ABRUPTO

29.11.03


TEORIA DOS TELEMÓVEIS

Para os que ainda se recordam de uma série de notas publicadas no Abrupto há uns meses, aqui fica a indicação de um interessante ensaio, encomendado pela Motorola, sobre os efeitos sociais dos telemóveis.

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IMAGEM

de ontem era a de Reinhart, retratando-se, numa paisagem italiana. Data de 1835 e está num museu em Copenhaga.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

Sobre a TRISTEZA SUBTERRÂNEA

O que encontrou à sua volta no metro, essa sensação angustiante de tristeza nos rostos, nos gestos, na postura, senti-a eu quando fui (temporariamente) da minha Coimbra para os subúrbios de Lisboa, há alguns anos atrás. Em Coimbra os transportes públicos eram e são locais de encontros familiares e habituais. Ouvem-se conversas como se estivéssemos num café, há agitação e risos, por vezes também discussões e os sempre pitorescos lamentos das idosas, que ao mote "Olá, boa tarde, como está?", desenvolvem listas de doenças e queixumes que só terminam na paragem em que desce o ouvinte ou a queixosa. Mas naquelas linhas de comboios suburbanos que conduziam a Lisboa, sobretudo na linha de Sintra, sentava-me a olhar os rostos e os gestos dos passageiros e sentia essa tristeza a inundar a carruagem e a sufocar. A viagem tornava-se longa e as pessoas que se destacavam não o faziam pelo volume da voz ou pela originalidade dos comentários, mas pelo silêncio e pelo vazio que lhes encontrava no olhar. Não exagero, foi o que senti. A verdade é que, nesses momentos, me senti sempre deslocado e com saudades de Coimbra. Hoje, ao ler o seu comentário, recordei-me.

(Paulo Agostinho)

Sobre O ESCRITOR COMO FUNCIONÁRIO PÚBLICO

Sou por definição contra a ideia do subsídio seja para o que for (provavelmente por ter sido agrónoma e ver muito dinheiro desperdiçado) ideia essa que acho que devia ser abandonada por um algo semelhante a um empréstimo, em que deveria uma parte ficar com o projecto que o solicitou e a outra parte, após o fim do projecto retornar ao Estado. Agora subsídios, não, porque sempre me pareceu que criam uma ideia falsa de que são um direito para quem os recebe, não se subentendendo as obrigações reais que estiveram subjacentes ao seu pedido. Pelo menos por cá, é sempre entendido como “olha, se funcionar funcionou senão, paciência”. Sabendo também dos problemas que há na fiscalização, ainda mais me convenço que quem utiliza convenientemente o dinheiro que recebe normalmente não o recebe não quantidade que devia. Se não fosse esse o caso, nesta pequena dezena e um pouco de anos, a nossa agricultura tinha evoluido um pouco mais. O subsídio vai contra o espírito empreendedor.

No caso dos escritores, e sempre me pareceu do teatro e cinema, nunca percebi como é feita uma análise objectiva e concreta num meio cujo resultado me parece sempre tão subjectivo. Está em muito dependente dos gostos de cada um de nós leitores. Actualmente não tanto porque o marketing consegue alterar-nos os gostos e os sabores.”


(Elisa Resina)

Todos os subsídios e bolsas pressupõem uma avaliação feita sobre o trabalho de quem é beneficiário. As bolsas têm um papel a desempenhar, assim como os subsídios, o que deve existir são regras claras e o objectivo da sua concessão estar delineado à partida, assim como as obrigações a que o beneficiário se sujeita.

A escrita ainda é das actividades criadores que se consegue fazer com menores meios, no limite, basta papel e caneta, já outras artes necessitam de mais investimento tecnológico. No caso da fotografia, há sempre alguns gastos que é necessário fazer à partida, embora mesmo com uma máquina muito simples se consigam produzir excelentes fotografias (não no sentido estritamente técnico do termo), tal como os trabalhos de Bernard Plossu demonstram.

No entanto, um dos problemas que se põe tem a ver com a questão da divulgação dos trabalhos uma vez a fase da criação estar terminada. Aí penso que faz falta alguma habituação do público a encarar as artes de uma forma mais natural e não sentirem tanta resistência à compra de obras (obras de artistas reconhecidos e cotados serão sempre relativamente elevadas) e a criarem dessa forma alguma revitalização de um mercado muito inóspito para quem não é conhecido.”



(Mário Filipe Pires)

PORQUE É QUE SE ESCREVE?

Penso que há:

1. Quem escreva por que tem necessidade de escrever.

2. Quem escreva porque necessita de ser lido.

3. Quem escreva porque tem necessidade de ser conhecido.

Podemos até ter diversas combinações possíveis de lógica entre 1, 2,
3 usando com conjunções e disjunções:

1 /\ 2 /\ 3 (escreve por necessidade de escrever E escreve por necessidade de ser lido E escreve por necessidade de ser conhecido)
1 \/ 2 /\ 3 (escreve por necessidade de escrever OU escreve por necessidade de ser lido E escreve por necessidade de ser conhecido)
1 \/ 2 \/ 3 (escreve por necessidade de escrever OU escreve por
necessidade de ser lido OU escreve por necessidade de ser conhecido)

etc etc etc :-)

Atribuindo valores de Verdadeiro ou Falso a 1, 2, e 3, podemos obter resultados sobre cada uma das counjunçoes/disjunções :-)”


(Nuno Figueiredo)

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REACCIONÁRIO

Poucas coisas na blogosfera são mais reaccionárias que esta nota do Barnabé, intitulada “80 anos para isto”.

REACCIONÁRIO 2

É reaccionária porque esta nota só se pode fazer porque Odete Santos é mulher, não tem a beleza, nem das revistas, nem das figuras austeras das Pasionarias diversas do cânone revolucionário, tem uma personalidade muito própria, que não me cabe a mim, nem a ninguém julgar, e viola as regras tidas como sendo de conveniência. Este tipo de nota nunca seria feita sobre um homem.

Oitenta anos contados a partir de quê? Da revolução russa?

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28.11.03



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FRAGILIDADES

das nossas infra-estruturas principais são evidentes. A principal auto-estrada do país, de Lisboa ao Porto, fica horas bloqueada, com filas de dezenas de quilómetros, quando ocorre qualquer acidente, mesmo de pequena dimensão. Entre ontem e hoje, bloqueamentos sucessivos tornaram viajar entre as duas principais cidades portuguesas num pesadelo. O tempo que demora a resolver qualquer acidente não é normal num país europeu. Tem que haver incúria.

O mesmo se passa com os atrasos de comboios rápidos, nos quais os passageiros pagam mais caro para chegar mais depressa. No início da semana, um destes comboios entre o Porto e Lisboa ficou parado durante seis horas com os passageiros dentro, sem ar condicionado e sem poderem sair. Seis horas são mais que suficiente para que seja possível encontrar alternativas. Tem que haver incúria.

Nestes casos, no do comboio em particular, devia haver indemnizações aos passageiros.

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IMAGEM

sobre imagem. A de ontem era a do juramento dos Batavios de Rembrandt, recordação de um episódio da revolta ocorrida na Germania Inferior em 69-70. O homem que conduz a jura não tem um olho e é Julius Civilis, um dos dirigentes da revolta. O chapéu que Rembrandt lhe colocou ainda tapa um cabelo normal, mas depois da jura pintou o cabelo de vermelho e deixou-o crescer. Só deveria cortá-lo quando fosse vitorioso. Nunca foi.
Esta é outra representação imaginária de Julius Civilis.

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27.11.03


IMAGEM

de ontem era parte de uma fotografia de Richard Long, de um círculo de pedras nos Andes. Nada mais.

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HABRÁNSE TODOS QUEDADO EN EL CAMINO?


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EARLY MORNING BLOGS 86

As manhãs são agora “machadianas”, por puro prazer destas palavras que se bastam completamente:

Sí, cada uno y todos sobre la tierra iguales:
el ómnibus que arrastran dos pencos matalones,
por el camino, a tumbos, hacia las estaciones,
el ómnibus completo de viajeros banales,
y en medio un hombre mudo, hipocondríaco, austero,
a quien se cuentan cosas y a quien se ofrece vino...
Y allá, cuando se llegue, ¿descenderá un viajero
no más? ¿O habránse todos quedado en el camino?”


António Machado

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O ESCRITOR COMO FUNCIONÁRIO PÚBLICO

O ideal de muitos escritores em Portugal é serem funcionários públicos. Muitos já o são, usando esquemas pouco conhecidos e pouco escrutinados em vários ministérios (como o da educação) e em certas autarquias, pelos quais recebem dinheiro público por serem “escritores”, praticamente sem contrapartidas. O mais perverso destes mecanismos é o das “bolsas para escritores” em versão junior e sénior, novo, “revelação”, menos novo e “consagrado”. De há muito que me pronuncio contra este tipo de subsídios, que, como todos os subsídios (e este é relativamente novo), gera a habitual dependência.

Não vale a pena repetir o que já muitas vezes disse e escrevi, apenas registar a defesa inflamada de Luísa Costa Gomes , hoje no Público, destes subsídios e desta dependência:

"O Estado deve apoiar, encorajar, acarinhar, alimentar, tendo em conta a situação miserável da criação em Portugal e a agressividade das indústrias da cultura. Há muito pouca criação. O Estado deve ter uma iniciativa de apoio."

Todos os argumentos são típicos do raciocínio burocrático e estão descritos nas várias leis que regulam a burocracia como a de Parkinson. Primeiro, o argumento de autoridade, da indiscutibilidade do valor da cultura – ai de quem for contra os escritores subsidiados, só pode ser por "ressentimento anti-intelectualista". Depois, a ameaça das consequências, na forma conhecida: quantas páginas únicas da nossa literatura são perdidas por que o estado não as subsidiou?

"Se a Maria Velho da Costa, a nossa maior escritora viva, fosse pedir apoio ao IPLB era um concerto de vozes nos jornais! Isto ofende-me! Há um fervor contra os escritores que é estranho para mim. E isto não é espírito corporativo. Aquilo que a Maria Velho da Costa escreve, mais ninguém escreve. Se ela não escrever, aquilo perde-se."

Depois, tudo é sempre pouco: defende que se "deve aumentar-se o apoio à criação, o número e as categorias" das bolsas. "Doze é pouco. Quando os apoios são exíguos, as razões administrativas começam a impor-se."

Depois, a descrição da “carreira” dos escritores sem hierarquia nem senioridade “adquirida”:

"Os escritores em Portugal parece que estão sempre a começar carreira, nada está adquirido.

E, por fim, esta frase fabulosa para um(a) criador(a) : sem dinheiro “acabou-se”, não se escreve

Se o Estado não dá, acabou-se. Não há alternativas, ao contrário do que acontece em outros países."


Olhe que sim, olhe que sim. Há outras alternativas: escrever, mesmo com dificuldades, como milhares de escritores fizeram, ao mesmo tempo que trabalhavam, viver pior para ter tempo para escrever e confiar no que se faz, arranjar um mecenas (também existem), ganhar no mercado as condições de escrita que se desejam (não, não é preciso fazer literatura como a da Margarida Rebelo Pinto, para se ganhar algum dinheiro a escrever e não é desonra nenhuma), se o que se escreve não tem público, aceitar normalmente que é assim e continuar a escrever, nem que seja num blogue que é grátis. Em todos os casos, ser mais fiel à pulsão de escrever do que à “carreira” de escritor.

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26.11.03


CÍRCULO DE COISA NENHUMA


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VULCÕES, PLANETAS, NADA

O Piton da le Fournaise ameaça, mas não passa da ameaça. Abriu ontem pela primeira vez desde o dia em que lá estive, embora não se possa aceder às crateras. Continuam os tremores de terra e o inchaço do vulcão, mas de erupção, nada.

Saturno é suposto estar num excelente mês de observação obrigatória, mas, com este tempo, nada.

Nada de nada.

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PRESIDÊNCIA ITALIANA E GOSTO
(OU PORQUE É ASSIM A HISTÓRIA OU PORQUE É ASSIM A ITÁLIA)







Há uma coisa que ninguém pode negar à Presidência italiana da UE: as suas realizações culturais estão muito acima do que é habitual. No Parlamento Europeu, onde se dependura a pior pintura do mundo, os italianos trouxeram uma melhoria considerável. À entrada está um cavalo gigantesco de Mimmo Paladino, mais conhecido como o “cavalo de Berlusconi”, e, um pouco por todo o lado, arte contemporânea que vale a pena ver.

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IMAGEM

de ontem era daquelas que os amadores de histórias aos quadradinhos identificam num segundo. Foi o que fez José Carlos Santos, uma das pessoas a que o Abrupto deve mais pelo seu animus corrigendi indefectível. Cito, agradecendo, a sua carta:

Visto que é extraordinariamente raro eu descobrir qual é a origem das imagens que coloca no Abrupto, é sempre um grande prazer para mim que ocorra uma dessas excepções. No caso da imagem «FUTURO PRESENTE» o prazer é duplo, por ser retirada daquela que considero ser uma das obras-primas da Banda Desenhada: Le Piège Diabolique, de Edgar Pierre Jacobs. A minha opinião sobre esta obra está condicionada por uma paixão de longa data por histórias sobre viagens no tempo. Sou da opinião de que Le Piège Diabolique é uma das duas melhores histórias jamais escritas sobre o assunto sendo a outra, naturalmente, The Time Machine, de H. G. Wells.

Um dia voltaremos a este assunto da máquina do tempo. O Abrupto sempre se interessou pelo tempo, pela memória, pelo esquecimento, pela história, pelo MyLifeBits, pelos objectos em extinção, pela finitude e a permanência. Acho que, se se ler bem a maioria dos textos aqui publicados, eles são essencialmente sobre esses temas e à volta disso.

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EARLY MORNING BLOGS 85

Eu sei que é tarde, longe da “early morning”. Mas não queria deixar de dar a quem mo pediu um poema sobre a “desconocida llave” da intenção. De Antonio Machado, o poema:

Cantad conmigo a coro: Saber, nada sabemos,
de arcano mar venimos, a ignota mar iremos...
Y entre los dos misterios está el enigma grave;
tres arcas cierra una desconocida llave.
La luz nada ilumina y el sabio nada enseña.
¿Qué dice la palabra? ¿Qué el agua de la peña?”


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BIBLIOFILIA 2

Revistas lidas.

Excepcionalmente :




O número 100 dos Yale French Studies, dedicado às “guerras culturais” entre a França e os EUA, não podia ser mais oportuno, até por já ter saído há uns três anos atrás e ter sido escrito fora do contexto iraquiano. (Pode-se obter a revista-livro através do Bookchecker, o serviço de comparação de preços entre livrarias em linha.) No prefácio e no artigo de Christie Mcdonald, “Changing Stakes: Pornography. Privacy and the Perils of Democracy”, mostra-se como se cavou fundo a diferença, a propósito de eventos como a guerra do Vietnam ou o caso Lewinsky.


Regularmente:





A Creative Nonfiction sobre os problemas da escrita criativa em temas não ficcionais, um género tipicamente americano, tendo como patrono Truman Capote. Existe um endereço para a revista que habitualmente está à venda em Lisboa, ou na tabacaria dos Restauradores ao lado do elevador, ou na livraria Thema no Centro Colombo.

(Continua)

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COMISSÃO VERSUS CONSELHO

O outro aspecto negativo da posição portuguesa sobre o défice franco-alemão é o de ser contraditória com toda a nossa tradição de defesa do fortalecimento da Comissão face ao Conselho. Esta é, aliás, uma das posições negociais de Portugal no debate sobre a Constituição europeia, a necessidade de uma Comissão forte que contrarie os interesses dos grandes países europeus e os seus egoísmos nacionais. A Comissão, obrigada aos tratados, sofre com esta decisão dos Ministros das Finanças, uma desautorização completa e grave do ponto de vista institucional.

Se é verdade que alguém (alemão neste caso) disse que não havia nenhum problema em diminuir o défice alemão cortando nas transferências para os fundos estruturais, este é um perigoso revelador de como estão as coisas na UE e lança uma séria suspeita sobre os motivos do entusiasmo franco-alemão sobre a Constituição europeia.

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25.11.03


DÉFICE

A questão do défice é uma daquelas em que o governo não pode falhar. É o principal elemento da legitimidade política da governação. É por isso que é incompreensível o apoio português à violação do Pacto de Estabilidade pela Alemanha e a França. É um voto de todas as ambiguidades: sobre o nosso défice, sobre as relações de força na EU, sobre o papel do euro, sobre a Europa do futuro, sobre o valor dos acordos e tratados.

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FUTURO PRESENTE


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EARLY MORNING BLOGS 84

Na confusão matinal, à minha volta, abre o Salon de Coiffure Yucef , o Snack Bar Pacha, a Typographie Hellenique, o Restaurante Coimbra, o Salon Iberico, o restaurante Kilimanjaro, a Boucherie Islamique, o café da Squadra Azurra e o café do Bom Porto. Tomara eu que a Europa seja capaz de ter tudo isto, de "engolir" num melting pot genuíno - que faça europeus prósperos estes europeus do Sul , estes árabes do Norte e estes congoleses "belgas", sem os deixar perder o seu caftan, os seus gritos napolitanos, aquela peculiar loquacidade turca, ou o ar absolutamente português do empregado num restaurante italiano que me convida para o restaurante como se fosse o dono dele, ou a alegria um pouco desengonçada das jovens congolesas de cabelos louros em tranças feitas no Salon Kinshasa. Onde é que eu podia ver numa tabacaria um jornal parecido com o Crime com grandes títulos "Kabila demande des excuses a ..."?

Mas, quando subo à minha casa belga, no meio deste maelstrom, encontro uma novidade: a minha senhoria resolveu instalar portas blindadas nos apartamentos. Cada porta deve ter custado milhares de euros, mas uma brigada de mártires já pode disparar umas rajadas de metralhadora, ou até um rocket a uma distância conveniente, que nem os cãezinhos de porcelana se partem. Que eu saiba, para além dos protestos da porteira, porque lhe sujam a porta (blindada) da rua, nunca houve um assalto a este prédio. Agora, vivo num pequeno cofre forte, suspeito que à custa do medo do tabacaria Scutari e da Taberna Mirandesa.

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24.11.03


TRISTEZA SUBTERRÂNEA

O metro de Bruxelas, ou se calhar apenas a minha linha, a 55 Bordet-Silence, é de uma infinita tristeza. Não consigo encontrar uma pessoa nas carruagens que tenha um ar, já não digo feliz, mas normal. Parece que uma parte de Bruxelas foi ali soterrada em vida , numa espécie de círculo do Inferno e condenada a andar eternamente às voltas na linha 55.

A linha não é percorrida pelo metro normal mas sim por um tramway, um eléctrico com duas ou três carruagens, bastante mais pequeno do que o túnel por onde passa. Por isso, não há aquela obscuridade imediata nas janelas, mas vê-se a parede suja, coberta de lixo e pó, canos e linhas, cortada ocasionalmente por um veio de humidade infiltrada. As pessoas olham para as janelas, olham para fora, para aquele fora. Ainda deve deprimir mais.

Olho para a carruagem: gente pobre, gente evidentemente pobre, emigrantes magrebinos, velhos trabalhadores marroquinos com o ar duro e esculpido, jaquetas de napa preta, raparigas muçulmanas, com ar infeliz, invariavelmente vestidas de escuro ou tons de cinzento, véu, camisola e calças, sapatos grosseiros (poucas coisas dizem mais da pobreza que os sapatos), jovens negros e um ou outro rasta, toda a gente mais embrulhada na roupa do que vestida, uma jovem coreana grávida, agarrada à sua bolsa vermelha, imobilizada no seu assento de um, velhas senhoras dignas na sua loucura mansa. Silêncio. Mesmo as crianças que sobem, empurradas pelas mães, para estas carruagens incómodas ficam imediatamente silenciosas. Toda a gente traz sacos de plástico, toda a gente se agarra ao seu saco de plástico, como se encontrasse nele um equilíbrio que não há em lado nenhum. Silêncio, só se ouvem as rodas nas junções dos carris.

Todos parecem cansados, todos devem estar cansados, porque esta linha é trabalho-casa, ou trabalho-compras-casa. Saem muitos na Gare du Midi, outros em Rogier para as compras, nos paupérrimos centros comerciais locais, comparados com os luxuosos portugueses. Mesmo aí o subterrâneo prolonga-se nos bares e pequenos restaurantes enterrados ao nível da estação de metro. Como é possível que alguém queira aí estar, num corredor sem luz nem ar fresco?

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BIBLIOFILIA

Não conhecia a Book and Magazine Collector antes de a ter começado a encontrar na Waterstone’s de Bruxelas. Pelo número de série (o actual é o 237) deve ser antiga e antiga é certamente pelo aspecto e grafismo. É uma revista que usa tudo o que não se usa, formato pequeno, passando desapercebida e as capas são de muito mau gosto
Não tem sofisticação nenhuma – é para coleccionadores e o que está lá serve exclusivamente esse propósito e por isso é muito útil. Livros à venda, livros à compra, pequenos artigos sobre um autor e as suas edições, capas e preços, leilões e colecções, uma enorme quantidade de informação, alguma muito inesperada. Entre a inesperada está o valor elevadíssimo de algumas edições modernas, por exemplo, a primeira edição de 1997 de J. K. Rowling, Harry Potter and the Philosopher’s Stone atingiu 19.480 libras, mais do que o valor previsto num leilão para a primeira edição do Ulysses de Joyce, a edição de Paris, que só teve 750 exemplares, avaliado entre 10.000 e 15.000.

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SELOS E IMPERFEIÇÃO






Bateu todos os recordes a venda, num leilão da colecção de selos La Fayette, da célebre quadra de selos de 1 franco "vermillon vif" com um "tête-bêche", o termo filatélico para designar um selo invertido por erro. Os filatelistas têm esta particularidade que partilham com o Islão: dão valor à imperfeição humana como sinal de modéstia face à perfeição divina. Como o azulejo, propositadamente mal colocado pelo fiel pedreiro muçulmano, o "tête-bêche" da parede ou do chão de azulejo, também os filatelistas amam nos selos as imperfeições.

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DE NOVO

em conformidade com a natureza humana, que não foi feita para voar, regressarei aos livros, sob um céu bruxelense azul. Logo haverá bibliofilia.

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23.11.03


IMAGENS

Ilustrando teses em série, imagens em série. De cima para baixo:

“Les marchands de craie” do barão belga Léon Frederic, pintado em 1882. Os de cima olham para os de baixo. Os de baixo são muitos.

A caveira é do autor da primeira imagem que publiquei no Abrupto: Gijbrechts, feito na segunda metade do século XVII, uma natureza morta com um trompe l’oeil ilustrando a Vanitas.

Os negros são de Rubens, os pássaros exóticos de Frans Snyder e é suposto estarem a dar um concerto.

A última é uma foto de uma “aktion” , a propósito dos “48 retratos” de homens, de Richter e ocorreu no Museu Ludwig em Colónia no dia 8 de Agosto de 1990. O cartaz, que Annete Frick e Gaby Kutz empunhavam, dizia "Die geistigen Impulse der 90-er Jahre werden von den Frauen ausgehen" (“Os impulsos intelectuais dos anos 90 vão ser inventados pelas mulheres”.) Na revista electrónica dedicada à obra de Joseph Beuys, Athena, há uma referência a este protesto.

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EARLY MORNING BLOG 83, SOBRE A FELICIDADE PELO DICIONÁRIO

Jornais, livros, pela manhã tudo bem . É o meu “I love the smell of napalm in the morning”. Mas para confirmar a minha natureza taciturna e profundamente a-irónica, o “smell of napalm” sobe umas octanas quando se trata de um livro erudito, uma obra de referência, um dicionário.

Esta manhã tenho essa sorte raríssima: o Dicionário de Educadores Portugueses dirigido por António Nóvoa e editado pela Asa. Ninguém lê um dicionário de fio a pavio, mas eu comecei por procurar os meus professores no Liceu Alexandre Herculano e fiquei logo pelo meu professor de Filosofia, Cruz Malpique, uma personagem muito especial, inesquecível para gerações sucessivas de estudantes. E continuei por figuras desse mundo perdido que eram os liceus portugueses, locais de elite para a elite, mas onde trabalhavam um conjunto de intelectuais, artistas e educadores, que marcaram invisivelmente Portugal, mais do que se pensa. Um dia que se faça um trabalho sobre a nossa memória selectiva, ver-se-á como a memória escolar, da escola primária, do liceu, e da escola técnica, tem um peso nas gerações até à minha e depois vai-se esfumando. A democratização das escolas, o ensino de massas tornou a escola uma experiência colectiva, penosa e indiferenciada. Dela se tem memórias, memórias muitas vezes traumáticas, mas essas memórias perdem individuação, - onde estão os professores que ainda são personae? – e tornam-se parte de um magma colectivo. Se há coisa que a formação dos professores tem tentado esmagar debaixo da pedagogia é exactamente essa qualidade de personagem, de pessoalidade, do professor substitído por "métodos", mecânicas de ensinar, estratégias de sedução .

O Dicionário é um grande trabalho, mostrando os indivíduos por detrás dessa máquina de reprodução social, uma espécie de requiem pelo ensino antes da massificação. Se quisermos fazer um mesmo dicionário, centrado nos dias de hoje, nos últimos trinta anos, quantos destes “educadores” seriam professores, professores a sério, e quantos encontraríamos apenas como burocratas no aparelho do Ministério? Ao se ler as biografias percebe-se a imediata diferença.

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© José Pacheco Pereira
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