunicação social corre a iluminar com todos os holofotes) e obscuridade para outro. O lado obscuro encontra-se no sistema de ideias e práticas que faz Louçã um comunista na sua variante trotsquista, que nunca enuncia com clareza o que pretende porque não pode, não é politicamente correcto, não teria boa imprensa. Ele caminha de “bandeira fechada” e não de “bandeira aberta” e não pode nunca avançar muito na caracterização do regime em que as suas soluções teriam cabimento. Haveria repressão das ideias contra-revolucionárias? Louça negaria a pés juntos, ele que não é “estalinista” mas “democrata”. Mas haveria repressão e prisão contra os “sabotadores da economia socialista”? Sem dúvida, como criminosos que são. Bom, sabe-se muito bem como isto evolui. Ele sabe mas a maioria das pessoas que se podem entusiasmar com as suas catilinárias morais contra os ricos que devem “pagar a crise”, não sabe.

Bem vistas as coisas, na sua mecânica e não na sua substância, o discurso de Louçã é muito parecido com o de Jardim, com demérito para o primeiro e mérito para o segundo. Como Jardim tem os “cubanos” e o “continente”, Louçã tem os “ricos” e a “banca”, como Jardim entende que o bem está do lado da Madeira e o mal do lado de “Lisboa”, Louçã faz um trejeito especial com a fala para exprimir a sua indignação moral contra os capitalistas, os “figurões” que andam a roubar-nos todos os dias. Pensam que ele está a falar apenas dos gestores do BPN e do BPP? Não, ele está a falar dos capitalistas em geral, como explicou muito bem no discurso que fez na semana passada. Ele é anti-capitalista, mas tenho a certeza que a economia e a sociedade alternativa em que está a pensar não é a dos vendedores de bugigangas artesanais que tinha à porta do pavilhão. A economia em que ele está a pensar, nunca a nomeia.

Porém, Jardim tem três, vejam bem três, enormes vantagens sobre Louçã: tem genuínas preocupações sociais, é um patriota e é sincero. E não acrescento como quarta razão a de ter feito obra, porque não quero cair no truque populista (esse sim em que Jardim cairia facilmente) de menosprezar o trabalho intelectual e académico de Louçã. Louçã é um intelectual e como intelectual tem obra. Já no resto, Jardim ganha em tudo e por uma razão simples: Jardim é o que é, representa o papel que talhou para a sua medida, enquanto Louçã representa vários papéis e nem todos se revelam na demagogia esquerdista com que nos brindou. Para Louçã, e nisso é muito parecido com Sócrates, a “sinceridade” serve para passar uma mensagem sob as vestes de uma convicção.

E por último, se alguém pensa que o discurso demagógico do BE tem alguma coisa a ver com qualquer genuína preocupação social, desengane-se. Aquilo é pura ideologia e tenho a certeza que Louçã consideraria qualquer outra coisa que “não vá ao fundo da questão”, que não ataque o “sistema”, como pouco mais do que caridade, que ele abomina. Caridade já é ser bondoso, ele acha que é “caridadezinha”, uma coisa que só pode ser um entrave à revolução, demasiado cristã para ter como base a análise marxista da exploração. Louçã sonha com uma revolução anti-capitalista, não quer é dizê-lo. Tudo o resto é instrumental.

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EARLY MORNING BLOGS

1485 - Jeanneton prend sa faucille

Jeanneton prend sa faucille
Larirette, larirette
Jeanneton prend sa faucille
Pour aller couper du jonc (bis)

En chemin elle rencontre
Larirette, larirette
En chemin elle rencontre
Quatre jeunes et beaux garçons (bis)

Le premier un peu timide
Larirette, larirette
Le premier un peu timide
La traite de laideron (bis)

Le deuxième pas très sage
Larirette, larirette
Le deuxième pas très sage
Lui caressa le menton (bis)

Le troisième encore moins sage
Larirette, larirette
Le troisième encore moins sage
La poussa sur le gazon (bis)

Ce que fit le quatrième
Larirette, larirette
Ce que fit le quatrième
N'est pas dit dans ma chanson (bis)

Vous vous voulez l'savoir, Mesdames
Larirette, larirette
Vous vous voulez l'savoir, Mesdames
Faut aller couper du jonc (bis)

(Cantilena anónima)

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12.2.09


EXTERIORES: CORES DE HOJE



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (39): TEXTO E META-TEXTO


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

No Público de ontem há um bom exemplo da mistura de opinião e jornalismo numa notícia, da mistura de um texto noticioso com uma opinião sobre o evento de que a notícia trata, de um texto (notícia) com um meta-texto (uma opinião) que impregna o primeiro. Façamos uma comparação entre duas notícias de eventos políticos, uma "limpa" e outra "poluída":
Portas propõe redução dos escalões do IRS de sete para três (Sofia Rodrigues)

O líder do CDS-PP, Paulo Portas, criticou ontem o "alívio fiscal" proposto por José Sócrates considerando que a solução impede as "pessoas de legitimamente subirem na vida" e "desincentiva o trabalho". Em contrapartida, Portas defende a simplificação dos escalões do IRS e a aplicação de medidas para as famílias tendo em conta o número de filhos.

Portas defendeu que a limitação das deduções fiscais dos ricos, proposta por Sócrates na moção que levará ao Congresso do PS, implicará que o Estado se "aproprie de cada migalha das famílias". "Na classe média baixa, se uma pessoa ganhar um pouco mais, sobe de escalão e tudo aquilo que ganhou a mais vai provavelmente ser entregue ao Estado. O mesmo acontece com a classe média", explicou Portas, em conferência de imprensa na sede do partido, em Lisboa. "É inaceitável porque põe em causa a mobilidade social", sublinhou, acrescentando que terá como consequência que as pessoas "não tenham incentivo para trabalhar mais".

O líder do CDS quis vincar a distância que o separa da esquerda. "Esta é a grande diferença entre nós e os socialistas. Para eles, cada vez que há mais um esforço, mais um ganho, o sistema fiscal cai-lhes em cima", disse, defendendo a redução dos actuais sete escalões do IRS para apenas três. O líder do CDS-PP criticou a ambiguidade da palavra "rico" usada pelo primeiro-ministro. "Um cidadão que ganha 1900 euros está no escalão que paga 34 por cento do IRS. É uma barbaridade. Desde quando é rico quem ganha 1900 euros?", questionou Portas, que criticou a omissão de Sócrates quanto à tributação dos rendimentos das mais-valias.

Portas considerou ainda que o primeiro-ministro "não tem credibilidade" para falar de alívio fiscal, depois de ter aumentado "o IRS em 20 por cento" nos últimos anos. Mais uma vez, desafiou Sócrates a baixar impostos já, designadamente através da devolução mensal do IVA ou da redução do Pagamento Especial por Conta. Em alternativa às propostas de Sócrates, Paulo Portas propõe a introdução na próxima legislatura do quociente familiar que permite contabilizar "a sério" o número de filhos no pagamento de IRS das famílias. Outra das medidas propostas pelo CDS é o "valor de existência familiar", que determina um mínimo que as famílias têm de ter em conta para sobreviver e que substitui o conjunto de deduções e de excepções válidas só para alguns contribuintes.
Esta notícia é uma notícia. Depois de a ler ficamos a saber o que Paulo Portas disse, que é a primeira razão pela qual se compram jornais. Agora repare-se na forma como é noticiada a conferência de imprensa de Manuela Ferreira Leite e veja-se como, sobrepondo-se à notícia, existe um quadro interpretativo, na base do que disse Marcelo Rebelo de Sousa, que é assumido como um discurso não explícito da jornalista para "interpretar" o que aconteceu. O resultado é um downgrading abusivo da iniciativa relatada, tanto mais que no próprio texto se admite não existir qualquer relação de causa-efeito entre as declarações do comentador e o anúncio do evento, a não ser uma mera sequência temporal. A notícia sobre Manuela Ferreira Leite é a única no noticiário político do jornal nesse dia que é sujeita a este tipo de sobreposição de um meta-texto sobre o texto.

Clicando fica na boa dimensão







Já com retoques na imagem
, PSD arranca com conjunto de debates programáticos "sem efeitos especiais" na véspera do congresso dos socialistas

O símbolo é uma mão em forma de V, inicial de vitória e de verdade, gesto histórico dos sociais-democratas; as cores são o laranja e o verde- esperança e o nome é Fórum Portugal de Verdade. Manuela Ferreira Leite surpreendeu ontem com toda a encenação em volta da apresentação de um conjunto de debates descentralizados sobre temas típicos de programa eleitoral.
(...)
Dois dias depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter considerado "um erro a imagem pública" de Manuela Ferreira Leite, afirmando que "o que está a puxar as sondagens para baixo é a imagem da líder", a presidente do PSD anunciou uma iniciativa "real, onde não entra a política do virtual, do espectáculo e dos efeitos especiais". E que já estava a ser preparada há algum tempo, no segredo da direcção do partido, como se provou pela logística envolvida na apresentação do fórum. (...)

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (38): VÁRIA


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

(Escrito em más circunstâncias, depois será corrigido.)

Hoje o Diário de Notícias está cheio de opiniões políticas disfarçadas de jornalismo (no Público também há algumas, mas terão que esperar um dia para ser analisadas porque estou em trânsito e preciso de um scanner... Lá voltarei.). Começa neste editorial:
O debate quinzenal com o primeiro-ministro, ontem na Assebleia da República, estava destinado a discutir questões económicas, mas acabou por ficar marcado por um episódio que revela bem o ponto a que chegou a discussão político-partidária em Portugal. José Sócrates acusou o PSD de "lançar a suspeição" sobre si, após a insistência de Paulo Rangel, líder parlamenrar social-democrata, em saber o que pensa o chefe do Governo das notícias sobre escutas aos magistrados do processo Freeport alegadamente realizadas pelo SIS (embora não seja responsável pela coordenação prática dos serviços, o primeiro-ministro tem a sua tutela política).

A questão era legítima e alguém tinha que a colocar, mas Paulo Rangel partiu para esta discussão fragilizado. Habilmente, Sócrates colou o PSD ao que tem chamado de "campanha negra", dizendo que o partido utilizou o cartaz da JSD (que tem o primeiro-ministro com um nariz de Pinóquio) para o "denegrir". O que só aconteceu porque Manuela Ferreira Leite nunca se demarcou da sua juventude partidária.
Esta agora! Para além da completa desproporção entre a relevância das duas questões (o eventual abuso dos serviços de informação para condicionar uma investigação judicial, questão suscitada por magistrados, e um cartaz de uma juventude partidária do Primeiro-ministro com "nariz de Pinóquio", representação comum durante todo o ano de 2008 em todas as manifestações da CGTP e dos professores), há um julgamento de valor sobre o cartaz um pouco bizarro e contra natura de quem nos jornais tem sempre uma concepção lata da liberdade da caricatura e uma crítica absurda a Manuela Ferreira Leite porque "nunca se demarcou da sua juventude partidária"... Devia? Porquê? Se se parar para pensar, não é isto um pouco estranho? Ou destina-se apenas a dar um pontinho a Sócrates num debate que lhe correu mal?

(Continua)

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11.2.09


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (37): VÁRIA


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

(Escrito em más circunstâncias, depois será corrigido.)

Viu o Jornal das 9 da Sic? Vergonhoso, foram capazes de passar o PM a brandir contra o Presidente do Grupo Parlamentar do PSD, acusando-o de (no caso da nacionalização do BPN) ter defendido a nacionalização, opondo-se “apenas” ao regime geral de nacionalizações que vinha colado; porém, esqueceram-se de passar o Paulo Rangel a desmentir (mais uma vez…) o PM, solicitando ao presidente da AR a transcrição das actas da sessão.

(FRG)

Tem toda a razão. Quando se trata de um desmentido formal e factual, a notícia não pode iludir essa circunstância e dar a última palavra a Sócrates.

*

Mais "passoscoelhismo" no Diário de Notícias, mais uma vez a despropósito, como uma espécie de marcação permanente a tudo que é notícia sobre Manuela Ferreira Leite :

A própria Ferreira Leite já tinha reconhecido a necessidade de ir ao encontro do partido e do País numa reunião, na semana passada, com os presidentes das distritais do PSD. Tanto mais que as múltiplas iniciativas políticas de Pedro Passos Coelho - que amanhã será o orador convidado pelo American Club a falar sobre a situação do País - já eram entendidas por muitos como a verdadeira oposição social-democrata a José Sócrates.
Interessante a frase final. Quem são estes "muitos"? Os amigos de Passos Coelho? Em que é que se baseia a jornalista para esta afirmação? Na verdade, há quem diga que Passos Coelho tem servido muito bem a estratégia de Sócrates contra Manuela Ferreira Leite. O contrário nunca vi. Nunca vi Sócrates a responder a Passos Coelho, nunca vi qualquer preocupação do PS com Passos Coelho. Qualquer análise racional mostra isso. Mas no Diário de Notícias acham o contrário. "Muitos"...

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10.2.09


LIVROS DE QUATRO GERAÇÕES (97)


Clicando fica na boa dimensão

Do original de 1561. Inclui a "hazienda mal ganada"

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (36): VÁRIA


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

Ah! Grande noticiário da RTP das 13 horas! - II - E ainda houve outro momento-Chávez no mesmo noticiário, uma longa passagem dum outro discurso de Sócrates, com a mesma propaganda vazia, do género "sempre é melhor fazer do que não fazer", o "pessimismo não dá emprego", etc, etc., algo que já ouvimos mil vezes. O que é interessante é que Sócrates pelos vistos também não acredita muito nas sondagens, visto que passa o dia a atacar a oposição do PSD e não a do PCP e do BE.

*

Ah! Grande noticiário da RTP das 13 horas! Começa com um comício do PS e faz uma peça com base nas afirmações do nosso Robin dos Bosques para responder a Manuela Ferreira Leite. Propaganda eleitoral pura. Nenhum outro noticiário, nem na SIC, nem na TVI começou com este tema. Vejam que vale a pena. Sem vergonha nenhuma.

SITUACIONISMO +5

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Também vi. E o uso das legendas? Enquanto passavam as declarações de MFL lia-se por baixo, em destaque: "Sócrates diz que pior seria não fazer nada" e "Sócrates diz que é possível identificar os ricos", ou algo assim, legendas que apareceram logo no início da peça quando passaram as 1ªs declarações do primeiro-ministro mas que se mantiveram até final. Ou seja, enquanto ele falou as legendas reforçaram a sua mensagem; a seguir elas serviram para diminuir automaticamente as declarações de MFL.
É triste.

(Pedro Gaspar)
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Classificar, nomear, chamar um nome é um poder. Em Portugal ninguém tem problemas em chamar à extrema-direita, extrema-direita. Mas nunca se chama à extrema-esquerda, extrema-esquerda. Mas ela existe, é o Bloco de Esquerda. O discurso de Louçã é um típico discurso de extrema-esquerda como ela é hoje. Tem as mesmas ideias do passado, a mesma visão da sociedade, a mesma mescla ideológica, mas não usa os rótulos e não quer que ninguém os use. A comunicação social situacionista também os evita com muito cuidado.

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O PROGRAMA ELEITORAL NÃO ESCRITO DO PS



Há pelo menos uma coisa para que a promessa do Robin dos Bosques fiscal nos deve deixar atentos. No programa não escrito do PS para as próximas eleições, aquele que não aparece nas sessões em que se anda a discutir o casamento dos homossexuais, está um brutal aumento dos impostos e um apertar do cinto drástico com o fim de muitas das benesses que estão agora a ser distribuídas. Já repararam como todos os programas especiais de ajuda aos desempregados, à indústria automóvel e outros, coincidem apenas com o período pré-eleitoral ou com o ano de 2009? Terá que ser, no caminho da dívida que temos e do desequilibro orçamental que vamos ter. No afã de obter dividendos eleitorais, o governo está a governar mal, a deitar imenso dinheiro fora sem critério e sem vantagem e a condenar o país a muitos anos de apertar do cinto.

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(Anónimo, século XVII.)

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EARLY MORNING BLOGS

1484 - La Fausse Monnaie

Comme nous nous éloignions du bureau de tabac, mon ami fit un soigneux triage de sa monnaie; dans la poche gauche de son gilet il glissa de petites pièces d'or; dans la droite, de petites pièces d'argent; dans la poche gauche de sa culotte, une masse de gros sols, et enfin, dans la droite, une pièce d'argent de deux francs qu'il avait particulièrement examinée.

"Singulière et minutieuse répartition!" me dis-je en moi-même.

Nous fîmes la rencontre d'un pauvre qui nous tendit sa casquette en tremblant. - Je ne connais rien de plus inquiétant que l'éloquence muette de ces yeux suppliants, qui contiennent à la fois, pour l'homme sensible qui sait y lire, tant d'humilité, tant de reproches. Il y trouve quelque chose approchant cette profondeur de sentiment compliqué, dans les yeux larmoyants des chiens qu'on fouette.

L'offrande de mon ami fut beaucoup plus considérable que la mienne, et je lui dis: "Vous avez raison; après le plaisir d'être étonné, il n'en est pas de plus grand que celui de causer une surprise. - C'était la pièce fausse", me répondit-il tranquillement, comme pour se justifier de sa prodigalité.

Mais dans mon misérable cerveau, toujours occupé à chercher midi à quatorze heures (de quelle fatigante faculté la nature m'a fait cadeau!), entra soudainement cette idée qu'une pareille conduite, de la part de mon ami, n'était excusable que par le désir de créer un événement dans la vie de ce pauvre diable, peut-être même de connaître les conséquences diverses, funestes ou autres, que peut engendrer une pièce fausse dans la main d'un mendiant. Ne pouvait-elle pas se multiplier en pièces vraies? ne pouvait-elle pas aussi le conduire en prison? Un cabaretier, un boulanger, par exemple, allait peut-être le faire arrêter comme faux-monnayeur ou comme propagateur de fausse monnaie. Tout aussi bien la pièce fausse serait peut-être, pour un pauvre petit spéculateur, le germe d'une richesse de quelques jours. Et ainsi ma fantaisie allait son train, prêtant des ailes à l'esprit de mon ami et tirant toutes les déductions possibles de toutes les hypothèses possibles.

Mais celui-ci rompit brusquement ma rêverie en reprenant mes propres paroles: "Oui, vous avez raison; il n'est pas de plaisir plus doux que de surprendre un homme en lui donnant plus qu'il n'espère."

Je le regardai dans le blanc des yeux, et je fus épouvanté de voir que ses yeux brillaient d'une incontestable candeur. Je vis alors clairement qu'il avait voulu faire à la fois la charité et une bonne affaire; gagner quarante sols et le coeur de Dieu; emporter le paradis économiquement; enfin attraper gratis un brevet d'homme charitable. Je lui aurais presque pardonné le désir de la criminelle jouissance dont je le supposais tout à l'heure capable; j'aurais trouvé curieux, singulier, qu'il s'amusât à compromettre les pauvres; mais je ne lui pardonnerai jamais l'ineptie de son calcul. On n'est jamais excusable d'être méchant, mais il y a quelque mérite à savoir qu'on l'est; et le plus irréparable des vices est de faire le mal par bêtise.

(Charles Baudelaire)

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9.2.09


EXTERIORES: CORES DE HOJE







Tempestade em Peniche. (Manuela Bello)



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (35): VÁRIA


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

O situacionismo da nossa comunicação social vai muito mais longe do que a relação com o poder socialista. Manifesta-se do mesmo modo face a outros poderes, incluindo o próprio poder corporativo. O resultado é sempre uma complacência dúplice e um défice, igualmente dúplice, de escrutínio e crítica. O BE, que sempre beneficiou de uma boa imprensa, seja por razões de simpatia política, seja pela partilha de uma cultura da moda radical chic (que inclui muita gente da direita, a começar pelos blogues próximos do PP "portista", que cultivam uma relação espelhar que favorece os dois lados do radicalismo), mostra bem como funciona este situacionismo. Veja-se este exemplo de uma reportagem do seu congresso (de autoria de Eva Cabral no Diário de Notícias) que mistura o elogio político com a valorização corporativa:
Imprensa livre [subtítulo]

Mais de trinta anos após o 25 de Abril os congressos partidários estão hoje totalmente "fechados" em matéria de liberdade de circulação de jornalistas durante os trabalhos. O Bloco de Esquerda, que nesta VI Convenção teve o primeiro cheirinho de profissionalização - com estrado para as televisões e boas instalações -, continua a ser a única excepção a esta regra. A imprensa circulou por onde quis e falou com quem quis. Os trabalhos não saíram prejudicados e a direcção viu o seu peso interno sair reforçado.
Tudo é significativo. O subtítulo de "imprensa livre", porque se pode circular por todo o lado. Experimentem perguntar a Louçã se ele ainda é trotsquista e o que faz na IV Internacional para ver a "liberdade". E depois o mix muito comum de corporativismo com um elogio que, por vir de boca alheia (de um jornalista ainda por cima), é puro benefício: "a direcção viu o seu peso interno sair reforçado". Esta agora, porquê? O que é que tem a ver uma coisa com a outra?

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EARLY MORNING BLOGS

1483 - Sou o Espírito da treva

Sou o Espírito da treva,
A Noite me traz e leva;

Moro à beira irreal da Vida,
Sua onda indefinida

Refresca-me a alma de espuma...
Pra além do mar há a bruma...

E pra aquém? há Cousa ou Fim?
Nunca olhei para trás de mim...

(Fernando Pessoa)

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8.2.09


GANÂNCIA



Não sou muito sensível aos argumentos que se usam contra os ricos e poderosos, à inveja socializada que perpassa em muitos comentários que assentam numa ideia simples e forte, mas errada: há pobres porque há ricos. Há pobres por muitas razões, a começar pelas razões políticas, porque guerras, ditaduras, corrupção, nepotismo, experiências de "engenharia social" condenaram e condenam muitos milhões a uma pobreza endémica. E onde há ricos, gerados pela economia e pela sociedade, há sempre muito menos pobres. Onde os ricos são um problema para os pobres é quando a riqueza tem origem na corrupção, no desvio de dinheiros públicos, e na violência política que protege quem rouba ou quem é corrompido ou corrompe.

Muitas vezes resisti aos ataques aos altos salários dos gestores, que à cabeça está longe de me parecer uma imoralidade quando daí resulta boa gestão, logo mais emprego e mais riqueza socialmente distribuída. Apareça-me alguém que não ande a guiar-se pelas estrelas como o nosso ministro das Finanças e seja capaz de defender empregos, competitividade e condições de vida dignas e não há milhões que sejam bastantes para o pagar pela sua competência. Ainda está por saber o preço que pagamos em incompetência, por mantermos salários definidos pela demagogia e, não sendo o Estado e a política competitivos para atrair os melhores, atraírem antes muita gente medíocre para quem um salário como o de deputado é o melhor que pode ter na vida, sem outro esforço que não seja garantir dentro dos partidos o seu lugar.

Dito isto, também nestes anos, nunca embarquei na ideologia do "sucesso" e no yuppismo que atravessou a nossa sociedade nos últimos anos, feita da contínua exibição do génio de alguns iluminados que nas finanças e em algumas empresas ostentavam o seu "sucesso" e, pior ainda, nunca acompanhei os que os incensavam como um novo paradigma para os jovens.

Isto dá uma mistura incómoda, porque se o yuppismo me é detestável e a inveja socializada me parece perigosa, não posso deixar de me chocar com a ganância absurda cujos contornos começam a aparecer por todo o lado, destapada pela "crise". Não penso que a "crise" se deva apenas ou essencialmente a essa ganância, bem pelo contrário, mas o que ela tem revelado de brutal irresponsabilidade e crime merece reflexão e punição. Quando se sabe que o "buraco" no BPN atinge os 1800 milhões de euros pelo menos, e que no BPP, no BCP, e sabe-se lá em quantos mais bancos e instituições financeiras, se usava toda uma panóplia de truques para fugir com o dinheiro aos impostos e os levar para off-shores, não se pode ficar indiferente, nem encolher os ombros como se isso fosse inevitável, porque é o "capitalismo". Não é inevitável, nem muito menos é o capitalismo.

Os homens da ganância andam por aí, agora mais recatados e silenciosos, passando pelos intervalos da chuva, após anos em que apareciam nas primeiras páginas de revistas que viviam de os colocar nas primeiras páginas, de fatos finos ingleses, roupa mais do que de marca, relógios, brilhando de gel e com cada poro da pele tratados pelo melhor mar, pela melhor neve, por tudo o que o dinheiro permite e dá. Passaram estes anos a falar ou a ser falados sobre o seu sucesso. Eles eram empresários exemplares, banqueiros de risco, movendo-se num palco internacional de muitos e muitos milhões. Eles falavam de alto aos governos e aos políticos, mas nunca perderam uma oportunidade de uma benesse.

As marcas de uma cultura de "sucesso" deste tipo ficaram nas colecções da imprensa económica, entraram nas faculdades de Economia e entusiasmaram milhares de estudantes a seguirem-nos como modelos. Valorizava-se neles uma pseudocultura aristocrática, que sabia comportar-se como devia ser, comer à mesa, beber do mais fino, a que se oporia uma prática de arrivismo e de "novo-riquismo". Toda uma mentalidade de consumo de luxo passou a ter passagem corrente nos jornais, spas, vinhos, resorts, relógios, charutos, a parafernália dos gadgets de luxo. Só o facto desses produtos aparecerem nos suplementos da imprensa de massas e em revistas para os adolescentes que tinham acabado de sair do Hi5 deveria ter feito desconfiar que, afinal, esta aristocracia seria bem mais snob do que nobre.

E tinha boa imprensa. Muitos anos atrás um semanário, O Independente, inaugurou aquilo que achava ser uma apologia do "velho dinheiro" e de uma abominância pelo "novo". Abria-se assim uma distinção cultural destinada a começar a limpar a casa para o brilho asséptico do design dos novos exemplos, para nos dizer que agora era a sério e não uma remake dos construtores civis "patos-bravos". A distinção era absurda, porque muito do que chamavam "velho dinheiro" era também muito mais "novo" do que se pensava, e a distinção com o "novo" se fazia mais por uma espécie de snobismo cultural do que por uma análise de personagens e de "dinheiro". Hoje verifica-se que a ganância era muito mais bem distribuída: o BCP, o "velho dinheiro" ainda por cima católico apostólico romano, assemelha-se nas suas práticas ao BPN, o "novo dinheiro", vindo de baixo, rude e democrático, vindo das Beiras, de Trás-os-Montes, do Algarve. Tinham outra coisa em comum: cegaram, não se sabe bem como, o Banco de Portugal que devia ter visto a tempo muito coisa e foi sempre o último a saber.

Esta ganância vai deixar um lastro muito pesado atrás de si. Ela ajudou a agravar uma crise que na realidade está a ser explicada apenas pela superfície, pelo seu lado financeiro, deixando de parte a crise estrutural das economias e sociedades empresariais e laborais ocidentais face à globalização, que já existia antes da crise e vai continuar a existir quando se deixar de falar dela. Ajudou a destruir milhões para nada e essa parte foi em pura perda. Muitos outros milhões devem ter ficado em património próprio subtraído fraudulentamente. Espero mesmo que sejam muitos milhões, para que as autoridades judiciais procedam ao seu confisco. País em que tal não se possa fazer, fazer justiça contra a ganância criminosa, por truques da lei, não é um país justo.

Mas há outro lastro da ganância, a proliferação e o reforço das ideias mais erradas e perigosas sobre a economia de mercado, sobre o capitalismo, sobre o papel do Estado. Se desta ganância resultar um mundo e uma sociedade menos livre para indivíduos e empresas, o preço da crise será ainda maior, porque atrasará o confronto com as raízes do declínio ocidental, económico e político, insisto que também político, cujas consequências vão muito mais longe do que o desemprego. É preciso por isso defender desta ganância criminosa, as democracias e a liberdade, porque convém não esquecer que o preço que se paga pelo totalitarismo é muito mais caro.

(Versão do Público de 7 de Fevereiro de 2009.)

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O problema, em Portugal, é que muitos dos gestores auferem altíssimos salários não por criarem mais emprego, mas antes por aniquilarem muitos postos de trabalho e por aumentarem a exploração e subtrairem regalias aos trabalhadores que ficam.

Quando tal se observa em empresas cujo produto, ou serviço prestado, é de primeira necessidade e o cliente está garantido, como acontece, por exemplo, com a água, electricidade, gás, gasolina e gasóleo, sem que se observe uma significativa descida de preços decorrente da supostamente extraordinária acção dos gestores, não se compreende por que razão esses gestores terão de ser premiados com remunerações astronómicas, muito acima, digamos, dos altos quadros da função pública.

Tanto mais que os lucros que apresentam, depois de tudo o que se tem visto na actual crise, são merecedores de legítimas dúvidas. Quem é que certifica os lucros que validam as altas remunerações? Auditores cujos gestores vivem na mesma estratosfera de remunerações...?

(Jorge Pacheco de Oliveira)

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EXTERIORES: CORES DE HOJE



(RM)

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2009: ANO DOS ASTROS, BÓLIDES, LUZES NO CÉU, POEIRAS, BURACOS E ANTI-COISAS



Plano de observações previstas em Vesta. Nesta simulação só o formato do planeta é real, a textura é fictícia. Até pode ter canais, homenzinhos verdes, setenta mil virgens, etc.

Este mês, mais precisamente daqui a nove dias, a Dawn vai apanhar a boleia de Marte e acelerar para Vesta e Ceres onde chegará em 2011, queiram os deuses do Olimpo, parentes das visitadas. A NASA chama ao encontro pas de deux. Que não se perca com a dança, é o que se deseja. No fundo, esta viagem é pessoal, de cá da casa, vão lá dentro nomes incluindo o do Abrupto.

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EARLY MORNING BLOGS

1482 - Cinq doigts voyageurs

Cinq petits doigts qui s'ennuient
s'en vont en voyage
Cinq petits doigts qui s'ennuient
s'en vont cette nuit.
Le plus gros part en camion
Le deuxième part en avion
Le troisième part en auto
Le quatrième en vélo
Le petit dernier est parti à pied.

(Cantilena anónima.)

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© José Pacheco Pereira
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