Não vejo saída para esta questão. As escolas estão ingovernáveis pelo ministério, os professores têm consciência do seu poder e não vêem porque tenham que recuar, o Primeiro-ministro já está a fazer as contas eleitorais. Se a isso se somar concessões ministeriais que levem à suspensão da avaliação, então a derrota será total. Não é impossível que haja uma remodelação governamental para disfarçar a resolução deste “problema” em conjunto com outros (como é possível manter o ministro da Cultura depois das suas declarações?), até porque o desgaste da ministra afecta neste momento um apoio popular que já teve, numa opinião pública perplexa e confusa com o que se passa nas escolas.
No entanto, sobram-me muito poucas dúvidas, como afirmou Miguel Sousa Tavares e, no essencial eu concordo, que seja qual for o valor intrínseco de muitas propostas da Ministra, se ela cair face à contestação generalizada dos professores e dos sindicatos, vai-se seguir um longo período de impossibilidade de reformas, com as escolas e os professores voltando rapidamente ao statu quo ante. Esta prevenção deve ser tida em conta para qualquer alternativa da oposição, em particular no PSD, que nas atitudes que tomar agora pode por em causa qualquer veleidade reformista nesta área quando chegar à governação.
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Li o seu post sobre a derrota da ministra e, francamente, tenho de lhe dizer que não concordo muito com o teor da parte final. O seu diagnóstico é um diagnóstico de carácter generalista, aliás semelhante ao que vi de José Miguel Júdice, no Público. Parece-me que um e outro partem de uma perspectiva de análise clássica, neste caso de uma luta sindicatos / governo, entenda-se sindicatos imobilistas e situacionistas e um governo reformista, independentemente da qualidade da reforma. Quer a sua análise, quer a de José Miguel Júdice, esquecem um pormenor de extrema importância, neste caso – a verdadeira indignação partiu dos professores, confrontados com a realidade utópica e burocrática da aplicação do modelo de avaliação, que os sindicatos até tiveram alguma dificuldade em enquadrar, e foram até ultrapassados pela dinâmica dos próprios professores. A ideia feita de que os professores não querem avaliação é absurda, e sei-o bem porque a minha esposa é professora, das que veste a camisola, das que desempenha mil tarefas na escolha, das que está sempre disponível para mais uma actividade, das que agora raramente tem tempo livre, ocupada com documentos sem fim… Os professores querem avaliação, que destrince quem tem uma dedicação e um empenho que alguns nem se preocupam em diasfarçar, e uma avaliação medianamente inteligente seria aceite pelos professores sem problemas.
De qualquer modo, se as escolas e os professores estiverem menos abertos a reformas, será que é de espantar? Como é possível que se elogie a visão reformista de quem produziu, como pérolas “reformistas”, este modelo de avaliação, o sucesso escolar “fabricado” nas estatísticas, a total ruína do ensino especial, com centenas, senão milhares de alunos com dificuldades integrados nas turmas normais, onde não podem ter a atenção e o apoio especializado de que precisam, a ruína a prazo do ensino da música, o absurdo do estatuto do aluno, ou a banha da cobra que é o ensino do inglês, que serve, em muitos casos, apenas para dar algum dinheiro a insititutos de línguas e quejandos – o meu filho frequenta aulas pagas em vez do gratuito inglês do público, tal é a falta de qualidade - é algo que me espanta e me faz até desconfiar de opiniões dos autores relativas a outras áreas, porque se o conhecimento dessas áreas for a que revelam neste assunto, então revelam uma ignorância e, pior, uma incapacidade de leitura da realidade, que é impressionante.
O país evoluiu muito nestes 32 anos desde a revolução. Já não basta reformar por reformar. Agora exigem-se reformas ponderadas, sensatas, que revelem conhecimento profundo das áreas que se pretende reformar, dos respectivos problemas, das possíveis soluções e das vantagens associadas a cada uma dessas soluções. Já chega de reformas de “textbook”, ou receita, sem qualquer ponderação, porque não só o atraso nas áreas a reformar é grande, como não há recursos para desperdiçar. Que não se veja isso na educação, e que se continue a analisar o actual conflito seguindo a velha cartilha das lutas sindicais, é um sinal, também, da necessidade de novas “vistas” do lado de quem faz análise.
Naturalmente, esta divergência pontual não significa que o Pacheco Pereira não seja, apesar de tudo, dos que, naturalmente, mais sai das visões tradicionais (onde Júdice, por exemplo, de quem fui confesso admirador no gloriosos anos do Semanário, parece ter parado completamente no tempo), mas neste comentário específico penso que a “libertação” não foi total.
(Rui Ribeiro)
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(...) vai uma aposta como é possível reformar profundamente a educação sobretudo se «suspensa» a política educativa da ministra Maria de Lurdes Rodrigues? Não no imediato, mas após as eleições de 2009. Uma parte (provavelmente significativa) dos professores sabe que os pilares do sistema educativo continuam intactos ou até saíram reforçados pela actual governação socialista. Mas também a reflexão crítica pelo comum dos professores. Basta estar nas escolas no dia-a-dia. O PSD, como os demais partidos políticos, só se for por manifesta incompetência é que na vêem o enorme potencial reformista (de facto!) que a educação proporciona. Não deve existir território político tão apelativo quanto o da educação. Os receios que o Dr. José Pacheco Pereira e outros manifestam resultam em grande parte do desconhecimento da realidade empírica. É nestes pormenores que se percebe que quando muitos (aparentemente) manifestam sensibilidade face ao que de facto se está a passar nas escolas, essa postura na verdade assenta numa sensibilidade sobretudo retórica. Espero que este comentário seja, de alguma forma, um antídoto contra o seu (e de outros) pessimismo reformista no pós-Maria de Lurdes Rodrigues. Cá estaremos.
(Gabriel Mithá Ribeiro)
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Escrevo-lhe depois de ter assistido à “Quadratura” desta semana. Gostaria de partilhar consigo algumas considerações sobre aquilo que disse sobre o “estado da Educação”.
Quanto à estima pessoal que diz ter pela titular da respectiva pasta, nada devo dizer. No entanto, e para além das razões estritamente pessoais, tenho dificuldade em compreender a sua interpretação do que se passa no sector. Custa-me acreditar que revele saber tão pouco, pela posição que tem assumido ao analisar a realidade social e política dos últimos anos, mas também porque sempre demontrou ultrapassar a superficialidade nas suas reflexões.
Comecemos por considerar a conduta da Ministra e a condução política do seu mandato. Desde a primeira hora que a sua acção foi pautada pelo ataque e humilhação dos docentes, na assumpção da pior perspectiva do “ataque aos privilégios”. Podemos lembrar muitas dessas pérolas, mas, enquanto docente em início de carreira (cinco anos lectivos), fiquei profundamente ofendido pelas considerações que fez sobre “os candidatos a professores”. Sendo que – todos os anos – são os contratados que asseguram a sobrevivência do sistema público de educação. E são professores. Mais nada. Por outro lado, a ministra mente e ameaça. Mente quando – e estou a escolher o caso mais recente – no “despacho dominical” procura atirar areia para os olhos das pessoas a propósito das faltas dos alunos. Ou seja, redige um despacho que contraria a lei que ela mesma impôs no estatuto do aluno. E diz – só o facto de não ser um ministro de Santana Lopes é que faz com que não se levantem mais vozes críticas a exigir a demissão (e concordo consigo sobre S.Lopes) – que o despacho se destina a esclarecer as escolas sobre a legislação. Escolas, essas, que estão a interpretar e a implementar mal a lei!!! Mas bastava que alguém se desse ao simples trabalho de a ler…para ver que a ministra mente. A todos, alunos, pais e professores.
Ameaça quando, nas reuniões com os Conselhos Exec. das escolas, diz que os professores que não forem avaliados serão penalizados: na progressão (que está congelada e promete assim continuar!); e na obtenção de benefícios financeiros… não conheço alguém que os tenha recebido ou saiba em que consistem! Inacreditável! Diz, quem esteve presente nestas reuniões, que são sessões de pressão e propaganda. Em que é afirmado que todo o processo está a correr bem a nível nacional e que a “resistência” é mínima e etc e tal…
O último sinal de pressão foi o envio de uma mensagem para o correio electrónico dos docentes, exigindo o preenchimento de um formulário (Objectivos Individuais) cuja natureza é confidencial. Apenas a Direcção da escola e o avaliador podem aceder a esses dados e, no entanto, quer a ministra que esses dados sejam “carregados” para uma base de dados pública! A confidencialidade desses dados é referida pela própria legislação (monstruosa) que o ME produziu. Como pode ver, estes sinais não são senão sinais muito maus da confusão e do autoritarismo que pautam a acção desta equipa ministerial.
Em conclusão, não sei como pode desconhecer estes comportamentos (e são muitos mais, garanto-lhe) e afirmar que tem “simpatia” pela ministra. Para além da estima pessoal, sublinho, é-me incompreensível que possa subscrever estas condutas.
Ainda não me pronunciei sobre a qualidade das medidas que se querem impôr na Escola. Sublinho, inicialmente, que “os projectos” são ambiciosos… Numa legislatura querer “martelar” um Estatuto dos Professores, um Estatuto dos Alunos, um modelo de gestão, novos concursos para docentes, abrir a escola à formação (CNO, EFA, CEF) em concorrência com os centros de formação, mudanças nos programas e currículos escolares, anulação de exames nacionais – vejam-se as “experiências” com os exames de matemática para furjar resultados, quem sabe se assim se podem ridicularizar os exames e o seu papel importante no percurso das aprendizagens… enfim, é de tirar o fôlego. Não é necessário ser grande conhecedor da gestão política dos governos, mas parece-me que impôr todas estas “coisas”, sem participação dos seus principais agentes, daria mau resultado. Seja na escola ou noutra instituição qualquer.
Consideremos a divisão artificial da carreira dos professores – que é incompreensível e não tem paralelo em toda a Europa. O próprio Provedor de Justiça “arrasou” este processo fracturante, apontando fragilidades e até ilegalidades. Mas era para seguir… a caminho do futuro. Decidiu-se, não se sabe porquê, que os sete últimos anos é que eram relevantes e apenas as funções burocráticas exercidas seriam determinantes para ser titular. Tal foi a confusão, que houve outro concurso extraordinário para “calar” algumas críticas. Por muito menos “caiu” o ministro David Justino! Adiante.
Considere-se este processo de avaliação, a sua injustiça e (até) inutilidade. No ano lectivo transacto, as inúmeras tabelas que tive de preencher continham parâmetros, critério e descritores que não se adequavam ao trabalho que estava a fazer na escola. De modo sustentado, fiz referência a essa contradicção. O que repeti em inúmeros campos de preenchimento. Em conclusão, a Direcção da Escola e a Coordenação Disciplinar avaliaram o meu desempenho com a classificação de Muito Bom! Que não tive por causa de quotas…mas o que interessa é aquela contradicção. Para que serviram as horas de reuniões, as decisões e consensos que se tiveram que construir em torno do preenchimento das referidas tabelas? Parece que para nada. Ainda por cima essa avaliação não teve efeitos para o concurso do presente ano. Sórdido.
Deixo-lhe outra consideração. Estas “reformas” contemplam também um exame para acesso à carreira docente. O que, sem alterar o regime de formação, é bizarro. Ora veja. No meu caso, parece que terei de fazer essa prova de acesso!?!?! Ou seja, depois de obter uma licenciatura, fazer o biénio de formação (com estágio e avaliação rigorosa na UL - FLetras) e exercer a docência durante cinco anos lectivos tenho que realizar a dita prova de acesso!?!? Se lhe disser que já exerci as funções de Director de Turma, Director Curso EFA, Mediador, Professor Corrector de Exames Nacionais (entre outras) e ainda assim tenho que fazer a dita prova de acesso. Considera correcto? Considera justo? Para não falar na natureza da prova: três componentes em que o candidato não pode obter, em nenhuma delas, classificação igual ou inferior a 14 valores. Bom, se alcançar 19, 19 a duas delas e 14 na terceira… nunca mais serei professor! Que já fui! Sem mais palavras.
Por fim, deixe-me dizer-lhe que espero bem que esteja enganado. Ou seja, que estas “reformas” não passem da secretária da ministra e que, depois dela, se possa RAPIDAMENTE estabelecer, de modo consequente e sustentado, as regras e os princípios para a Educação. Jamais 25 anos de adiamentos.
Em anterior texto que lhe enviei e que publicou no seu blog, disse que este problema agudizou-se, também, pelas dificuldades na representação sindical e institucional dos seus agentes. O que se provou nas diferentes manifestações em Lisboa (8/11 e 15/08). Esperemos que desta vez seja possível fazer a “quadratura”… uma proposta? Acabe-se com este modelo de avaliação (que a ministra elogiava há dez dias! E que demorou um ano e meio a perceber que teria que mudar!), regresse a calma às escolas, reabilite-se o papel dos exames nacionais para todas as disciplinas finais de cada ciclo e apetreche-se as escolas das condições básicas necessárias aos desafios do sec.XXI. Começar pelo Magalhães é um mau presságio de que não passaremos das aparências.
(Luís Vilela)
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Na sua coluna da revista Sábado, de 20/11/2008, referiu um artigo de Miguel Sousa Tavares acerca da crise dos professores. Por sinal não concordo nada com as opiniões de MST sobre esta matéria.
Porque há aqui um aspecto que parece escapar a muitos dos analistas. E, curiosamente, apesar de eu não ser um entusiasta da liderança de Manuela Ferreira Leite, reconheço que a senhora disse recentemente uma coisa muito certa (rapidamente desvirtuda pelas habilidades retóricas dos socialistas a propósito de uma pretensa gafe) e cito de memória, “em democracia, as reformas não se fazem contra as classes profissionais". É isso mesmo.
Não deveria passar pela cabeça a nenhum primeiro ministro dizer que vai meter na ordem, por exemplo, os médicos, ou os banqueiros, ou os juízes. Ou, no caso em apreço, os professores.
Todavia, convencido de que teria grande aceitação popular, Sócrates enveredou por uma política de confrontação corporativa. Mas Sócrates é apenas esperto. Não é inteligente. E os políticos espertos, mas não inteligentes, são dados a comportamentos arrogantes como aqueles que temos testemunhado em Sócrates.
Infelizmente, apesar das recentes palavras de MF Leite, o PSD não tem tirado os necessários dividendos da asneira cometida por Sócrates quando anunciou, ou a Ministra da Educação por ele, que ia proceder à avaliação dos professores. Foi um perfeito disparate, com as consequências que se observam.
Começa logo por colocar os professores em cheque perante os seus alunos. Quando o respeito dos alunos pelos professores já tinha descido a níveis insuportáveis, a última coisa que os professores necessitavam era que o Governo viesse anunciar a avaliação deles próprios, ao mesmo tempo que facilita a indisciplina e o regabofe dos alunos. Para os professores isto só podia ser encarado como mais uma desconsideração, a somar a tantas outras. As gigantescas manifestações não são apenas contra o processo de avaliação.
E foi um disparate, porque a avaliação dos professores se pode fazer mediante um método indirecto, com muito mais alcance e muito mais objectividade do que as trapalhadas que uns burrocratas inventaram. Trata-se, obviamente, da avaliação dos alunos, um processo que quase se poderia dizer “dois em um”, na medida em que tanto avalia os resultados dos alunos como o trabalho dos professores.
Não venham dizer-nos que é impossível pôr em prática um programa de exames nacionais rigorosos, concebidos e classificados de forma independente e com o cuidado de ser efectuada uma normalização estatística extensiva ao território nacional, a fim de se poderem comparar resultados em escolas dispersas e diversas.
Pergunte-se aos professores se concordam. Não acredito que recusem.
(Jorge Pacheco de Oliveira)
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(...) gostaria de partilhar consigo este belo texto do século XVI sobre os professores. É uma leitura deliciosa e tão actual.
(Ilídio Sacarrão Martins)
“Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).”
“Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.”
Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: “A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho.”
“Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.”
Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.”
“Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.”
"I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.
II. 20. Manter o entusiasmo dos professores O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos."
(Ratio Studiorum da Companhia de Jesus (1599))
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Ainda bem que o vejo a contrariar um pouco o espírito das posições de alguns professores a que tem dado acolhimento no seu blog!
Como pai, ex-marido, cunhado, genro e amigo de professores dos ensinos básico e secundário, conheço o meio o suficiente para ter algumas opiniões com algum fundamento, de que aqui partilho consigo algumas:
· Dizia Saldanha Sanches há dias na TV que as reformas eram difíceis “porque os professores se habituaram desde há 20 anos a não serem avaliados”. Ri-me, porque nesta nossa geração é frequente a falta de noção do quão longínquo já é o 25 de Abril. Ele queria dizer “há 35 anos”, e não há 20! Ora 35 anos é uma vida, o que significa, pura e simplesmente, que na verdade os professores actuais jamais foram avaliados enquanto tal! Mas também o não eram antes do 25 de Abril! Quem o era, era os alunos, e só nessa medida indirectamente os professores! Havia exames todos os anos na escola primária, havia um exame especial de admissão aos liceus, havia exames sobre toda a matéria dos ciclos correspondentes aos actuais 5º e 6º anos, depois para o dos anos 7º, 8º, e 9º, depois para o do 10º e 11º, e depois disso tudo ainda havia um exame nacional de admissão às Universidades! No que corresponde hoje ao 9º anos, por exemplo, tínhamos uma semana inteira de exames escritos, com duas provas por dia, a que em regra se seguiam depois provas orais! Claro que era fácil medir os professores pelos resultados, nesse tempo! Nada mais era preciso!
· Temos de admitir que os programas eram bem feitos, os livros únicos adoptados pelo Estado muito cuidados, havia livros de problemas semi-oficiais muito úteis (do Palma Fernandes), colecções editadas de exames passados, e a tarefa dos professores era, assim, fácil. Você já deu uma vista de olhos pelos programas actuais, e pelos manuais? Sabe quem faz os manuais, que competências tem para o efeito? Pois digo-lhe: nas áreas que melhor conheço, Matemática e Física, acho que os autores dos programas e de certos manuais deviam ser presos!!! O que se faz são autênticos crimes contra Portugal!
· Claro que não defendo o regresso ao passado. O mundo mudou. Simplesmente, tudo o que era uma filosofia de educação realista (ainda que elitista) foi substituído por uma amálgama de ideias pós-modernas (chamam-lhe assim) simplesmente catastróficas vulgarmente conhecidas por “eduquês”. E é lamentável que apenas Paulo Portas e o seu ex-camarada Nuno Crato batalhem contra essa verdadeira essência do mal na educação.
· Ora substituir a reforma profunda de toda essa matéria – programas, manuais, tipos de aulas, critérios e exigências de avaliação aos alunos, até a arquitectura dos edifícios escolares – pela guerra aos professores é tão inútil como querer resolver a crise financeira actual com a guerra aos empresários! E você sabe tão bem como eu que não é possível “pôr na ordem” os capitalistas sem sangue, muito sangue e terror; como poderá pensar que com os professores seja diferente? E como poderá pensar que isso teria algum resultado útil com os professores, se nunca o teve com os capitalistas?
(José Luís Pinto de Sá)
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No meu entender, centrar a questão da reforma do sistema de ensino na avaliação dos professores é não só profundamente errado como irrelevante, na perspectiva geral do desempenho do sistema de ensino como um todo. Enquanto as escolas, ou quem as administra, não dispuserem de instrumentos que lhes permitam seleccionar os professores usando critérios de "mercado" ou despedir professores por incompetência ou desempenho insuficiente, a avaliação de desempemho apenas serve para alimentar o que se tem visto. A ministra podia bem ter feito o trabalho de casa e estudado como é que grandes mutinacionais que empregam muito mais pessoas que o ME fazem avaliação de desempenho. Mas claro, enquanto se forem criando e elimientando casos como este, a existência dos burocratas da 5 de Outibro vai-se justificando. Uma nota final. Parece-me estranho que no meio da gritaria, não se houve ninguém na ala conservadora a dizer que a solução é deixar o sistema definhar - dar cheques-educação aos pais e deixá-los escolher a escola que quizerem para os filhos.
(AC)
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Quanto á Educação sinto-me literalmente intoxicado de Informação. Eu não sou professor dos primeiros ciclos por isso tenho tentado perceber o que se passa e é difícil. Se alguma coisa as últimas semanas me ensinaram foi a confiar nas minhas impressões: a Informação não leva ao Conhecimento. Por isso apenas duas notas breves, a primeira com um pensamento recente, a outra com um pensamento que já há largos anos mantenho:
1. Se Portugal ficou tão bom em termos de resultados no último ano, parece que é possível melhorar o sistema de ensino sem avaliação. Se a avaliação de professores não é uma questão moral mas simplesmente pragmática, então pragmaticamente deveríamos rever os comentários da ministra e do primeiro-ministro quando saíram as notas dos exames do ano passado: já temos cá um "milagre educativo", e como é esse o nosso objectivo, como justificar que a ausência de avaliação não foi uma das bases desse milagre? O que acontece se quando for instituída a avaliação baixarem os resultados nacionais? É que, ou existe uma mentira nos resultados ou existe uma mentira nos objectivos da avaliação.
2. A questão da avaliação de um professor que já tem o título "professor" devia ser olhada num âmbito mais alargado. É que para ser "professor" ele já foi avaliado. Já vem com uma garantia. Mas quem é que lhe deu a garantia? Há muitos anos que me espanto com a falta de atenção para as Escolas de Educação. E acho surpreendente que elas passam sempre "por baixo do radar" e ninguém fale disso. É que aí já estamos a falar do Superior. E o Superior anda com problemas, certo? Eu conheci casos (poucos) de pessoas que se formaram numa Escola de Educação. E tive acesso até a alguns trabalhos escritos "assustadores". E ouvi histórias. Histórias de quem pede ajuda aos colegas porque não sabe dividir com decimais; histórias de quem não sabe escrever; histórias de quem não sabe História. Esta questão é até parecida com alguns temas da saúde pública: há áreas onde não seria preciso gastar milhões com tratamento se se gastasse algumas centenas com prevenção e educação. Se calhar, uma das coisas que faz falta é olhar para as ESEs e perguntarmo-nos "o que é um mau professor e de onde é que ele veio?" A única pessoa que eu vi falar publicamente sobre isto foi Jorge Sampaio e fê-lo de um modo tímido, já nem sei a que propósito.
É evidente que toda a gente olha para esta sugestão com um gigantesco encolher de ombros. Porque não é isto que está em questão. Os governantes querem lá saber do processo de formação de um professor, eles vêem-se como patrões; os professores querem lá saber de uma questão que já não lhes diz respeito, eles são é empregados, fizeram o curso, o que lá vai lá vai; os pais querem lá saber da qualidade dos professores desde que os professores lhes passem os filhos; os alunos querem lá saber da formação dos professores, querem é ter as notas que lhes permitam não ser chateados pelos pais; os alunos das ESEs querem é fazer o curso possível , não querem mudanças, querem algo que lhes permita sobreviver e de qualquer maneira já devem viver angustiados com a ideia do que os espera; os presidentes das ESEs (públicas e privadas) como qualquer presidente de empresa, querem apenas "mostrar serviço" e agir como RPs das Instituições, não querem ter de se justificar (a qualidade dos professores é algo que não tem nada a ver com eles); os jornalistas querem sangue, não querem uma discussão que obrigaria a muita investigação e que seria forçar uma situação que está demasiado calma (é bem melhor espicaçar mais uma situação que já se encontra quente per se), e onde não há conflitualidades claras.
O problema, tal como tantos outros em Portugal, é sistémico e não mecânico, por isso não só não estamos a atacá-lo na globalidade, como também, seja lá qual for o resultado da presente discussão, as implicações serão bem mais vastas e imponderáveis do que julgamos.
(PL)
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O sistema de avaliação , ou os sistemas de avaliação que o Estado criou para a Administração Pública ( SIADAP) e para os Professores são em si sistemas adaptados e fraudulentos .
O sistema baseado no sistema Balanced Scored Card é um sistema ultrapassado , aplicado nos anos oitenta ás grandes empresas … e onde falhou redondamente , como no caso estudado das empresas farmaceuticas.
Acresce que o sistema foi criado na sua forma lusitana, com uma malformação deliberada … a aplicação compulsiva de quotas de 5 % para Excelentes e 25% para Muito Bons . Esta malformação pretendia de forma … administrativa … impedir a progressão de carreiras e … inventado pelas Finanças …assim conseguir controlar a massa salarial e o Orçamento de Pessoal dentro dos parâmetros gerais do PEC. Isto evitaria a enorme quantidade de progressões automáticas do anterior sistema…e carga Orçamental.
Ora o sistema de quotas é … pasme-se … que não se vê ninguém adjectivar a coisa … uma fraude. Como as quotas são distribuídas uniformemente por todos os serviços e cegamente, cria-se uma mediocracia e não uma meritocracia.
Pior.
Caso algum avaliador supere as quotas que lhe estavam atribuídas , as fichas são-lhe devolvidas até o mesmo degradar aqueles Muito Bons ou Excelentes a mais que inicialmente considerou .Ou seja não há avaliação em consciência , e existe uma completa manipulação para a injustiça , passando por considerar uma pessoa competente como incompetente .Já se viu na TV uma professora avaliadora admitir que isso lhe aconteceu.
Sobre o ponto de vista do bom senso , não será possível haver menos Excelentse e Muito Bons que os fixados 5% e 25% , ou mais que os 5% ou 25 % administrativamente fixados ????
É muito difícil de compreender ????
Ora reformas baseadas em fraude , injustiça , e mentira , por mais que necessárias , devem ser combatidas até a justiça prevalecer … e se isso não se vê no SIADAP é porque há um silencio comprometido na sua aplicação , e uma completa desunião dos trabalhadores , divididos entre milhares de categorias , de coveiro a assessor principal .Já os professores estão unidos e se com isso derem sentença de morte neste ímpio sistema absolutamente injusto … então assim seja .
Não se pode combater um problema , com a aplicação de soluções injustas e fraudulentas , atentatórias do respeito por quem avalia e por quem é avaliado.
Se isto não é evidente , então não sei que mais possa ser demais claro e transparente, coisa que estes sistemas de avaliação de modo algum o são.
(António Carrilho )
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Explorando a ideia que exprimiu ontem na Quadratura e sem qualquer capacitação académica específica ocorreu-me o seguinte: Por que não contar para a avaliação do professor uma ponderação entre as notas atribuídas pelo professor aos alunos e os resultados conseguidos por estes nos exames nacionais? Eliminavam-se as margens (as maiores disparidades e as maiores similitudes) e estabelecia-se uma formula devidamente ponderada. Talvez isso eliminasse a injustiça de contar apenas as notas dos exames: um professor de Boticas nunca teria nesse factor de avaliação uma boa nota enquanto os profs. de uma boa escola urbana tinham melhor nota por algo que não depende só do seu desempenho mas sim do meio social do aluno. Acho que não é nada que um bom estudo comparativo e uma boa fórmula temperada de sensatez adequada não conseguissem.
A sonda que leva nomes (incluindo o do Abrupto) para Ceres e Vesta, a Dawn, passou com sucesso mais uma manobra crítica e vai deixar-se empurrar por Marte, por onde anda.
O Autumn, laden with fruit, and stain'd With the blood of the grape, pass not, but sit Beneath my shady roof; there thou may'st rest, And tune thy jolly voice to my fresh pipe, And all the daughters of the year shall dance! Sing now the lusty song of fruits and flowers.
'The narrow bud opens her beauties to The sun, and love runs in her thrilling veins; Blossoms hang round the brows of Morning, and Flourish down the bright cheek of modest Eve, Till clust'ring Summer breaks forth into singing, And feather'd clouds strew flowers round her head.
'The spirits of the air live in the smells Of fruit; and Joy, with pinions light, roves round The gardens, or sits singing in the trees.' Thus sang the jolly Autumn as he sat, Then rose, girded himself, and o'er the bleak Hills fled from our sight; but left his golden load.
COISAS DA SÁBADO: SINDICATOS A MAIS, PROFESSORES A MAIS
A ministra acabou por se enredar em contínuas negociações com os Sindicatos, - a ironia do destino é esta, nenhuma ministra esteve mais próxima de dar aos sindicatos o seu papel que Maria de Lurdes Rodrigues, para ser “levada” por eles que estavam também a ser contestados nas escolas, - e das escolas, a que deu uma autonomia sem paralelo no passado. O caso da complexidade burocrática da avaliação é típico, visto que ela foi desejada pelos professores para se defenderem, somando alíneas e itens, actos de verificação e contra-verificação, que tornaram o processo tão complexo que se revela inaplicável. Não foi na burocracia do ministério que a complexidade da avaliação nasceu, mas sim na vontade dos professores de se protegerem por um processo tão garantista que não funciona.
O resultado destas cedências, de burocracia ministerial para burocracia sindical, foi que o fruto desses acordos ficava depois sem pais, ou pelo menos sem um dos pais, quando a coisa dava para o torto, como aconteceu com o acordo depois da última manifestação. E inevitavelmente tudo dava para o torto porque, por muito que isso choque os professores, a verdade é que ainda se está para descobrir nos anais das profissões, qual é aquela que avançando pela idade e antiguidade, sem riscos, quer ser avaliada por mérito, com os riscos inerentes e a diferenciação. Uma parte dos problemas com os professores titulares já vinha daí, embora o concurso tenha sido tão mal pensado e com tais laivos de injustiça, que dividiu as escolas como nunca acontecera. O processo de diferenciação profissional dos professores foi o pano de fundo para a contestação da avaliação, que lhe está muito ligado.
Uma coisa é o discurso de auto-legitimição dos professores que se zangam imenso quando alguém diz que não querem ser avaliados, outra coisa é a realidade psicológica e grupal de que, sem pressão exterior, ninguém quer passar de uma coisa segura para insegura, acima de tudo ninguém quer ver o professor do lado diferenciado numa massa até então igualitária.
COISAS DA SÁBADO:“FAZER A REVOLUÇÃO PELA METADE É CAVAR O SEU PRÓPRIO TÚMULO” (SAINT-JUST)
Em muitos outros aspectos Maria de Lurdes Rodrigues não rompeu com a ideia de que a democratização da escola pública “onde têm que caber todos”, implicava abandonar antigos standards de qualidade, associados ao “elitismo” do ensino do passado. O argumento de manter a escola pública “inclusiva” levou a um abaixamento sucessivo de critérios de qualidade e exigência e à constatação das enormes dificuldades de manter esses standards num mundo socialmente muito mais agreste. Maria de Lurdes Rodrigues institucionalizou muito desse baixar de braços seja no estatuto do aluno, seja na diminuição do valor de provas de avaliação globais, os exames. E ao diminuir o papel de indicadores como os rankings, acaba por desvalorizar aquele que deve ser em última instância o principal avaliador de escolas e professores, a performance escolar dos alunos. O resultado é que a parte da opinião pública, incluindo os pais, que podia estar com a ministra na defesa do principio da avaliação, vê com indiferença a sorte da ministra “facilitista”, sem sequer se aperceber que no processo está a blindar as escolas a qualquer processo de mudança para décadas e décadas.
O problema das reformas em Portugal é a escassíssima força endógena a seu favor. A regra é que não há nunca verdadeiros aliados para as reformas e, quando estes existem, o próprio isolamento e ambiente de hostilidade são tão propícios aos erros, que mesmo aqueles se perdem rapidamente.
Muitos anos depois da tentativa de Leonor Beleza de fazer mudanças nas relações entre os médicos e o estado, já ninguém se lembra do conteúdo das suas propostas, nem se foram boas ou más. O que existe é a convicção retrospectiva de que a queda de Beleza significou que, depois dela, nunca mais ninguém tocou nos poderes corporativos dos médicos e que, no essencial, tudo continua na mesma. O exemplo de Beleza devia servir para pensarmos em Maria Lurdes Rodrigues, pesem embora as distâncias de personalidade, situação e tempo.
Como Beleza, que enfraqueceu a sua posição com a falta de cuidado com que permitiu as trapalhadas envolvendo o seu Ministério, também Maria de Lurdes Rodrigues fragilizou até ao limite a sua posição e está agora num beco sem saída e sem apoios, que já teve e poderia ter e sem os quais tudo o que de positivo fez será levado na enxurrada dos erros. Muito do que de positivo fez nas escolas, a diminuição do absentismo dos professores, o aumento de horas lectivas, a introdução do inglês, a estabilidade do corpo docente, foi obscurecido pelos sinais de facilitismo para as estatísticas governamentais, como o “milagre” das notas de matemática, ou a celebração pomposa com Sócrates de variações estatisticamente irrelevantes de “sucesso escolar”, ou mesmo a cedência passiva a essa intromissão pedagógica não pensada, nem estudada nos seus efeitos, do “Magalhães”.
Others taught me with having knelt at well-curbs Always wrong to the light, so never seeing Deeper down in the well than where the water Gives me back in a shining surface picture Me myself in the summer heaven godlike Looking out of a wreath of fern and cloud puffs. Once, when trying with chin against a well-curb, I discerned, as I thought, beyond the picture, Through the picture, a something white, uncertain, Something more of the depths--and then I lost it. Water came to rebuke the too clear water. One drop fell from a fern, and lo, a ripple Shook whatever it was lay there at bottom, Blurred it, blotted it out. What was that whiteness? Truth? A pebble of quartz? For once, then, something.
Almost happy now, he looked at his estate. An exile making watches glanced up as he passed, And went on working; where a hospital was rising fast A joiner touched his cap; an agent came to tell Some of the trees he’d planted were progressing well. The white alps glittered. It was summer. He was very great.
Far off in Paris, where his enemies Whsipered that he was wicked, in an upright chair A blind old woman longed for death and letters. He would write “Nothing is better than life.” But was it? Yes, the fight Against the false and the unfair Was always worth it. So was gardening. Civilise.
Cajoling, scolding, screaming, cleverest of them all, He’d had the other children in a holy war Against the infamous grown-ups, and, like a child, been sly And humble, when there was occassion for The two-faced answer or the plain protective lie, But, patient like a peasant, waited for their fall.
And never doubted, like D’Alembert, he would win: Only Pascal was a great enemy, the rest Were rats already poisoned; there was much, though, to be done, And only himself to count upon. Dear Diderot was dull but did his best; Rousseau, he’d always known, would blubber and give in.
So, like a sentinel, he could not sleep. The night was full of wrong, Earthquakes and executions. Soon he would be dead, And still all over Europe stood the horrible nurses Itching to boil their children. Only his verses Perhaps could stop them: He must go on working: Overhead The uncomplaining stars composed their lucid song.
De todas as colecções populares francesas da primeira metade do século XX estes "livres de demain" da Arthème Fayard são os meus favoritos. Li nestas edições, Colette e penso que um livro de Jules Romains de que não me lembro nada. Mas são as capas, o papel e as gravuras de madeira originais que sempre me atraíram para os belos livros desta colecção que começou em 1924. O papel é bastante mais grosso que o costume e absorve a tinta da impressão de uma forma clara, de modo que a tipografia dos livros lhes dá uma leitura quase brilhante do negro contra o branco. Depois da capa com aquele amarelo torrado, e com uma vinha estilizada, nada há mais de cor. Todos os livros continham gravuras em madeira originais e de grande qualidade. Já reproduzi aqui uma delas, mas podia todos os dias colocar magníficas peças de uma arte hoje em desuso, que a colecção da Fayard suportaria todas as provas. Depois, há as surpresas dos livros, como este separador no volume do Sem, com um reclame a um perfume
ASPECTOS DA OFERTA CULTURAL PRIVADA NO PORTO E GAIA NUM DIA AO ACASO DE 1948
Isto para além de um concerto dos Pequenos Cantores de Viena, vários filmes portugueses, um filme de Fritz Lang e vários outros que hoje se consideram clássicos. Tudo isto tinha público e, pelos vistos, dava lucro.
Mais uma vez venho falar do meu pai, Artur Pastor e de quão esquecido se encontra. Desta vez para dar conhecimento de uma homenagem que a Nazaré pretende fazer. Para aquela localidade Artur Pastor foi um marco importante na medida em que protagonizou o livro que foi oferecido à Rainha Isabel II aquando da sua visita a Portugal.
Artur Pastor terá uma exposição na Biblioteca nova da Nazaré, com inauguração prevista para 22 de Novembro. São fotos de autor impressas em grande formato e que estiveram patentes num dos salões do antigo SNI. Actualmente o seu espólio continua no Arquivo Municipal de Lisboa, aguardando a sua divulgação em dias mais afortunados para a Cultura neste País.
NOTA: no Vírus sobre a canção Sink the Bismarck cometi um erro confundindo o fim do couraçado Bismarck com o do Graf Spee. As minhas desculpas pelo erro.
And the craft that createth a semblance Morris: Sigurd the Volsung, 1876
Pienso en un tigre. La penumbra exalta la vasta Biblioteca laboriosa y parece alejar los anaqueles; fuerte, inocente, ensangrentado y nuevo, él irá por su selva y su mañana y marcará su rastro en la limosa margen de un río cuyo nombre ignora (en su mundo no hay nombres ni pasado ni porvenir, sólo un instante cierto.) Y salvará las bárbaras distancias y husmeará en el trenzado laberinto de los olores el olor del alba y el olor deleitable del venado. Entre las rayas del bambú descifro sus rayas y presiento la osatura bajo la piel espléndida que vibra. En vano se interponen los convexos mares y los desiertos del planeta; desde esta casa de un remoto puerto de América del Sur, te sigo y sueño, oh tigre de las márgenes del Ganges. Cunde la tarde en mi alma y reflexiono que el tigre vocativo de mi verso es un tigre de símbolos y sombras, una serie de tropos literarios y de memorias de la enciclopedia y no el tigre fatal, la aciaga joya que, bajo el sol o la diversa luna, va cumpliendo en Sumatra o en Bengala su rutina de amor, de ocio y de muerte. Al tigre de los símbolos he opuesto el verdadero, el de caliente sangre, el que diezma la tribu de los búfalos y hoy, 3 de agosto del 59, alarga en la pradera una pausada sombra, pero ya el hecho de nombrarlo y de conjeturar su circunstancia lo hace ficción del arte y no criatura viviente de las que andan por la tierra.
Un tercer tigre buscaremos. Éste será como los otros una forma de mi sueño, un sistema de palabras humanas y no el tigre vertebrado que, más allá de las mitologías, pisa la tierra. Bien lo sé, pero algo me impone esta aventura indefinida, insensata y antigua, y persevero en buscar por el tiempo de la tarde el otro tigre, el que no está en el verso.
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O TUMULTO DAS ESCOLAS
(Emanuel Ferreira)
Sou professor há cerca de 18 anos. Nas escolas por onde passei sempre tive a sorte de encontrar colegas verdadeiramente empenhados, gente que vivia a escola de uma forma espontânea. Na escola, apesar de todas as dificuldades inerentes ao facto de se lidar com crianças e jovens com múltiplas vivências e carências, respirava-se um ambiente sadio. O relacionamento entre os elementos da comunidade escolar acontecia com naturalidade, embora com conflitos próprios desse espaço.
(...) hoje a escola pública portuguesa está em profunda crise. A sala de professores, outrora local de jovialidade, de descontracção e convívio, está transformada num refúgio onde nos recolhemos, quase sempre em silêncio. O medo tomou conta de muitas escolas. Medo puro, antigo... daquele que o meu pai falava, antes do 25 de Abril. As escolas (algumas escolas) e as estruturas do Ministério da Educação rodearam-se de "cães de fila", daqueles prontos a denunciar os próprios colegas, alguns de há décadas. Solidariedade é palavra vã.
Esta revolta que nos atira para a rua, mesmo aqueles que nunca lá andaram, é profunda. A avaliação é uma falsa questão. A divisão da carreira em duas categorias criou feridas fundas e dolorosas nas escolas. As injustiças cometidas no acesso a titular foram flagrantes e provocaram humilhações brutais. Hoje temos um conjunto de professores titulares, professores como nós, que sempre fizeram o que nós fazíamos, que conhecemos perfeitamente e a quem ninguém lhes reconhece especiais competências na avaliação dos seus pares. Os próprios colegas titulares (com excepção dos tais "cães de fila", prontinhos para afiar os dentes nos colegas) sentem que é uma imoralidade o que se lhes pede e recusam esse papel. Uma boa parte dos que desceram à rua eram titulares! Somos professores e não inspectores.
(...) a política desta equipa ministerial é um rotundo fracasso. A desmotivação tomou conta dos docentes como nunca se viu. Colegas que eu aprendi a respeitar e que serviram de modelo quando comecei a trabalhar estão a desistir, a atirar a toalha ao chão. Ficam os que não têm como sair. A essência desta "reforma" assenta na criação, perfeitamente artificial, nunca sentida nas escolas, de uma categoria de professores a quem se paga razoavelmente, para impedir que os restantes (70%) não progridam. É esta a essência da reforma. É isto que nos choca e nos leva para as ruas. A nossa carreira foi a mais duramente atacada por este Governo. A desvalorização da carreira é evidente, provocando desalento e revolta pelas falsas expectativas criadas. Toda a sociedade já percebeu essa desvalorização, daí o aumento de agressões e insultos a professores por parte de alunos e pais. O Governo conseguiu humilhar-nos perante todos e nunca defendeu os seus professores. O Governo deu-nos uma bofetada! Não nos peçam a outra face!
Luís Teixeira
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Tive dificuldade em arranjar um espaço para a sessão de lançamento do livro, quer um espaço cedido gratuitamente, nas bibliotecas municipais, quer um espaço escolar alugado. Esta é, pois, uma história que tem duas partes. Comecemos pela que se refere às autarquias.
Biblioteca Municipal Florbela Espanca, Matosinhos
6 de Outubro – Na Biblioteca informam-me que é possível utilizar o Auditório, uma vez que, para a data prevista para a sessão de lançamento do livro (25 de Outubro), ele se encontra desocupado, assim como para todas as Sextas-Feiras à noite, Sábados e Domingos de todo o mês de Outubro. Preenchi, de imediato, uma «ficha de reserva do auditório» e um «termo de responsabilidade» pela utilização da sala.
No dia seguinte entrego, na CMM, o requerimento, entretanto exigido. Refiro o nome do livro e junto uma cópia da capa e da contracapa. Os dias passam e não há meio de a resposta chegar. O que parecia simples e adquirido torna-se cada vez mais difícil. Várias vezes me dirijo à CMM e à Biblioteca. O vereador tem o requerimento com ele, mas não dá andamento ao assunto. Finalmente, depois de muito pressionar obtenho resposta: foi marcada, por ordem superior, uma actividade exactamente para o dia e hora que eu pretendia, o que, atendendo ao mapa de disponibilidades do auditório, não deixa de ser uma estranha, mas possível coincidência.
Verbalmente é-me sugerido que apresente o livro para ser examinado. Penso, entristecido, nos exames prévios da ditadura fascista. Repudio a afronta. Percebo que nunca terei autorização para realizar a apresentação do livro naquele espaço de cultura que deveria ser de todos. No entanto, entrego, imediatamente, logo nesse mesmo dia, 17 de Outubro, novo requerimento pedindo a cedência da sala para dia 24, 25 ou 26, durante os períodos em que o Auditório permanece desocupado. Junto fotocópia do índice. Por ele se percebe que teço críticas ao governo; há mesmo um capítulo intitulado «O Autoritarismo Governamental».
A resposta nunca chegou: o Auditório permaneceu inutilizado, vazio e silencioso todas as noites de Sexta-Feira, todos os Sábados e Domingos desse mês de Outubro, excepto das 14:00 às 17:30 do dia 25, em que se realizou uma acção de formação “Como Conservar os Nossos Têxteis”. Desocupados permanecem, igualmente, outros espaços alternativos geridos pela Câmara.
Poderá tudo isto ser apenas insensibilidade e incompreensão para com um acto de cultura que um lançamento de um livro inegavelmente constitui? Mas essa falta de sensibilidade e de compreensão é do responsável camarário pela Cultura. Poderá essa atitude ter outro nome que não seja incompetência?
Nem por acaso: na revista da CMM esse mesmo vereador afirma-se «Desgostoso com o rumo do jornalismo português, onde a ética e a deontologia ficavam cada vez mais guardadas na gaveta». Mais adiante afirma que «transformou o panorama cultural de Matosinhos, apostando na qualidade, no rigor e no respeito pelo público» e que foi vereador da Educação: uma pasta «de que gostei muito». Defende que «tem de haver qualidade e rigor», que «não há nem pode haver cedências à mediocridade», que a «Biblioteca Florbela Espanca é exemplar a nível nacional.» e que «Nós não procuramos fazer nem diferente, nem melhor. Procuramos fazer bem.» (Matosinhos, revista n.º 17, Outubro de 2008, pág. 4-6).
A incompetência não é razão suficiente para explicar o sucedido.
Fica a pairar no ar a atitude antidemocrática e censória que se exerce sobre um livro de que apenas se conhece a capa, a contracapa e o índice. Repare-se: o critério da qualidade do livro, critério legítimo a ter em conta, nem sequer pôde ser praticado. Foi substituído – tudo faz supor – pelo critério da existência de críticas ao XVII Governo, democrático, de maioria absoluta do PS: P de partido; S de socialista; d de democracia. O agente censório é o vereador da Cultura que se assume como paladino da ética e da deontologia!
Cada vez se torna mais evidente que, segundo a visão «democrática» do responsável pela Cultura da CMM, não serei autorizado a utilizar um espaço público camarário porque não apoio o partido a que o vereador pertence.
(...) A 3 de Novembro entrego novo requerimento solicitando esclarecimentos adequados sobre o facto de não ter sido autorizado a utilizar o Auditório da Biblioteca Municipal de Matosinhos quando ele permaneceu desocupado. A história ainda não foi dada por encerrada.
Biblioteca Almeida Garrett (CM do Porto)
O pedido é feito e imediatamente tratado. Não há disponibilidade para a data pretendida. A hipótese de ter havido uma desistência é verificada. Em quinze minutos obtenho resposta. Sou bem atendido, com eficiência e profissionalismo, ou seja, o meu pedido é tratado de forma correcta, o que merece o meu reconhecimento. Explico de outra forma: o profissionalismo e a correcção são tão raros que merecem uma distinção elogiosa. O que deveria ser banal, sem direito a nenhuma referência, por ser o tratamento esperado é, cada vez mais, uma raridade. O tratamento incorrecto, que assume formas de maior ou menor corrupção é tão vulgarizado que se torna a regra geral. Não é uma clara e perigosa inversão de valores que mostra, à evidência, a podridão contaminante que a nossa passividade ou indiferença permitem e de que muitos se alimentam?
Escola Secundária do Padrão da Légua
O Conselho Executivo não autoriza o aluguer das instalações para a sessão de lançamento do livro. É claramente afirmado – verbalmente – que a razão da não autorização está no título e no que se afirma na contracapa do livro.
A 22 de Outubro entrego dois requerimentos pedindo para colocar, na Sala dos Professores, um cartaz e alguns pequenos folhetos anunciando a sessão de lançamento do livro, entretanto marcada para o dia 25, na Escola Secundária Augusto Gomes, em Matosinhos. Cinicamente, as autorizações chegaram, por correio electrónico, no dia 27. Requeiro autorização para afixar essas mensagens, juntamente com o cartaz e os folhetos. Não obtenho resposta.
Escola Secundária da Senhora da Hora
22 de Outubro: uma professora obtém autorização, de um elemento do Conselho Executivo, para colocar na Sala dos Professores umas pequenas tiras de papel anunciando a sessão de lançamento do livro. Nelas figuram o título e um extracto do que vem na contracapa. Alguns minutos depois o Vice-presidente desse mesmo órgão que tinha autorizado a colocação da informação vai ao encontro da professora dizendo que ela não tinha autorização para colocar «aquilo» na escola, nem sequer para estar naquele espaço e que estava a invadir as instalações. Ordenou que se retirasse, imediatamente.
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver
(Sandra Bernardo)
O amanhecer na ria de Aveiro, hoje. (Angelina Barbosa)
(ana)
Umas cores da tarde em Cinfães... (José Rui Fernandes)
Praia dos Coxos, Ericeira. (Luís de Matos Gonçalves)
Oslo de noite com a sua nova Ópera. (Silvia Reig)
BerlimBauhaus Museum. (Daniel Rego)
Decorações de Natal em Rodeo Drive, Beverly Hills, Califórnia - considerada a rua de compras de luxo mais sofisticada do mundo. Os candelabros são reais, são da Baccarat, em cristal, e estão a ser leiloados para, depois das Festas, irem parar a casas de particulares. Parte da receita reverte a favor da UNICEF.