ABRUPTO

18.10.03


IMAGEM JÁ ANTIGA

do dia 12, e que não foi identificada, é de Anton Romako, foi pintada em 1877 e está em Viena.

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SEQUÊNCIA


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HITLER – MEIN KAMPF (A MINHA LUTA)

Vincent Bengelsdorff pedia a opinião sobre a proibição (ou não) de livros como o Mein Kampf, de Hitler. É um debate interessante, para o qual, penso, não são necessários, neste caso, muitos argumentos: não tem sentido a proibição de qualquer livro por razões políticas, muito menos de uma obra com o significado histórico da de Hitler. Ninguém fica nazi por ler o Mein Kampf, e, mesmo que ficasse, não era argumento.

Não é difícil encontrar uma longa lista de livros e panfletos da literatura radical abrangendo tradições políticas tão diferentes como o anarquismo, o comunismo, o maoísmo, o trotsquismo, o nacionalismo, o fascismo, o pan-arabismo, o sionismo, o ecologismo radical, nos quais existem apelos à violência de todo o tipo, de raça, de classe, social, nacional, religiosa, etc.

Os únicos livros que, no limite da excepcionalidade quase absoluta, poderia compreender que fossem proibidos, e apenas por decisão judicial, são aqueles que contenham graves calúnias ou ofensas ao bom-nome de uma pessoa, ou constituam uma violação do seu direito à intimidade (sempre), ou privacidade (no caso de não existir um forte e inequívoco interesse público nessa violação). Refiro esta distinção, que me parece importante, entre intimidade e privacidade, porque, nas discussões jornalísticas, é comum fazer-se esta confusão.

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LISTA DO OBSERVER – LIVROS QUE NÃO CONHECIA

e que foram lidos pelos leitores do Abrupto:

“Nele refere uma listagem dos melhores cem, e menciona os que de todo desconhecia. Entre eles, a obra de John Buchan, que serviu de sustentação a Hitchcock para uma das suas obras mais conhecidas, The thirty-nine Steps. "

(Victor Peres)

Achei interessante a lista de livros publicada, dos quais também todos desconheço. Curiosamente o The Thirty-Nine Steps li juntamente com minha filha quando ela estava no 9º. ano. “

(Paula Canaveira)

Leia o Riddle of the Sands (publicado pela Penguin). É um romance de aventuras de dois jovens ingleses, passado no Mar Báltico, entre os bancos de areia da costa alemã, escrito em 1903, antecipando já a 1ª guerra mundial, com algum humor, prezando valores como a honra e dignidade pessoais, ingénuo para a nossa sofisticação de violência e sexo, tem um gosto saudoso a coisa do Cavaleiro Andante.
O Oscar e Lucinda(*) tem graça, passa-se na Austrália com um par de jogadores viciados que decidem construir uma igreja de vidro numa zona inóspita, mas não vale, realmente a pena.
Os Thirty Nine Steps deram origem a 2 ou 3 filmes, o primeiro dos quais nos anos 30, com o Robert Donat.É dos primeiros romances de espionagem que põem em cena um inocente apanhado nas malhas de uma organização tenebrosa, perseguido por todos, polícia e bandidos. Tem uma imensa frescura e o picante do herói estar algemado a uma menina bonita uma boa parte do tempo. De antipático apenas a extrema xenofobia e o patriotismo delirante do autor, ao pé de quem o Kipling é um moderado amador. Defeitos que, no entanto, não transparecem neste livro, ao contrário doutros do Buchan, que os ingleses conservadores adoram.”


(José Vaz de Mascarenhas)


"O vento nos salgueiros" ou Wind in the Willows é um livro para crianças muito bem escrito e sonhador. Não como os maus livros para crianças que por serem tão chatos para os adultos passam para as crianças. Recomendável mesmo para os mais "graudos".
Aqui vão alguns sites onde pode encontar livros gratis - inlusivé o fantástico "vento nos salgueiros".

1) Projecto gutemberg - lá pode encontar o vento nos salgueiros


(Filipe Charters de Azevedo)


Sobre as "leituras de avião" e a lista dos 100 melhores romances do Observer, ewscrevo-lhe só para dizer que considero Oscar and Lucinda, de Peter Carey, um excelente livro. Aliás ganhou o Booker Prize de 1988, o que para mim quer dizer qualquer coisa. Como actualmente a maior parte do que leio é de matriz anglo-saxónica tenho o Booker (agora parece que se chama Man Booker) na conta de um prémio muito importante e pessoalmente sigo-o com mais atenção que o Nobel. Curiosamente Coetzee, embora incluído na longlist do Booker deste ano, não ficou na shortlist (tal como Martin Amis, mais uma vez) e penso que merecidamente, porque Elizabeth Costello é decepcionante.

Luis Rebolo

(*) Nelson de Matos informa-me que Oscar e Lucinda, de Peter Carey (Booker Prize de 1988), está publicado em Portugal. Assim como os seus outros romances: Jack Maggs e A Verdadeira História do Bando de Ned Kelly (Booker Prize de 2001) na Dom Quixote.



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RECORDAÇÃO DE ASHKABAD


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VALOR

Dois produtos que circulam nos mercados desta zona (Irão, Turquia, Arménia, Azerbeijão), como produtos de alto valor: caviar e açafrão. Nenhum chega aos mercados por via legal, mas através de circuitos de contrabando, enlatados com rótulos falsos, sem datas, misturados com outras variedades menos caras. Mas valem ouro.

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17.10.03


CORREIO, IMAGENS, SECÇÕES HABITUAIS,

o Abrupto de todos os dias não pode ser mantido enquanto eu andar por onde ando. Algumas melhorias tecnológicas no meu hardware de viagem permitem-me ocasionalmente, sem certezas, escrever e enviar algumas notas, mesmo do fundo do Taklamakan. Mas não posso reler e corrigir o que escrevo, que, para seguir, tem, como se diz agora, uma “pequena janela de oportunidade”.

Quando passar pela pátria, farei as correcções necessárias e, nalguns casos, acrescentarei imagens sem as quais o texto fica pobre.

Também, como é óbvio, não leio nada nos outros blogues e estou desprovido de notícias. Acontecerá alguma coisa na pátria no reino das pequenas coisas? As grandes acabo por sabê-las, mas suspeito que as turbulências continuam muito junto ao chão.

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CONVERSAS ORTODOXAS 2

Para um português, a igreja ortodoxa não faz parte das suas experiências, como aliás, verdadeiramente, o contacto com as outras religiões. Somos muito periféricos e provincianos, e a história que passou por nós não foi a história das grandes religiões. Se calhar é uma sorte.

No meio de um grupo de bispos ortodoxos, em frente do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu, sinto uma enorme estranheza. O que é que eu sei destes homens, vindos da Sérvia, da Grécia, da Bulgária, da Roménia, da Turquia, dos países que eram comunistas, de igrejas e mosteiros de um mundo mais antigo do que o nosso, mais perto da origem do cristianismo, dos seus locais de génese, dos lugares por onde andaram os apóstolos?

Vendo bem, a estranheza começa logo na acumulação subtil das diferenças de vestir, no kalymauki na cabeça, nas barbas, no rabo-de-cavalo, mesmo na pequena corte de padres e monges que acompanha cada bispo, que já não se vê vulgarmente no ocidente. Muitos são, percebe-se de imediato, intelectuais, falando grego, serbo-croata e francês entre eles (porquê francês mais que inglês?), mas, de repente, aparece um que é o retrato estereotipado do pope camponês da literatura russa, pequeno, mãos grossas, olhos brilhando numa face redonda e cheia, acentuada pela barba.

Mas abre a boca e sai um francês límpido, e embrenha-se numa discussão sobre como o “Espírito Santo”, para falar hoje, na sociedade moderna, tem que o fazer através da laicidade. Como fazer passar o “sagrado” e as suas imagens num mundo laico? Não “infelizmente laico”, mas “necessariamente laico”, porque o bispo achava que era normal a sociedade civil ser laica. Não emitia um lamento que fosse por essa laicidade, como é vulgar ouvir a muitos padres. Achava ele, vindo de um antigo país comunista, que sociedades civis democráticas, “sem sentido” teleológico, valiam mil vezes mais do que as sociedades “com sentido” e” programa” do socialismo real. Por aí adiante.

Junto deles, aqui, no Oriente, o estranho sou eu, “latino”, “papista”, agnóstico, de um país mais para o lado da América do que da Europa que eles conhecem, tentando adivinhar o que é que move estes homens, “pastores” de povos em muitas encruzilhadas, tendo visto guerras recentes (os sérvios), ou então carregados de memórias de guerras passadas.

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CONVERSAS ORTODOXAS

A igreja ortodoxa pode-se considerar a herdeira mais próxima do império bizantino. O poder que sobrou, de Moscovo a Atenas, ficou aqui, nesta igreja antiga que, mais do que qualquer outro ramo do cristianismo, se associou à ideia de uma teocracia.

Enquanto no ocidente europeu a igreja “latina” perdeu esse vínculo teológico com o estado, não só pelas suas divisões internas (o protestantismo, as igrejas reformadas), como pelo ascenso das ideias da revolução francesa, da laicidade do estado, e também do nacionalismo romântico. Mesmo o anglicanismo, ao “nacionalizar” a igreja politicamente, tornou civil o vínculo entre o estado (a monarquia) e a igreja. Ritualizou-o como instituição humana e não como instituição divina.

A igreja ortodoxa sempre teve uma grande capacidade de sobreviver ligando-se ao poder, como no período comunista, em que os altos dignitários da igreja mantiveram, após uma crise inicial, uma relação próxima com as autoridades comunistas. O mesmo aconteceu com a longa convivência nas antigas terras cristãs ocupadas pelo Islão.

Nesta parte do mundo, o nacionalismo oitocentista, que noutros sítios foi um instrumento de laicidade, encontrou na ortodoxia um instrumento de expressão. E igrejas como a “grega” e a “sérvia” tornaram-se em igrejas de fronteira, instrumentos da identidade nacional dos povos cristãos, contra o Islão.

(Continua)

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CONVERSAS ISLÂMICAS

Conversa com A. , jovem muçulmana turca, que usa o véu cobrindo a cabeça, o que não é muito comum nas jovens da sua idade e condição social. “Usas o véu para marcar uma posição?”. “Não, uso-o desde os oito anos e, por causa de o usar, não posso entrar para a universidade, nem ser funcionária pública”. A. foi estudar para a London School of Economics, e trabalha nas relações internacionais do Partido para a Justiça e Desenvolvimento, o partido islâmico moderado actualmente no poder.

Este é um dilema da democracia na Turquia: as origens da laicidade do estado (de que nós gostamos), tem como penhor o exército turco e os seus poderes “especiais” (de que não gostamos), que se manifestam limitando o poder do partido que ganha as eleições para implementar políticas como seja a liberdade de usar o véu nas instituições públicas.

“Mas”, disse eu, “depois não haveria tendência para pressionar quem não o usasse?”. A resposta de A. sobre a tolerância não me convenceu, porque em muitas cidades árabes que eram liberais, Argel, Casablanca, Bagdad, ano após ano, nos últimos dez anos, as mulheres tinham (e têm) cada vez mais dificuldade em sair à rua vestidas à ocidental, os lenços eram quase obrigatórios, as saias eram todos os dias mais longas, as roupas tapavam mais o corpo.

Não é simples.

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16.10.03


AMANHÃ

caminho mais para Oriente, para a Ásia, atrás dos cruzados.

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ISTAMBUL

tem mais vida que dez cidades da Europa juntas. Parte dessa “vida” vem da pobreza, parte vem da história, e parte vem do futuro da Turquia. Não sei que parte vencerá, mas que há uma força imensa nestas ruas de multidões, de gritos, de demografia a pleno vapor, de caos, há.

ISTAMBUL 2

Se a UE, “Bruxelas” como dizem os ingleses, pensa “uniformizar” esta rua de Istambul à força de directivas e do “aquis communautaire”, tire daí as ilusões. Tragam a Comissão e os burocratas uma hora ao Grande Bazar, ou, melhor ainda, para lá do ouro e das carpetes, para o Bazar das especiarias, e a sua extensão natural nos mercados ao ar livre, até junto da ponte de Gálata, no meio das mil e uma variantes de azeitonas, de queijo, de fruta, de chás, de doces, de pós e folhas com cores vibrantes, misturados com sapatos, malas, perfumes com os melhores nomes falsos que há no mundo, onde tudo tem um ar proibidíssimo, e totalmente desregulado.

(Pensando bem, nós também temos a feira da Santana, só que não é no centro de Lisboa, e os produtos agrícolas são piores.)

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A COLUNA QUE SUA


Coloquei a minha mão no interior frio da coluna que sua. A coluna onde apareceu S.Gregório, que lhe transmitiu poderes de cura através da transpiração da pedra. Muitas mãos antes da minha romperam o bronze protector, e cavaram no interior do mármore um buraco que parece uma boca tortuosa. Há alguma coisa de obsceno neste gesto.

NO CHÃO,




dispersas, algumas letras gregas no mármore. Não encontrei nenhuma referência ao seu significado. Fragmentos de vidas ou da ordem das coisas?

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AYASOFYA: O PODER

A tragédia desta casa é que nunca houve dentro dela fé tão profunda e verdadeira como no seu último dia de igreja cristã, no século quinze, já a catedral estava há muito delapidada. Decaíra como Bizâncio. Quando Constantino XI se prostrou perante o altar, já tinha a certeza de que os grandes ícones que mandara passear em procissão na véspera – o da Virgem Hodegetria e o da Virgem Blachernitissa – não o salvariam nem a si, nem à sua cidade. Entrou sem poder naquele palácio do poder, monumento à simetria que o poder dos homens pretende ter com o poder de Deus.

Size matters. A imensidão da igreja tornou-a propícia à exibição do poder dos homens. Na catedral, foi assim desde o primeiro momento. Justiniano, que a reconstruiu na sua forma actual, teria dito ao entrar no edifício: “Salomão, eu venci-te”. Nas suas paredes, os imperadores faziam-se representar ao lado de Cristo e da Virgem, quase com a mesma altura e dignidade. O halo dos santos está à volta da cabeça dos poderosos. Somente uma imagem, representando o imperador Leão VI, o mostra no chão a rezar.

Mehemet II, que venceu Constantino (e, através de Constantino, Justiniano), colocou-lhe o crescente do profeta em cima. Ataturk, que duplamente venceu Mehemet e Justiniano, fez esta coisa hoje impossível: tornar uma mesquita, com o valor simbólico desta, em museu. Como museu, pode-se agora retirar o gesso que tapava os mosaicos que escaparam da destruição, e mostrar as faces douradas do passado no seu orgulho e glória perdidos. Agora o seu poder é o da beleza, talvez o mais arrogante de todos os poderes humanos.

Acaba por ser numa inscrição do Corão, numa das paredes, na aplicada caligrafia árabe, que se lembra a omnipotência da divina sabedoria, a que a igreja estava dedicada:

Em nome de Deus o Misericordioso, Deus é a luz do Céu e da Terra. Ele é a verdadeira luz, a que não vem nem do brilho do vidro, nem do cintilar da estrela da manhã, nem da cor vermelha da brasa incandescente.”

Nem do brilho dourado dos mosaicos, nem da luz coada pelos vitrais, nem das colunas que o sol cria ao entrar pelas janelas debaixo da cúpula, nem da solidez do bronze das portas, nem do azul pintado nos arcos, nem dos entalhes dos capitéis bizantinos, nem do crescente em ouro, a mais alta parte da Ayasofya.

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15.10.03


AYASOFYA

No folclore popular (e patriótico) grego, há vários poemas sobre os últimos dias de Bizâncio cristã. Num deles, conta-se a derradeira visita do imperador Constantino XI à maior igreja da cristandade, a da divina sabedoria, Ayasofya. Perante o imperador prostrado, os ícones choravam, e mesmo a Virgem, que encima do alto a nave da igreja, estava perturbada. O poema promete

Está calma, querida Senhora, está calma, e não chores por eles
Porque, mesmo que passem os anos, e passem os séculos, tudo será teu de novo
.”

No dia seguinte, Bizâncio era turca e o vencedor fez algo que até então nunca tinha sido feito: transformou a igreja das igrejas em mesquita. Na primeira sexta-feira, o dia da “comunidade”, veio orar a Alá e o gigantesco edifício foi expurgado da idolatria cristã. Os mosaicos de ouro foram tapados com gesso, as cruzes de mármore das balaustradas foram picadas. Com os anos, as inscrições caligráficas em honra do profeta taparam os anjos, cuja face foi substituída por uma estrela, tornando-se em monstros abstractos, presidindo sem sentido a cada canto da mesquita. Pouco a pouco, pequenos acrescentos típicos da arquitectura religiosa otomana foram ocupando o interior da igreja: o sítio de onde o íman fala, um mihrab, etc. Mas é no exterior que os novos minaretes mais semelhanças lhe dão com uma mesquita.

E no entanto…nem o longo poder otomano apagou um ar, um silêncio qualquer, uma presença indefinida, uma nostalgia, um lamento, uma lembrança. Não queria lá estar à noite, porque demasiada gente invisível habita aquelas colunas.

Quando entrei hoje de manhã na igreja, uma multidão de turistas japoneses precedeu-me. Um deles, de bandolete na cabeça, calções, pequeno e musculado, com uma camisola vermelha da Vodafone, e controlado inteiramente pela sua máquina de vídeo – nenhum dos seus gestos tinha qualquer autonomia da máquina, quem mandava era a máquina e ele não olhava para nada sem a máquina mandar – pisou o omphalon. Pisou-o como se pisa qualquer chão, ou melhor, como a máquina o obrigava a curvar-se para olhar para o alto, ele ajoelhou-se naquela parte da igreja onde as enormes placas de mármore, sem qualquer decoração por toda a nave, têm aí desenhado um quadrado que cinge um círculo. A máquina deve ter obedecido a um dos anjos da igreja, porque, ao ajoelhar no omphalon, o "umbigo", o local onde os imperadores de Bizâncio eram coroados e também ajoelhavam perante a “divina sabedoria”, o japonês curva-se perante um desses sítios onde os poderes comunicam.

Constantino XI devia ter olhado pela última vez para esse círculo interior e perguntado “porquê?”, a pergunta de Cristo na cruz. O Cristo bizantino, o Cristo Pantokrator, criador do universo, absolutamente poderoso, porquê entregar estes “romanos” aos infiéis turcos? Talvez porque Cristo nunca tenha respondido, nem sequer à Virgem que chorava, a igreja continua ensombrada e a máquina do japonês mandou-o ajoelhar no omphalon.

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14.10.03


DA MINHA JANELA TURCA

vejo (são quase quatro horas da manhã) brilhar iluminada a catedral das catedrais, Stª. Sofia. Amanhã cedo, atravessarei com a multidão a ponte de Galata, para subir até esse coração do mundo, onde muita da nossa história habita sob a forma de paradoxo.

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LEITURAS DE AVIÃO

Numa viagem longa lê-se muito no avião. Desta vez, tive sorte com a imprensa: foi um dia em que vários jornais internacionais tinham artigos ou notícias que valiam a pena (deve haver ligações para quase todas estas notícias, mas não tenho condições para as procurar).

O Fígaro, que é normalmente um melhor jornal, mais sólido que o Monde, publicava alguns resultados de um grande estudo feito sobre o sistema educativo francês, a pedido do Presidente Chirac. A ideia base do documento é identificar por que razão o sistema educativo não cumpre os seus objectivos e está claramente a recuar nos seus resultados. Há em França um grande debate sobre educação e valia a pena acompanhá-lo de Portugal e repetir alguns dos estudos aprofundados que estão a ser feitos.

Uma conclusão interessante do estudo francês é a clara manutenção da diferenciação social em todo o percurso escolar, apesar da forte pressão igualitária (e se calhar por isso mesmo) da escola.

O Fígaro publica também, sob a forma de um artigo, um excerto de um livro de Alain Finkielkraut e de Peter Sloterdijk, intitulado, de modo muito francês e sem qualquer imaginação, “crítica da razão extremista”. Já não sei quantos textos franceses são de “críticas à razão” de qualquer coisa…

O texto é muitas vezes obscuro, mas algumas observações têm interesse, como seja a análise da exclusividade que a esquerda se atribui do perdão, do perdão a si própria:

La gauche contemporaine est la partie de la societé ayant le privilège de se faire pardonner ses propes erreurs »

No La Repubblica , um balanço bastante pessimista do estado de sub financiamento das instituições culturais italianas, museus, arquivos, bibliotecas. O El Pais tem uma grande entrevista com a ministra espanhola da cultura.


O Observer publica uma lista dos cem maiores romances dos últimos quatrocentos anos. Como todo o coleccionador, eu gosto de listas e de me confrontar com elas, de comparar a “minha colecção” com as dos outros.

Na lista do Observer, eu lera cerca de quarenta livros em cem, embora numa ou noutra obra (como o Robinson Crusoé ou o Huckleberry Finn), em edições que penso não serem integrais ou terem sido condensadas. Não sei se conta para a “colecção”, que aliás não é muito difícil de fazer porque muitas obras são as básicas: D. Quixote, Flaubert, Kafka, Joyce, etc.

Mas, com alguma surpresa, havia na lista cerca de 15% de romances de que eu nunca tinha ouvido falar. Não é não ter lido, isso há muito mais, mas nunca, jamais, em tempo algum, ter ouvido falar. Aqui está a lista das faltas absolutas:

Samuel Richardson, Clarissa

Thomas Love Peacock , Nightmare Abbey

George Eliot, Daniel Deronda

Erskine Childers, The Riddle of the Sands

Keneth Grahame, The Wind in the Willows

John Buchan, The Thirty-Nine Steps

Flannery O’Cooner, Wise Blood

Chinua Achebe, Things Fall Apart

Elizabeth Taylor, Mrs Palfrey at the Claremont

Beryl Bainbridge, The Bottle Factory Outing

Marylinne Robinson, House Keeping

Peter Carey, Oscar and Lucinda

Se calhar é injusto, mas, com excepção do Clarissa , que seria “unputdownable”, também a nota que justifica a sua inclusão não me entusiasma muito a lê-los.


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12.10.03


A CAMINHO


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EARLY MORNING BLOGS 60

Vou precisar de asas outra vez, porque parto para a Porta. Da Porta, um dos sítios mais fascinantes do mundo, vai ser feito o Abrupto durante a próxima semana, se as tecnologias se portarem à altura. Tudo o resto ajuda: o lugar, as pedras, as pessoas, a história, o ar, as águas, os barcos, os haman, o pequeno café naquela rua, naquela esquina, em terras que foram genovesas, de onde se vê a “sagrada sabedoria”. Pode ser que, com sorte, um certo imperador, que dorme dentro das muralhas, resolva sair e ganhar um velho combate que perdeu há seiscentos anos. Há tão pouco tempo.

*

Domingo de manhã, hora do brunch e do New York Times, se o tempo fosse mais amável, mas “there's always someone around you who will call”. Cortesia da “Corneta”, nome propício para acordar de repente, este "Sunday Morning" dos Velvet Underground & Nico do álbum da banana:

"Sunday morning, praise the dawning
It's just a restless feeling by my side
Early dawning, Sunday morning
It's just the wasted years so close behind

Watch out, the world's behind you
There's always someone around you who will call
It's nothing at all

Sunday morning and I'm falling
I've got a feeling I don't want to know
Early dawning, Sunday morning
It's all the streets you crossed, not so long ago

Watch out, the world's behind you
There's always someone around you who will call
It's nothing at all

Watch out, the world's behind you
There's always someone around you who will call
It's nothing at all

Sunday morning
Sunday morning
Sunday morning"


Bom dia !

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

Nos Estados Unidos, os media passam para o público (entenda-se, povo americano) uma narrativa política semelhante, com pequenas diferenças de uma publicação para outra, mas que revelam intercâmbio de ideias entre os jornalistas e os políticos daquele País.
Na União Europeia (U.E.) não existe uma partilha do mundo político nas mentes dos europeus dos vários países; não existe uma contínua actualização da narrativa política que permita ao público europeu assimilar os acontecimentos da mesma forma, ou sentirem-se uma parte de um todo comum.
Muito mais importante que discutirmos quem deve ter direito a voto, a veto, a comissários em Bruxelas, etc., seria o dever de concluir que a inexistência de uma narrativa política comum - tornando o europeu comum intangível, irreal e irrelevante - é um factor que inviabiliza o projecto da Constituição Europeia, neste momento.


(Orlando Braga)

*

Comprei um telemóvel Sony Ericsson que se enquadra no topo da sua gama. No entanto, reparo que os menus do mesmo têm erros ortográficos incompreensíveis, do tipo «inìciar», para além de ser um verdadeiro martírio escrever mensagens curtas dada a falta de acentuação. Para obstar a uma eventual apoplexia ortográfica, sou tentado a alterar o idioma para inglês, este tratado de forma correcta!

O ponto da questão é: um telemóvel topo de gama, com o português como opção de idioma (porque este mercado não será desprezível), mas tratado de forma plebeia (porque esta língua vale o que vale...), é este um dos sintomas da globalização e da integração na Europa? Será este um pequeno reflexo, mas exemplificativo, do que valerá a nossa cultura (neste caso, a nossa língua) na futura comunidade europeia?...


(José Manuel Figueiredo)

*

É tempo de olharmos a praxe como um fenómeno social que a todos diz respeito. Ao longo destes anos, a praxe era considerada pela sociedade civil como uma prática que apenas podia ser discutida no interior das faculdades e que apenas a elas dizia respeito. Hoje, muito devido aos abusos recentemente surgidos e à luta dos movimentos anti-praxe, este polémico tema saiu do mundo hermético da faculdade, sendo discutido nos fóruns, jornais, televisões... O manifesto seguidamente apresentado tem como principal propósito o de envolver pessoas da sociedade civil nesta luta contra o autoritarismo, elitismo, seguidismo, veiculados na praxe. Este ritual é celebrado num ambiente de medo e de coacção impostos pelo topo da hierarquia praxista. A todos os que queiram acabar com este ritual atentatório da dignidade humana pedimos que enviem a sua assinatura e indiquem a sua actividade para antipodas@portugalmail.pt ou contactem para os números 964407305(Luísa Quaresma) /963133349(Ricardo Coelho).

MANIFESTO ANTI-PRAXE

Porque vemos na praxe uma prática que atenta contra os mais elementares direitos humanos, nomeadamente a liberdade, a igualdade, a integridade física e psicológica e a livre expressão da individualidade, ao mesmo tempo que exalta os valores mais reaccionários da nossa sociedade.

Porque não vemos qualquer motivo para a existência de hierarquias entre estudantes, tendo em conta que todos devem ser tratados por igual nas relações interpessoais.

Porque acreditamos que a tradição nunca poderá ser um entrave à mudança e, muito menos, poderá alguma vez legitimar um comportamento inaceitável em qualquer sociedade.

Porque não aceitamos o poder auto-instituído e nada democrático dos organismos da praxe, que se constituem em estruturas paralelas com regras próprias.

Defendemos que a recepção aos novos alunos, sempre que se justifique a sua existência, se deve basear em relações de igualdade. Nesta iniciativa, os estudantes olhar-se-ão nos olhos e tratar-se-ão por “tu”, construindo um conjunto de redes de solidariedade e de camaradagem não exclusivas. Todos se divertirão por igual, deixando a diversão de uns de ser a humilhação de outros. Desta forma, incentivar-se-á o verdadeiro altruísmo que consiste em ajudar os outros sem exigir qualquer contrapartida.

Defendemos igualmente que a faculdade deve ser uma instituição aberta ao mundo que a rodeia, transformando-o e sendo por ele transformada. Uma instituição que deve proporcionar a livre intervenção e fomentar a criatividade, não impondo códigos de conduta nem promovendo a segregação. Mas este ideal nunca será concretizável enquanto o espírito da praxe reinar na faculdade.

Exigimos ainda que as instituições de Ensino Superior tomem sobre si a responsabilidade de prestar todas as informações e aconselhamento necessários aos estudantes.

Exercemos desta forma o nosso direito à indignação. Como parte da sociedade civil pensamos que o que se passa no interior das faculdades diz respeito a todos. Logo, jamais poderemos fechar os olhos à triste realidade das “tradições académicas”. E juntamos a nossa voz à voz de todos os que lutam diariamente contra o cinzentismo da praxe e se batem por uma faculdade crítica, aberta, democrática e feliz!"


(Luísa Quaresma)

*

Sou estudante do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa(…) Não querendo interpretar o papel de “advogado do diabo”, não posso deixar de defender a figura, na generalidade, dos dirigentes associativos, até porque já o fui, apesar de criticar fortemente as actuais condutas de contestação e linhas de acção reivindicativa.

Como tudo, entendo que não deveremos entrar em fundamentalismos, e considerar que os dirigentes associativos são, como referiu um dos leitores do abrupto, “... Aqueles jovens são, muitos deles, estudantes com um estatuto especial, que podem andar o ano inteiro em festas por todo país, teoricamente em representação da instituição...”, entendo existir um pouco de exagero e excesso nestas palavras, até porque pessoalmente, enquanto dirigente associativo nunca pautei a minha conduta pelos referidos parâmetros.

O papel dos dirigentes associativos é de extrema importância quer para o funcionamento interno de um estabelecimento de ensino superior, executando papel regulador, de colaboração ou mesmo como contra-poder. A outra vertente interna é dinamização de vários aspectos desportivos ou culturais, contribuindo assim para uma formação pessoal dos indivíduos, como pessoas integrantes de uma sociedade. Á que encarar uma licenciatura não simplesmente como uma formação cientifica de cinco anos (ou talvez mais!), mas como um processo de construção quer do próprio individuo quer da própria sociedade em que está inserido, e aqui o papel do Associativismo, salvo melhor opinião, é fundamental. Esta foi a parte em que fiz o papel de “advogado do diabo”, já que dei uma na ferradura, vou agora dar uma no cravo...

No que concerne a política educativa e à relação com a tutela é que os dirigentes associativos borram a pintura, muitas vezes instrumentalizados pela esquerda, pela direita ou mesmo pelo “big brother” televisivo deste país à beira mar plantado, perdem-se por entre acções pouco inteligentes e um discurso enfadonho completamente deslocalizado da realidade do dia-a-dia de qualquer estudante.
(…)
Assim sendo entendo que existe uma necessidade de separar o que é a “figura de Dirigente Associativo”, das figuras (tristes) feitas pelos dirigentes associativos, para que o associativismo não morra esgotado nem asfixiado por aqueles que mais o deveriam apreciar e defender, os estudantes."


(António Rolha)


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IMAGEM

de ontem era de novo nórdica. O quadro de que tirei o fragmento é de L. A. Ring e foi pintado em 1888, a “estrada principal em Mogenstrup no Outono”.

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MUDANÇA DOS ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO

está praticamente terminada. Afinal, com um bocado de trabalho, foi mais rápida. Os Estudos estão agora alojados no Weblogs.com.pt, com um arranque que muito deve ao Paulo Querido. O novo endereço é este: Estudos sobre o Comunismo e as actualizações só serão feitas nesta nova versão. Para comemorar esta passagem e a abertura de um novo blogue, com muito mais funções, coloquei lá um muito curioso (e hoje incómodo) cartaz e panfleto comunista contra o envio de alimentos pela Caritas, no Natal de 1956, aos refugiados da sublevação húngara.

O Abrupto está velho de mais para mudar e continuará onde está, embora a série dos "objectos em extinção" possa ganhar autonomia. É um projecto em estudo, para o qual vários amigos se ofereceram para ajudar.

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© José Pacheco Pereira
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