ABRUPTO

9.7.06


NUNCA É TARDE PARA APRENDER: MAIS DIAS DO FIM

http://www.westminsterbookshop.co.uk/images/475/1850436673.jpgKrisztián Ungváry, Battle for Budapest, Nova Iorque, I.B. Tauris, 2003

Na extensa lista de batalhas, cercos, atrocidades, dias do fim, da II Guerra, a batalha de Budapeste é ignorada e pouco conhecida. E no entanto, é um caso quase único de um cerco a uma cidade em que a população civil ficou retida (cerca de 800.000 pessoas), num campo de batalha urbano, em que alemães, húngaros (aliados dos alemães), russos, romenos e húngaros (que tinham desertado para o lado soviético e participaram no combate), lutaram com enorme ferocidade. Ocorrida entre os últimos dias de 1944, e os meses de Janeiro e Fevereiro de 1945, pouco antes do fim da guerra, a batalha de Budapeste durou cem dias, num ambiente de fim de tudo, com a cidade formalmente controlada pelas milícias do movimento fascista Cruz de Flechas dirigido por Szálasi, que tinha tomado conta do poder num golpe de estado com apoio alemão, quando Horthy tentou negociar um cessar-fogo com os aliados. Hitler impediu a guarnição alemã de tentar quebrar o cerco quando tal era possível, o que encurralou os seus oficiais e soldados numa luta casa a casa, e os levou a uma última e desesperada tentativa de fuga, através dos esgotos e nos bosques circundantes, que resultou numa chacina. Na cidade, as milícias do Cruz de Flechas faziam execuções sistemáticas de todos os que lhes resistiam, incluindo muitos oficiais do exército regular húngaro, e dedicavam-se à perseguição dos judeus. O destino dos judeus húngaros foi trágico, mas foi também em Budapeste nestes dias que vários diplomatas, incluindo portugueses, fizeram genuínos esforços para salvar muitos membros da comunidade, com algum sucesso.

Quando, depois do fracasso das tentativas de fuga organizadas pelos alemães, a partir do seu reduto final no Castelo de Buda, a cidade caiu nas mãos dos soviéticos, estes executaram um número significativo de militares alemães, incluindo os que se rendiam, e os feridos nos hospitais, num festival de violência que durou vários dias. Todos os testemunhos de sobreviventes, que saíam das caves onde estavam escondidos, descrevem uma cidade silenciosa, aparentemente vazia, com as ruas cheias de cadáveres. O Danúbio, cujos cais eram o local preferido para as execuções dos milicianos do Cruz de Flechas, estava também pontuado de corpos presos no gelo. Era Inverno, tinha sido Natal há pouco tempo e, também há muito pouco tempo, a ópera de Budapeste dera a sua última récita, já com a cidade cercada.

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Raoul Wallemberg foi o representante diplomático da Suécia - país neutral - em Budapeste nos últimos meses da 2.ª Grande Guerra. Na verdade, era apenas parente muito afastado dos grandes industriais e financeiros suecos Wallemberg. De harmonia com instruções do seu Governo, R. Wallenberg desenvolveu um importantíssimo papel na ajuda a inúmeros refugiados judeus e não judeus durante o final do conflito, o que lhe valeu a má-vontade soviética. Moscovo levou muitos anos a reconhecer que o tinha preso sob uma vaga e certamente falsa acusação de espionagem e nunca esclareceu cabalmente qual o destino que lhe dera. Consta que uma das dificuldades dos soviéticos teria que ver com o facto do Exército Vermelho
ter-se apoderado de um avultado fundo oficial em ouro quando assaltou a Embaixada da Suécia em Budapeste e prendeu R. Wallenberg. Era com esse fundo que a Embaixada negociava a libertação e o transporte dos refugiados, na sua maioria mulheres e crianças. Nunca se soube o que aconteceu a esse ouro...

(Francisco F. Machado)

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O leitor «Pinto de Sá» faz referência ao grande diplomata Raoul Wallemberg. Só a título de curiosidade, a irmã desse diplomata, Nina Lagergreen, é mãe de Nane Annan, esposa de Koffi Anann, secretário-geral da ONU. O mundo é pequeno...

(Gabriel Silva)

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De Budapeste ainda guardo a imagem recente (pouco mais de um ano) de edifícios no Castelo de Buda crivados de impactos de balas. Lembro tambem a homenagem no cemitério judaico, em laje rodeada de pedrinhas (que são as flores do culto judaico), a vários que os ajudaram no pavor da 2ª guerra entre os quais está o nome do diplomata português acreditado na altura em Budapeste (o nome escapa-me mas tenho impressão que teria apelido Branquinho).

Curiosamente, na árvore que lhe está ao lado, artificial com folhas de prata oferecidas pelas famílias dos que morreram ou escaparam mas cuja memória pretendem perpetuar, peguei numa folha ao acaso e li o nome que estava escrito: Spielberger. Que o célebre realizador saxonizou anos mais tarde. A História, que se faz da história de cada um, é realmente fascinante.

De Budapeste hoje práticamente não se tem ideia dos vários horrores que por lá correram, e os húngaros, não esquecendo a sua grande História, dão-lhe hoje um ar romanceado, heróico e doce. Das boas recordações que de lá trouxe curiosamente a mais forte não teve a ver com a cidade própriamente dita: ao visitar o museu de Belas Artes deparei-me com um óleo de Gustavo Doré, talvez pouco conhecido como pintor. Representava uma bela inglesa por quem ele certamente se apaixonou. Se há pintura onde se demonstra o seu amor, pintando ao mesmo tempo a impossibilidade de o mostrar, está ali numa parede de esquina da secção de impressionistas do Museu de Budapeste.

(Miguel Geraldes Cardoso)

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(...) como nota às atrocidades que você menciona, duas referências que sempre me impressionaram:

1. Uma das “experiências” que os guardas de ferro faziam nas execuções de judeus junto ao Danúbio, era a de ver quantos se conseguiam matar com uma só bala. Mandavam porem-se em linha os vários membros de uma família, e tentavam que a mesma bala os atravessasse a todos...

2. Um dos diplomatas que mais judeus ajudaram a escapar, foi o sueco Wallemberg. Quando os russos chegaram, porém, ele “desapareceu”, e apesar de por muito tempo a Suécia o ter reclamado, foi só depois de Gorbachov que a Rússia admitiu que o levara para uma prisão no seu território, onde morrera nos anos 50. Ora Wallenberg pertencia a uma família capitalista sueca de origem aristocrática, muito conhecida ainda hoje por ser a principal proprietária da conhecida empresa de material eléctrico pesado ABB...

(Pinto de Sá)

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© José Pacheco Pereira
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