| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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20.9.03
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MEMÓRIA DA POLÍTICA
Estive em Alcobaça, num debate sobre arquivos políticos, organizado pela Fundação Mário Soares, a Universidade de Coimbra e a Câmara. Referi o facto, pouco conhecido, de cada vez menos os grandes partidos democráticos, PS e PSD, produzirem materiais de arquivo que permitam, no futuro, conhecer o processo de decisão, ou sequer, os mecanismos de poder partidário interno. Nas reuniões dos órgãos formais, Comissões Políticas, Secretariados, Conselhos Nacionais, etc., não há actas, nem ordens do dia registadas, e quase nenhuns documentos internos. O número de participantes que toma notas é escasso e as notas perdem-se. Algumas reuniões são filmadas ou gravadas, mas a norma é não haver qualquer traço documental do que se decidiu, das posições tomadas, do debate realizado. Às reuniões chegam os documentos oficiais, praticamente em versão definitiva. Isto é o resultado de muitos factores que vão no mesmo sentido: a desvalorização das reuniões dos órgãos formais dos partidos, onde deixou de haver qualquer segredo, a favor de órgãos informais baseados na confiança pessoal e na discrição; a perda de importância da memória institucional acompanhando a desvalorização social da memória, e a mudança do carácter da actividade política, cada vez mais centrada numa gestão à vista dos eventos e que não necessita de ser reflexiva e por isso não usa o papel. Uma parte das informações, que anteriormente eram internas, está hoje na imprensa, mas o historiador do futuro vai depender cada vez mais dos depoimentos orais, dos testemunhos, com todos os riscos que isso implica. A única excepção a esta regra de rarefacção documental é o correio electrónico. (url)
MATÉRIA INFECTA
A atitude correcta face ao Muito Mentiroso (MM) seria desde início não lhe ligar, deitá-lo ao lixo, como uma carta anónima. Eu fiz essa comparação logo de início, mas já não tem sentido. O MM está hoje publicado para milhões e é visto por muitos milhares. Seria aliás praticamente impossível que fosse doutra maneira, por razões que têm a ver com o tipo de populismo e demagogia que se vai tornando dominante em, todos os aspectos da vida pública. Por isso, mais vale discuti-lo que ignorá-lo. Primeiro, a boa regra é que o que é crime lá fora (no mundo real), é crime cá dentro (na rede). Segundo, o MM não é um blogue e não deve ser tratado como tal. Usa a forma do blogue, como podia ser uma página da rede, um e-mail anónimo. Tratá-lo como um dos nossos, transviado que seja, não tem sentido nenhum. Terceiro, não contem informação, por isso não tem sentido falar de censura. Quarto, uma Internet em que este tipo de operações ficassem impunes – no meio de um processo com a delicadeza e os interesses em jogo do da pedofilia – tornar-se-ia um meio mais selvagem do que o mundo comunicacional clássico. Não podemos queixar-nos da falta de deontologia dos media e depois aceitar o vale tudo somente por que se passa na Internet Quinto, apliquem sempre a vós mesmos a receita do MM. Gostavam de ver os vizinhos a salivar com todo o tipo de insinuações, a vossa mãe ou mulher ou namorada ou filha (ou o exacto oposto masculino), a vossa família, os vossos amigos, a serem envolvidas numa teia destas? A irem na rua e ouvirem o murmúrio por detrás? A chegarem a um sítio e a serem olhados com a ironia de quem pensa que sabe algum segredo perverso, porque leu ou lhe contaram? Só acontece a figuras públicas? A maioria das pessoas citadas pelo MM não são figuras públicas, mas gente cujo nome se tornou público por causa do processo da pedofilia, sejam culpados ou inocentes ou coisa nenhuma. A indiferença face aos danos provocados nessas pessoas, apenas em nome da nossa curiosidade mórbida, é uma atitude socialmente irresponsável. (url)
PEDREIRAS
Entre a Benedita e Alcobaça, olhando para a direita, a serra está rasgada, metro a metro, pela mancha amarela das pedreiras. No intervalo, as árvores são inúteis, o verde perde-se esmagado pelos rasgões amarelos. Não se vê uma única pedreira recuperada. A serra era bonita com a sua longa cumeada baixa e ondulante, mais uma sucessão de colinas no sentido Norte-Sul do que uma montanha a sério. Como se pode olhar e não ver? Eu bem sei que nesta parte do distrito de Leiria estamos no reino da construção civil, mas os estragos são a longo prazo numa paisagem que devia ser protegida. Portugal está a ficar demasiado feio, um pouco por todo o lado. (url)
COMO UM CANHÃO
Bem lembrado, pelo Critico, o Barbeiro de Sevilha a propósito do Mentiroso: "Como no Barbeiro de Sevilha se diz tão bem: a Calúnia começa por um vento muito ligeiro (brisa) e acaba ribombando como um canhão." Em breve, voltarei ao assunto infecto, porque é mais importante para o futuro do que aqui fazemos do que parece. Não é que me agrade, mas, na actual situação, mais vale discuti-lo do que ignorá-lo. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 44
Ontem enganei-me no título e coloquei lá “Early morning blues 43” . Corrigi só quando, ao gravar o texto, dei pelo erro. Há uma espécie de cegueira do autor, que quem escreve, e tem que rever o que escreve, conhece bem. Está o erro evidente – outro dia era Bernard Williams em vez de Bernard Lewis – e no entanto, mil vezes que me leia, nunca vejo nada. O que me vale são os meus editores reais e invisíveis, que olham por mim, no preciso sentido do termo, e me corrigem as gralhas e os erros. Não há, penso eu, quarenta e três “Early morning blues”, mas há bastantes. Já recebi vários, embora ainda falte o de Nat “King” Cole. Os meus gentis leitores ajudam-me a procurar. A Eduarda Maria escreve-me propondo-se “ir à loja de discos daqueles rapazes do High Fidelity do Nick Hornby. Aposto que teriam lá um vinil do Nat King Cole com os lyrics que, pelos vistos, andamos muitos à procura. Pensando melhor, talvez corressem comigo por perguntar pelo Nat King Cole.”. “Apetecia-me poder” diz a Eduarda. É , às vezes também me apetecia estar na Strand da Broadway e não na "velha Europa". O Eduardo Silva manda outra letra, na tradição do “early morning”. “Woke up this mornin' What a strange thing to do Woke up this mornin' Got them early mornin' blues I think I've had enough bad news I hear that ringin' Piercing through my head I hear that ringin' Piercing through my head I think I'll turn it off now And stay in bed It's eight o'clock now And I should be on my feet It's eight o'clock now And I should be on my feet But there's too many people I don't want to meet Try to make my breakfast But I can't find a bowl Try to make my breakfast But I can't find a bowl My stomach feels Like an empty hole I'm on my way now But I don't know where to go I'm on my way now But I don't know where to go I've been late so many times It's starting to show” Já repararam que, nos blues em que as pessoas trabalham, tudo se levanta muito cedo? Não passaram a noite a escrever blogues nictalopes, nem a esperar pelo matutinum , a hora da mudança, como escreve o velho mestre de Sevilha : “Matutinum est inter abscessum tenebrarum et aurorae adventum; et dictum matutinum quod hoc tempus inchoante mane sit.” Um dia destes, vem o texto, completo e traduzido, sobre as horas e as vigílias romanas. Mas nestes tempos , o Abrupto guia-se pela noite antiga, “antiquíssima e lustral” (cito de cor), como dizia Pessoa. Ontem, o Abrupto teve o seu dia mais visitado, mais de 6000 "pageviews". Andam demónios à solta, algures. (url) de ontem é um fragmento de uma natureza morta de Henri-Horace Roland de la Porte, um pintor do século XVIII, e o quadro está em Roterdão. Despeço-me dela a caminho do gallicinium, quando galo canta, partindo a noite em duas. (url) 19.9.03
TWILIGHT ZONE (Actualizado)
Quando passou, em Portugal, a primeira série da Twilight Zone, ainda os aparelhos de televisão eram raros e ver televisão era uma actividade colectiva e reverencial, que tinha lugar numa sala especial, onde muitas vezes os vizinhos vinham a seguir ao jantar, sentando-se calados diante do ecrã a preto e branco. Eu fiquei imediatamente preso pela série, tão diferente era do habitual, tão interessantes as suas histórias para um entusiasta de ficção científica, que lia todos os livros da Argonauta em que punha a mão em cima. Então, ou se via um programa, ou nunca mais se voltava a ver. Nessa altura, nada era repetível e ninguém imaginava que o fosse, antes de haver gravadores de vídeo. “Faltar” a um episódio, ou a um programa, era perdê-lo para sempre; daí o meu receio de ter alguma coisa que me impedisse de ver a Twilight Zone. Foi a primeira série que me prendeu à televisão. Até hoje. Um episódio que nunca mais esqueci e de que me recordo como de uma história tristíssima, foi “Time enough at last”, filmado em 1959. Conta a história de um apaixonado por livros, a quem ninguém permitia ter tempo para ler, nem a mulher, nem o patrão, ninguém. Um dia, por acaso, escapa solitário a um holocausto nuclear, e encontra-se com todo o tempo e todos os livros para ler. Num contentamento infinito dobra-se para apanhar um monte de livros, para abraçar todos os livros do mundo … e deixa cair e partir os óculos, sem os quais não consegue ler. Pior que o suplício de Tântalo. * Comentários dos leitores: "Estamos no mesmo escalão etário e as minhas reminiscências do mesmíssimo episodio do Twilight Zone são tão absolutamente próximas das suas (…) «Sacor Moligrafite apresenta...» costumava dizer o Pedro Moutinho, todo satisfeito, antes de começar a ler as cartas de protesto de inúmeros telespectadores indignados pelo episodio precedente..." ( ASMarques) "Quando a série passou em Portugal ainda era muito novo. No entanto, fruto das repetições, também eu tomei contacto com a série. E o facto curioso, que me levou a escrever este email foi ser precisamente esse um dos episódios que nunca mais esquecerei. Recentemente tive a oportunidade de rever o episódio na SIC Radical fruto de mera sorte. Nas duas vezes em que vi o episódio fiquei com a mesma sensação que é bastante difícil de descrever. Diria que me deixou bastante triste e angustiado, o que é bastante estranho pois trata-se apenas de um programa de televisão. Mas naquele momento final eu era o protagonista da série e tinham acabado de me tirar tudo o que havia no mundo. Era arrepiante." (Bruno Costa) (url)
ESTUDANTES DE COIMBRA E PAPEL HIGIÉNICO
Fardados de estudantes, meia dúzia de dirigentes académicos de Coimbra foram entregar uma pilha de papel higiénico, equivalente ao valor das propinas que recusam pagar, em frente ao Ministério do Ensino Superior. É um bom retrato de como está a Universidade de Coimbra – os estudantes revêem-se elegantemente no papel higiénico como metáfora. Não lhes passa pela cabeça levar uma pilha de livros e dizer “estes são os livros que não posso comprar”. Mas não. Eles acham que são irreverentes e engraçadinhos sendo ordinários, e esquecem-se que, no que deixam, se retratam a si próprios. Para além disso, o tamanho da pilha mostra o valor ridículo do que teriam que pagar. (url) (url)
IMAGENS
de ontem. Um copo com flores tirado de um canto de uma natureza morta (1883) de Paul Signac, uns barcos a sair do porto, um desenho, também de Signac, de 1910. As árvores poderosas são de um quadro intitulado “A Manhã “, de Karl Friedrich Schinkel, feito em 1813, que está em Berlim. (url)
EARLY MORNING BLOGS 43
Escrito entre a vigília do diluculum e a aurora, usando as divisões da noite romana. Como explica o nosso S. Isidoro: “Diluculum quasi iam incipiens parva diei lux. Haec et aurora, quae solem praecedit.”. Não há nada como as palavras antigas para começar o dia. A minha dificuldade em encontrar a letra do “Early Morning Blues”, de Nat “King” Cole, deu origem a várias procuras dos leitores do Abrupto, nenhuma resultando na letra pretendida, mas acrescentando outros blues matinais. A Isabel Salbany enviou-me este, com letra de A. Fritzsch, entre as “bad news” e as “better news”: “early morning you're so bad to me early morning I believe to see you wake me and you take me you bring me bad news you shake me and you brake me so I got the blues I got the blues, I got the blues I got the blues, I got the blues I got the blues, I got the blues I got the blues, I got the blues early morning you're so good to me early morning I believe to see you peace me and you please me you bring me better news you tease me and you squeeze me and I got the blues I got the blues, I got the blues I got the blues, I got the blues I got the blues, I got the blues I got the blues, I got the blues” A Maria acrescentou outros “Early Morning Blues” do album Black Angel de Savage Rose, letra de um (ou uma) Annisette: “Waking up one early morning The spring sun`s reaching in No more dripping from the ceiling I kiss your tender skin I snuggle close to you How lucky one can be Lying in your arms baby With the night of love Still singing within Maybe the world out there Has the same dreams as you and me I look into your eyes baby Share all I have with you The ice flowers on our window pane So quietly they melt away I`m lying in your arms baby With the night of love Still singing within” * Infelizmente as minhas itinerâncias impediram-me de estar no Encontro de Braga, mas desejo que tudo tenha estado, e esteja ainda, a correr da melhor maneira. Eu sou, como se lembram os que já cá estavam há três séculos (nos blogues um mês é um século), favorável ao metabloguismo. * Algum blogue relatou, ou comentou, a intervenção do Pedro Mexia sobre Pessoa, na Casa do dito? (url) 18.9.03
PARA OS QUE ME VISITAM PELA PRIMEIRA VEZ
Nesta altura da noite, o Abrupto já foi visitado mais de 5700 vezes, um recorde absoluto desde que existe. Isto significa que muita gente veio hoje aqui pela primeira vez. Sejam bem vindos.
O Abrupto de hoje não é típico. Faltam livros, faltam impressões, falta algum “milk of human kindness”, que modere os temas mais duros que aqui foram tratados. Mas vivemos tempos desérticos e selvagens, com uma vida pública inquinada pela suspeita e pelo vale tudo. Precisamos de sair rapidamente deste ciclo e reconquistar alguma luz, algum ar, algum fresco. O tempo, este calor que se vive na pátria, miasmático, como se dizia antigamente, parece ter-nos paralisado numa doença de carácter, amolecendo-nos num ambiente malsão. Amanhã, caminharei para outros lados. (url)
FANTASIAS
Escreve o Barnabé : “Socorro, a esquerda vem aí! : Pacheco Pereira na SIC. Santana Lopes na SIC. Marcelo na TVI. E, vá lá, Carrilho na SIC. Tem razão JPP, a comunicação social está tomada pela esquerda. “ Está bem. Eu troco o meu comentário na SIC (que não tem o mesmo esquema dos outros, mas isso fica para depois) , pela possibilidade de escolher os temas do Fórum da TSF, a agenda dos noticiários, os títulos das notícias de vários jornais, o que vai ou não vai para a primeira página, as encomendas das investigações que se fazem e a escolha de quem é "investigado" , os comentários opinativos dos jornalistas, inseridos, como quem não quer a coisa, nas notícias sobre o Iraque, a Palestina, Israel, a cimeira de Cancun, a globalização, etc. , etc.. Troco? Não, não troco porque não sou jornalista. Mas não me venham agora com essa fantasia absurda de que a nossa comunicação social é dominada pela direita. Para além disso, eu não sou de direita. (url) (url)
AR FRESCO, JÁ!
Uma imagem, já! Isto está cheio de coisas sérias, e eu já estou um pouco farto destas peregrinatio ad loca infecta. (url)
COMO É QUE FUNCIONA O MUITO MENTIROSO
Querem ver como é que funciona o Muito Mentiroso? Vou fazer de cobaia e experimentar em mim próprio para poupar os outros: Pergunta 234 - “Porque será que o Pacheco Pereira ataca tanto o Muito Mentiroso? Será porque não quer se conheçam as verdades? O que é que ele tem a esconder?” Querem ver outra fórmula ainda mais sofisticada: Pergunta 456 – “Porque é que o Pacheco Pereira colocou no Abrupto a pergunta que sabia que nós íamos fazer? Para tentar antecipar-se? O que é que ele tem a esconder?” Podia continuar até ao infinito. Metade de verdade – ataquei o Mentiroso, que considero uma actividade criminosa -, seguida de insinuação – “se o fez é porque tem alguma coisa a ver com o assunto” – ,seguida de uma conclusão resultante da insinuação – “se tem alguma coisa a ver com o assunto e critica tanto , é porque quer fazer um qualquer ataque preventivo, antes de ser atacado”. E deixem-se de coisas, que isto é altamente eficaz para quem não conhece estes mecanismos e vem ao Mentiroso com a suspeita populista contra os poderosos, etc. , etc. Isto cola-se à cabeça como pastilha elástica. Isto é eficaz. Isto é tão eficaz, que, mesmo ao escrever esta nota, eu corro o risco de ser mal citado por alguns jornais especializados neste lixo, e as perguntas ganharem vida própria como se não fossem uma ficção minha, mas um produto do Mentiroso. (url)
A ARMA DA DESINFORMAÇÃO
Ao irem ao Muito Mentiroso (MM) procurar “informação”, as pessoas caem num logro. O MM não tem informação, tem desinformação, o que é uma coisa completamente diferente. Desinformação, uma arma muito usada pelos serviços secretos soviéticos que eram especialistas na matéria, e que polícias e agentes secretos conhecem bem, consiste numa mistura cuidadosamente doseada de factos verdadeiros e falsos, de insinuações e meias-verdades com verdades inteiras, tendo como objectivo determinados resultados. Ou atingir determinadas pessoas, ou condicionar as investigações, ou descredibilizar a justiça, ou facilitar a defesa, ou dificultar a acusação. O MM vem do interior do processo ou das suas adjacências e é uma actividade interessada, e torna os que o visitam e o publicitam em partes no processo de pedofilia. Não há um átomo de inocência em tal actividade, que joga com instintos populistas e voyeuristas e a ingenuidade de muitos, para obter resultados. Quer pôr-se a milhas dos jogos sujos do processo de pedofilia? Não vá lá, não há nenhuma informação para si, só manipulação. Quem pensa que consegue separar dali as verdades da ganga da mentira, é um ingénuo. Não tem a preparação, a qualificação e as informações que são necessárias para essa operação. Também aqui os especialistas estão nas polícias e nos serviços secretos que têm a capacidade para analisar a única verdadeira informação que este tipo de produtos contém: a da sua intencionalidade. Quem o fez e porque o fez. As pessoas tornam-se colaboradoras do autor (ou autores) do Muito Mentiroso porque inevitavelmente vão acabar por interiorizar o que lá está e lhes parece verdadeiro, ou porque o suspeitassem, ou porque lhes parece plausível. E vão acabar por repeti-lo, infectando mais gente com boatos e calúnias, realizando o único objectivo do autor do MM que não é “informar” os portugueses de algo que lhes escondem, mas manipular a sua opinião a favor de uma tese sobre o processo da pedofilia. As pessoas tornam-se parte de uma arma e essa arma dispara. (url) (url)
NOVA EUROPA, VELHA EUROPA 2
Um bom exemplo da confusão sobre questões europeias, uma no cravo e outra na ferradura, é o artigo de Louçã intitulado pomposamente “Carta Aberta ao Presidente da República e ao Primeiro-ministro Contra o Medo da Europa”. Nele quer-se estar com Deus e com o Diabo, o que é um pouco o que esta corrente política faz na Europa. Os “verdes” e os trotsquistas, em muitos países europeus, são ultra-ortodoxos a favor da Constituição Europeia ( como no PE ), mas na Suécia foram contra o euro. Em Portugal , onde nunca tinham ligado muito à Europa, a que eram mais hostis do que amigos, descobriram-se agora europeístas por anti-americanismo durante o conflito do Iraque. No meio destas flutuações tácticas, a proposta de Louçã é irresponsável e meramente tribunícia. Ele propõe, num tom majestático, nem mais nem menos que um referendo imediato sobre estas “pequenas” matérias: “Por isso vos proponho, senhor Presidente e senhor primeiro-ministro, que o referendo se realize o mais cedo possível para escolher sobre questões fundamentais, como a condição de um processo constituinte democrático, a primazia da Constituição portuguesa ou europeia, o modelo presidencial do Conselho Europeu, os princípios da política orçamental europeia, os objectivos de protecção social ou as opções militares da União.” Se um referendo se realizasse nestes termos seria uma fraude democrática total, porque os eleitores seriam chamados a pronunciar-se sobre tudo… ou seja, sobre nada. A não ser que o objectivo de Louçã seja desde já garantir o sim à Constituição Europeia e o “medo” que ele tem é que se crie uma conjuntura favorável ao não. E lá se vai a “velha Europa”… (url)
NOVA EUROPA, VELHA EUROPA
Uma das razões para se ser inteiramente a favor do alargamento é que de facto a “nova Europa” (a classificação de Rumsfeld veio mesmo para ficar) trouxe uma outra força à política europeia. A força da memória recente da opressão comunista introduz um vigor moral, que os governantes da “terceira via”, e alguns dos seus parceiros mais à direita, tinham deixado apagar-se por comodismo e excesso de marketing. Ninguém imaginava Chirac ou Schroeder a descerem do seu patamar olímpico para apoiar essa causa tão insignificante e ideológica, como é a da liberdade em Cuba . E nunca teriam tido a iniciativa de escrever como Vaclav Havel (Républica Checa), Lech Walesa (Polónia) e Árpád Göncz (Hungria) este manifesto com palavras tão claras: “Hoje, o mundo democrático tem a obrigação de apoiar os representantes da oposição cubana independentemente do tempo que os estalinistas cubanos se mantiverem no poder. A oposição cubana deve sentir o mesmo apoio que sentiam os representantes da dissidência política na Europa, dividida até há pouco tempo. Respostas de condenação devem ser acompanhadas de medidas diplomáticas concretas procedentes da Europa, América Latina e EUA e podem ser uma forma idónea de pressão contra o regime repressivo de Havana.” (url)
EARLY MORNING BLOGS 42
O melhor Early Morning Blues que conheço é o de Nat “King” Cole, gravado em 1944. Não consegui ainda arranjar a letra, para aqui colocar, mas não é nada de especial, uma história irónica de procura e solidão em palavras coloquiais e breves. É a voz e o piano, duma clareza total, que enchem tudo sem ocupar quase espaço em lado nenhum. (url)
A NOITE ANTIGA, INTEMPESTUM
Era assim a noite antiga e hoje passamos essa noite, nas suas sete partes: "Noctis partes septem sunt, id est vesper, crepusculum, conticinium, intempestum, gallicinium, matutinum, diluculum. " Passámos já o crepusculum, essa dubia lux. Passámos já o conticinium, quando tudo está silencioso. Estamos no intempestum. . Na pureza das palavras antigas: "Intempestum est medium et inactuosum noctis tempus, quando agi nihil potest et omnia sopore quieta sunt. Nam tempus per se non intellegitur, nisi per actus humanos. " (url) 17.9.03
NÃO POSSO ESTAR MAIS DE ACORDO
com o que diz o Paulo Querido e que cito aqui: "As manobras de contra-informação, propaganda e despistagem no caso Casa Pia estão ao rubro e encontraram um meio espectacular para se propagarem: a Internet e, agora, os blogs. Idem para as teorias da conspiração (alvo de um programa de humor na SIC Radical, btw). «Acredite se ler num blog» -- parece ser o lema do momento, seguido indiscriminadamente pelos tontos em geral (no surprise), jornalistas ansiosos (idem) e fazedores-de-opinião avulsos (surprise!). O blog Muito Mentiroso (não contribuo com o link) continua a sua campanha e começa a ter uma legião de leitores, ávidos de tricas, confusões e teorias. Pior: surgem páginas do género, aumentando ainda mais o ruído. Páginas, blogs, sites, canais de IRC, mailing-lists. Uma torrente de lixo só comparável ao spam e aos programas de entretenimento prime-time dos canais generalistas. Tanto bit mal gasto, jasus! Sei que, discretamente, há quem ande à procura do(s) autor(es). Não sei se alguem anda "oficial" ou oficiosamente... nem isso me interessa. Encolho os ombros. Nada posso fazer (excepto não fornecer links) perante a avidez humana pelo conspiratório." Depois de ter escrito a nota inicial sobre o "mentiroso" nunca mais lá voltei, nem nenhuma curiosidade me move perante o que lá está escrito. Não tinha, no entanto, dúvidas de que uma opinião pública mórbida, retrato do nosso atraso cultural, iria correr para lá a toda a velocidade, babar-se de uma curiosidade infecta, próxima do ressentimento social que é tão poderoso em Portugal, e é motivo profundo de tanta coisa. Nem sequer tem consciência de que, ao fazê-lo, dá sentido ao crime, torna o crime eficaz. E ainda estou por perceber por que razão as autoridades, que têm a obrigação de combater o crime, permanecem olimpicamente indiferentes. (url) (url)
SENSACIONALISMO
Já que no Diário de Notícias se lê o Abrupto, convinha registar que nada justifica a notícia que hoje se publica a propósito da polémica suscitada pelas declarações do porta-voz do PP. Nunca aqui se insultou pessoalmente ninguém, exprimem-se opiniões políticas. Como, pelos vistos, para o jornal, o debate é menos interessante do que a permanente descrição da actividade política como um conflito pessoal e dos políticos como uns energúmenos que se insultam uns aos outros, o Diário de Notícias fez uma amálgama conveniente ao sensacionalismo do título. É um risco que, no Abrupto, mais do que em qualquer outro blogue, se corre, mas não me impedirá de escrever o que quero, da forma que quero. (url)
ABRUPTO FEITO PELOS SEUS
leitores. Excertos de correio dos leitores, com que nem sempre concordo, mas que traduzem experiências, pontos de vista, informações que têm a ver com o que aqui se escreve CONDIÇÃO DE CULPADO IDEAL: “SÓ OS HOMENS DE DIREITA BATEM NAS MULHERES…” Raul Reis fala de duplicidades: “Sigo bastante a actualidade francesa e alemã. Mas, em França, estou farto de ouvir falar da morte de Marie Trintignant. Era uma actriz que sempre achei simpática, mas nunca a coloquei em nenhuma galeria especial de actores franceses. As trágicas circunstâncias da sua morte permitiram-lhe uma projecção mediática póstuma inédita. Bertrand Cantat, o vocalista e líder do grupo Noir Désir, preso num cárcere de Vilnius, é objecto de todas as análises na praça pública. Amigos, jornalistas, colegas de ofício, todos são chamados a testemunhar sobre Cantat, sobre Trintignant e sobre a (curta) relação que o cantor e a actriz mantiveram. O que me irrita não é que se fale deste caso. A violência doméstica - parece-me que é disso que se trata - é um flagelo que começa a conhecer as páginas dos jornais e a despoletar reacções dos políticos que buscam (difíceis) soluções. O que me preocupa - e, porque não dizê-lo, irrita - é o ar surpreendido, "abassourdido", dos comentadores que se espantam com o facto de um homem moderno, rebelde, "que sempre integrou os ideais de Maio de 68", seja capaz de espancar a namorada... até à morte. "Bertrand Cantat lutou pela causa palestiniana e bateu-se no mar alto com os activistas do Greenpeace", disse uma jornalista do Le Monde. "Cantat era um homem de esquerda, que desempenhou um papel importantíssimo na luta contra Le Pen, o que surpreende ainda mais que tenha feito isto", disse um outro comentador. Fiquei assim a saber que só os homens de direita batem nas mulheres. A amálgama entre a ideologia e a conduta social, ou a participação neste ou naquele movimento, atinge pontos altos no caso Cantat-Trintignant. E isso aflige-me, preocupa-me, a mim, que nunca me considerei de esquerda. Eu, sou, só por isso, suspeito à partida de todas as maldades do mundo, da violência doméstica à poluição dos mares e florestas. Eu que até separo o vidro, o papel e o plástico sou um culpado ideal para acusar de transgressões diversas; menos da droga porque essa ilegalidade imposta está reservada a uma esquerda sapiente. " CONDIÇÂO DE EMIGRANTE António João Correia escreve: “Vivendo actualmente em Vancouver, British Columbia, Canadá, vejo de perto a forma miserável como o governo português trata – continua a tratar – os respectivos cidadãos que residem no exterior. Da prestação de serviços consulares medíocres, mal preparados, arrogantes, dispendiosos, temos de tudo um pouco. Pior, a questão sendo política estabiliza-se numa espécie de pacto de regime, mudando-se os governos e os serviços consulares continuando sempre sob o domínio de Kafka, do absurdo, da pior burocracia produzida por Portugal. Um bilhete de identidade leva meses (em média seis ou até mais se for preciso uma certidão de nascimento actualizada). Conheço um caso de um passaporte que levou nove anos. Como em redor da British Columbia não existe mais nenhum posto consular, quem viva no Norte da British Columbia ou em Alberta (são dezenas de milhar de portugueses) tem de perder vários dias para tratar de assuntos (…)banais. Vejamos outro exemplo: em Vancouver existem 87 alunos na escola portuguesa. Bem, o governo português não só não paga aos professores, como ignora qualquer pedido de ajuda (…). Sãos os pais dos alunos – os últimos heróis que conheço do português – que pagam aos professores, pagando ainda as rendas das salas de aulas. De livros nem valerá a pena falar. E, como estes assuntos não passam na «nossa» comunicação social, aqui fica o meu contributo.” CONDIÇÃO DE DESEMPREGADO Miguel Mendes comentando a frase do Abrupto: "Os trabalhadores da Marinha Grande ou as operárias da Clark's não vão trabalhar para a construção civil ou como empregadas domésticas." “Li esta afirmação no seu blog e (…) coloco uma questão: Porque não? O desemprego aumentou (e vai aumentar mais) - situação que talvez esteja a alertar para a necessidade de trabalhar. Tinha necessidade de uma empregada doméstica e sempre foi difícil conseguir uma - na minha zona o subsídio de desemprego é uma forma de vida para muitas pessoas (tem uma duração de 2 anos). Tendo sido encerradas algumas empresas deveria existir alguém disponível para trabalhar.... quase não consegui ninguém. As operárias, que não eram da Clark's mas de empresas similares, não queriam trabalhar como empregadas domésticas. Porque não? Simplesmente porque não precisavam. Agora começam a precisar e algumas já estão a trabalhar como empregadas domésticas. Tenho o prazer de conversar com a minha funcionária entre a chegada dela e a minha saída para o trabalho e percebi que o medo dela era "servir" alguém. Agora que chegou à conclusão que ganha um salário honesto, ninguém a perturba no trabalho e conhece a arte (que pratica também em sua casa) já considera normal o trabalho doméstico. Nos últimos tempos este é um exemplo que se tem repetido à minha volta. Os portugueses, infelizmente, não possuem conhecimentos nem bases de formação que nos permitam ser todos operários do conhecimento. Ainda podemos realizar trabalhos indiferenciados e ser respeitados como bons trabalhadores. Sinceramente não me importo com a nacionalidade ou origem das pessoas. Pensei em contratar uma funcionária estrangeira mas alguém sabia que eu procurava uma funcionária e sugeriu a pessoa que trabalha em minha casa actualmente (estava à procura de trabalho). Não acredito que sejam necessárias tantas pessoas estrangeiras para realizar trabalhos que pessoas que já cá estão podem fazer. Teria alguma empregada da Clark's problema em ser minha funcionária doméstica já que pago um salário (que não o mínimo), faço os descontos (inscrevo no regime geral se preferirem), trato bem as pessoas e almoçam, obviamente, o mesmo que eu? Creio que não... ou pelo menos não deveriam. Muitas pessoas começam a ver que existem trabalhos onde são necessárias e nenhum trabalho é menos digno desde que seja honesto e exercido com dignidade.” Fátima Rebelo comenta a mesma afirmação, discordando: “Apesar de concordar consigo no que respeita ao nosso Ministro da Defesa, no post afirma que os imigrantes não concorrem nos empregos na clarks e outras, pois os homens trabalham apenas na construção civil e as mulheres são invariavelmente empregadas domésticas. Acontece que isso não é verdade de todo. Tenho raízes e uma ligação grande a uma região muito industrial (indústria do calçado e cutelaria) onde, nos últimos anos se tem assistido a um fenómeno em que mais de 50% dos trabalhadores desta indústria são trabalhadores vindos de leste. Quero chamar a atenção para o facto de eu não ser de todo xenófoba nem ser contra a imigração. Mas olhando para os factos, eles são inegáveis.E é perfeitamente compreensível: os empresários (que não são os exploradores que por vezes se retrata e lutam diariamente para manter de pé a sua pequena indústria) deixaram de lutar com falta de pessoas disponíveis para este tipo de trabalho e de pagar horas extraordinárias infindáveis para passarem a ter um leque de trabalhadores disponíveis, qualificados, produtivos e, eventualmente não tão reivindicativos. Em conclusão, os imigrantes (principalmente os de Leste) concorrem de facto com os portugueses noutras áreas que não a doméstica e construção civil. E é melhor começarmos todos a encarar esse facto em vez de enterrarmos a cabeça na areia e fingir que não se passa nada. Porque passa! A solução não é o que defende o Dr. Portas e congéneres. Quanto a mim é necessário evitar que se criem anticorpos relativamente a estes trabalhadores pelas pessoas que são preteridas nos seus empregos, que é uma situação a que tenho assistido nos últimos tempos. E não é com discursos anti-imigrantes nem com a negação dos factos que se chega lá.” CONDIÇÃO DE MAIS UMA VEZ ENGANADO Mário Cordeiro mostra mais uma vez um exemplo de "rigor" nos jornais: "É o Expresso de ontem, que nos diz, em letras "gordas e encarnadas", que, cito, "Grande Lisboa concentra quase metade da população em 2015". Ficamos aterrados - como é que vamos meter este "rossio" nesta "betesga"? Metade dos portugueses a viverem aqui, a estacionarem aqui, a fazerem compras aqui... por outro lado, que inversão súbita, numa cidade que se dizia "em estado de desertificação"... Apanhado o primeiro "susto", lê-se a notícia que, afinal, reza o seguinte: "segundo as estimativas do estudo "Perspectivas da Urbanização do Mundo", da ONU, a Região de Lisboa e Vale do Tejo terá cerca de 45% da população portuguesa. Ah! O "Lisboa", do título, absorveu a totalidade dos distritos de Lisboa, Santarém e Setúbal. Ah!. "Lisboa", afinal, segundo o Expresso, quer dizer Lourinhã ou Grândola, Coruche ou Santarém, Abrantes ou Cadaval, Chamusca ou Barreiro, Almada e Setúbal, Loures e Vila Franca de Xira, Cascais e Sintra. Torres Vedras e Torres Novas. Etc, etc, etc. Sugiro ao Expresso um novo título: "No ano 2015, Portugal concentrará 100% da população residente em Portugal" - pode não ser muito informativo, mas pelo menos é mais rigoroso..." (url) 16.9.03
POMPEIA
Dos livros que comprei e referi numa nota do dia 9 de Setembro, acabei de ler o de Robert Harris, Pompeii. É um livro de fábrica, feito ao mesmo tempo para se ler e para dar origem a um filme. Lê-se bem, mas está muito abaixo dos outros dois do autor , Fatherland e Archangel. Estes dois livros tinham um ambiente de grande densidade, retratando uma Alemanha nazi ficcional, e uma URSS dos anos finais de Staline, menos inventada, mas igualmente pesada e sinistra. Archangel já falhava no fim, construindo uma história muito bem arquitectada e com uma reconstrução do ambiente claustrofóbico dos últimos dias de Staline e de Beria, mas terminava de uma forma pouco forte. Este livro passa-se nos dias da erupção do Vesúvio que destruiu Pompeia e, como é costume em Harris, a ideia que dá corpo à história é imaginativa. A personagem principal é o aquarius, o responsável pela Aqua Augusta, um dos grandes aquedutos romanos. Harris faz bem o seu trabalho de investigação e os detalhes técnicos e históricos “envolvem” a história de forma correcta, mas esta é demasiado previsível. Depois, tenho uma certa aversão a ler em inglês que o centurião atravessou a rua para ir ao “snack bar”... (url)
RESPOSTAS SOLTAS A PERGUNTAS SOLTAS (Actualizado)
O Flashback voltará, exactamente com a mesma equipa, em Outubro de 2003. Poderá ter outro nome, poderá ser noutro meio (ou meios), mas é mais do mesmo. Agradeço a Rui Branco, Eugénio Gaspar, Rui Silva, Maria Loureiro, Fátima Rebelo, Rui Pacheco, Rita Cepeda, F. Pereira, Mário Monteiro de Sá, Vitor Pita Dias, João Gata, André Granado, Rodrigo Reis, Manuel Calçada, Luís Reino, Paulo Lourenço, José Almeida Ribeiro, “onipessoal”, Aquiles Pinto, Tiago Pinto, Maria João Oliveira, e a muitos autores de blogues, da “direita” e da “esquerda”, as palavras amáveis que me dirigiram a propósito dos meus neurónios e da nota “Voz solta, voz presa”. No correio que recebi, incluindo alguns destes meus leitores, e outros ainda não referidos, são colocadas questões sobre imigração, direita e extrema-direita, emprego, etc., que merecem um desenvolvimento posterior. O dr. António Pires de Lima escreveu-me uma carta pessoal, expondo a sua posição e explicando as suas palavras num tom cordial e “sem melindre”, a que respondi particularmente. Por mim, a questão dos neurónios está encerrada. (url)
NAVIO FANTASMA
Às vezes, entre uma e outra nota do Abrupto, há milhares de quilometros de distância. Quando, como agora, percorro, qual holandês maldito, mares e terras sem parar em nenhuma. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 41
Hoje de manhã acordei com metade dos meus neurónios a funcionar. Para quem não saiba , o porta voz do PP anunciou oficialmente, na sua qualidade de "portador da voz alheia", que eu só tinha metade dos neurónios a funcionar, por causa de umas coisas que escrevi no Abrupto. Tanto quanto eu sei, é a primeira vez que em Portugal um partido político faz uma proclamação deste tipo sobre um cidadão português. Ele há a classe A, os que têm os neurónios todos; a classe B, os que, como eu, só têm metade; e os de classe C, sem neurónios nenhuns, para eliminar. Muito obrigado pela benevolência de me colocarem na classe B. Felizmente que o computador onde escrevo também é da classe B. Cada tecla demora um século a ter efeito no ecrã. Obrigado, computador, por te adaptares à minha metade disfuncional. Agora mais a sério, e aquecendo os meus neurónios até ao limite: o estilo, em política, tem conteúdo e o conteúdo do recado do porta-voz é também típico da linguagem da extrema-direita. Malcriado, agressivo, não falando da substância das críticas que fiz, mas atacando-me pessoalmente. Os historiadores e os politólogos conhecem a trademark, a assinatura deste estilo, quer à esquerda, quer à direita. O Abrupto, devido a esta revelação sobre o estado dos meus neurónios, bateu ontem o recorde absoluto com mais de 4200 "hits". Agora já chega. Espero, logo, muito à noite, voltar ao mundo dos computadores da classe A, das imagens para dissolver a secura das palavras e falar de livros, astronomia, perturbações invisíveis do ar, vulcões, tudo. Papéis velhos e gente viva, não há melhor combinação. (url) 15.9.03
PARA ESCLARECER 2
Como não tenho grandes condições nem para escrever, nem para responder a algumas dúvidas e perguntas que me chegam pelo correio, acrescento aqui alguns esclarecimentos suplementares que exigem alguma imediaticidade. Referendo na Suécia - A esmagadora maioria dos suecos entrevistados nos orgãos de comuncação social e alguns com quem falei hoje e fizeram campanha pelo "sim", atribuem o "não" ao receio do excessivo centralismo e burocracia de Bruxelas. É por isso que a Constituição, que reforça e consolida de forma exponencial este pendor burocrático, está em risco. Basta um país não a ratificar e não existe. O que os "convencionais" e Giscard insistem em não compreender é que estão a forçar a criação de um super-estado europeu face a povos e nações que não o desejam. Noticiários da RTP - A razão porque referi a RTP e o modo como dava informações erradas sobre o referendo sueco tem a ver com o facto de apenas ter, nessa altura, acesso à RTP Internacional. Não sei o que fizeram as outras estações. Há outra razão suplementar, que não inclui o caso de ontem, pelo qual destaco a RTP: é paga pelos contribuintes e é suposto prestar uma coisa ambígua que se chama "serviço público" . Ontem , por exemplo, atrasou mais uma vez o noticiário principal da noite para passar aquilo a que chama "futebol de interesse público". É uma ideia de Portugal. Voz presa, voz solta - Sempre que falo do dr. Portas recebo uma quantidade considerável de "hate mail" e algumas ameaças. Não vale a pena o esforço. (url)
PARA ESCLARECER
Se estivesse na Suécia, teria votado "sim" ao euro. Se estivesse na Estónia, teria votado "sim" à adesão à UE. Em qualquer sítio em que estiver na Europa, votarei "não" à Constituição Europeia. (url)
EARLY MORNING BLOGS 40
Escrevo este texto num cibercafé, sem acentos, nem tempo, sentindo-me, como muitas vezes me acontece, contraditoriamente contente por ser "cosmopolita" e com heimatlos. À minha volta está um grupo de trabalhadores do leste, ucranianos, se é que ainda consigo distinguir as diferenças, de Lvov. A Internet faz de telefone e escrevem, escrevem , escrevem. Têm saudades, cuidam da casa, da mulher, dos filhos, da mãe, pela rede. Ao lado deles, os blogues parecem inúteis, moinhos de palavras. Prossigamos. (url) 14.9.03
RTP: AS MENTIRAS A QUE TEMOS DIREITO
Em todos os noticiários europeus de hoje, a abertura foi o resultado do referendo sueco sobre o euro. Na RTP, a notícia foi atirada para o fim, porque a RTP preferiu repetir peças sobre os fogos, não só já anteriormente passadas, como carecidas de qualquer actualidade, e falar sobre uma série de minudências da vida nacional. Como não bastava a pouca importância dada a um referendo decisivo para o futuro da União Europeia, uma vez que pode prenunciar um "Não" à Constituição europeia, a notícia sobre o seu resultado foi dada de forma errada. Quase duas horas depois de se saber que o "Não" tinha ganho com grande vantagem ("Não": 56,5% ,"Sim": 41,4% - à hora do telejornal), com os comentadores das grandes televisões europeias a sublinharem a surpresa do resultado, em especial dado o peso assumido pelo voto negativo apesar do assassinato da Ministra dos Negócios Estrangeiros, a RTP apresentou como notícia que os resultados do "Sim" e do "Não" tinham sido muito próximos, face à escassa vitória do "Não". Isto é falta de rigor e manipulação da informação. Quando, no mesmo noticiário, se repete uma peça do correspondente da RTP em Bruxelas, em que este apenas recolhe opiniões favoráveis ao "Sim", percebe-se por que razão uma televisão que assim "informa" os seus telespectadores tem evidente relutância em noticiar o que verdadeiramente aconteceu. Este é um dos exemplos de como a informação sobre questões europeias na RTP é oficiosa (em relação a Bruxelas) e enganosa. (url)
PARABÉNS
à autarquia da Vila da Feira, por permitir e facilitar que Spencer Tunick pudesse aí tirar uma das suas fotografias colectivas de nus. A Vila da Feira, em vez de olhar para os preconceitos de muitas terras portuguesas mais importantes, olhou para Barcelona. (url)
VOZ PRESA, VOZ SOLTA
Ver um noticiário da RTP Internacional, longe, dá-nos sempre uma visão mais depurada de Portugal. E coisas a que estamos habituados em Portugal surgem aqui mais estranhas. O dr. Portas já é estranho na pátria, e então longe surge completamente bizarro. Vi-o ontem num comício, a fazer de conta que tem a voz solta, quando todos sabemos que a tem há muito tempo presa. Falou de imigração, porque de facto quase não podia falar de nada. E o que disse é puramente ideológico, uma receita política sem sentido, ou melhor, com um outro e mais perigoso sentido do que aquele que ele lhe deu. Primeiro, falou contra quem? Contra o governo de que faz parte. Os jornalistas, que na sua simplicidade andaram a repetir o dia todo o que o PP lhes disse, que o discurso "seria pela positiva", não perceberam que um ministro não pode dizer aquelas coisas sem estar a falar contra o Ministério da Administração Interna do governo a que pertence. Aquela parte do discurso foi "pela negativa" (acho estas classificações uma treta, mas têm uso corrente porque são enganadoramente simples...). E depois, o mais grave: convinha que alguém no PP, que saiba alguma coisa sobre imigração e emprego, dissesse ao dr. Portas que em Portugal, em 2003, essa correlação não tem qualquer sentido. Os trabalhadores da Marinha Grande ou as operárias da Clark's não vão trabalhar para a construção civil ou como empregadas domésticas. Os ucranianos e as cabo-verdianas, os moldavos e as são-tomenses não competem com os portugueses e as portuguesas nos empregos que têm, a não ser residualmente. Mas a catilinária contra a imigração do dr. Portas nada tem a ver com o emprego. Tem a ver com um Portugal limpo de imigrantes, e por isso acaba por resultar num discurso contra os imigrantes, tão pouco português que carece de sentido. É copiado da vulgata de Le Pen, do pior que há , e escolhido, não porque constitua qualquer preocupação dos portugueses, mesmo dos da direita, mas apenas porque o dr. Portas não pode falar de quase coisa nenhuma e ele não quer ficar calado. (url) (url)
© José Pacheco Pereira
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