ABRUPTO

1.6.06


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(1 de Junho de 2006)


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As traduções da edição portuguesa do Courrier Internacional são muito más. Um exemplo: o artigo sobre "intelectuais" do Guardian no número 80, onde as "chattering classes" passaram a ser "intelectuais de esquerda", o que, enfim, não deixa de ser verdade, mas é uma enormidade como tradução. Nem era preciso ir ao OED, bastava a Wikipedia.
Ao Abrupto, com pedido de publicação
Chamaram-me a atenção para esta proclamação solene do Abrupto do dia 1 de Junho: «As traduções da edição portuguesa do Courrier Internacional são muito más. Um exemplo: o artigo sobre "intelectuais" do Guardian no número 80, onde as "chattering classes" passaram a ser "intelectuais de esquerda", o que, enfim, não deixa de ser verdade, mas é uma enormidade como tradução. Nem era preciso ir ao OED, bastava a Wikipedia.»
Lamento, mas este «post» também é muito mau.

Em primeiro lugar, não existe uma edição portuguesa do Courrier Internacional: existe o Courrier Internacional, que é a edição portuguesa do Courrier International. Em segundo lugar, o nº 80 do Courrier Internacional ainda não foi publicado. Sê-lo-á lá para Outubro. Supomos que o Abrupto se refere a um artigo do jornal The Guardian publicado no nº 60.

O que é que isto interessa para o caso, perguntará o leitor? Interessa muito. É que um pouco mais de rigor não ficaria mal a quem exige tanto rigor dos outros. Sobretudo quando se permite uma acusação global e um juízo lapidar a partir de um único exemplo - e mesmo esse bastante pífio.

Se o Abrupto queria criticar o Courrier podia tê-lo feito sem fingir que o analisava. Declara, taxativo : «As traduções são muito más». E porquê? Só porque «chattering classes» aparece traduzido por «intelectuais de esquerda». Diz o Abrupto que, «enfim, não deixa de ser verdade», mas é uma «enormidade como tradução». Ora, se «não deixa de ser verdade», porque diabo será uma enormidade? Estaria melhor «classes palradoras»? Por sinal, a edição francesa traduziu «chattering classes» por - repare-se na enormidade! - «intellos de gauche». São mesmo broncos. Nem era preciso irem ao OED, bastava a Wikipedia.

Não menos revelador é o facto de o Abrupto denunciar uma enormidade e não saber corrigi-la. Se tivesse uma tradução melhor para «chattering classes» no contexto em que a expressão aparece – fala-se dos «epítetos um pouco pejorativos ou trocistas» geralmente aplicados aos intelectuais no «inglês falado» - decerto que a teria dado. Não deu. Remete, generoso e paternalista, para o OED ou para a Wikipedia, onde os ignorantes que traduzem artigos para o Courrier podiam ter-se documentado. Curioso: o que se pretende é uma expressão em português para «chattering classes»; pois o Abrupto recomenda dois «sites» ... em inglês. Mesmo assim, vejamos o que diz um deles, precisamente aquele que o Abrupto prefere (o OED): «Chattering classes: members of the educated metropolitan middle class, esp. those in academic, artistic, or media circles, considered as a social group freely given to the articulate, self-assured expression of (esp.liberal) opinions about society, culture, and current events». Além do já referido contexto em que a expressão aparece, as conotações políticas de «liberal» no inglês corrente autorizam perfeitamente o recurso à expressão usada. E ainda que estivéssemos perante um erro crasso, isso não legitimaria a proclamação de que as traduções do Courrier – todas, portanto, ou a sua esmagadora maioria - «são muito más».

Os nossos leitores regulares sabem que, neste jornal, apreciamos as críticas justas e estamos sempre prontos a reconhecer os erros - cometemos muitos, infelizmente - , dando voz a quem os aponta. Temos, com certeza, traduções melhores e piores. Mas não podemos aceitar a crítica de alguém que assume a supina pose de grande educador para deitar lama sobre o título de um jornal a partir de um único exemplo e sendo o erro que aponta mais que duvidoso. Daí que o «post» em causa não seja apenas mau: é também mal intencionado.

Fernando Madrinha, Director do Courrier Internacional
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Outro aspecto interessante do noticiário de Timor é o facto de os jornalistas não saberem onde o incluir, se no "Nacional" se no "Internacional" (ou no "Mundo"), e acabar por ir para secções de "Destaque" híbridas, ou para um limbo sem secção. Os braços da mentalidade colonial são longos, à esquerda como procura da revolução pura, à direita como nostalgia do império.

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Pergunta certeira de Ruben de Carvalho no Diário de Notícias sobre Timor visto por cá:
"Há, relativamente à situação de Timor, uma surpreendente parcimónia verbal: qual a razão por que se não fala pura e simplesmente de tentativa de golpe de Estado? O surpreendente desta significativa utilização é em poucas circunstâncias se reunir com tão transparente evidência aquilo que caracteriza uma acção política que mereceu vastíssima literatura, que inclui mesmo o manual técnico que poderia capítulo a capítulo ser compaginado com os acontecimentos de Díli."

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© José Pacheco Pereira
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