ABRUPTO

25.10.08


OUVIR A NOITE

Voltaram os grilos.

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OUVINDO

Cecilia Bartoli a cantar Parto, parto de La Clemenza di Tito de Mozart .
Parto, ma tu ben mio,
Meco ritorna in pace;
Saro qual piu ti piace;
Quel che vorrai fato.

Guardami, e tutto oblio,
E a vendicarti io volo;
A questo sguardo dolo
Da me si pensera.
Ah qual poter, oh Dei!
Donaste alla belta.
Teresa Berganza a cantar Che faro senza Euridice de Gluck.

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NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE




NESTES DIAS, COISAS RARAS E VARIADAS


ERRATA COM BLAKE E MORTIMER + comentários.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES. UMA ALDRABICE



Notícia da LUSA, 2008.10.15 "Sócrates chega atrasado ao Conselho Europeu por ter viajado em avião comercial."

O Primeiro Ministro, José Sócrates, chegou hoje com cerca de uma hora de atraso à Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Europeia, em Bruxelas, tendo explicado a ocorrência pelo facto de ter utilizado um "voo comercial" para se deslocar à capital belga, e não um avião estatal."

Esta notícia foi divulgada por todos os media (é para isso que serve a LUSA). José Sócrates fez questão de aparecer como o político diligente e poupado que viaja em voos "regulares" não se esbanjando em aviões Falcon como os seus antecessores.

Desta forma José Sócrates e a LUSA transferiram o ónus do atraso para outreM (para o voo regular não se sabe de que companhia) e transformou um facto negativo (chegou atrasado) num facto positivo (graças ao incómodo suportado poupou dinheiro ao país).

Habilidades!

Poucos media divulgaram o resto dos factos: O voo chegou à hora marcada e o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que seguia no mesmo avião, chegou a horas ao encontro.

São estas as verdades a que o Governo nos habituou. É com estas manipulações que se ganham os votos dos eleitores que ainda querem acreditar nos partidos políticos.

(Carlos Brito Saraiva)

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INTERIORES / EXTERIORES: CORES DESTES DIAS

Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver





(António Cabral)



(Carlos Oliveira)



Túnel do Rio Linha férrea junto ao Douro. (Sérgio Martins)



S. Jorge – Santana – Ilha da Madeira. (Telmo Martins)



Festival Hip-Hop Casa da Música. (Gustavo Leal)



Tempestade em Lisboa. (Luís Pereira)

Baía de Luanda, 18-10-2008. (Paulo Sousa)


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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES. A CRISE



Há alguns dias atrás, numa das edições do Frente a Frente da Sic Notícias, o ex-Presidente da CIP Ferraz da Costa afirmou que a administração Clinton tinha criado o mercado de alto risco imobiliário conhecido por subprime. Isto despertou a minha atenção. Perante a demonização do mercado e propaganda demagógica feita pela esquerda numa atitude de desonestidade mental ou ignorância, resolvi fazer uma pequena pesquisa. De facto o mercado estava regulado, não pelo Estado, mas pela eficiência económica. As pressões da administração Clinton sobre a empresa pública Fannie Mae desregularam o mercado de crédito imobiliário ao abrirem este a minorias étnicas (negros e hispânicos) que numa conjuntura económica de juros baixos e excedente orçamental seriam sustentáveis, mas que há mínima alteração da conjuntura seriam dificeis de cumprir. Devido à quota de mercado que esta empresa tem, è claro que as empresas que não seguissem estas condições de acesso ao mercado sairiam dele. Estava armada a bomba-relógio. Com o brutal aumento do preço do petróleo e consequente importação de inflação, os juros subiram como não podia deixar de ser. A bomba demorou nove anos a explodir. É perigoso fazer ideologia com a economia.

P.S. Junto a notícia publicada no New York Times.


(Rui Nogueira Padinha)

Fannie Mae Eases Credit To Aid Mortgage Lending

By STEVEN A. HOLMES

Published: September 30, 1999

In a move that could help increase home ownership rates among minorities and low-income consumers, the Fannie Mae Corporation is easing the credit requirements on loans that it will purchase from banks and other lenders.

The action, which will begin as a pilot program involving 24 banks in 15 markets -- including the New York metropolitan region -- will encourage those banks to extend home mortgages to individuals whose credit is generally not good enough to qualify for conventional loans. Fannie Mae officials say they hope to make it a nationwide program by next spring.

Fannie Mae, the nation's biggest underwriter of home mortgages, has been under increasing pressure from the Clinton Administration to expand mortgage loans among low and moderate income people and felt pressure from stock holders to maintain its phenomenal growth in profits.

In addition, banks, thrift institutions and mortgage companies have been pressing Fannie Mae to help them make more loans to so-called subprime borrowers. These borrowers whose incomes, credit ratings and savings are not good enough to qualify for conventional loans, can only get loans from finance companies that charge much higher interest rates -- anywhere from three to four percentage points higher than conventional loans.

''Fannie Mae has expanded home ownership for millions of families in the 1990's by reducing down payment requirements,'' said Franklin D. Raines, Fannie Mae's chairman and chief executive officer. ''Yet there remain too many borrowers whose credit is just a notch below what our underwriting has required who have been relegated to paying significantly higher mortgage rates in the so-called subprime market.''

Demographic information on these borrowers is sketchy. But at least one study indicates that 18 percent of the loans in the subprime market went to black borrowers, compared to 5 per cent of loans in the conventional loan market.

In moving, even tentatively, into this new area of lending, Fannie Mae is taking on significantly more risk, which may not pose any difficulties during flush economic times. But the government-subsidized corporation may run into trouble in an economic downturn, prompting a government rescue similar to that of the savings and loan industry in the 1980's.

''From the perspective of many people, including me, this is another thrift industry growing up around us,'' said Peter Wallison a resident fellow at the American Enterprise Institute. ''If they fail, the government will have to step up and bail them out the way it stepped up and bailed out the thrift industry.''

Under Fannie Mae's pilot program, consumers who qualify can secure a mortgage with an interest rate one percentage point above that of a conventional, 30-year fixed rate mortgage of less than $240,000 -- a rate that currently averages about 7.76 per cent. If the borrower makes his or her monthly payments on time for two years, the one percentage point premium is dropped.

Fannie Mae, the nation's biggest underwriter of home mortgages, does not lend money directly to consumers. Instead, it purchases loans that banks make on what is called the secondary market. By expanding the type of loans that it will buy, Fannie Mae is hoping to spur banks to make more loans to people with less-than-stellar credit ratings.

Fannie Mae officials stress that the new mortgages will be extended to all potential borrowers who can qualify for a mortgage. But they add that the move is intended in part to increase the number of minority and low income home owners who tend to have worse credit ratings than non-Hispanic whites.

Home ownership has, in fact, exploded among minorities during the economic boom of the 1990's. The number of mortgages extended to Hispanic applicants jumped by 87.2 per cent from 1993 to 1998, according to Harvard University's Joint Center for Housing Studies. During that same period the number of African Americans who got mortgages to buy a home increased by 71.9 per cent and the number of Asian Americans by 46.3 per cent.

In contrast, the number of non-Hispanic whites who received loans for homes increased by 31.2 per cent.

Despite these gains, home ownership rates for minorities continue to lag behind non-Hispanic whites, in part because blacks and Hispanics in particular tend to have on average worse credit ratings.

In July, the Department of Housing and Urban Development proposed that by the year 2001, 50 percent of Fannie Mae's and Freddie Mac's portfolio be made up of loans to low and moderate-income borrowers. Last year, 44 percent of the loans Fannie Mae purchased were from these groups.

The change in policy also comes at the same time that HUD is investigating allegations of racial discrimination in the automated underwriting systems used by Fannie Mae and Freddie Mac to determine the credit-worthiness of credit applicants.

*

Foi apenas ontem que me apercebi de que vivemos um momento histórico.

Interessante porque no fundo, a nossa atitude para com a História enquanto a vivemos é feita de extremos: ou todos os momentos são históricos, ou nenhum deles o é. São raros aqueles em que dizemos "Espera, ISTO é um Momento Histórico". O 11 de Setembro é um desses momentos, em que ficamos de algum modo muito auto-conscientes e com a dúvida "eu acho que devia sentir isto de uma maneira mais forte e adequada e não tenho a certeza de que é isso que se está a passar...", sobretudo quando o momento histórico foi acompanhado da voz do José Rodrigues dos Santos a falar de "avionetas" a bater nas torres.

Outro desses momentos aconteceu-me ontem. E este foi talvez mais forte que o 11 de Setembro porque é daqueles mais calmos, mais obscuros, daqueles momentos cujas implicações nós não estamos certos mas suspeitamos. Falo das declarações de Alan Greenspan na audiência do Congresso. Com a mesma serenidade com que sempre falou , Greenspan admitiu que houve uma "falha". Falha? Falha por incompetência? Falha por esquecimento? Não, Greenspan fala mais de uma falha na Visão do Mundo. "eu pensava que o Mundo funcionava de uma certa forma; enganei-me."

Esta frase tão singela e dita de modo tão sincero e confesso, tem uma força inconcebível. Mas ao mesmo tempo dá-nos vontade dar um tabefe de mão aberta na cara do Sr. Greenspan. Portanto, o mundo não funciona como ele pensava. Como um adolescente de 17 anos que dissesse "eu pensava que bastava pagar um jantar a uma rapariga para levá-la para a cama...Enganei-me."

Se calhar as consequências deste tipo de enganos são ligeiramente mais gravosas, não? Se calhar, poderíamos exigir que certo tipo de pessoas em certo tipo de cargos devessem ter certo tipo de sensibilidade e conhecimento sobre "o Mundo". Mas as coisas são assim, o Presidente da FED não é eleito, é indicado. E este foi indicado por sucessivos presidentes ao longo de 18 anos. E agora, reformado, Greenspan pode dizer apenas que se enganou e fica tudo bem; já nem squer cá está o Milton Friedman para culpar (ele que convenientemente abandonou este mundo pouco depois do Katrina deixando escrita uma última exortação à apropriação selvagem da tragédia alheia).

(Daí também a minha ideia de que seria uma medida global de paz permitir que o mundo inteiro votasse nas eleições americanas, visto que o resultado dessas eleições tem repercussões que se estendem muito para além das fronteiras geográficas).

Mas para falar a ver, não queria escrever apenas sobre Greenspan, queria escrever-lhe a si sobre si, sobre as suas opiniões. Penso que não tenho apanhado todas as coisas que tem escrito sobre a crise, e é verdade que sem TV Cabo perco as suas intervenções televisivas. Mas a não ser que muito me engane, creio que o JPP tem seguido uma linha consistente de pensamento que apoia apesar de tudo a ideia básica do Capitalismo como um sistema que é necessário. Não sendo perfeito, é necessário, e é muito melhor do que qualquer das alternativas propostas historicamente.

Ora eu não quero propriamente discutir esta ideia, mas quero discutir a sua defesa, em face também dos momentos históricos como seja as declarações do Sr. Greenspan. Cono já lhe disse algumas vezes, gostava de ter tido uma formação melhor que tive em certas áreas, particularmente a Filosofia. Não li muito de Aristóteles, não dei muita Lógica sem ser a matemática. Mas do pouco qu eli dos Tópicos, percebo a importância das formas de ver e colocar as coisas. E eu não posso aceitar que a questão da avaliação do Capitalismo seja discutida com base em mudanças de concepçõe fundamentais, isto é, da alternância entre considerarmos que o Capitalismo é um "estado" ou um "processo". Parece-me que discutir os altos e baixos do regime com base na ideia de que "os problemas são apenas confirmação da justeza e capacidade auto-regulatória do sistema" constitui uma maneira não totalmente honesta de pôr as coisas, pois assume o Capitalismo como um processo quase hegeliano de emergência da finalidade última da política e economia.

Discussões à base de processos parecem-me complicadas, e podem levar a uma contra-argumentação estéril: não será possível dizer que os últimos 20 anos foram apenas uma "febre" que em última análise prova a superioridade do sistema comunista? Não será o Capitalismo apenas um mal necessário, um teste supremo que faz emergir uma forma "melhor", mais forte, mais justa? Não será a auto-regulação do sistema capitalista que funciona à base de crises, apenas uma crise em si mesma, sendo por outro lado as "crises" a mostra da justeza natural do sistema comunista?

Eu coloco estes argumentos apenas de um ponto de vista retórico, repare que não estou a submeter uma posição pessoal minha sobre a força de qualquer um dos sistemas. Mas simplesmente enerva-me que a discussão seja posta nestes moldes.

Eu compreendo que o JPP ache sobretudo e antes de mais que o socialismo levado às últimas consequências seja tão mau como qualquer fundamentalismo de direita; e compreendo que esse medo seja exacerbado quando falamos desses extremismos em povos que pelas suas características mantêm uma vocação imperialista, e uma cultura chauvinista. Mas não consigo aceitar que isso implique uma necessidade de defender os benefícios do sistema apenas a partir de uma perspectiva processual, orgânica. Não há ética na fisiologia.

Não sei se me fiz compreender ou não, espero que sim.

(PL)

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24.10.08


EARLY MORNING BLOGS

1421 -  silence...

silence

.is
a
looking

bird:the

turn
ing;edge,of
life

(inquiry before snow

(e.e. cummings)

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23.10.08


VÍRUS

Isto vai.. mal para os aristocratas.

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EARLY MORNING BLOGS

1420 -  A Fence

Now the stone house on the lake front is finished and the
workmen are beginning the fence.
The palings are made of iron bars with steel points that
can stab the life out of any man who falls on them.
As a fence, it is a masterpiece, and will shut off the rabble
and all vagabonds and hungry men and all wandering
children looking for a place to play.
Passing through the bars and over the steel points will go
nothing except Death and the Rain and To-morrow.

(Carl Sandburg)

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22.10.08


LIVROS DE QUATRO GERAÇÕES (78)

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LIVROS DE QUATRO GERAÇÕES (77)

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O célebre elenco das casas reais e ducais europeias.

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VÍRUS

O fado no Porto: Neca Rafael.

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NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE





NESTES DIAS, COISAS RARAS E VARIADAS
 
 
 

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21.10.08


VÍRUS

O que não se deve dizer.

*
Na sequência do incidente diplomático protagonizado pelo General Charles de Gaulle, em 24 de Julho de 1967, os movimentos separatistas no Québec ganharam ainda mais força. Nesse mesmo ano, René Lévesque, deixou o “Parti Libéral” para fundar o “Mouvement Souveraineté-Association”, que se transformou um ano mais tarde no “Parti Québécois”, que defendia a independência do Québec. Em 1970, nas primeiras eleições que disputou, o PQ conquistou 23,06 % dos votos.
O PQ conquistou a sua primeira eleição, apenas 6 anos mais tarde, nas eleições provinciais de 15 de Novembro de 1976, e René Lévesque tornou-se Primeiro-Ministro do Québec, com um projecto político independentista.


Estátua de René Lévesque, junto ao Parlamento, na Ville de Québec.


Resquícios do movimento revolucionário marxista “Front de libération du Québec”, fundado no Québec no início dos anos 60. Protagonizaram várias acções terroristas durante quase uma década, e em 1970, protagonizaram um dos incidentes mais graves da história recente do Canadá, ao raptarem um diplomata britânico e um Ministro do governo do Québec. Pierre Laporte, Ministro do Trabalho, foi assassinado pelo movimento terrorista em 17 de Outubro de 1970. Na sequência dessa acção, o Primeiro-Ministro do Canadá, Pierre Trudeau, declarou o estado de guerra e colocou o exército canadiano nas ruas de Montreal. Questionado por um jornalista da CBC até onde era capaz de ir para destruir a FLQ, ficou célebre a resposta de Trudeau: “Just watch me!”

(MBC)

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EARLY MORNING BLOGS
1419 - What Was Lost 

I sing what was lost and dread what was won,
I walk in a battle fought over again,
My king a lost king, and lost soldiers my men;
Feet to the Rising and Setting may run,
They always beat on the same small stone. 

(William Butler Yeats)

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20.10.08


VÍRUS

Receita para combater a crise.

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ERRATA COM BLAKE E MORTIMER

George Steiner conta em Errata como, muito novo, o pai lhe lia os poemas homéricos em grego e o obrigava a soletrar as palavras, comentava as traduções, e o intrigava com as histórias da Ilíada e da Odisseia como se fossem adivinhas de que ele tinha de encontrar a solução lendo os livros. Em grego. Hoje já não há infâncias destas e todo o mundo destas infâncias, na Mitteleuropa, desapareceu com Hitler, e com o declínio das humanidades. Mas todo o livro autobiográfico de Steiner ecoa estas primeiras leituras infantis e juvenis, que marcam a vida toda.
Quando me pergunto que livros me fizeram, nem sempre aparecem logo os "10 livros da minha vida" com que se costuma responder aos periódicos inquéritos jornalísticos que se fazem ciclicamente, quando nos jornais e revistas se esquece a memória das listas anteriores, ou a imaginação falha como falha muitas vezes. E lá vem a Bíblia, Homero (quase sempre a Odisseia e poucas vezes a Ilíada), Camões, Rilke, Nietzsche, Dante, Mann e outros. Sem dúvida, o cânone.


Mas foi mesmo assim? Foi e não foi. O meu primeiro contacto com Xenofonte foi uma banda desenhada num livro de Português do ensino técnico, então tido como um ensino menor. Talvez por isso os puristas dos livros únicos permitiam uma banda desenhada em vez de excertos eruditos da Anábase que deviam ir para os liceus, porque era para os "de baixo", que queriam ser serralheiros, montadores electricistas ou mecânicos de automóveis. Mas aquele Talassa ficou sempre. O meu primeiro e único contacto, até hoje, com o Robinson Crusoé foi numa edição para crianças que também tinha banda desenhada do outro lado das páginas do texto e uma capa gritante de cores. Ou seja, lia-se a história e não o texto, lia-se pela história e não pela qualidade da ficção literária. Razão tinham João de Barros e Adolfo Simões Müller.

Verdade seja que havia excepções: li a Alice, as duas, na edição certa, sem adaptações, uma tradução com as gravuras de John Tenniel, sem as quais a imaginação teria sempre muita dificuldade em "ver" a Alice e as suas fantásticas personagens. Quem imaginaria alguma vez o Humpty Dumpty, o chapeleiro, o lagarto a fumar narguilé (foi aqui que aprendi a palavra) e o fabuloso peru com os papelotes nas pernas a fugir pela mesa fora, que, esse sim, nunca mais me saiu da cabeça, apesar de ele próprio não ter cabeça. Os meus contos de Andersen, as terríveis histórias da Sereiazinha, dos Sapatos Vermelhos, do Soldadinho de Chumbo também vieram numa edição decente, mas, as circunstâncias sendo como são, já as minhas Viagens de Gulliver foram lidas numa velha edição do princípio do século XIX, que tinha a vantagem de ter mais do que os reinos de Lilliput e Brobdingnag, mas as menos lidas e menos infantilizáveis viagens a Laputa, Balnibarbi, Glubbdubdrib, Luggnagg e ao Japão. Claro que me interessaram menos e muita coisa não percebia, mas ficaram lá num canto e voltaram com Phobos e Deimos, com a astronomia e a utopia.


Eu sou capaz de fazer a genealogia do que veio daqui: o fascínio pelo Robinson explica o da Ilha Misteriosa de Verne e pelo Rosny Aînê da Morte da Terra que vinha na Colecção Argonauta. Sempre mais ou menos a mesma história: um homem sozinho num sítio desconhecido, ou num mundo a desaparecer, sobrevivendo pela habilidade ou pela ciência. Ou perecendo como na Morte da Terra com um último olhar sobre uma terra devastada e árida. Esse último olhar também comunicava com outros. Com os mercenários gregos, perdidos longe da sua pátria, no relato de Xenofonte que me fizeram mais tarde perceber muito da Peregrinação e dessa fabulosa e esquecida série televisiva alemã Heimat, de Edgar Reitz.


O Gulliver, o Robinson, a Alice, mais o interesse pelo hipnotismo na Estranha História do Senhor Valdemar, o medo puro nas histórias de Egar Allan Poe, um livro de Lovecraft que nunca acabei de ler porque me desapareceu, de ainda mais puro medo, todo o Júlio Verne, mais a Colecção Argonauta, por aí adiante, faziam um contínuo que encontrava um cimento comum numa série de histórias de banda desenhada: as aventuras de Blake e Mortimer de Edgar P. Jacobs que o Público está agora a republicar. Exactamente, na minha Errata, tenho a certeza de que foram aquelas histórias as que entraram bem dentro da cabeça, a ferro em brasa, numa altura em que as crianças ficam adolescentes e os adolescentes se preparam para ficar adolescentes petrificados, ou seja, adultos imperfeitos por culpa dos livros.


Nesses anos, a banda desenhada ainda era história aos quadradinhos e não se lia em álbuns, uma inovação muito tardia. Lia-se nas revistas, da série mítica que faz a biografia de muita gente, em particular o Mundo de Aventuras e o Cavaleiro Andante, mais tarde o Tintim. O que significava que, para o verdadeiro amador, cada número era uma alegria e um sofrimento. Alegria porque havia mais uma página para ler - sim, apenas uma página por semana, os ritmos eram outros -, sofrimento porque se ficava ansioso à espera do que iria acontecer depois. Outra coisa que também era diferente era que as histórias não eram de "autor", mas das suas personagens. O nome do autor vinha muitas vezes escondido no título e ninguém o fixava, o que importava era que se tratava de Blake, Mortimer e de Olrik e do mundo ímpar em que se desenrolavam as suas aventuras.

Como as histórias se liam à medida que as revistas (em particular, no meu caso, o Cavaleiro Andante) as publicavam, nem todas as aventuras de Blake e Mortimer tiveram para mim a mesma importância. Não se andava para trás e para a frente, lia-se o que saía na altura, não se conhecia o que estava antes, que não era de fácil acesso. Por exemplo, nunca li na altura o início da Marca Amarela, porque a apanhei a meio, e nem sequer soube, a não ser muitos anos depois, do Segredo do Espadão. Para mim, eram três histórias as fundamentais: o Mistério da Grande Pirâmide, o Segredo da Atlântida e a Armadilha Diabólica. Os seus temas eram semelhantes na mistura de "mistério" com viagens no tempo, ou viajando literalmente no tempo (como na história de H. G. Wells que para mim "era" o filme com o Rod Taylor), ou encontrando uma parte esquecida ou desaparecida do passado no presente, ou dentro da Grande Pirâmide ou debaixo das furnas dos Açores. Foi a Atlântida de ficção científica que me levou, muitos anos depois, a interessar-me por esse império de má fama, o do "sexo dos anjos", o Império Bizantino. Tudo o que li sobre Constantinopla, Bizâncio, o meu gosto por Istambul veio do símbolo do tridente da Atlântida açoriana e dos títulos bizarros que as personagens se davam como arconte ou basileus.


Na minha sina, não me consigo livrar de me imaginar no mundo de Blake e Mortimer, coisas que um adulto com juízo não faz. De facto, os livros actuam de maneira misteriosa, como Deus. E, alguns, ainda de forma mais misteriosa, mas mais humanamente explicável, como o Diabo. Não faz mal, sem eles seríamos certamente muito piores e menos interessantes. "Boring", diria o professor Mortimer no seu clube; "dull", responderia, monossilábico, o oficial do Exército de Sua Majestade, Blake.

*

(...)
«A Marca Amarela» é a obra-prima da BD franco-belga. Mais ninguém conseguiu chegar perto e duvido que alguma vez tal seja atingido, apesar dos meritórios esforços do Benoit e, especialmente, do Juillard. O problema é que não basta a fidelidade ao traço do mestre Jacobs - há toda uma envolvência e uma atmosfera que jamais se repetiram. Afinal, qual será o apaixonado por esta obra-prima que, estando na capital britânica, não procure "aquela" Londres?
O impacto da "linha clara" na minha formação estético-literária no que à BD diz respeito foi de tal forma que, ainda hoje, tenho dificuldade em digerir algumas obras que, diz a crítica, são "fantásticas", como as saídas da pena de David B., por exemplo.
Portanto, caro Professor Mortimer, desculpe, caro JPP, os meus parabéns pelo seu mergulho num passado que, sem ser o meu, me é muito próximo.
Pedro Brás Marques (aka Olrik)
*
Mais uma vez sem querer abusar da paciência dos leitores do "Abrupto" venho dar-lhe conta de que, ainda que as infâncias sejam diferentes entre gerações, elas apresentam algumas semelhanças.

Entre elas estão as narrativas que nos entram na cabeça. Sendo um filho dos anos 70, não li a "Tintim" nem a "Cavaleiro Andante" como foi o seu caso, mas já comecei a ler as"inovações" dos álbuns do Tintim, Astérix e do fabuloso Blake e Mortimer.

Mas além dos álbuns, também a minha infância foi marcada pelos "comic books" que eram histórias intermináveis de pessoas abençoadas por super poderes mas atormentadas pelas consequências desses poderes, sendo que a que mais me impressionava era a constante interrogação que estes super-heróis faziam das suas vidas. Para um miúdo de 7 ou 8 anos, elas não tinham muito sentido, porque se uma pessoa podia voar ou ver através das paredes não havia necessidade de andar sempre tão taciturno e preocupado com o mundo. Nestes casos, entre muitos, estão o Homem-Aranha e os X-Men. O primeiro, apanhado na confusão que é a adolescência, por grandes poderes que traziam grandes responsabilidades (afinal era apenas um miúdo a tentar sobreviver na selva do "high school" americano) e os segundos que viviam num regime de semi-apartheid implícito que os obrigava a esconder-se do resto da humanidade, ao mesmo tempo que viviam uma espécie de guerra civil entre eles.

Não sendo um conhecedor profundo da Antiguidade Clássica, parece-me que isto está ao melhor nível das tragédias gregas cheias de dramatismo e testes constantes às personagens. E era isso que as fazia tão humanas, apesar do seu carácter excepcional.

Mas como já cresci com a televisão, devo dizer que a narrativa que mais me impressionou e cujos valores partilho foi o "Startrek" de Gene Rodenberry. Em plena Guerra Fria e ainda quando não se via o seu fim, as aventuras da tripulação da Enterprise na busca de novas civilizações, onde entre os terrestres havia americanos, japoneses, russos e escoceses, brancos, pretos e amarelos a comandar a nave em conjunto com um enigmático vulcano de orelhas pontiagudas, deixaram-me sempre uma marca de universalismo e de curiosidade com o mundo.

À série original ainda se seguiram a "Next Generation", "Deep Space Nine" (também conhecida por Deep 'Shit' Nine pelo seu fracasso de audiências), "Voyager" e a última "Enterprise" que passa agora no canal Mov. Em todas elas, sempre a dificuldade de nos relacionarmos uns com os outros,a  necessidade de resolução de conflitos esgotando as vias diplomáticas mas optando firmemente pelo conflito armado e assumindo as consequências, quando tudo o resto falhava, uma eterna curiosidade pelo mundo e a tão humana vontade de auto-melhoramento. Foi esta a narrativa que mais fez a minha infância.

E fê-lo de tal maneira que além de partilhar os seus valores, graças a ela conheci um dos meus melhores amigos. Na noite em que nos conhecemos, ficámos a discutir a série até às 4 da manhã. A discussão continua até hoje e a amizade mais forte do que nunca, e tudo graças a uma série de televisão com uma das mais belas naves vistas no écran.

Possivelmente as infâncias de hoje já não serão marcadas por estas narrativas, o que é uma pena. De qualquer modo fica aqui o voto dos vulcanos para essas infâncias e para todos os leitores do Abrupto: Live long and prosper.

(João Paulo Brito)
*
Considerando o último post, um dia que passe pelo Porto, gostaria de o convidar a visitar uma livraria só de banda desenhada, que porventura não conhece. Chama-se Mundo Fantasma (título de livro) e fica no
velhinho Brasília. Mas não tem Blake e Mortimer... Ou melhor, tem em português por esta altura para lá nos últimos dias de saldos ou em francês, em caixotes. Ambos sobras de recente mudança de instalações e o último vítima da completa queda em desgraça do francês. Assisti a isso nestes 16 anos e a pretexto da mudança, retiramos os últimos 2000 álbuns franceses das prateleiras. Mas tem o Alan Moore e Frank Miller que ainda há pouco vi referidos no Abrupto. E praticamente toda a bd americana de qualidade a ser
publicada hoje, incluindo o incontornável Chris Ware de quem se diz que é o recordista absoluto de prémios (tendo ultrapassado o basebolista Babe Ruth, com mais de 8.000 prémios). E também japonesa, nas edições americanas, excelentes por sinal incluindo extensa obra de Ozamu Tezuka, pai do mangá, o Hergé do Japão.
Tudo isto se deve ao Tintim (a revista). Não tenho idade para as anteriores. Identifiquei-me completamente com a leitura de aventuras que começavam ou ficavam a meio (e mesmo assim eram lidas e relidas diversas vezes) e com o sofrimento de esperar pela semana seguinte. E para tornar curta uma história longa, um belo dia de 1992 praticamente por brincadeira, importei 30 contos de livros da editora Fantagraphics. E desde aí, digamos que tem sido difícil sair do Mundo de Blake e Mortimer.
Pode ver umas fotografias aqui:
http://blog.mundofantasma.com/?p=1640
http://blog.mundofantasma.com/?p=1656

Tendo consciência que 99,98% dos portugueses está convencido que a banda desenhada é para crianças, a realidade é que não temos bd para crianças. Agora é mais dos 17 aos 77 anos. O Tintim faz muita falta
para os 7. É muito difícil existirem infâncias como a de Steiner, quando as crianças já nem bd lêem, que em boa verdade começa a escassear em português.

(José Rui Fernandes)

*

Não pude deixar de contribuir com o meu caso pessoal; cresci com Asterix, Tintim, Lucky Luke, Blake e Mortimer, e para falar a verdade com as edições brasileiras da Disney, aqueles gigantes "Disney Especial" em que cada um tinha um tema, mais as edições do Tio Patinhas em que cada capa era uma espécie de fantasia à volta do personagem.

Com a adolescência vieram os super-heróis, primeiro Marvel e depois DC Comics (há de facto diferenças). É engraçado como a partir daí a guerra franco-belga /anglófonos tornou-se para mim quase uma questão religiosa. Creio que há muita gente que estando virada para um lado, recusa-se simplesmente a experimentar o outro (como dizem que acontece com as guerras PC vs. Mac). Eu confesso que a certa altura achava muita da franco-belga pretensiosa, e não me atraía. Enfrentava orgulhosamente o meu ostracismo, tanto com os personagens super-heróis como com a BD adulta e inteligente que a DC Comics começou a fazer (recomendo The Sandman especialmente).

Tudo isto para dizer que, curiosamente, nos últimos anos, voltou uma espécie de nostalgia aos "comics", nostalgia pelo simples, pelo inocente, pelo puro, pelos super-heróis que fazem o que fazem apenas porque é o correcto e não porque é uma decisão existencial cheia de consequências (e nesta perspectiva pode-se dizer que o filme The Dark Knight vem 20 anos atrasado, tal como Watchmen). Creio que o JPP, se aprecia livros, capas, esse tipo de memorabilia, talvez gostasse de apreciar um artista em particular que tem vindo a ser descrito como aquele que capta a verdadeira "essência mitológica" do super-herói. Chama-se Alex Ross. Eu fico verdadeiramente fascinado com as ilustrações ( e olhe que eu sou do tipo que liga mais a argumentos do que a ilustrações), creio que sobre algumas delas seria possível construir verdadeiros ensaios (sobre o papel da Luz, por exemplo).

Pode encontrar algum material em www.alexrossart.com. Aconselho as obras sobre os personagens "Justice Society of America".

Se gosta também desta ideia da nostalgia em BD, o site www.coverbrowser.com é excelente para encontrar muitas (mesmo MUITAS) capas de comics americanos digitalizadas, desde os anos 30 até a acutalidade.

PL
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Então o príncipe "Eisenherz" ("Prince Valiant"). Possuía somente um volume (prenda para os meus 10 anos de uma tia e já bastante "lido"). As minhas filhas adoraram. Comprei então todos (salvo erro são 12). Ele continua o nosso heroi, inseparável do nosso imaginário e fiel depositário das delícias de leitura na infancia .
(Monika Kietzmann Lopes)

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(...) continua a povoar os meus sonhos A marca amarela, provavelmente, também, a melhor história de BD alguma vez escrita, sem menosprezo para as histórias de Corto Maltese. Mas estas últimas enfermam da mesma doença que Jorge Luis Borges apontou a James Joyce. Joyce, dizia o velho génio argentino, não escrevia para o leitor, escrevia para a História da Literatura. Essa é também a diferença entre Edgar Jacob e Hugo Pratt. Aquele escreveu aventuras a pensar no leitor; este, a pensar na História da BD.

(António Cardoso da Conceição)




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(António Leal)

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EARLY MORNING BLOGS


1418 - A Quiet Poem

When music is far enough away
the eyelid does not often move


and objects are still as lavender
without breath or distant rejoinder.


The cloud is then so subtly dragged
away by the silver flying machine


that the thought of it alone echoes
unbelievably; the sound of the motor falls


like a coin toward the ocean's floor
and the eye does not flicker


as it does when in the loud sun a coin
rises and nicks the near air. Now,


slowly, the heart breathes to music
while the coins lie in wet yellow sand.

(Frank O'Hara)

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© José Pacheco Pereira
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