ABRUPTO

20.11.04


BIBLIOFILIA



Duas "novelas" publicadas por uma editora operária, ligada aos sindicalistas da Batalha. Manuel Ribeiro foi um dos primeiros comunistas portugueses, antes de se converter aos cristianismo. Mais mundo do passado morto.

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ANTOLOGIA DA PEDRA (3ª série)

1. JARDIM KARESANSUI



2. LITTLE STONE

How happy is the little Stone
That rambles in the Road alone,
And doesn't care about Careers
And Exigencies never fears --
Whose Coat of elemental Brown
A passing Universe put on,
And independent as the Sun
Associates or glows alone,
Fulfilling absolute Decree
In casual simplicity --


(Emily Dickinson)

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OUVINDO



O Concerto para Piano nº 2 de Chostakovitch interpretado por Bernstein, com alguma surpresa pelo lirismo da peça. Não o recordava assim. Uma coisa é certa: só um russo o podia ter escrito. Porquê? Sei lá. Sei que sei.



Um muito jovem Schumann, as Variações Abegg, um Opus 1, que parece que voa e se entre-voa (a palavra não existe mas serve) nas mãos de Lang Lang no DVD do concerto no Carnegie Hall.

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ANTOLOGIA DA PEDRA (2ª série)

1. ROCHAS



da ilha de Achill, na Irlanda. Aqui Graham Greene esteve por várias vezes, uma das quais com Catherine Walston, e na ilha trabalhou no The Heart of the Matter. Greene chegou a pensar casar com Catherine, deixar de escrever e dedicar-se a gerir um pequeno hotel. Aqui está uma ilha poderosa.

2.PIEDRITAS

Piedritas en la Ventana

De vez en cuando la alegria
tira piedritas contra mi ventana
quiere avisarme que esta ahi
esperando pero me siento calmo
casi diría ecuanime voy a guardar
la angustia en un escondite
y luego a tenderme la cara al techo
que es una posicion gallarda y comoda
para filtrar noticias y creerlas quien
sabe donde quedan mis proximas huellas
ni cuando mi historia va a ser computada
quien sabe que consejos voy a inventar
aun y que atajo hallare para no seguirlos
esta bien no jugare al desahucio no
tatuare el recuerdo con olvidos mucho
queda por decir y callar y tambien
quedan uvas para llenar la boca esta
bien me doy por persuadido que la alegria
no tire mas piedras abrire la ventana.


(Mario Benedetti)

3. SAL



4.FUCKING A ROCK

Unnatural Selections: A Meditation upon Witnessing a Bullfrog Fucking a Rock


Amalgam of electric jelly,
constellated neural knots
in the briny binary soup,
as surely as stimulus prods response
brains are made to choose.
And through a major error in pattern recognition
or a significant cognitive fault,
the bullfrogs brain has selected
a two-pound rock
as the object of his rampant affection,
a rock (to my admittedly mammalian eye)
that neither resembles
nor even vaguely suggests
the female of his species.

He does seem to be enjoying himself
in a blunted sort of way,
but since the rock so obviously remains unmoved
one suspects it's not the blending of sweet oblivions
that fuels his persistence,
but a serious kink in a feedback loop--
or perhaps just kinkiness in general.
The less compassionate might even call him
the quintessentially insensitive male.

Assuming a pan-species gender bond
and a common fret,
I advise my amphibious pal,
"Hey, I don't think she's playing hard to get.
That's the literal case you're up against, Jack--
true story, buddy; stone fact.
And I'd be fraternally remiss if I didn't share
my deep and eminently reasonable doubt
that she'll be worn down
however long and spectacular the ardor."

Ignoring my counsel
as completely as he has my presence,
the bullfrog continues his fruitless assault
with that brain-locked commitment to folly
which invariably accompanies
dumb, bug-eyed lust.

But, in fairness,
whose brain hasn't shorted out in a slosh of hormones
or, igniting like a shattered jug of gas,
fireballed into a howling maelstrom
where a rock indeed might seem a port?
One can only conclude
that such impelling concupiscence
serves as a species' life-insurance,
sort of a procreative override
of any decision requiring thought,
thought being notoriously prey to thinking,
and the more one thinks about thinking
the thinkier it gets.
Therefore, though the brain is made to choose,
its very existence ultimately depends
on the generative supremacy of brainless desire--
for with all respect to Monsieur Descartes
you am before you can think you are.
Dirt-drive compulsions riding powerful desires
render any choice moot, along with
reason, morality, taste, manners,
and all those other jars of glitter
we pour on the sticky and raw.

The hard truth is we never chose to choose:
not the brains we use to pick
between competing explanations for our sexual mess
nor these hearts we've burdened with our blunders
in the name of love.
Do whatever we decide we will,
the choice isn't free;
we live at the mercy of more pressing needs.

Thus, urges urgently surging,
we mount a few rocks by mistake.
A bit more embarrassing than most of our foolishness, true--
but so what?
The power of the imperative
coupled with the law of averages
virtually guarantees enough will get it right
to make more brains to be made up
about exactly what steps to take
toward what we think we need to do
on this stony journey between delusion and mirage--
when to move, where to hide our dreams--
a journey where we finally learn
freedom is not a choice
a brain is free to choose.

Fortunately, my warty friend,
the soul is built to cruise.


(Jim Dodge)

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APRENDENDO COM O PADRE ANTÓNIO VIEIRA SOBRE O AMOR

Poucos dias antes de Cristo mandar aos apóstolos a pregar pelo mundo, fez esta pergunta a S. Pedro: Simon Joannis, diligis me plus his (Jo. 21,15)? Pedro, amas-me mais que todos estes? Respondeu o santo: Etiam, Domine, tu scis quia amo te: Senhor, bem sabeis vós que vos amo. Ouvida a resposta, torna Cristo a fazer segunda vez a mesma pergunta: Simon Joannis, diligis me plus his? Pedro, amas-me mais que todos estes? Respondeu S. Pedro, com a mesma submissão e encolhimento, que bem sabia o Senhor, que o amava: Tu scis quia amo te. Ouvida a mesma resposta segunda vez, torna Cristo terceira vez a repetir a mesma pergunta, e diz o texto que se entristeceu São Pedro: Contristatus est Petrus, quia dixit ei tertio, amas me? Entristeceu-se Pedro, porque Cristo lhe perguntou a terceira vez se o amava. — E verdadeiramente que a matéria e a instância era muito para dar cuidado. Quando eu li estas palavras a primeira vez, pareceu-me que seria este exame de amor tão repetido, para Cristo mandar a S. Pedro que fosse a Jerusalém, que entrasse pelo palácio de Caifás, e que, no mesmo lugar onde o tinha negado, se desdissesse publicamente, e confessasse a vozes que seu Mestre era o verdadeiro Messias e Filho de Deus verdadeiro, e, que se por isso o quisessem matar e queimar, que se deixasse tirar a vida e fazer em cinza. Para isto cuidava eu que eram estas perguntas e estes exames tão repetidos do amor de S. Pedro. Mas depois que o santo respondeu na mesma forma a terceira vez, que amava, o que o Senhor lhe disse foi: Pasce oves meas (Jo. 21,17): Pois, Pedro, já que me amas tanto, mostra-o em apascentar as minhas ovelhas. -Agora me admiro eu deveras. Pois, para apascentar as ovelhas de Cristo tanto aparato de exames de amor de Deus? Uma vez, se me amas, e outra vez, se me amas, e terceira vez, se me amas? E não só, se me amas, senão, se me amas mais que todos? Sim.

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AR PURO


Levitan

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EARLY MORNING BLOGS 366

Circe's Power


I never turned anyone into a pig.
Some people are pigs; I make them
Look like pigs.

I'm sick of your world
That lets the outside disguise the inside. Your men weren't bad men;
Undisciplined life
Did that to them. As pigs,

Under the care of
Me and my ladies, they
Sweetened right up.

Then I reversed the spell, showing you my goodness
As well as my power. I saw

We could be happy here,
As men and women are
When their needs are simple. In the same breath,

I foresaw your departure,
Your men with my help braving
The crying and pounding sea. You think

A few tears upset me? My friend,
Every sorceress is
A pragmatist at heart; nobody sees essence who can't
Face limitation. If I wanted only to hold you

I could hold you prisoner.


(Louise Glück)

*

Bom dia!

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19.11.04


AFINADOR DE MÁQUINAS

São tão estúpidas as críticas, as insinuações, a gozação a Jerónimo de Sousa por ser (ou por ter sido) operário, como se essa condição fosse um impeditivo ou uma menor valia para o exercício do cargo de dirigente de um dos principais partidos portugueses. O que é interessante é que têm origem ou nos aduladores do demagogo do “para o avô e para o bebé”, ou nos bloquistas que revelam aqui a sua indisfarçável marca de classe social.

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INTENDÊNCIA

Colocados no VERITAS FILIA TEMPORIS vários textos sobre a Europa:

DISCURSO DE ACEITAÇÃO DA CANDIDATURA AO PARLAMENTO EUROPEU (Abril 1999).

OS QUE MANDAM E OS QUE OBEDECEM (Janeiro 2003)

A LAGARTIXA E O JACARÉ 11, sobre a Constituição Europeia.

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ANTOLOGIA DA PEDRA

1. PEDRO


"Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. " (Mateus 16,18)

2.A PEDRA DO MEDO


Phobus

3. A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.


(João Cabral de Melo Neto)

(Continua)

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AR PURO


Levitan

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EARLY MORNING BLOGS 365

Delight's Despair at setting


Delight's Despair at setting
Is that Delight is less
Than the sufficing Longing
That so impoverish.

Enchantment's Perihelion
Mistaken oft has been
For the Authentic orbit
Of its Anterior Sun.


(Emily Dickinson)

*

Bom dia!

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FÚRIA

Ainda bem que não perdi a capacidade de ficar furioso, é a palavra certa, furioso, com determinados actos políticos. A pergunta aprovada por PSD-PP-PS para o referendo europeu é um insulto a todos os portugueses, e mostra, melhor do que nenhuma outra coisa, o desprezo que quem a aprovou tem pelo povo, por Portugal, palavra com que enchem a boca na razão directa do mau trato que dão ao país onde nasceram e a todos nós.

Voltarei ao assunto, mas penso que é importante discutir já se, em vez de uma campanha para votar "não", se devia organizar um movimento cívico de recusa deste falso referendo e de contestação da sua legitimidade.

(Só depois de ter escrito esta nota comecei a ler o que se diz no mesmo sentido em vários blogues. Não são muito importantes aqui as autorias, mas o protesto colectivo e a exigência que esse protesto tenha meios de se expressar nos grandes meios de comunicação social com a mesma relevância dos defensores do "sim" que votaram esta pergunta manipuladora.)

*

A "pergunta" : "Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?"

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18.11.04


ANTES DE PARTIR

Haverá livros novos? Já está o Natal em força? Entre as importações, que nos dão cabo da balança, haverá alguns livrinhos ou só automóveis? As editoras cumprem o seu dever de empresas capitalistas e preparam os seus produtos da "estação" para obter chorudos lucros e nos dar prazer? Vamos ver.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: NUVENS, NUVENS, EM TODO O LADO





Nuvens em Marte, nuvens em Urano. Em Marte, puff...Em Urano, sim Urano, também lá está nos céus, uma tempestade no hemisfério norte, move-se sobre o azul perfeito.

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AR PURO


Levitan, Outono dourado

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EARLY MORNING BLOGS 364

Salome's Dancing-Lesson


She that begs a little boon
(Heel and toe! Heel and toe!)
Little gets- and nothing, soon.
(No, no, no! No, no, no!)
She that calls for costly things
Priceless finds her offerings-
What's impossible to kings?
(Heel and toe! Heel and toe!)

Kings are shaped as other men.
(Step and turn! Step and turn!)
Ask what none may ask again.
(Will you learn? Will you learn?)
Lovers whine, and kisses pall,
Jewels tarnish, kingdoms fall-
Death's the rarest prize of all!
(Step and turn! Step and turn!)

Veils are woven to be dropped.
(One, two, three! One, two, three!)
Aging eyes are slowest stopped.
(Quietly! Quietly!)
She whose body's young and cool
Has no need of dancing-school-
Scratch a king and find a fool!
(One, two, three! One, two, three!)


(Dorothy Parker)

*

Bom dia!

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17.11.04


CHUVA DE FOGO









Estamos em plena chuva de fogo nocturna, os meteoritos conhecidos como “Leónidas”. O céu está propício, com este frio alto e sem nuvens e uma lua turca. Em vez de andarmos o dia todo inebriados(as) pelo sol de Inverno, e a fazermos as asneiras que tanta beleza solar costuma favorecer, vale a pena embrulharmo-nos num cobertor e olhar para cima. Ninguém pode impedir os desejos por cada traço de fogo, mas os meteoritos são muitos, pelo que é necessária alguma prudência.

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ISAAK LEVITAN 2



Levitan, na Estrada Vladimirka, pinta o caminho que os exilados usavam para irem para a Sibéria. A Rússia, o imenso espaço sem limites, um forte sentido de destino, de sentido, o sofrimento inscrito invisivelmente na paisagem, encontra aqui um retrato perfeito. Nada inquieta nesta estrada, está bom tempo, os campos estão verdes, há sinais da presença humana, mas quem nela caminhava sabia que, no fim, o mundo era outro.

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ISAAK LEVITAN

Um dos efeitos catastróficos da Revolução Russa foi isolar a grande cultura russa do século XIX e do princípio do século XX das correntes artísticas da Europa e dos EUA. A pintura sofreu mais do que a literatura, com os pintores russos relegados para o esquecimento de museus estatais mal cuidados, em Moscovo e na província, sem edições de qualidade, e sem a possibilidade de os amadores de arte e outros artistas poderem ver o que estava em museus de tão difícil acesso como os da Arménia, ou do interior siberiano. Muitas colecções privadas foram nacionalizadas ou desmembradas com a fuga para o estrangeiro dos seus donos, ou a venda, em condições péssimas, dos seus bens. Isaak Levitan, nos seus parcos quarenta anos de vida (1860-1900), foi um extraordinário paisagista, interpretando a terra russa na sua vastidão como ninguém, pintando a noite como noite, algo muito difícil de fazer. Como muitos intelectuais russos do seu tempo preocupava-se com a democratização da arte e era um dos “itinerantes” (Peredvizhniky) cujas obras circulavam pelo interior da Rússia, para que um maior número de pessoas as pudessem ver.

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AR PURO


Levitan

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EARLY MORNING BLOGS 363

Story


Tired of a landscape known too well when young:
The deliberate shallow hills, the boring birds
Flying past rocks; tired of remembering
The village children and their naughty words,
He abandoned his small holding and went South,
Recognised at once his wished-for lie
In the inhabitants' attractive mouth,
The church beside the marsh, the hot blue sky.

Settled. And in this mirage lived his dreams,
The friendly bully, saint, or lovely chum
According to his moods. Yet he at times
Would think about his village, and would wonder
If the children and the rocks were still the same.

But he forgot all this as he grew older.


(Philip Larkin)

*

Um pouco tarde, bom dia!

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16.11.04


O ÚLTIMO DOS MOICANOS

Há o último dos moicanos e o último dos cavaquistas, lugar a que me candidato humildemente. Eu apoiarei Cavaco Silva como candidato presidencial, mas o que verdadeiramente eu quero é Cavaco Silva como candidato a Primeiro-ministro de Portugal. O que faz toda a diferença. Assim seja.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS / UM VULCÃO QUE CUMPRE O SEU DEVER



A fotografia, (bom, não é bem uma fotografia, é uma fotografia com cores que nós não vemos), no seu grande esplendor, está aqui.O vulcão é o Monte de S. Helena e a tecnologia usada para ver outros planetas revela no nosso, o vulcão quente dentro do vulcão frio.

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APRENDENDO COM EUGENIO MONTALE SOBRE AS VIAGENS

PRIMA DEL VIAGGIO

Prima del viaggio si scrutano gli orari,
le coincidenze, le soste, le pernottazioni
e o doccia, a un letto o due o addirittura un flat ):
si consultano
le guide Hacchette e quelle dei musei,
si cambiano valute, si dividono
franchi da escudos, rubli da copechi:
prima del viaggio si informa
qualche amico o parente: si controllano
valige e passaporti, si completa
il corredo, si acquista un supplemento
di lamette da barba, eventualmente
si dá un'occhiata al testamento, pura
scaramanzia perché i dasastri aerei
in percentuale sono nulla:
prima
del viaggio si é tranquilli ma si sospetta che
il saggio non si muova e che il piacere
di ritornare costi uno sproposito.
E poi si parte e tutto é O.K. e tutto
é per il meglio e inutile.
E ora che ne sará
del mio viaggio?
Troppo accuratamente l'ho studiato
senza saperne nulla. Un imprevisto
é la sola speranza . Ma mi ddicono
ché una stoltezza dirselo.

(enviado por Sofia P.)


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CRIAR UM NOVO PARTIDO

Pedro Santana Lopes está a fazer ao PSD o que Paulo Portas fez ao CDS: criar dentro de um partido, um novo partido o PP. É mais difícil fazê-lo no PSD, que tem um lastro muito especial e é um partido de grande dimensão, menos plástico a “refundações”, mas, se lhe for dado tempo e oportunidade, é o que ele tentará fazer. Não é aliás um projecto novo, já tem história no muito esquecido projecto de um “partido social-liberal”, pensado por Lopes e anunciado pelo Independente de Portas.

Os sinais estão bem à vista: a tendência para o partido unipessoal, à PP de Portas, com o culto de personalidade assente na “subjectividade” do líder, a interpretação messiânica do destino manifesto, a ênfase na “geração” como mecanismo de exclusão, a identidade nacionalista entre “Portugal” e o líder, a acentuação de um princípio de comando (“eu” foi a palavra mais forte do Congresso), a tentação populista do contacto directo entre o líder e o “povo” através daquilo que, com ignorância do significado das palavras, os fãs chamam, ou “inteligência emocional” ou “carisma”, e o exercício brutal do poder de estado ao serviço não de causas, mas de pessoas. A complacência com alguns políticos pouco honestos que passeavam pela sala, sempre sem mácula partidária, façam o que fizerem, a contrastar com a violência verbal contra os críticos. A perigosa enfatuação da palavra “líder”.

Esta semana escreverei sobre tudo isto, até que a voz me doa. O que é difícil de acontecer.

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A LER

Versi scritti per tenere allegro Montale em Cura di Sé

Ele há pequenas notícias que explicam muita coisa, O Guterres de Gaia no Jaquinzinhos.

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AR PURO


Levitan

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EARLY MORNING BLOGS 362

Soneto (do Parnaso Español)


Enseña a morir antes y que la mayor parte de la muerte es la vida y esta no se siente, y la menor, que es el último suspiro, es la que da pena.

Señor don Juan, pues con la fiebre apenas
se calienta la sangre desmayada,
y por la mucha edad, desabrigada,
tiembla, no pulsa, entre la arteria y venas;

pues que de nieve están las cumbres llenas,
la boca, de los años saqueada,
la vista, enferma, en noche sepultada,
y las potencias, de ejercicio ajenas,

salid a recibir la sepoltura,
acariciad la tumba y monumento;
que morir vivo es última cordura.

La mayor parte de la muerte siento
que se pasa en contentos y locura,
y a la menor se guarda el sentimiento.


(Francisco de Quevedo)

*

Bom dia!

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15.11.04


A PEDRA

No Porto a pedra está omnipresente. Há uma solidez absoluta na cidade, que se faz lembrar a todos pela dureza do granito. A cidade não tem cenários. Se quiséssemos dizer, como naquelas descrições estereotipadas, “vemos daqui o cenário da cidade”, como se fossem trapos pintados, ou estuque, ou cartão, ou umas bandeiras ao vento, é porque não é o Porto. Esta cidade dá à força da gravidade o seu verdadeiro nome.

No centro da cidade, mesmo no centro da cidade, há duas pedreiras eternas que ninguém parece ser capaz de eliminar. É um pouco absurdo que um século de urbanismo e de “mobiliário urbano” não tenham conseguido eliminar essa estranheza de ter pedreiras nos equivalentes portuenses do Rossio e do Terreiro do Paço. Uma, à entrada da Ponte D. Luís, outra, na Trindade, ao lado da Igreja e da Ordem, coberta hoje por um dos edifícios mais feios, sujos e escalavrados que se possa imaginar. Ambas as pedreiras resistem a desaparecer, como se fizessem parte da pele da cidade. Já as vi pintadas, com pichagens, cobertas de tapumes, de toda a maneira. A da Trindade deve recusar o seu edifício como um corpo rejeita um transplante. Mas continuam lá.

Pedra. Passando pela R. de D.Hugo, no absoluto silêncio de uma manhã de domingo. Pedra à volta nas casas, pedras, grandes lajes no chão, apenas perturbadas pelos furos da drenagem. O pequeno jardim quase veneziano, com o seu poço de pedra, da Casa Museu Guerra Junqueiro. O ferro forjado dos portões. A capela ao fundo, quando a rua se bifurca e descem as escadas para o rio e brilha de novo o sol sobre o muro em frente do Paço Episcopal. Não há sol na R. de D. Hugo.

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AR PURO


Levitan

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EARLY MORNING BLOGS 361

Very Like A Whale


One thing that literature would be greatly the better for
Would be a more restricted employment by authors of simile and metaphor.
Authors of all races, be they Greeks, Romans, Teutons or Celts,
Can'ts seem just to say that anything is the thing it is but have
to go out
of their way to say that it is like something else.
What foes it mean when we are told
That the Assyrian came down like a wolf on the fold?
In the first place, George Gordon Byron had had enough experience
To know that it probably wasn't just one Assyrian, it was a lot
of Assyrians.
However, as too many arguments are apt to induce apoplexy and thus
hinder longevity,
We'll let it pass as one Assyrian for the sake of brevity.
Now then, this particular Assyrian, the one whose cohorts were gleaming
in purple and gold,
Just what does the poet mean when he says he came down like a wolf
on
the fold?
In heaven and earth more than is dreamed of in our philosophy there
are
a great many things,
But i don't imagine that among then there is a wolf with purple
and gold
cohorts or purple and gold anythings.
No, no, Lord Byron, before I'll believe that this Assyrian was actually
like a wolf I must have some kind of proof;
Did he run on all fours and did he have a hairy tail and a big red
mouth and
big white teeth and did he say Woof woof?
Frankly I think it very unlikely, and all you were entitled to say,
at the
very most,
Was that the Assyrian cohorts came down like a lot of Assyrian cohorts
about to destroy the Hebrew host.
But that wasn't fancy enough for Lord Byron, oh dear me no, he had
to
invent a lot of figures of speech and then interpolate
them,
With the result that whenever you mention Old Testament soldiers
to
people they say Oh yes, they're the ones that a lot
of wolves dressed
up in gold and purple ate them.
That's the kind of thing that's being done all the time by poets,
from Homer
to Tennyson;
They're always comparing ladies to lilies and veal to venison,
And they always say things like that the snow is a white blanket
after a
winter storm.
Oh it is, is it, all right then, you sleep under a six-inch blanket
of snow and
I'll sleep under a half-inch blanket of unpoetical
blanket material and
we'll see which one keeps warm,
And after that maybe you'll begin to comprehend dimly,
What I mean by too much metaphor and simile.


(Ogden Nash)

*

Bom dia!


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14.11.04


SEMPRE O PORTO

Hoje as gaivotas voltaram ao centro da cidade, porque o Porto não é uma cidade fluvial, mas marítima. A luz brilhante dos dias frios mostrava a enorme dignidade do granito. Havia silêncio.

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© José Pacheco Pereira
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