ABRUPTO

20.8.07


A DEMOCRACIA, A LIBERDADE, A ORDEM PÚBLICA, A INTELIGÊNCIA, O GOVERNO E OS "VERDEUFÉMIOS" 1



Foi penoso ver o MAI na SICN, mas o que disse mostra à evidência que o que aconteceu em Silves está longe de ser esclarecido. Em duas coisas, entre muitas, o MAI ou não sabe ou enganou-nos.

Uma é muito simples: a Ecotopia não é uma iniciativa da Faculdade de Ciência e Tecnologia, e espero que a universidade não se coíba de o esclarecer. Já é a segunda vez hoje que um responsável governativo quer deitar-nos poeira nos olhos com esta falsa informação. Percebe-se bem que o Governo queira esconder o seu papel no financiamento do GAIA (na sequência dos governos anteriores), agora que a coisa correu mal. O Ministro da Agricultura anunciou um comunicado sobre isto, mas deve ser tão difícil de fazer, que ainda não viu a luz do dia. Na verdade, o que importa saber não é se o GAIA ainda não receeu este ano (porque todos os subsídios estão atrasados), mas se o que aconteceu nos últimos onze anos tinha mudado e este ano não iria haver subsídio ao GAIA e porquê.

Segundo, é o mais grave e o mais complicado: as explicações do MAI sobre o comportamento da GNR são contraditórias, confusas e desresponsabilizadoras. Porque, por muita volta que se dê, houve uma violação da ordem pública na presença da GNR. E se foi na sua ausência, então ainda pior. O que o MAI diz é que a GNR acompanhou a manifestação (era legal a manifestação? Não sabemos), e isso vê-se nos filmes da televisão. Vê-se os manifestantes em fila enquadrados pela GNR. Depois de chegarem ao terreno, pelos vistos, a GNR foi-se embora e não viu nada. Só regressou dez minutos depois de ser chamada pelo agricultor, já a plantação estava destruída. Parece absurdo? É absurdo. E ainda mais absurdo é querer-nos convencer que isto foi normal.

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O que se soube na entrevista do MAI: apenas seis pessoas foram identificadas.

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Fiquei a saber que posso ir para a rua embuçado riscar carros, furar pneus e partir vidros, que não sou preso porque é um "crime semi-público" e precisa de queixa do lesado. Parece-me que há aqui alguma coisa que não encaixa e apelo aos leitores que são juristas que me expliquem por que razão não pode haver detenções. É que me pareceu haver uma habilidade do MAI que , quando perguntado sobre por que razão não havia detenções, respondia sempre "para uma detenção se manter era preciso haver queixa..." Ora uma coisa é haver detenções e outras é "manterem-se".

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Tudo isto se resume a um tema a que o José Pacheco Pereira se tem referido vezes sem conta: Uma completa dissociação de realidades entre o jovem pós-urbano e o mundo rural, não menos jovem, mas com a vida bem talhada no rosto já aos 30 anos. Esta diferença entre a 'província' e a 'cidade alternativa' vai-se agudizando, e pode assumir proporções bem mais sérias, com fracturas reais e profundas no país, a uma grande distancia das pseudo causas fracturantes que o povo atura e de certo modo respeita.

É que a agricultura é muito bonita quando vista de um gabinete da faculdade, mas é feita no dia-a-dia, lavrando desde o nascer ao pôr-do-sol. O povo pode parecer inculto, mas sabe bem o que custa cultivar. E parece-me que mais do que tentar ensinar os agricultores a cultivar, os jovens alternativos deviam cultivar neles próprios conceitos como respeito pelo próximo, humildade e ecologia humana.

Este acto pode marcar uma viragem em atitudes. Como se diz no outro mundo, longe dos gabinetes, no mundo equidistante de Davos e Porto Alegre, o zé povinho farta-se. A panela enche até rebentar. Se de facto, como diz a Verde Eufémia, os agricultores não querem perceber os malefícios dos transgénicos, parece-me que nenhuma destas cultas personagens quer perceber que as culturas que levam meses a estarem completas são destruídas num dia com vendavais, secas, e pestes. E pelos vistos, com desobediência civil. Só quem nunca viu o desespero de um agricultor a perder as suas colheitas, é que não pode compreender o mundo rural. E se para evitar vendavais, secas e pestes os transgénicos podem ser uma solução, podem ter a certeza que da próxima vez que os jovens tentarem destruir uma plantação, os agricultores também terão uma solução...

É que lá diz o povo inculto: "quem provoca, leva". E pelos vistos, tem razão... mais uma vez teve a prova de que não é a gnr que o vai defender.

(Daniel Rodrigues, em Genève)

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