| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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30.10.04
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: AUTO-RETRATO
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Este é o meu auto-retrato, diz a "Espírito". Cinquenta mil vezes, eu e a minha irmã "Oportunidade", nos fotografamos em Marte, sempre com a nossa face visível para se perceber a cor. A um canto, de passagem, como Hitchcock nos filmes. Mas hoje chega de modéstia, aqui está o rouge, o blush, o rimmel, as nossas cores pelas quais medimos a cor do resto do mundo. Narcisistas? Vaidosas, talvez. Não é só Rembrandt que tem direito a auto-retratos. (A foto representa o círculo de calibragem das imagens, o objecto mais fotografado em Marte.) (url)
APRENDENDO COM JORGE LUIS BORGES
O princípio Dois gregos estão a conversar: talvez Sócrates e Parménides. Convém que nunca saibamos os seus nomes; a história, assim, será mais misteriosa e mais tranquila. O tema do diálogo é abstracto. Aludem por vezes a mitos, de que ambos descrêem. As razões que alegam podem abundar em falácias e não chegam a um fim. Não polemizam. E não querem persuadir nem ser persuadidos, não pensam em ganhar ou em perder. Estão de acordo apenas numa coisa; sabem que a discussão é o não impossível caminho para chegar a uma verdade. Livres do mito e da metáfora, pensam ou tentam pensar. Nunca saberemos os seus nomes. Esta conversa entre dois desconhecidos num lugar da Grécia é o facto capital da História. Esqueceram a oração e a magia. (Jorge Luís Borges - "O princípio". Atlas in Obras completas: 1975-1985. Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, p. 437.Tradução de Fernando Pinto do Amaral, cortesia de António Cardoso da Conceição) (url)
POEIRA DE 30 DE OUTUBRO
Hoje, há cento e cinquenta anos, Eugène Delacroix estava a pintar a "Caça do leão" e vivia dominado pela violência das cores. Jantou com Madame de Caen. A senhora estava resplandecente, no seu vestido de noite, mostrando os ombros e os braços. Eugène anotou no seu diário que teve que “segurar, com mão firme, o coração”. No dia seguinte, Madame trazia as suas roupas normais e o pintor sentiu-se de novo “razoável”, moderado, quase austero. Não deve ter pintado nesse dia. (url) (url)
VER O DIA 2
De novo um arco-íris, outro, um pouco mais atrás, dilui-se nas nuvens. Quando comecei esta frase, existia. Quando a acabei, desapareceu. (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O GATO DA SI-SI
A menina estava a brincar na sala enquanto o pai via umas imagens estranhas. Si-Si olhou para o ecrã e disse: está aqui um gato. A mancha de negro."Aqui", na primeira imagem de radar da superfície do mais fascinante satélite de Saturno, Titã. Ficou conhecida como o "gato da Si-Si". Talvez a primeira vez que se encontra uma superfície líquida fora da terra. Talvez. Talvez o gato da Si-Si se mova. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 348
Helen of Troy Does Countertop Dancing The world is full of women who'd tell me I should be ashamed of myself if they had the chance. Quit dancing. Get some self-respect and a day job. Right. And minimum wage, and varicose veins, just standing in one place for eight hours behind a glass counter bundled up to the neck, instead of naked as a meat sandwich. Selling gloves, or something. Instead of what I do sell. You have to have talent to peddle a thing so nebulous and without material form. Exploited, they'd say. Yes, any way you cut it, but I've a choice of how, and I'll take the money. I do give value. Like preachers, I sell vision, like perfume ads, desire or its facsimile. Like jokes or war, it's all in the timing. I sell men back their worse suspicions: that everything's for sale, and piecemeal. They gaze at me and see a chain-saw murder just before it happens, when thigh, ass, inkblot, crevice, tit, and nipple are still connected. Such hatred leaps in them, my beery worshippers! That, or a bleary hopeless love. Seeing the rows of heads and upturned eyes, imploring but ready to snap at my ankles, I understand floods and earthquakes, and the urge to step on ants. I keep the beat, and dance for them because they can't. The music smells like foxes, crisp as heated metal searing the nostrils or humid as August, hazy and languorous as a looted city the day after, when all the rape's been done already, and the killing, and the survivors wander around looking for garbage to eat, and there's only a bleak exhaustion. Speaking of which, it's the smiling tires me out the most. This, and the pretence that I can't hear them. And I can't, because I'm after all a foreigner to them. The speech here is all warty gutturals, obvious as a slab of ham, but I come from the province of the gods where meanings are lilting and oblique. I don't let on to everyone, but lean close, and I'll whisper: My mother was raped by a holy swan. You believe that? You can take me out to dinner. That's what we tell all the husbands. There sure are a lot of dangerous birds around. Not that anyone here but you would understand. The rest of them would like to watch me and feel nothing. Reduce me to components as in a clock factory or abattoir. Crush out the mystery. Wall me up alive in my own body. They'd like to see through me, but nothing is more opaque than absolute transparency. Look--my feet don't hit the marble! Like breath or a balloon, I'm rising, I hover six inches in the air in my blazing swan-egg of light. You think I'm not a goddess? Try me. This is a torch song. Touch me and you'll burn. (Margaret Atwood) * Bom dia! (url) 29.10.04
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EARLY MORNING BLOGS 347
If You Get There Before I Do Air out the linens, unlatch the shutters on the eastern side, and maybe find that deck of Bicycle cards lost near the sofa. Or maybe walk around and look out the back windows first. I hear the view's magnificent: old silent pines leading down to the lakeside, layer upon layer of magnificent light. Should you be hungry, I'm sorry but there's no Chinese takeout, only a General Store. You passed it coming in, but you probably didn't notice its one weary gas pump along with all those Esso cans from decades ago. If you're somewhat confused, think Vermont, that state where people are folded into the mountains like berries in batter. . . . What I'd like when I get there is a few hundred years to sit around and concentrate on one thing at a time. I'd start with radiators and work my way up to Meister Eckhart, or why do so few people turn their lives around, so many take small steps into what they never do, the first weeks, the first lessons, until they choose something other, beginning and beginning their lives, so never knowing what it's like to risk last minute failure. . . .I'd save blue for last. Klein blue, or the blue of Crater Lake on an early June morning. That would take decades. . . .Don't forget to sway the fence gate back and forth a few times just for its creaky sound. When you swing in the tire swing make sure your socks are off. You've forgotten, I expect, the feeling of feet brushing the tops of sunflowers: In Vermont, I once met a ski bum on a summer break who had followed the snows for seven years and planned on at least seven more. We're here for the enjoyment of it, he said, to salaam into joy. . . .I expect you'll find Bibles scattered everywhere, or Talmuds, or Qur'ans, as well as little snippets of gospel music, chants, old Advent calendars with their paper doors still open. You might pay them some heed. Don't be alarmed when what's familiar starts fading, as gradually you lose your bearings, your body seems to turn opaque and then transparent, until finally it's invisible--what old age rehearses us for and vacations in the limbo of the Middle West. Take it easy, take it slow. When you think I'm on my way, the long middle passage done, fill the pantry with cereal, curry, and blue and white boxes of macaroni, place the checkerboard set, or chess if you insist, out on the flat-topped stump beneath the porch's shadow, pour some lemonade into the tallest glass you can find in the cupboard, then drum your fingers, practice lifting your eyebrows, until you tell them all--the skeptics, the bigots, blind neighbors, those damn-with-faint-praise critics on their hobbyhorses-- that I'm allowed, and if there's a place for me that love has kept protected, I'll be coming, I'll be coming too. (Dick Allen) * Bom dia! (url) 28.10.04
O ABRUPETÚ
Um rapazinho, com tudo para crescer, olha para o computador e lê: “abrupetú”. (url)
APRENDENDO COM O PADRE ANTÓNIO VIEIRA: O Ó
"A figura mais perfeita e mais capaz de quantas inventou a natureza e conhece a geometria é o círculo. Circular é o globo da terra, circulares as esferas celestes, circular toda esta máquina do universo, que por isso se chama orbe, e até o mesmo Deus, se sendo espírito pudera ter figura, não havia de ter outra, senão a circular. O certo é que as obras sempre se parecem com seu autor; e fechando Deus todas as suas dentro em um círculo, não seria esta idéia natural, se não fora parecida à sua natureza. — Daqui é que o mais alumiado de todos os teólogos, S. Dionísio Areopagita, não podendo definir exatamente a suma perfeição de Deus, a declarou com a figura do círculo: Velut circulus quidam sempiternus propter bonum, ex bono, in bono et ad bonum certa, et nusquam oberrante glomeratione circummiens. Estes são os dois maiores círculos que até o dia da Encarnação do Verbo se conheceram; mas hoje nos descreve o Evangelho outro círculo, em seu modo maior. O primeiro círculo, que é o mundo, contém dentro em si todas as coisas criadas; o segundo, incriado e infinito, que é Deus, contém dentro em si o mundo; e este terceiro, que hoje nos revela a fé, contém dentro em si ao mesmo Deus. Ecce concipies in utero, et paries Filium: hic erit magnus, et Filius Altissimi vocabitur (2). Nove meses teve dentro em si este círculo a Deus, e quem poderá imaginar que, estando cheio de todo Deus, ainda ali achasse o desejo, capacidade e lugar para formar outro círculo? Assim foi, e este novo círculo, formado pelo desejo, debaixo da figura e nome de O, é o que hoje particularmente celebramos na expectação do parto já concebido: Ecce concipies et paries. De um e outro círculo travados entre si, se comporá o nosso discurso, concordando — que é a maior dificuldade deste dia — o Evangelho com o título da festa, e o título com o Evangelho. O mistério do Evangelho é a conceição do Verbo no ventre virginal de Maria Santíssima; o título da festa é a expectação do parto e desejos da mesma Senhora, debaixo do nome do O. E porque o O é um círculo, e o ventre virginal outro circulo, o que pretendo mostrar em um e outro é que, assim como o círculo do ventre virginal na conceição do Verbo foi um O que compreendeu o imenso, assim o O dos desejos da Senhora na expectação do parto foi outro circulo que compreendeu o eterno. Tudo nos dirão, com a graça do céu, as palavras que tomei por tema. Ave Maria. " (url) (url)
O POLÍTICO E AS LEIS DA FÍSICA
O governo diz que este "caso Marcelo" não é político. A maioria na Assembleia diz que o caso não é político. Os ecos das vozes anteriores dizem que o caso não é político. Está bem. E os passarinhos voam com as patas para o ar. (url)
PATETICES EM QUE SE GASTA O NOSSO DINHEIRO: DIÁRIO DA REPÚBLICA VERDE
“Nos termos do Despacho Normativo nº 43/2004 de 27 de Outubro, este Diário da República, de cor diferente do habitual, integra-se nas comemorações do Dia Nacional da Desburocratização.” “Despacho Normativo n.º 43/2004 Considerando que a Resolução do Conselho de Ministros n.º 30/90, de 16 de Agosto, institui o Dia Nacional da Desburocratização, o qual se assinala na última quinta-feira do mês de Outubro de cada ano; Considerando que a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A., pretende associar-se àquele evento, imprimindo o Diário da República desse dia em cor diferente da habitual: Ao abrigo do n.º 2 do artigo 12.º do Decreto-Lei n.º 170/99, de 19 de Maio, e do despacho n.º 20387/2004, publicado o Diário da República, 2.ª série, n.º 233, de 2 de Outubro de 2004: Determina-se o seguinte: A Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A., é autorizada a publicar o Diário da República de 28 de Outubro em papel especial de cor verde. Presidência do Conselho de Ministros, 14 de Outubro de 2004. - O Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Domingos Manuel Martins Jerónimo.“ Não há mais nada para fazer no governo? Quanto custa mudar a cor do jornal? O que é que o verde, uma cor de má fama fora da natureza, tem a ver com a desburocratização? * "É o "verde-esperança-que-um-dia-ganhem-juízo". Pessoalmente, acho que teria sido mais adequado o encarnado do "Red Tape"..." (Rui Rocheta) * "O conteúdo do Diário da República Verde, afinal, é muito mais interessante do que parece à primeira vista. Recomendo-lhe vivamente uma leitura muito atenta do despacho do Sr. Director-Geral dos Impostos, no fim da pag. 15796, onde se autoriza a passagem à situação de licença sem vencimento de longa duração à Assessora jurista do quadro da Direcção-Geral dos Impostos Maria Celeste Ferreira Lopes Cardona. Afinal, a Ilustre Advogada, fiscalista emérita, é também funcionária pública, e do quadro de pessoal da D.G.I. Não acha curioso? É certo que, de um ponto de vista estritamente legal, não é impossível exercer simultaneamente ambas as actividades - bastará estar-se autorizado pelo serviço para acumular funções e demonstrar-se, perante a Ordem dos Advogados, que as funções públicas exercidas são de mera consultadoria jurídica. Mas até isso creio que achará interessante, mais a mais porque me lembro de o ter ouvido reflectir, e bem, sobre matéria de incompatibilidades no que concerne aos deputados que advogam." (Pedro Veiga Santos) * "E já agora, se é o dia Nacional da Desburocratização, para que é necessário tanta autorização para imprimir o Diário da República de outra cor?" (António Albertino) (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 346
Moon Song A child saw in the morning skies The dissipated-looking moon, And opened wide her big blue eyes, And cried: "Look, look, my lost balloon!" And clapped her rosy hands with glee: "Quick, mother! Bring it back to me." A poet in a lilied pond Espied the moon's reflected charms, And ravished by that beauty blonde, Leapt out to clasp her in his arms. And as he'd never learnt to swim, Poor fool! that was the end of him. A rustic glimpsed amid the trees The bluff moon caught as in a snare. "They say it do be made of cheese," Said Giles, "and that a chap bides there. . . . That Blue Boar ale be strong, I vow -- The lad's a-winkin' at me now." Two lovers watched the new moon hold The old moon in her bright embrace. Said she: "There's mother, pale and old, And drawing near her resting place." Said he: "Be mine, and with me wed," Moon-high she stared . . . she shook her head. A soldier saw with dying eyes The bleared moon like a ball of blood, And thought of how in other skies, So pearly bright on leaf and bud Like peace its soft white beams had lain; Like Peace! . . . He closed his eyes again. Child, lover, poet, soldier, clown, Ah yes, old Moon, what things you've seen! I marvel now, as you look down, How can your face be so serene? And tranquil still you'll make your round, Old Moon, when we are underground. (Robert Service) * Bom dia! (url) (url) 27.10.04
OBSERVAÇÕES SOLTAS SOBRE O CASO DO DIA
O clima em que hoje vive a liberdade da pluralidade (apenas uma forma de liberdade, mas uma das que mais é instrumental para o funcionamento da democracia), nos grandes meios de comunicação social, é mau. Não pode deixar de haver mal-estar na RTP, na RDP, no Diário de Notícias, na TSF, no Jornal de Notícias, no 24 Horas, na TVI. É demasiado importante para o ignorarmos. Não é um problema de superfície, é de fundo e não vai desaparecer tão cedo. O governo, que está na origem do que se passa, pode ter a tentação de cortar a direito e avançar, esperando um Grande Esquecimento, em que a comunicação social, na procura obsessiva da novidade, é mestra e, neste caso, vítima. Marcelo disse o fundamental e o que disse é credível, tornando em mentira pouco habilidosa as declarações do Presidente da Media Capital.Terá que ter consequências. Não sei se as terá. Marcelo é vítima de si próprio. Falando de uma matéria que vai ser mais importante para o seu futuro do que ele próprio pensa, não escapa aos seus demónios e assume um tom que rapidamente descai no histriónico. Dizendo coisas importantes, trai-se a si próprio. Há alturas em que se tem que ser severo e resistir a fazer mais um comentário semanal, para se ser tomado a sério. A vida não é só televisão. Não sei que diga da Alta Autoridade. Em vez de perguntar sobre factos, pede opiniões, o que de todo não nos interessa neste caso. Permite aos seus inquiridos dominar o palco de um inquérito e mostra uma completa falta de direcção e uma total inadequação para a função. Será que ninguém lhes lembra que é um inquérito que está em curso e com importantes consequências políticas e não um ensaio faceto. Um grande perdedor de tudo isto é o Parlamento, ou seja, a democracia parlamentar. A atitude da maioria em não permitir as audições de Marcelo e de outros intervenientes, permitindo a do Presidente da Media Capital, não é admissível. (url)
ECLIPSES
Entre os vários eclipses de hoje, eclipse da verdade, eclipse da consequência, este é o único sadio, brilhante, total. Lá estarei, na sombra. (url) (url)
ARGUMENTÁRIO DO NÃO
(Argumentário do “não” à Constituição Europeia, a partir de hoje no Abrupto. Notas soltas, discussões, debates, chamadas de atenção, anedotário (não vai faltar com dois notórios anti-europeístas primários à frente da campanha pelo “sim”), incidentes e acidentes, etc.) * A falta de pluralismo no debate português sobre a Europa vai inquinar toda a discussão para o referendo. O falso consenso PSD-PP-PS tende a empurrar para as margens da política os defensores do “não”. Por outro lado, a maioria dos jornalistas, que cobrem a questão europeia. são eles próprios militantes europeístas radicais. O resultado é que de há muito se perdeu qualquer pluralismo efectivo, em que os debates se fazem dentro dos partidários do “sim”, e das suas diferentes sensibilidades. Recordam-se de, a não ser por absoluta excepção, e fora do PCP, terem ouvido nos grandes órgãos de comunicação social criticar a Constituição europeia? * É mau sinal que não vá haver uma revisão constitucional para permitir que a pergunta do referendo seja simples e clara. As declarações do Ministro dos Assuntos Parlamentares mostram a pressa com que tudo irá ser feito, "Se for possível construir uma pergunta para o referendo sem recurso a uma revisão extraordinária da constituição, caminharemos nesse sentido. É uma questão secundária, porque o importante é que o referendo se faça"(…)"os calendários são apertados". e revelando o interesse partidário que está por trás: "Admitimos que seja apresentada uma solução que sirva os interesses da maioria PSD/CDS-PP e do PS”. A pergunta está longe de ser “uma questão secundária”. É assim que se solidifica o défice democrático da UE. * É também evidente que o facto de cada passo no processo europeu exigir revisões constitucionais, é pouco sadio e mostra como os governos aceitam negociar processos e aceitar soluções que são contrárias à nossa Constituição. * O reforço dos poderes do Parlamento Europeu é um péssimo caminho para a Europa e para Portugal na Europa. O que se está a passar com a aprovação da Comissão é um sinal das coisas que estão para vir, com um Parlamento que é o epicentro do reino do “politicamente correcto” na Europa, pairando num limbo entre a “loony left” e a não menos “loony right”, e o regresso à sólida terra dos interesses nacionais das grandes nações quando é preciso. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 345
Manuel Komninos One dreary September day Emperor Manuel Komninos felt his death was near. The court astrologers -bribed, of course- went on babbling about how many years he still had to live. But while they were having their say, he remebered an old religious custom and ordered ecclesiastical vestments to be brought from a monastery, and he put them on, glad to assume the modest image of a priest or monk. Happy all those who believe, and like Emperor Manuel end their lives dressed modestly in their faith. (C.P. Cavafy, traduzido por E. Keeley e P. Sherrard) * Bom dia! (url) 26.10.04
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS POETAS ROMÂNTICOS
"Este seu post de hoje sobre "Xanadu" e a referência a Coleridge recordaram-me como os poetas românticos foram, tantas vezes, visionários em relação às coisas da Ciência. Deixo-lhe, a propósito, uma passagem surpreendente de Wordsworth, do célebre Prefácio a Lyrical Ballads (1802): «If the labours of Men of science should ever create any material revolution, direct or indirect, in our condition, and in the impressions which we habitually receive, the Poet will sleep then no more than at present; he will be ready to follow the steps of the Man of science, not only in those general indirect effects, but he will be at his side, carrying sensation into the midst of the objects of science itself. The remotest discoveries of the Chemist, the Botanist, or Mineralogist, will be as proper objects of the Poet's art as any upon which it can be employed, if the time should ever come when these things shall be familiar to us, and the relations under which they are contemplated by the followers of these respective sciences shall be manifestly and palpably material to us as enjoying and suffering beings.» Mas não deixa de ser curioso como o mesmo Wordsworth escreveu também, um dia, os versos: Sweet is the lore which Nature brings; Our meddling intellect Mis-shapes the beauteous forms of things:- We murder to dissect. ("The Tables Turned", 1798) (Daniela Kato) (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: INVESTIGAÇÃO EM CÉLULAS ESTAMINAIS E DEMAGOGIA INTERNACIONAL
"Acabei de ler a proposta apresentada na ONU pela Costa Rica, apoiada por mais 60 países incluindo Portugal e os Estados Unidos. Fiquei surpreendido por descobrir que Portugal sem discussão interna apoia uma proposta que pretende impedir todo o tipo de investigação em células estaminais, e chocado com o ponto 5, em particular, que é de uma demagogia brutal. Escrevo-lhe pois costuma-me a aceitar que esta situação passe ao lado da comunicação social e da discussão politica actual, embora esta situação possa já ser do seu conhecimento. "5. Strongly encourages States and other entities to direct funds that might have been used for human cloning technologies to pressing global issues in developing countries, such as famine, desertification, infant mortality and diseases, including the human immunodeficiency virus/acquired immunodeficiency syndrome (HIV/AIDS)" "Albania, Angola, Antigua and Barbuda, Australia, Benin, Burundi, Chad, Chile, Costa Rica, Côte d’Ivoire, Democratic Republic of the Congo, Dominican Republic, El Salvador, Equatorial Guinea, Eritrea, Ethiopia, Fiji, Gambia, Grenada, Guinea, Haiti, Honduras, Italy, Kenya, Kyrgyzstan, Lesotho, Liberia, Madagascar, Malawi, Marshall Islands, Micronesia, Nauru, Nicaragua, Nigeria, Palau, Panama, Papua New Guinea, Paraguay, Philippines, *Portugal*, Rwanda, Saint Kitts and Nevis, Saint Lucia, Saint Vincent and the Grenadines, San Marino, Sao Tome and Principe, Sierra Leone, Solomon Islands, Suriname, Tajikistan, Timor-Leste, Tuvalu, Uganda, United Republic of Tanzania, United States of America, Vanuatu and Zambia: draft resolution" (Paulo Pereira, PhD / Developmental Biology Lab / Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC)) (url)
INTENDÊNCIA
A Lagartixa e o Jacaré 9 no VERITAS FILIA TEMPORIS sobre a "emissão ministerial", os "aprendizes de feiticeiro" na comunicação social, o golpe na Guiné e a "pior frase da semana" de autoria de Luis Delgado. Publicada na Sábado, em Outubro 2004. Os dois primeiros artigos da série Direita / Esquerda, publicados no Público, Outubro 2004, no VERITAS FILIA TEMPORIS. Actualizado O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: GARANTIAS. Actualizada nota BIBLIOFILIA sobre a Renga. (url)
APRENDENDO COM O NEVOEIRO
Williams Degouve de Nuncques, Nocturne au Parc royal de Bruxelles ESPERO Espero sempre por ti o dia inteiro, Quando na praia sobe, de cinza e oiro, O nevoeiro E há em todas as coisas o agoiro De uma fantástica vinda. (Sophia de Mello Breyner) (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: XANADU
Olhem para esta fotografia. O "continente" Xanadu, no planeta Titã, visto há dois dias pela Cassini. Em Janeiro de 2005 lá iremos, se os deuses da mecãnica e da dinâmica se portarem bem. Uma parte do nosso futuro está aqui. Poderá estar no "deep romantic chasm" que Coleridge viu no seu Xanadu In Xanadu did Kubla Khan A stately pleasure-dome decree: Where Alph, the sacred river, ran Through caverns measureless to man Down to a sunless sea. So twice five miles of fertile ground With walls and towers were girdled round: And there were gardens bright with sinuous rills, Where blossomed many an incense-bearing tree; And here were forests ancient as the hills, Enfolding sunny spots of greenery. (url) (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: CONTRADITÓRIO
(...) "ora, em política (em direito e sobretudo na prática forense e administrativa, o contraditório tem ainda a ver com a procura de restabelecimento da igualdade de armas entre contendores, enfim, para permitir o confronto, ainda que por vezes só a título formal, de posições e perspectivas diferentes, mas tem também subjacente a ideia de permitir alguma forma de intervenção à parte contra quem é proferida uma acusação, instância, decisão, etc., ou seja, o contraditório é contra a parte mais forte) o contraditório é tipicamente exigível para vigiar, fiscalizar e moderar o exercício do poder - ou seja, há contraditório quando se permitem meios de acção, argumentação e prova contra a posição "oficial" dos titulares do poder, estes por definição dotados de meios de execução e influência escusado será acrescentar que o contraditório é condição mínima, mas não suficiente, de democracia; e é precisamente por isso que é necessário que a democracia se alimente de contraditório, interpelando os titulares do poder e denunciando o seu exercício abusivo é para isso que servem os comentadores, os cronistas, os analistas, os editoriais - quer na perspectiva estritamente política, para demonstração da plausibilidade e até justeza ou virtude de soluções alternativas, abordagens diferentes, necessidade de contextualização, etc, quer na perspectiva jurídica, examinando a legalidade e regularidade dos actos em que se traduz os exercício do poder, ou ainda na novel análise e avaliação económica das decisões jurídicas e políticas, obrigando os detentores do poder a justificarem os fundamentos e a racionalidade das suas medidas e opções, ou a arcarem com o ónus da sua ausência ou desproporção concluindo, creio que em política há contraditório se houver críticos, ainda que se excedam - contra o excesso político basta ao detentor do poder demonstrar a legitimidade política dos seus actos; contra outros excessos há meios adicionais, de direito, desde que merecedores de tutela - e não há contraditório, ainda que haja comentadores e comentários, se não houver críticas ! eis o equívoco !! se houver livre opinião e crítica, ainda não estamos seguros de que haja democracia; se não houver livre opinião e crítica, estamos seguros de que não há democracia" (antonio) (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: GARANTIAS
"Não sei se estou a ficar velho e resmungão,um daqueles chatos "...no meu tempo é que...",mas há coisas que me arrepiam!Arrepiam-me os factos,mas mais do que isso,a indiferença perante aquilo que me deixa...indignado (sem palavrões não arranjo melhor!). Tudo isto vem a proposito de um anuncio na radio(não sei se tambem na tv), em que uma criança a quem uma amiga pede emprestada a bicicleta, responde que sim senhor,lhe empresta a bicicleta ,mas só se ela lhe deixar o leitor de CD como garantia!!!!!!!!!!! Será que só a mim é que isto choca? Terei eu educado realmente os meus filhos?" (A.Pina Cabral) * "A propósito do breve texto do leitor Pina Cabral de hoje e versando sobre o tema dos arrepios: e aquele anúncio (rádio e TV) em que ela diz que vai para o campo para ter sossego e se dedicar “à escrita”? São sms para o seu Ruisinho tão querido!" (J.) (url)
EARLY MORNING BLOGS 344
Dreams In The Dusk Dreams in the dusk, Only dreams closing the day And with the day's close going back To the gray things, the dark things, The far, deep things of dreamland. Dreams, only dreams in the dusk, Only the old remembered pictures Of lost days when the day's loss Wrote in tears the heart's loss. Tears and loss and broken dreams May find your heart at dusk. (Carl Sandburg) * Bom dia! (url)
BIBLIOFILIA
Número sobre a tradução da revista Stand. Entre traduções de Celan, Primo Levi, Goethe, Pavese, Carlos de Orleans e outras, uma muito interessante experiência intitulada "The Salted Sea Bream: Japanese Collaborative Verse". O poema colectivo, escrito por e-mail, no estilo de Bashô, tem versos como "of all the lies I ever heard Cassandra's were the sweetest" "out of the movies with winter at our heels" "a radio plays to an empty kitchen" Vale a pena ler tudo. * "O Renga era composto por uma série de Tanka (frequentemente poemas de temática centrada no amor, na saudade, na lembrança de viagens...) ou de haikai (5/7/5- poemas ligeiros e humorísticos muito sugestivos, cuja temática trata das estações, dos pequenos animais, das plantas, das pessoas...lembro-me agora que Roland Barthes falou destes poemas associando-os a imagens) ou de dísticos (7/7). Horton, H.M. no Harvard Journal of Asiatic Studies, vol.53, nº2; dezembro 1993, escreveu um artigo, dando as instruções necessárias para os amadores de renga. Trata-se de uma actividade social e não apenas literária que, segundo Horton, deve obedecer a 21 regras!" (Ana da Palma) (url) 25.10.04
SE ALGUÉM PENSA
que esta questão do controlo da comunicação social pelo actual governo está a acabar engana-se redondamente. Só está a começar. A começar no Parlamento, na Alta Autoridade, no grupo Lusomundo, na PT, onde todos os dias se vai sabendo mais. Uma caixa abre a outra que abre a outra, que tem outra dentro. É só esperar. (url)
CONTRADITÓRIO
O governo tem tido sucesso em aumentar a massa crítica de comentadores que lhe são favoráveis, escolhidos, promovidos ou indicados, exactamente por isso. Nos momentos decisivos de hoje, este é um objectivo estratégico. Pouco a pouco, e sem paralelo com qualquer outro governo no passado (o único comparável é o de Guterres), essa massa crítica começa a pesar. A linha dominante nesses comentadores não é tanto o apoio absoluto e total (só Delgado faz esse papel), mas o comentário desculpatório, com uma linha definida de minimização de danos. “É verdade que o ministro dos Assuntos Parlamentares só fez asneiras, mas o que é preciso é deixar o governo governar…” Mais ou menos isto. No “caso Marcelo” percebeu-se com clareza esta linha de demarcação e o “caso Marcelo” não pode deixar de ser unívoco para todos os jornalistas, mesmo descontando a fama de Marcelo. O novo programa “Contraditório” na Antena 1 que, como se percebe pelo nome, é de decisão recente, junta quatro jornalistas: Luís Osório, Luís Delgado, Carlos Magno e António Luís Marinho. Os três últimos apoiaram as teses do governo no “caso Marcelo”, o que hoje significa quase tudo. (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O ESCONDIDO
"Volto a Gérard de Nerval. Nas Filles du Feu de 1854, havia apenas seis sonetos, o penúltimo era Delfica, (Napoles, 1843), o primeiro, o muito conhecido: EL desdichado, o segundo: Myrtho Je pense à toi, Myrtho, divine enchanteresse, Au Pausilippe altier, de mille feux brillant, A ton front inondé des clartés d'Orient, Aux raisins noirs mêlés avec l'or de ta tresse. C'est dans ta coupe aussi que j'avais bu l'ivresse, Et dans l'éclair furtif de ton oeil souriant, Quand aux pieds d'Iacchus on me voyait priant, Car la Muse m'a fait l'un des fils de la Grèce. Je sais pourquoi là-bas le volcan s'est rouvert... C'est qu'hier tu l'avais touché d'un pied agile, Et de cendres soudain l'horizon s'est couvert. Depuis qu'un duc normand brisa tes dieux d'argile, Toujours, sous les rameaux du laurier de Virgile, Le pâle Hortensia s'unit au Myrte vert! As iniciais do conjunto dos seis sonetos (El desdichado, Myrtho, Horus, Antéros, Delfica, Artémis) escrevem a palavra El MoHaDdAR ( o escondido )." (Ana da Palma) (url) (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 343
Cucurrucucu Paloma Dicen que por las noches Nomas se le iba en puro llorar, Dicen que no comia, Nomas se le iba en puro tomar, Juran que el mismo cielo Se estremecia al oir su llanto; Como sufrio por ella, Que hasta en su muerte la fue llamando Ay, ay, ay, ay, ay,... cantaba, Ay, ay, ay, ay, ay,... gemia, Ay, ay, ay, ay, ay,... cantaba, De pasión mortal... moria Que una paloma triste Muy de mañana le va a cantar, A la casita sola, Con sus puertitas de par en par, Juran que esa paloma No es otra cosa mas que su alma, Que todavia la espera A que regrese la desdichada Cucurrucucu... paloma, Cucurrucucu... no llores, Las piedras jamas, paloma ¡Que van a saber de amores! Cucurrucucu... cucurrucucu... Cucurrucucu... paloma, ya no llores (Tomas Mendez) * Ouvida ontem, muito ao longe, lembrada hoje. Bom dia! (url) 24.10.04
VER A NOITE
no meio das árvores. Nevoeiro profundo atravessado pela luz da Lua, mergulhada na humidade do ar. Wer reitet so spät durch Nacht und Wind? (url)
© José Pacheco Pereira
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