| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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20.12.08
(url) É tão interessante como pedagógico ver o tratamento de certa imprensa no que diz respeito às divisões do PS e do PSD. É mais um sinal de uma regra não escrita de subserviência ao establishment e de serviço ao poder socialista. Nuns casos é volitiva, politicamente empenhada, noutros o resultado de um profundo conservadorismo e complacência face ao poder. Quando Alegre ameaçou com a criação de um novo partido, foi gozado, maltratado, ridicularizado, responsabilizado pelos problemas que iria criar ao PS e à maioria absoluta de Sócrates, como se estivesse a trair um qualquer “desígnio nacional”. Um jornal gratuito retratou a sua iniciativa como dando origem a uma “Frente Romântica Socialista” e caricaturou-o com um Che Guevara caseiro. O tom, ecoando o dos responsáveis do governo e os comentadores socialistas, foi “vê lá bem o que vais fazer ao nosso querido PS”, e o homem foi entre bajulado e ameaçado com as terríveis consequências para ele próprio e para sua gloriosa carreira presidencial no PS (que consiste em concorrer contra Cavaco Silva e perder), se ousasse dividir os votos do PS. Que diferença que isto faz com o tratamento da oposição interna a Manuela Ferreira Leite, em que qualquer banalidade é promovida a pensamento profundo e qualquer suspiro, ainda que venha da gente mais inqualificada, obscura ou suspeita é transformado num vendaval político. Quando não há notícias inventa-se qualquer intriga como faz o Diário de Notícias, uma espécie de órgão não oficial da candidatura permanente de Pedro Passos Coelho, que é sempre retratado como uma das grandes figuras da política portuguesa com presença assídua na primeira página vá-se lá saber porquê. Basta ver os blogues onde os jornalistas do Diário de Noticias exprimem as suas opiniões políticas para perceber o empenhamento político. Mas os leitores não mereciam uma declaração transparente de interesses? A razão é a mesma da fúria contra Alegre: preservar o poder do PS, seja porque se teme que Sócrates não venha a ter o resultado desejado, seja porque se teme que Manuela Ferreira Leite venha a ter o resultado desejado. Vai dar tudo ao mesmo, só que pelo meio o nosso jornalismo político está a degradar-se a olhos visto para um proselitismo cada vez mais evidente. (url) (url) EARLY MORNING BLOGS 1456 - The Seven Sorrows The first sorrow of autumn Is the slow goodbye Of the garden who stands so long in the evening- A brown poppy head, The stalk of a lily, And still cannot go. The second sorrow Is the empty feet Of a pheasant who hangs from a hook with his brothers. The woodland of gold Is folded in feathers With its head in a bag. And the third sorrow Is the slow goodbye Of the sun who has gathered the birds and who gathers The minutes of evening, The golden and holy Ground of the picture. The fourth sorrow Is the pond gone black Ruined and sunken the city of water- The beetle's palace, The catacombs Of the dragonfly. And the fifth sorrow Is the slow goodbye Of the woodland that quietly breaks up its camp. One day it's gone. It has only left litter- Firewood, tentpoles. And the sixth sorrow Is the fox's sorrow The joy of the huntsman, the joy of the hounds, The hooves that pound Till earth closes her ear To the fox's prayer. And the seventh sorrow Is the slow goodbye Of the face with its wrinkles that looks through the window As the year packs up Like a tatty fairground That came for the children. (Ted Hughes) (url) 19.12.08
(url) COISAS DA SÁBADO: A NEGAÇÃO DA JUSTIÇA Baltazar Nunes, o pai da criança que conhecemos como “Esmeralda”, vai queixar-se ao Tribunal Europeu da negação da justiça que lhe é feita em Portugal. O seu caso é dos mais chocantes e revoltantes da injustiça portuguesa: pai de uma criança nascida na forma atribulada que nos dias de hoje é infelizmente muito comum, desde os primeiros anos que pretendeu ser aquilo que é, o pai da criança, sem adjectivos. A justiça deu-lhe razão em tudo o que é fundamental e considerou que o modo como outra família tinha tomado conta da sua filha era um “sequestro”, pelo qual houve uma condenação judicial. Que esse sequestro é alimentado por uma teia de mentiras vê-se a olho nu pelas justificações da própria esposa do sequestrador no seu processo judicial. E no entanto, de forma incompreensível e inexplicável, as decisões dos tribunais e a lei não são aplicadas. E cada dia que passa cria-se um cruel facto consumado. Aqui o crime compensa.Pouco a pouco, a injustiça foi-se estabelecendo contra a lei e o afecto, porque cada dia afasta mais a criança do seu pai com danos cada vez mais irreversíveis, fazendo o mal e a caramunha e consolidando o crime. Alimentada pelo populismo mais vulgar foi-se criando uma distinção que, a estabelecer-se no domínio público sem reservas, pode ter um papel sinistro na vida das famílias, entre “pai biológico”, uma espécie menor, e o “pai afectivo” ou do “coração”, o do verdadeiro pai. Entretanto, no meio de uma selva de decisões, contra-decisões e dilações, com um papel igualmente sinistro para esta nova espécie de interlocutores comunicacionais que dão pelo nome de “pedopsiquiatras”, a criança foi deixada a um condicionamento afectivo contra o seu pai, que premeia o acto do sequestro, de uma forma revoltante. Parece que se decretou que o pai da criança não pode amá-la, e que lhe foi roubada a qualidade do afecto. Pior ainda, a continuar como continua esta injustiça, roubam-lhe não só a qualidade plena de pai como o afecto da filha. E ninguém quer saber. (url) 18.12.08
(url) EARLY MORNING BLOGS 1455
Leandro em noite escura ia rompendo As altas ondas, delas rodeado No meio do Helesponto, já cansado, E o fogo já na torre morto vendo; E vendo cada vez ir mais crescendo O bravo vento, e o mar mais levantado; De suas forças já desconfiado, Os rogos quis provar, não lhe valendo. "Ai ondas!" (suspirando começou): Mas delas, sem lhe mais alento dar, A fala contrastada, atrás tornou. "Ai ondas! (outra vez diz) vento, mar, Não me afogueis, vos rogo, enquanto vou; Afogai-me depois quando tornar". (Diogo Bernardes) (url) 17.12.08
(url) APRENDENDO COM FRADIQUE MENDES SOBRE O PENSAMENTO ÚNICO Quem lhe encomenda pois um casaco, digno Sturmm, encomenda-lhe na realidade um prospecto. E nem precisa o alfaiate que aprofundou a sua arte, de receber a confissão do freguês. As ligeiras recomendações que escapam, inquietas e tímidas, na hora atribulada da «prova», bastam para que ele compreenda o uso social a que o cliente destina a sua farpela... Assim, se um cavalheiro de luvas pretas, com uma luneta de ouro entalada entre dois botões do colete, que move os passos com lentidão e reflexão, e, ao entrar, pousou sobre a mesa um número do Jornal do Economista, lhe diz, num tom de mansa reprovação, ao provar o casaco: «Está curto e justo de cinta--V. deve logo deduzir que ele deseja aquelas abas bem fornidas, flutuantes, que demonstram abundancia de princípios, circunspecção, amor sólido da ordem e conhecimento miúdo das pautas da Alfândega... Vai-me V. penetrando, bom Sturmm? Ora, que lhe murmurei eu, em mau alemão, ao provar a sobrecasaca infausta? Esta fugidia indicação: «Que cinja bem!» Isto bastava para V. entender que eu desejava, através dessa veste, mostrar-me a Lisboa, onde a ia usar, sinceramente como sou--reservado, cingido comigo mesmo, frio, céptico e inacessível aos pedidos de meias libras... E, no entanto, que me manda V., Sturmm, num embrulho de papel pardo? V. manda-me a sobrecasaca que talha para toda a gente em Portugal, desgraçadamente: a sobrecasaca do conselheiro! Digo «desgraçadamente»--porque vestindo-nos todos pelo mesmo molde, V. leva-nos todos a ter o mesmo sentir e a ter o mesmo pensar. Nada influencia mais profundamente o sentir do homem, do que a fatiota que o cobre. O mais ríspido profeta, se enverga uma casaca e ata ao pescoço um laço branco, tende logo a sentir os encantos dos decotes e da valsa; e o mais extraviado mundano, dentro de uma robe de chambre, sente apetites de serão doméstico e de carinhos ao fogão. Maior ainda se afirma a influência do vestuário sobre o pensar. Não é possível conceber um sistema filosófico com os pés entalados em escarpins de baile, e um jaquetão de veludo preto forrado a cetim azul leva inevitavelmente a ideias conservadoras. Você, pondo no dorso de toda a sociedade essa casaca de conselheiro, lisa, insípida, rotineira, pesabunda--está simplesmente criando um país de conselheiros! Dentro dessa confecção banalizadora e achatante, o poeta perde a fantasia, o dândi perde a vivacidade, o militar perde a coragem, o jornalista perde a veia, o crítico perde a sagacidade, o padre perde a fé--e, perdendo cada um o relevo e a saliência própria, fica tudo reduzido a esse cepo moral que se chama o conselheiro! A sua tesoura está assim mesquinhamente aparando a originalidade do país! Você corta, em cada casaco, a mortalha de um temperamento. E se Camões ainda vivesse--e V. o vestisse--tínhamos em lugar dos Sonetos, artigos do Comércio do Porto. (url) (url) EARLY MORNING BLOGS 1454 - Dust in the Eyes If, as they say, some dust thrown in my eyes
Will keep my talk from getting overwise, I'm not the one for putting off the proof. Let it be overwhelming, off a roof And round a corner, blizzard snow for dust, And blind me to a standstill if it must. (Robert Frost ) (url) (url) 16.12.08
(url) 15.12.08
(url) EARLY MORNING BLOGS 1453 - Aware When I found the door I found the vine leaves speaking among themselves in abundant whispers. My presence made them hush their green breath, embarrassed, the way humans stand up, buttoning their jackets, acting as if they were leaving anyway, as if the conversation had ended just before you arrived. I liked the glimpse I had, though, of their obscure gestures. I liked the sound of such private voices. Next time I'll move like cautious sunlight, open the door by fractions, eavesdrop peacefully. (Denise Levertov) (url) 14.12.08
AS DIFICULDADES DO PSD As faltas dos deputados do PSD que assinam para receberem o dia e não terem registo de ausência e depois se vão embora, dificilmente levarão à sua responsabilização dentro do PSD. Por que razão é que andar em jogos de futebol (como também faz o PS como “trabalho político”), ou jantares de clubes desportivos até à madrugada, não é “trabalho político”? Ou havendo um Alfa pendular que traz as pessoas do Porto a Lisboa a mais que horas de votarem, apenas com a maçada de se terem que levantar cedo, não deixa de ser desculpa válida? Who cares? Naquilo que puder ser usado para combater Manuela Ferreira Leite ou o líder parlamentar de sua confiança Paulo Rangel, as faltas dos deputados do PSD serão glosadas até ao limite, como faz habitual e trivialmente Menezes, mas olhar para quem falta como gente que prejudicou mais uma vez a imagem do PSD, isso não corresponde aos costumes de parte da casa. A intriga tem tradição, a responsabilidade não. São todos “PSDs” genuínos, da camisola, por isso ninguém lhes pedirá contas por nada, até porque muitos deles estão seguros pelo seu controlo de estruturas locais que os proporão de novo aos lugares de deputados, façam eles algum trabalho no parlamento ou passem pelos interstícios do livro de presenças sem ninguém dar por ela. Aliás o mesmo acontece com outros “casos”, em particular os que envolvem figuras do PSD em actos eticamente reprováveis, em ilegalidades ou corrupção, ou a enormidades políticas como foi o caso do banimento ilegal de um deputado na Madeira pela maioria parlamentar do PSD. Tudo isto, que faz estragos enormes à credibilidade do partido, é visto como inimputável internamente, sem nunca se assumirem ou pedirem responsabilidades políticas. A fúria vai mais contra o facto de eu estar a escrever isto, preto no branco, do que com o que aconteceu. Como eu os percebo, tanto mais que na lista dos faltosos estão muito bem representados deputados que foram escolhidos em função das amizades e fidelidades com o líder de então e por isso estão hoje muito “desmotivados”. Uma das razões porque alguma gente fica muito irritada quando eu falo do PSD é porque eu insisto em que os factores de crise do partido são estruturais e convém a essa mesma gente que sejam apenas conjunturais, ou seja de liderança. No momento actual convém lembrar essa diferença, porque ela não só ajuda a explicar muita coisa, como é essencial para se perceber os problemas de um partido que teve no passado na vida pública portuguesa um papel decisivo e que não é líquido que o torne a ter, se não se defrontarem os problemas de fundo. Uma das razões que agravam a crise estrutural é que ela não se manifesta da mesma maneira em todos os níveis de actividade do PSD. Para efeitos de simplificação, distingo três níveis de actividade partidária, a do partido propriamente dito (e da JSD e dos TSD), a autárquica e a nacional. O nível autárquico está de um modo geral bem, o PSD continua a ser um grande partido autárquico e regional, embora mesmo aí as tensões que afectam os outros níveis de actividade partidária possam hipotecar o seu futuro. É a nível partidário e nacional que existem problemas estruturais graves, nalguns aspectos mais graves no PSD, embora também existentes no PS onde são disfarçados pelo exercício do poder. A nível partidário, o PSD está a tornar-se uma organização local complementar das autarquias, com a mesma lógica do poder local e com diminuta projecção numa actividade cívica com significado nacional. A vida interna das secções e distritais, esmagadormente dominada por um sindicalismo da própria estrutura, que passa pela sua “representação” no partido, - daí muitas vezes a inflação artificial de militantes para garantir mais lugares de delgados e maior “força” da distrital junto da direcção do partido, ou da secção dentro da distrital, - de muita competição interna por lugares e jogos de influência de grupos, raras vezes se projecta de forma qualificada na vida do país. As estruturas fecham-se num universo cada vez mais dominado pela partilha dos bens escassos a que tem acesso, recebem com hostilidade qualquer iniciativa vinda de independentes ou simpatizantes, cujo “protagonismo” é logo atacado, porque parece uma ameaça aos que já lá estão ou à segunda leva que conta vir a lá estar. É raro existirem actividades políticas propriamente ditas que não passem pela ocupação dos cargos públicos – os comunicados contra o PS são dominados pela disputa pela ocupação de lugares na administração e nas empresas públicas ou municipais – e pela intriga interna. E pior ainda, existe muito tráfico de influências, muito lobiismo, e corrupção. O pais conta pouco, o bem público muito menos e o partido, apesar de estar sempre na boca de muito gente como se fosse um clube de futebol, fora das benesses que a cada um pode dar, conta ainda menos. Tornadas máquinas de pequenos poderes e pequenas influências, as secções partidárias não existem enquanto braços de um partido nacional, que é suposto representar uma “parte” da opinião dos portugueses com uma visão própria, programática e histórica (no sentido da história como “programa não escrito”) própria. Esta desertificação que nasce em baixo, produz os deputados que acham absolutamente normal passarem quatro anos no parlamento como uma sinecura suplementar e por isso não estão dispostos a prejudicarem o seu fim de semana alargado com votações. O pior é que esta degradação dos aparelhos partidários (insisto, comum ao PSD e ao PS) sobe como as heras pelo edifício partidário acima e destrói tudo o que vive pelo caminho. O único dirigente do PSD que percebeu a correlação entre o “estado” do partido e a crise da sua projecção nacional, que percebeu que existe uma relação directa entre o desprestigio da vida partidária e os factores de crise da representação democrática, cada vez mais graves e ameaçando a democracia, foi Marcelo Rebelo de Sousa. Cavaco deixou a coisa degradar-se por baixo, pensando que podia escapar na governação aos seus efeitos. Quando hoje o caso do BPN o assalta, paga o preço dessa falta de atenção. Durão Barroso fez todos os acordos necessários para sobreviver, até porque era visto como suspeito e estranho. Marques Mendes, que vinha do interior da casa, compreendeu o problema, tentou defrontá-lo e foi varrido do mapa pelo mesmo Menezes que, junto com Valentim Loureiro, foi a oposição a Marcelo. Manuela Ferreira Leite ganhou quase por milagre, representou um (último?) sobressalto do PSD do passado, o partido reformista fiel à génese social-democrata de Sá Carneiro e que conheceu em Cavaco Silva o seu grande executivo. Mas a maioria das estruturas do partido e o tipo de militantes que recrutam cada vez mais como sua “massa de manobra”, a última coisa que querem ouvir falar é na regeneração do partido, que sabem só poder ser feita contra os interesses instalados e pela mudança das pessoas. E não querem saber para nada do facto da maioria dos eleitores reais e potenciais do PSD desejarem um partido diferente, credível, sério e mais honesto. No topo, uma direcção séria que queira contrariar este estado de coisas só pode contar com uma luta feroz de cada pequeno interesse ameaçado. E, ou claudica, como de alguma maneira fez Marcelo, após um arranque corajoso, ou está permanentemente num ambiente de guerrilha que a comunicação social alimenta com avidez. E pior, encontra um partido sem quadros qualificados, sem interlocutores viáveis para a sociedade, sem trabalho nem estudo feito para corresponder aos problemas do país e que não muda com qualquer passe de mágica, nem com karma, nem com a projecção a nível nacional de políticas de proximidade que resultam nas autarquias e nas regiões, mas que a nível nacional significariam mais populismo e menos qualidade na política e na governação. E por isso tudo é frágil e vai continuar a ser frágil, e pode cair como um castelo de cartas a qualquer momento. (Versão do Público de 13 de Dezembro de 2008.) (url) (url) (url) EARLY MORNING BLOGS 1452 A list of some observation. In a corner, it's warm. A glance leaves an imprint on anything it's dwelt on. Water is glass's most public form. Man is more frightening than its skeleton. A nowhere winter evening with wine. A black porch resists an osier's stiff assaults. Fixed on an elbow, the body bulks like a glacier's debris, a moraine of sorts. A millennium hence, they'll no doubt expose a fossil bivalve propped behind this gauze cloth, with the print of lips under the print of fringe, mumbling "Good night" to a window hinge. (Joseph Brodsky) (url)
© José Pacheco Pereira
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