ABRUPTO

17.7.04


BIBLIOFILIA: UMA MÁQUINA DO TEMPO 
  
Na mesma feira comprei este Anuário de 1944, uma verdadeira máquina do tempo. Raro, mesmo raro, é encontrar livros destes. Primeiro porque é um livro consumível, de usar (logo deteriorar) e deitar fora, depois porque é enorme, quase duas mil e quinhentas páginas, pesadíssimo, com capa dura, difícil de manusear.
 
Agora que é um fabuloso retrato desse ano de viragem, 1944, é. Lá estão as fotografias de Carmona e Salazar, como nas publicações soviéticas, e todo um mundo de pequenos artigos, fotografias, e endereços, rua a rua, por profissões e ramos de negócio, um retrato de um mundo desaparecido, de empresas hoje inexistentes, de um Portugal tão diferente. Valeu os euros que custou, porque é raro ver este tipo de livros no mercado alfarrabista. 

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BIBLIOFILIA

 

 
Descoberta, numa feira de livros ao ar livre, esta raridade de Mário Saa, um dos poucos textos anti-semitas publicados em Portugal no século XX. Lá se lê isto: 

e isto:
 


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OS VINTE LIVROS PORTUGUESES

Aqui há uns anos respondi a um desses inquéritos sobre os livros da “vida”, neste caso portugueses. Encontrei essa resposta que reproduzo a seguir:

Os vinte livros portugueses da “vida” (até agora) são mais de vinte. Aqui segue uma lista apressada (comme il faut pour les journaux...), que pode deixar de fora algum enorme esquecimento súbito.
Primeiro, os “romances” como a “Nau Catrineta”, a que se segue o Amadis de Gaula. O terceiro é a Menina e Moça de Bernardim, a que se soma o Crisfal. Depois vem a lírica de Sá de Miranda e de Camões. Do primeiro me perseguirá sempre um verso : “que farei quando tudo arde?”. Depois os Lusíadas. Depois a "navegação" que todos nós fizemos sobre a forma de Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e da História Trágico-Marítima. Depois os altíssimos Padre António Vieira nos Sermões e a “floresta” e o “pão” do Padre Manuel Bernardes, o mais belo português em prosa. Depois salto para o século XIX, bem para dentro da nossa fluidez moderna, longe da rocha clássica: o “Noivado do Sepulcro” de Soares de Passos que sei de cor, e já a partir para o século XX, os excessos de Eugénio de Castro e a Clepsidra de Camilo Pessanha. Inumeráveis livros de Eça, os Maias, A Cidade e as Serras, Conde de Abranhos, o Fradique, Os Contos e, com a “ramalhal figura”, As Farpas. Também Oliveira Martins. E de Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais, cujas primeiras páginas é talvez o princípio de um livro português que mais vezes li, vá-se lá saber porquê. Depois o número treze (il faut tricher...) é Pessoa, ele mesmo e Álvaro de Campos e Ricardo Reis, este último o preferido. Catorze, são as traduções para português que Paulo Quintela fez de Rilke e de Hölderlin - e que são livros seminais do português poético do século XX. Vêm a seguir três prosadores - Raul Brandão do Húmus, Ruben A. e Nuno Bragança - e um ensaista, o Eduardo Lourenço de Heterodoxia. E, por fim, de Eugénio de Andrade, Herberto Helder, Cesariny e Joaquim Manuel Magalhães, as “poesias todas”.
Se tudo o mais desaparecesse, mesmo com enormes injustiças, continuava a poder haver Portugal e a sua língua. Sem isto não havia.

Verifico agora pelo menos uma enorme injustiça e esquecimento, Cesário Verde.

*

"Como "escolher" os livros portugueses mais representativos da nossa literatura, se a própria escola ajuda tão pouco? Nasci numa casa sem livros, que os foi ganhando com as minhas escolhas, um pouco arbitrárias... Seguindo o seu exemplo, fiz uma lista dos livros ou textos que mais me marcaram. (Alguns marcaram-me pela negativa - não gostei deles - e não os incluí.) Falta conhecer muitos, bem sei. Haja tempo para mais!

A minha lista:
"Auto da Barca do Inferno" - Gil Vicente "Os Lusíadas" e "Lírica" (Círculo de Leitores) - Luís Vaz de Camões "Peregrinação" - Fernão Mendes Pinto "Sermões" (Público) - Padre António Vieira "Folhas Caídas" e "Romanceiro"- Almeida Garrett "As Pupilas do Senhor Reitor" - Júlio Dinis "Os Maias" - Eça de Queirós "O Primo Basílio" - Eça de Queirós "Só" - António Nobre "O Livro de Cesário Verde" - Cesário Verde "Mensagem" - Fernando Pessoa "O Guardador de Rebanhos" - Alberto Caeiro "Livro do Desassossego" - Bernardo Soares "Charneca em Flor" e "Livro de Mágoas" - Florbela Espanca "Poemas de Deus e do Diabo" e "Filho do Homem" - José Régio "Húmus" - Raúl Brandão "O Fogo e as Cinzas" - Manuel da Fonseca "Manhã Submersa" - Virgílio Ferreira "Livro Sexto" - Sophia de Mello Breyner Andresen "As Mãos e os Frutos" - Eugénio de Andrade "Memorial do Convento" e "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" - José Saramago


Não faltará na sua lista o Gil Vicente?..."

(ASN)

*

"Graças à escola de então, no meu caso, e ao contrário da leitora ASN, a bons professores de português, e a uma casa cheia de livros, abriu-se cedo todo um mundo para mim.
Também concordo com a leitora que se surpreende (verbo definitivamente na moda como a comunicação social nos lembrou toda a semana que passou) da ausência de Gil Vicente. No meu caso, e gostando de quase toda a sua obra nomeadamente do "Auto da Barca do Inferno" tenho preferência pelo "Auto da Alma".
Também estranhei a ausência daquele que por muitos é considerado o melhor romance de língua portuguesa do séc. XX. Do Vitorino Nemésio "Mau tempo no Canal".
(A minha lista seria diferente, mas estes dois casos são os que mais me chamaram a atenção)
"

(JPC)



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DESPESISMO

Há duas formas de despesismo: uma, é gastar mais dinheiro; outra, é gastar mal o dinheiro. Normalmente andam a par.

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EARLY MORNING BLOGS 255

La Grenouille qui veut se faire aussi grosse que le Boeuf


Une Grenouille vit un Boeuf
Qui lui sembla de belle taille.
Elle, qui n'était pas grosse en tout comme un oeuf,
Envieuse, s'étend, et s'enfle, et se travaille,
Pour égaler l'animal en grosseur,
Disant : "Regardez bien, ma soeur ;
Est-ce assez ? dites-moi ; n'y suis-je point encore ?
- Nenni. - M'y voici donc ? - Point du tout. - M'y voilà ?
- Vous n'en approchez point. "La chétive pécore
S'enfla si bien qu'elle creva.
Le monde est plein de gens qui ne sont pas plus sages :
Tout bourgeois veut bâtir comme les grands seigneurs,
Tout petit prince a des ambassadeurs,
Tout marquis veut avoir des pages.

(La Fontaine)

*

Bom dia!

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16.7.04


BIBLIOFILIA











José Ribeiro Ferreira, Amor e Morte na Cultura Clássica, Coimbra, Ariadne Editora, 2004

Vale mesmo a pena. Afinal está aqui quase tudo. Quase.

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OS MINISTROS DE SALAZAR

sabiam que não eram ministros quando os seus sucessores apareciam nomeados. Antigamente era prepotência autoritária, hoje é essencialmente má educação. Aconteceu.


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MINISTÉRIOS DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA, ATENÇÃO DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA 2

Nesta diferença de tratamento, há dois aspectos interessantes: um, o peso do Estado na economia, e a sua politização; outro, a ignorância da comunicação social sobre o mundo universitário e científico. Um dos efeitos daí decorrentes é que se sabe sempre quem são os gestores que vão para os governos e se ignora sempre quem são os universitários. De uns, há sempre filmes e fotografias; de outros, nem o nome certo se conhece.



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MINISTÉRIOS DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA, ATENÇÃO DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA

Na atenção que a comunicação social dá ao governo, prevalece uma visão muito arcaizante da governação: centra-se tudo na economia e nas finanças, e pouco nas áreas mais qualitativas, como a educação, a ciência, o ambiente, a cultura. Esta disfunção da atenção comunicacional é espelhar face à dos políticos, que também consideram essa a parte secundária dos governos.

Num certo sentido, as primeiras são instrumentais, as segundas fundamentais. Andou tudo muito atento às pastas económicas e financeiras, e desatento em relação às pastas estratégicas para o nosso futuro. Esqueceu-se que, enquanto os interesses económicos nunca deixam um vazio no governo, no resto as coisas fiam mais fino e mais difícil.



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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O BELO E O TERRÍVEL




estão aqui. Kant reconheceria os seus conceitos. Há nesta mecânica silenciosa do grande planeta dos Anéis uma sombra que se estende como o terror sublime e que apaga tudo. Há um frio especial, uma solidão especial lá longe. O mais humano são os pequenos pontos que parecem defeitos da fotografia, Encelado, Prometeu e Epimeteu, fragmentos de mundos. Um rapaz pequeno deve ter medo desta fotografia como da noite escura. Um rapaz grande, não sei.

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UM ABRAÇO

à Desesperada Esperança. Por razões muito próprias.


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SOBRE A UNESCO

(Em breve, logo que tenha tempo. Entretanto esta notícia do Público diz quase tudo quanto há a dizer.)

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FUTURO PRESIDENTE DA COMISSÃO ATACA POLÍTICA EXTERNA DE PORTUGAL

Quando se pronunciou sobre a “arrogância” e o “unilateralismo” americano, que, pelos vistos, “detesta”, (não percebo se na época da Cimeira das Lajes essa “arrogância” era menor), o futuro Presidente da Comissão Europeia atacou a política externa portuguesa, criando dificuldades para Portugal.


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EARLY MORNING BLOGS 254

Epitaph


Beyond the traceries of the auroras,
The fires of tattered sea foam,
The ghost-terrain of submerged icebergs;
Beyond a cinder dome's black sands,
Beyond peninsula and archipelago,
Archipelago and far-flung islands,
You have made of exile a homeland,
Voyager, and of that chosen depth, a repose.

The eel shimmers and the dogfish darts,
A dance of crisscrosses and trespasses
Through distillate glints and nacreous silts,
And the sun, like fronds of royal palm
Wind-torn, tossed, lashes upon the wake,
But no lamplight mars or bleaches your realm,
A dark of sediment, spawn, slough, and lees,
Runoff, pitch-black, from the rivers of Psalms.

(Eric Pankey)

*

Bom dia!


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15.7.04


UMA PERGUNTA SIMPLES

Porque é que "surpreender" é tão importante?

*

"Não me parece que seja por acaso que a língua Inglesa é tão fértil no uso da voz passiva. Será que é “surpreender” que é “tão importante” ou será que “ser surpreendido” tem primazia?"

(JPC)

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POBRE PAÍS

o nosso.
Ouvindo a confrangedora série de banalidades e vacuidades, ditas com ar pomposo, por Sócrates, o candidato com mais apoios no PS.
A crise que nestes dias se revelou, e que já cá estava, é muito pior do que se imagina.

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EARLY MORNING BLOGS 253

L'Ane chargé d'éponges, et l'Ane chargé de sel


Un Anier, son Sceptre à la main,
Menait, en Empereur Romain,
Deux Coursiers à longues oreilles.
L'un, d'éponges chargé, marchait comme un Courrier ;
Et l'autre, se faisant prier,
Portait, comme on dit, les bouteilles :
Sa charge était de sel. Nos gaillards pèlerins,
Par monts, par vaux, et par chemins,
Au gué d'une rivière à la fin arrivèrent,
Et fort empêchés se trouvèrent.
L'Anier, qui tous les jours traversait ce gué-là,
Sur l'Ane à l'éponge monta,
Chassant devant lui l'autre bête,
Qui voulant en faire à sa tête,
Dans un trou se précipita,
Revint sur l'eau, puis échappa ;
Car au bout de quelques nagées,
Tout son sel se fondit si bien
Que le Baudet ne sentit rien
Sur ses épaules soulagées.
Camarade Epongier prit exemple sur lui,
Comme un Mouton qui va dessus la foi d'autrui.
Voilà mon Ane à l'eau ; jusqu'au col il se plonge,
Lui, le Conducteur et l'Eponge.
Tous trois burent d'autant : l'Anier et le Grison
Firent à l'éponge raison.
Celle-ci devint si pesante,
Et de tant d'eau s'emplit d'abord,
Que l'Ane succombant ne put gagner le bord.
L'Anier l'embrassait, dans l'attente
D'une prompte et certaine mort.
Quelqu'un vint au secours : qui ce fut, il n'importe ;
C'est assez qu'on ait vu par là qu'il ne faut point
Agir chacun de même sorte.
J'en voulais venir à ce point.


(La Fontaine)

*

Repito: là qu'il ne faut point / Agir chacun de même sorte. Não sei porquê mas suspeito que vamos ter muito La Fontaine e Esopo nestes tempos. Ou melhor, sei: a sabedoria deles, é muita e só ela nos protege da força enorme que nos leva a voar cada vez mais baixo e a achar que ainda estamos muito longe do chão. Sejam bem-vindos, o corvo, a raposa, os múltiplos ratos, a rã, os burros, etc., etc.,,

Bom dia!

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14.7.04


ATENÇÃO

Circula na Internet um texto intitulado "PACHECO PEREIRA NO SEU MELHOR ..." que me é atribuído. Podem deitar ao lixo. É falso.

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BIBLIOFILIA

O que encontramos dentro dos livros usados.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: AS OUTRAS NUVENS



lá em cima, no canto esquerdo. Nuvens como as nossas (em Marte há outras), anunciando o Inverno pela fresca manhã. Tudo como sempre: simples. Nós é que complicamos.

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LEITURA OBRIGATÓRIA

a nota dos Jaquinzinhos intitulada o Ministro das Bolachas, sobre do que falamos quando falamos do Ministério da Agricultura. Um retrato da nossa administração pública e um bom exemplo do "trabalho" dos blogues.

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EARLY MORNING BLOGS 252

EL INFANTE ARNALDOS

¡Quién hubiera tal ventura sobre las aguas del mar
como hubo el infante Arnaldos la mañana de San Juan!
Andando a buscar la caza para su falcón cebar,
vio venir una galera que a tierra quiere llegar;
las velas trae de sedas, la ejarcia de oro terzal,
áncoras tiene de plata, tablas de fino coral.
Marinero que la guía, diciendo viene un cantar,
que la mar ponía en calma, los vientos hace amainar;
los peces que andan al hondo, arriba los hace andar;
las aves que van volando, al mástil vienen posar.
Allí habló el infante Arnaldos, bien oiréis lo que dirá:
—Por tu vida, el marinero, dígasme ora ese cantar.
Respondióle el marinero, tal respuesta le fue a dar:
—Yo no canto mi canción sino a quién conmigo va.


(Anónimo)

*

Bom dia!

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13.7.04


ALTOGETHER, ELSEWHERE, VAST / HERDS OF REINDEER MOVE ACROSS


Roy Lichtenstein

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EARLY MORNING BLOGS 251

The Fall Of Rome

The piers are pummelled by the waves;
In a lonely field the rain
Lashes and abandoned train;
Outlaws fill the mountain caves.

Fantastic grow the evening gowns;
Agenst of the Fisc pursue
Absconding tax-defaulters through
The sewers of provincial towns.

Private rites of magic send
The temple prostitutes to sleep;
All the literati keep
An imaginary friend.

Cerebrotonic Cato may
Extol the Ancient Disciplines,
But the muscle-bound Marines
Mutiny for food and pay.

Caesar's double-bed is warm
As an unimportatnt clerk
Writes I DO NOT LIKE MY WORK
On a pink official form.

Unendowed with wealth or pity
Little birds with scalet legs,
Sitting on their speckled eggs,
Eye each flu-infected city.

Altogether elsewhere, vast
Herds of reindeer move across
Miles and miles of golden moss,
Silently and very fast.


(W.H. Auden)

*

Bom dia!

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12.7.04


VERITAS FILIA TEMPORIS

Para me complicar ainda mais a vida resolvi, a exemplo do que fazem a Bloguitica e a Causa Nossa, criar um blogue secundário para armazenar alguns textos que já não estão em linha e que penso terem utilidade no debate actual. O que lá está dito, em conjunção com a data (tenho a ilusão que a data é relevante...), podem servir para precisar melhor o que penso.

O primeiro texto é "As Três Fontes E As Três Partes Da Social-Democracia Portuguesa" (Novembro 1992)

NOTA: as versões dos textos e a formatação final ainda são provisórias.


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TEMPOS DUROS 3: O ARGUMENTO HEGELIANO

Já se esperava que voltasse, e em força, aquilo a que chamo o argumento hegeliano. O argumento hegeliano pode ser exposto assim: o que tem que ser, tem muita força; logo, o que acontece teve que acontecer; logo o que acontece tem que acontecer. Não adianta esbracejar (e reparem como eu uso já uma palavra condenada pelo ridículo, “esbracejar”, que é para entrar bem dentro do argumento hegeliano e de uma das suas sequelas: ou se fica “senhor”, ou se fica “escravo”). A força do que “é”, é inelutável, e era disto que gostavam os hegelianos de direita, e, de um modo geral, os que aceitam o que é, porque o que é tem muita força e eles nenhuma. Os de esquerda gostavam do princípio da negação e não gostavam da “negação da negação”. Mas isso é para o BE, que se construiu na base da negação da “negação da negação” (por isso é que são pós-trotsquistas e são muito afirmativos da negação - dos outros).

Daqui decorrem depois múltiplas conclusões, todas elas assentes na inevitabilidade do que “é”. O que “é” ganha então uma explicação retrospectiva, intelectual, afectiva, e, a um dado momento, moral. Entra então em funcionamento o famoso “caixote do lixo da história”, para onde vão todos os que o “é” nega, pelo próprio facto de existir. O “é” só pode ter sido feito de qualidades e virtudes, senão como é que seria “é”? Pelo contrário, os que o “é” nega têm que ter algum mal intrínseco, ou são irrealistas (leia-se parvos, já que não conhecem a realidade que gerou o “é”), ou são preguiçosos (argumento contraditório com o anterior, porque não há labor que contrarie a marcha inevitável da História, ou seja, da realidade), ou então não fizeram o que o “é” fez, mesmo que isso tenha sido condenado quando o “é” ainda não o era. Mas a vitória que transforma o não-ser em ser dá-lhe retrospectivamente o direito de ver os defeitos transformados em virtudes. Veja-se como exemplo de argumento hegeliano o editorial do Público de hoje.

Esta forma de argumento hegeliano esquece a “ironia” da História, com H grande, que também vem em Hegel, e que neste caso se chama a “partida inesperada” ou a “deserção inimaginável”, mas não importa. A força do “é” é tanta que até o inesperado se torna esperado. Não esperavam, pois não? Deviam era ter-se posto na bicha da História.

O “é” antes de ser já o era. Inevitavelmente. Aliás é onde vai desaguar o argumento hegeliano: tudo o que acontece é inevitável, o que explica o cem a zero. E o cem tem muita força, não é?

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Hans Memling

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EARLY MORNING BLOGS 250

Recuerdo


WE WERE very tired, we were very merry--
We had gone back and forth all night on the ferry.
It was bare and bright, and smelled like a stable--
But we looked into a fire, we leaned across a table,
We lay on a hilltop underneath the moon;
And the whistles kept blowing, and the dawn came soon.

We were very tired, we were very merry--
We had gone back and forth all night on the ferry,
And you ate an apple, and I ate a pear,
From a dozen of each we had bought somewhere;
And the sky went wan, and the wind came cold,
And the sun rose dripping, a bucketful of gold.

We were very tired, we were very merry,
We had gone back and forth all night on the ferry,
We hailed "Good morrow, mother!" to a shawl-covered head,
And bought a morning paper, which neither of us read;
And she wept, "God bless you!" for the apples and pears,
And we gave her all our money but our subway fares.


(Edna St.Vincent Millay)

*

Bom dia!

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COMEÇOU

A entrevista de Santana Lopes à SIC, para além de um exercício de simulação política tão exagerado quanto ao Presidente que roça o absurdo - nenhum Primeiro Ministro que se preza se coloca de forma tão subserviente sob a tutela presidencial – mostra, infelizmente, que já começou a revelar-se a marca de água do entrevistado. As únicas coisas que foram ditas de concreto – número de ministérios, descentralização de ministérios, o Ministério da Agricultura em Santarém – são claramente coisas ditas sem qualquer pensamento de fundo, estudo, preparação e ponderação sobre a estrutura do Governo e o modo como se relaciona com o país. São daquelas coisas que são ditas e, depois, se levadas à prática na forma como foram “prometidas”, representam “experiências” com custos enormes. São caras, desorganizam o pouco que funciona e não resolvem problema nenhum.

Não, não é má vontade. É que é exactamente isto que é o costume.

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11.7.04


O BIBLIÓFILO


Ilustração retirada de Bertrand Galimard Flavigny, Être Bibliophile - Petit Guide Pratique, Anglet, Atlantica, 2004

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DITOS DO CHIFRUDO RECOLHIDOS POR GIL VICENTE

"E que dizia o chifrudo, ao entrar de penetra na Feira convocada por Mercúrio? Que alegava o demo para poder assentar arraiais naquilo que não lhe pertencia?

Dizia que "eu bem me posso gabar, e cada vez que quiser, que na feira onde eu entrar sempre tenho que vender, e acho quem me comprar. E mais, vendo muito bem, porque sei bem o que entendo; e de tudo quanto vendo não pago siza a ninguém por tratos que ande fazendo.Quero-me fazer à vela nesta santa feira nova. Verei os que vêm a ela, e mais verei quem m' estorva de ser eu o maior dela".

E questionado sobre porque não vende ele a Verdade, valor tão mais caro e útil ao Povo, remata o Diabo a questão, assim respondendo: "a verdade pera quê? Cousa que não aproveita, e aborrece, pera que é?"

Mentiras, enganos, homens que se vendem, homens que se compram, homens mexeriqueiros, homens mentirosos, homens lisonjeiros, assim eram os homens do Portugal quinhentista, "os homens de merda" que em vez de servir a Pátria se serviam a si próprios em primeiro lugar. Deles se queixava em 1546 o Vice-Rei da Índia, Dom João de Castro em carta ao seu filho, enquanto esperava em vão pelas caravelas que de Portugal tinham sido enviadas para o aliviar do Cerco que sofria em Diu: "e estou para me enforcar dessas caravelas lá não serem, e merda para elas e para os que vão dentro, e para Gomes Vidal, porque são homens de merda que não sabem navegar senão para tomarem portos e comerem pão fresco e rabãos e saladas, e andarem às putas; e dizei-o assim ao capitão e a Vasco da Cunha e a Fr. Paulo, porque já não hei-de falar senão desta maneira; e merda para mestre Diogo e para quantos apóstolos vêm de Portugal, porque eu sirvo muito bem El-Rei nosso senhor, e eles são grandes hipócritas, que querem haver bispados para darem renda a seus filhos e terem mancebas gordas."

Era essa a grande maioria da nossa "gesta heróica" dos Descobrimentos, é essa também quase toda a nossa classe dirigente, no dealbar do século XXI.

Diz o povo que prefere mil vezes um Diabo que não conhece a um Anjo que conhece de ginjeira. E eu digo que, se, à sua maneira, o Diabo de Gil Vicente era um mercador honesto - "vender-vos-ei nesta feira mentiras vinta três mil, todas de nova maneira, cada üa tão subtil, que não vivais em canseira: mentiras pera senhores, mentiras pera senhoras, mentiras pera os amores. Vender-vos-ei como amigo muitos enganos infindos, que aqui trago comigo" - já Santana Lopes consegue dizer as coisas que diz sem se rir, parecendo completa e totalmente genuíno.

E isso, senão fosse tão perigoso, seria deveras caricato. Como as peças de Gil Vicente.

Que, mais do que comédias, são verdadeiras tragédias portuguesas.
"

(Alexandre Monteiro)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRANCERIA

"Sou seu leitor habitual e escrevo-lhe esta mensagem para reagir ao seu artigo no Público «Crise? Que crise?», na edição de 8 de Julho. Penso que o seu texto tem um problema básico: ele cria uma imagem romanceada do povo português e revela alguma sobranceria em relação a esse mesmo povo. Poderia dizer-se que isso é estranho, vindo da parte de um intelectual e político activo, mas provavelmente não é. Esta história (na realidade, trata-se de uma pequena peça literária, não um texto de opinião tradicional) mostra com nitidez um dos instintos mais comuns da elite nacional, nomeadamente um certo desprezo pelo que essa mesma elite imagina ser o povo. Quero dizer com isto que as suas personagens mexem, têm consistência, parecem vivas, mas duvido que elas correspondam a um exemplo demasiado significativo do povo português. Podiam muito bem ser franceses (teria de colocar uns árabes a complicar o cenário suburbano), podiam ser alemães (ajudaria um pouco mais de angústia existencial). Acho que, do ponto de vista literário, estas personagens têm o problema do artifício causado pela falta de vivência. Há coisas justas no texto. Também me surpreenderam os sinais de patriotismo superficial e um pouco histérico, a futebolândia (expressão sua, a meu ver feliz); acho que tem razão quando pensa (o sentido talvez mais profundo do artigo) que há muitas pessoas a viverem mal. Talvez o nosso país seja um pouco bipolar, incapaz de se avaliar, oscilando entre o melhor e o pior, entre a histeria e a depressão, hesitando entre a modernidade e a paróquia, indeciso entre Europa e isolamento. O povo português tem certamente muitos defeitos e virtudes. Mas frequentemente, quando ouço ou leio alguns comentários de intelectuais portugueses, fico sempre com a sensação de estranheza que provocam as visões distorcidas ou incompletas que eles têm do seu próprio povo."

(Luís Naves)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS JORNALISTAS SÃO AS FONTES

Sobre TEMPOS NOVOS 2

"Os jornalistas são as fontes. A figura do jornalista enquanto espectador da realidade e seu reporter objectivo não existe mais (engraçado como o termo reporter vai caindo no esquecimento). Penso mesmo que nunca existiu, mas a falta de vergonha em admiti-lo é hoje cada vez maior.

Tal como os costureiros se converteram em criadores de moda, também os jornalistas se converteram em criadores de notícias. A noção de verdade é intrinseca à mensagem e não resultante de um qualquer critério exteriormente verificável, ou como poderia Descartes dizer "Eu escrevo logo existe".

Daí eu achar que os jornalistas se classificam hoje no grupo de profissões do Marketing, onde incluo os Relações Públicas, os Criativos de Publicidade, os Organizadores de Eventos e por aí fora. Um jornalista é cada vez mais um profissional que alguém tem à mão, pago para criar a realidade que se quer transmitir, dentro da máxima do marketing que consiste em oferecer o produto certo ao público alvo certo tendo em vista a satisfação de uma determinada necessidade (aqui sou mais mauzinho que os teóricos do marketing afirmando que as necessidades são mútuas, tanto de quem vende como de quem compra).

Penso que nada disto é novo. O que é grave é a falta de preparação dos públicos alvo para as técnicas de marketing que lhes são aplicadas. Para os carros, aparelhagens e televisores existe o conceito de defesa do consumidor. Mas tudo quanto seja defender o consumidor de notícias, é, até ver, censura.

Por mim, há muito que deixei de ler jornais e ver telejornais como um relato daquilo que se passou durante o dia. Hoje sento-me frente ao televisor e tento perceber quem é que está a tentar vender o quê a quem."


(Mário Almeida)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: CONFÚCIO ...

Como escrevia (?) Confúcio - escreveu mesmo, ou só ensinou? - tratemos primeiro de nós próprios, da nossa família, da nossa cidade, e se tudo estiver bem, o Estado estará bem. Ou mais ou menos assim: «Quando os pensamentos são sinceros, a alma torna-se perfeita. Quando a alma se torna perfeita, o homem está em ordem. Quando o homem está em ordem, a sua família também fica em ordem. Quando a família está em ordem, o estado que ele dirige também pode alcançar a ordem. E quando os estados alcançam a ordem o mundo inteiro goza de paz e felicidade.»

Texto atribuído a CONFÚCIO (Kung Fu-Tzé), Os Grandes Pensadores, de Will Durant, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1965


(Paulo Salgado)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DISCORDO COMPLETAMENTE ...

"Discordo completamente da equivalência que faz entre as políticas culturais de Carrilho e Santana Lopes. O facto de, para usar a sua expressão, um falar para as vanguardas e outro para as retaguardas, é diferença de não pouca monta. O que nos temos de perguntar é: que lógica subjaz a cada uma das políticas? No caso de Santana Lopes, do que se trata é de gerar clientelas, como você muito bem apontou, e como se viu nos jantares de apoio com Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho e uns tantos actores de revista. Que eu saiba nuca vi apoio explícito de Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo ou João Mário Grilo à figura de Carrilho ou ao PS. Goste-se ou não do bolchevismo chique que foi a política cultural de Carrilho (para utilizar a expresão de Jorge Silva Melo) é inegável que apoiou trabalhos artísticos que normalmente não sobreviveriam se tivessem de contar apenas com o público. E deve ser essa a orientação de qualquer política cultural hoje: abrir espaços onde possam emergir propostas que sejam radicalmente heterogéneas em relação aos modelos culturais dominantes, que são os que garantem sucesso imediato. Ou o acto estético como utopia antropológico, como o concebeu Ernst Bloch."

(Bruno Peixe Dias)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: CHORAR OU NÃO CHORAR EIS A QUESTÃO

"Não chorou hoje o Presidente."

(João)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES. VISTO DE LONGE

"Não sei se ria, se bata palmas, ou se fique no mais profundo dos amúos - tal como se encontra o Abrupto neste preciso momento. Daqui do Brasil, para um figueirense habituado à política espectaculo do Lula e de todos os outros, não há espaço para ficar tomado pelo espanto, nem como Sá de Miranda, envergonhado. Tudo isto começou à muito, com Mário Soares fazendo da política a arte do circo, ou neste caso, da telenovela. Sampaio soube ver isso com precisão e inteligência: são os desejos do Povo que importam. O Povo - ou a sua grande maioria - quer novela, bandidos que prometem e não cumprem, mulheres despeitadas suspirantes, mocinhos da mais fina lábia que viram heróis em uma só penada.
O Presidente foi sensato, poupou dinheiro ao País e uma escandalosa derrota ao Partido Socialista. Quanto ao mocinho que virou herói.. bom, a ver vamos quanto tempo falta para disparar sobre o próprio pé.
"

(Paulo Madureira, São Paulo - Brasil)

*

"Estou chocado com esta decisão do Presidente da Republica. Estou verdadeiramente chocado.
Podem usar os argumentos formais que quiserem. A verdade é que nem eu, nem ninguém, alguma vez teve a possibilidade de dizer que não queria o Santana Lopes como primeiro ministro.
Estou profundamente arrependido de, há 10 anos, quando tive de optar entre o Sampaio e o Cavaco ter feito a escolha errada. Nunca, como agora, estive tão próximo de tomar a decisão de não voltar para Portugal. Estou verdadeiramente sem palavras.
"

(Luís Aguiar-Conraria, Economics Doctoral Student, Cornell University)

*

"Não tenho muito a dizer, se não que isto que se está a passar no nosso pais só me faz lembrar este poema de Florbela Espanca:

Nostalgia

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que plas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Nao sei se esta quimera que me assombra, É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Nao sei por onde vim...
Ah! Nao ser mais que a sombra duma sombra Por entre tanta sombra igual a mim!

Florbela Espanca

nao sei exactamente porquê, mas deve ser por estar longe...

ANS

PS: vivo na dinamarca
"

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O HOMEM EM ECLIPSE

O homem em eclipse


Ora foi que certo dia
o homem eclipsou-se
a data digam a data
a datazinha faz favor
qual data foi por decreto
que a gente se eclipsou
foi só manobra espertice
um dois três e pronto é noite
que nem a lua apareça
seja de que lado for
Uns seguraram-se logo
eram espertos bem se viu
outros cairam ao mar
com cabeça pernas e tudo
quanto a mim perdi a calma
fiquei desaparafusado
tradição cultura estilo
certeza amigos fatiota
tudo fora do seu sítio
um desaparafuso terrível


Segurem-me camaradas
sinto pernas a boiar
cheiro fantasmas enxofre
estou aqui mas posso voar
o parafuso da língua
vai partido vai saltar
agarrem-me! agarra!
pronto
pari o mais leve que o ar


Mário Cesariny, nobilíssima visão, Colecção Poesia e Verdade, Guimarães & C.ª Editores, 1976

Enviado por Jorge Daniel Carvalho.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES. "O BE NÃO É UM PP INVERTIDO"

"Ouvi-o esta noite na Quadratura do Círculo, naturalmente concordando e discordando de si e sobre isso nada há a dizer, mas não resisto a reflectir escrevendo-lhe sobre algo não por me soar discordante, mas por me soar dissonante, desafinado, o seu «pó» ao BE.

O BE é um partido anti-sistema? Eu acho que o é a nível da utopia, embora, como qualquer de nós, viva abaixo das suas utopias. Mas o BE não é um partido de sem-terra e excluídos do sistema, nem um ninho de desperados e banqueiros- anarquistas, nem o braço legal de um grupo guerrilheiro como o JPP às vezes parece supor. Basta acompanhá-lo de perto para ver que quem milita e simpatiza é cada vez mais gente (como eu) fortemente dependente e integrada no sistema, que não viveria três meses se o Estado colapsasse, e que não é disso inconsciente.

Diz o JPP que o PS só perde ao deixar correr como plausível um qualquer acordo com o BE, e tem razão ao dizê-lo, só que deveria dizer também que o BE perderia muito mais nesse quadro. O BE não é um PP invertido, P.Portas eventualmente ganha apoios por conseguir levar o PSD para a direita e a cumprir os seus desígnios, pois dirige uma confraria de interesses práticos, mas Louçã perderia metade dos votos se comprometesse a sua liberdade crítica num acordo com o PS, pois representa uma aglutinação de escapes teóricos, mas cujos apoiantes sabem muito bem que com um governo PS-BE adeus concertos de elites no C.C.B, adeus almoços à conta do Instituto, adeus esperadas mais-valias bolsistas aquando da retoma.

O BE tem ganho com o esvaziamento do centro político, naturalmente, mas não manteria os ganhos colando-se ao centro quando o harmónio inverter o movimento, mas sim reservando-se o papel de referencial e contraponto duma esquerda que sabe que no canto europeu de hoje não existem nem ferramentas nem matéria prima para um programa de esquerda. Quem pensa que existem são as Ana Gomes, não os Louçãs. Nesta resignação ao possível, mas sempre acenando à utopia, até acharemos poético a devolução da Bruxelas de um 1º Ministro (Vitorino) novinho em folha em troca do velho que levou, pode crer.
"

(L.Corte Real)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SIRI USTVED, PHILIP ROTH E NAGUIB MAHFUZ E OS "ESTADOS DE ALMA"

"De tanto ler sobre a boa literatura americana contemporânea, decidi que teria de me obrigar a lê-la. Tinha um romance comprado há uns meses com um lindo título “What I loved” de Siri Ustved, escritora norueguesa há muito nos EUA e a conhecida mulher de Paul Auster. Tenho uma forma (não temos todos?) muito subjectiva de escolher e comprar livros, não a saberia explicar, mas o que é um facto é que, como já me vou conhecendo um pouco, não me costumo enganar e a grande parte das vezes fico satisfeita com o que compro, querendo repetir a dose. Comecei pelo “What I loved” continuei com o “The Human Stain” de Philip Roth, mas pelo meio quis respirar do “meu” ar e li um pequeno livro de Naguib Mahfuz (já vi escrito Mahfouz!) “As Noites das Mil e Uma Noites” (da edição “Prémio Nobel” barata e de capa dura que a FNAC tem, só não percebi que tipo de tradução era, fiquei com a sensação que era tradução da versão espanhola!). Foi este último que referi, que me levou aos estados de alma. Não se trata de um romance: é mais uma sequência com alguma lógica de pequenas histórias ou contos passados no “mundo real” (?) e fora dos palácios onde Sherazade vive (feliz para sempre?) depois de ter escapado da morte. Encontramos algumas personagens que já conhecíamos tipo Aladino, Sindbad, e também génios do bem e génios do mal que manobram as personagens, criam conflito ou resolvem problemas; o poder do dinheiro e a corrupção; o amor e o desej; e a todo o momento nos confrontamos com o bem e como mal (só num pequeno e subtil momento, que se relaciona com a própria Sherazade, senti a hesitação do narrador em relação ao bem ou mal e a essa nitidez de fronteiras!). Com este livro respira-se um ar fresco e de simplicidade (...) existencial e psicológica que me encantou. E que em tudo contrasta com o ar mais turvo que se respira nos dois romances americanos que referi. São, no entanto, dois bons romances e nunca poderia dizer o contrário."

SIRI USTVED

"O de Siri Ustved tem uma bela linguagem e é escrito com muita sensibilidade, alguma nostalgia que vai aumentando à medida que o romance se desenvolve e existe nele uma interessante teia de personagens com interligações ora subtis, ora bizarras, ora insólitas, ora profundas, entre elas; e este elemento, esta teia, é para mim a grande força do romance. O romance de Philip Roth está muitíssimo bem escrito, tem uma linguagem forte, original e cuidada. Tenho, no entanto, pouca simpatia pela linguagem excessivamente crua, e as ocasionais páginas cheias de “four letters words” ou descrições hiper-realistas da guerra no Vietnam são passadas a velocidade turbo com uma leitura diagonal que faria inveja a muitos! (Dantes nunca fazia isto, hoje já não tenho paciência para, quando posso escolher, fazer o que não gosto ou o que não quero). O tipo de narrador escolhido, uma personagem menor, mas pivot importante do enredo fez-me lembrar o “Quiet American” de Graham Green. Dito isto: foi com verdadeiro prazer que li este livro, não só pela qualidade da escrita mas também pelas ideias e sentimentos veiculados de forma curiosa, intensa e viva, e nalguns momentos que considerei muito belos senti o impulso de parar e reler a frase ou o parágrafo (sou, normalmente, leitora lenta que gosta de apreciar o que lê, e este meu impulso é o meu melhor cumprimento). Mas (pois é: é agora que entra o “mas”) foi um prazer maioritariamente cerebral, não tendo existido uma completa entrega mútua, embora em dois ou três momentos a faísca tenha surgido. A total adesão afectiva parece portanto ser fundamental para que um romance se torne n’ “O” romance!"

PHILIP ROTH e NAGUIB MAHFUZ

"A explicação que hoje tenho para dar (talvez descubra outras) tem uma dimensão quase infantil, e é o que me afasta afectivamente, e diria quase sistematicamente, desta literatura. Trata-se da identificação e/ou simpatia pelo herói/heroína, ou pelas personagens de uma forma geral, pela parte do leitor – eu. No livro de Naguib Mahfuz há essa adesão (no bom ou mau sentido que será, então, a repulsa) automática e instantânea às personagens, e o mesmo se passou, talvez não tão automaticamente, mas em crescendo, aquando da leitura das atormentadas personagens da literatura russa com personagens em que nós nos revemos. As personagens desta moderna literatura americana não me provocam muito, nem simpatia nem repulsa. Sinto-as um pouco longe, como se não fossem feitas da “mesma massa”, como se tivessem uma alma diferente, num mundo que não é o meu, com complicados problemas existenciais (aos quais me sinto alheia) criados pelos excessos que referi, e rapidamente suprimidos e anestesiados pelas terapias, pelos Xanax, pelos Viagra. Parece que os problemas são problemas que se consomem como outro qualquer bem que se compra no supermercado para consumo imediato ou a prestações, tudo dentro do espírito consumista da visão do mundo do outro lado do Atlântico. Adiro mais facilmente a um “génio” do mal que, sentado na borda de um lago, conspira sobre a melhor maneira de tornar a vida de duas simpáticas pessoas infernais, do que a um homem de 71 anos que se fez passar por branco sendo negro, e que tem problemas por isso e por ter um caso (digo um caso não digo amor ou paixão) com uma mulher mais nova com um passado marcado pela tragédia e que é analfabeta funcional. Essa dimensão afectiva de adesão às personagens, como as crianças que se revêem nos heróis, nas princesas, falha entre mim leitora e estes romances por pouca empatia para com as personagens."

"Neste livro que referi de Naguib Mahfuz os estados de alma ainda não tinham sido inventados. Nos romances russos os estados de alma parecem ter razão de existir, ou melhor, a existência e a razão de existir parecem chamar os estados de alma, há uma forte dimensão de “tragédia” de fado, de inevitabilidade. Como já referi, nos romances americanos fica sempre aquela impressão de maior superficialidade, de problemas criados por quem tudo tem, da ausência da inevitabilidade do fado; nestes romances fica a sensação que tudo está nas mãos das personagens, nas suas opções. E talvez seja esse conjunto de circunstâncias que a minha adesão simpatia/repulsa não acontece da mesma forma. Mas lerei mais americanos e conviverei com os seus “inventados” estados de alma. Daqui a uns tempos!"

(JPC)

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BIBLIOFILIA

Esta "bibliofilia" ficou esquecida e incompleta lá no limbo em baixo.


Simon Blackburn, Lust, Oxford University Press, 2004







Escrevi sobre esta Luxúria na Sábado desta semana e, logo que a revista for ela própria para o limbo, na próxima semana, colocarei aqui o texto.




Bertrand Galimard Flavigny, Être Bibliophile - Petit Guide Pratique, Anglet, Atlantica, 2004


Para vos dar o "sabor" deste livro, veja-se a citação com que ele abre:

Le bibliophile est un mammifére bipède et bigame, habitant généralement les villes et parfois la campagne, surtout l’été. Il ya deux espèces, celui qui ne lit pas , celui qui lit.” (Alfred Dinar, La fortune des livres, 1939)

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EARLY MORNING BLOGS 249

"Speech"—is a prank of Parliament

"Speech"—is a prank of Parliament—
"Tears"—is a trick of the nerve—
But the Heart with the heaviest freight on—
Doesn't—always—move—


(Emily Dickinson)

*

Bom dia!

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© José Pacheco Pereira
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