ABRUPTO

30.8.03


LÁ FORA

Há tanta coisa interessante, há tanta coisa para aprender, como é que nos podemos aborrecer, como é que nos podemos fartar?

Claro que há tanta coisa interessante, mas é lá fora. LÁ FORA. Mesmo quando a trazemos para dentro é LÁ FORA. Mesmo quando é em nós que essas coisas estão, é LÁ FORA, longe da pegajosa circularidade do eu. Como é que alguém se farta em dois meses, numas férias, em meio ano, em tudo que seja menos de uma vida inteira, não de escrever aqui, porque isso é o menos, é circunstância, mas de ter a cabeça LÁ FORA?

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EARLY MORNING BLOGS 35

... um pouco a deitar para o tarde.

Fazendo uma leitura retrospectiva que tinha atrasada da Formiga de Langton , um dos meus favoritos. A formiga está cada vez melhor, cada vez mais solta, cada vez mais experimentando relações entre crianças, gaivotas, o “pomar de imagens” de Teixeira Gomes, labirintos, uma curiosidade na qual, sem modéstia, me reconheço inteiramente e me deixo ir pela regra de Asimov do "That's funny..." . Tudo o que lá vem (e noutro blogue que comecei também a ler, o Teste de Turing ) me interessa sem restrições.

Com a formiga fui pelo carreiro até ao Blog Notas , que tem um conjunto de citações sobre o uso do anonimato nos blogues muito certeiras, até ao Microcontentnews, de absoluto interesse para os estudiosos do meta-bloguismo, que somos quase todos , mesmo que o recusemos, pela própria circunstância de estarmos a usar um meio ainda experimental de comunicação.

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NOTAS CHEKOVIANAS 6


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OBJECTOS EM EXTINÇÃO 21 / LICEU RAINHA SANTA

Para quem é do Porto e fez o liceu no Alexandre Herculano, o encerramento do Rainha Santa é mais uma referência da memória que se vai embora, mais um objecto em extinção. O Rainha Santa ao lado do Alexandre Herculano representava a separação sexual rígida do regime salazarista: o Rainha era para as “meninas” e o Alexandre para os “meninos”. Daí que o grande momento de respiração dos dois liceus era o da saída da uma da tarde, quando a fauna masculina do Alexandre corria pela rua abaixo para se colocar em frente do Rainha e ver a “saída”. Era, mesmo passando-se no meio da rua, fora de portas, uma actividade altamente vigiada. Os “rapazes” não podiam estar no passeio junto dos portões do Rainha, mas apenas no passeio em frente, encostados ao muro. As meninas não podiam atravessar a rua e era suposto só o fazerem muito acima, para os lados do Bonfim, ou mais para baixo, junto da Barão de Nova Sintra. Em frente ao Liceu, era o espectáculo da descida das meninas pela escadaria, observadas por mil e um olhos ávidos, encostados ao muro. Parecia uma encenação de palco.

Uma das minhas maiores vergonhas foi no dia em que a reitora do Rainha me convidou para repetir no liceu feminino uma palestra sobre música que tinha feito no Alexandre e que ela devia achar ser suficientemente “conveniente” para arriscar meter um rapaz dentro do liceu. O interior do liceu, como se percebe, era totalmente off limits para visitas juvenis masculinas. Lá fiz a palestra, só que ela acabou …à uma da tarde. Para sair tinha que descer as tenebrosas escadas acompanhado pela multidão das meninas e diante dos olhos dos meus colegas em frente. Lá desci, desejando a invisibilidade ou o tradicional buraco que nos devia tragar nesses momentos e que nunca se abre quando é preciso. Imaginem os risos e o gozo dos meus colegas e os risinhos das meninas (estão a ver a linguagem sexista, os homens riem, as mulheres tem risinhos…), em todo o meu percurso no palco das escadas e na parte feminina do passeio, até me conseguir misturar anónimo no passeio masculino.

Como é que se pode não ter saudades do Rainha?

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29.8.03


IRAQUE

Não tenho tempo, neste momento, para ir mais longe na explicação, mas penso que é preciso dizer uma coisa que tem vindo a ser iludida em muitos escritos portugueses sobre o Iraque: que o factor mais importante para explicar muito do que se passa hoje no Iraque não é a “ocupação” americana do país, mas sim a verdadeira revolução social e política que esta provocou – o fim do poder hegemónico da minoria sunita face à maioria chiita.

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CORREIO

Como de costume atrasado, mas isso não é novidade.

Muito correio sobre o Flashback, de que vou enviar cópia, quando é exclusivamente sobre o programa, ao resto da equipa.

Como há uma Internet negra, roçando o crime, a mentira e a falsificação, facilitada pelo relativo anonimato possível, o meu nome e o do Abrupto aparece em falsas mensagens aqui e ali. Repito que não escrevo, por regra, para qualquer caixa de comentários.

Aviso igualmente que a utilização do antigo endereço “jpp_abrupto” no Hotmail é igualmente fraudulenta. Não tenho hoje qualquer endereço no Hotmail.

Infelizmente, isto é o pão nosso de cada dia na rede.

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SÓLIDO


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MAIS E MAIS SOBRE OS FALARES , DOS LEITORES DO ABRUPTO

Vários leitores do Abrupto acrescentam novas informações e correcções às notas publicadas.

A. Marques acrescenta à nota sobre o galego:

A propósito do seu «post», permito-me dizer que a falta de entendimento que, a final, se verificou entre o «labrego» (sem sentido pejorativo, para além do Rio Minho, como se sabe) e a locutora, é devido ao facto de aquele falar português (simplesmente!) e esta falar «castrapo».
A locutora tem a sua TV Galicia; o «labrego» merecia uma TV-Galiza.


Bruno Toledo comenta o “inglês” do texto que transcrevi do Parlamento Europeu

As conclusões são muito interessantes, só tenho pena que o estudo realizado no parlamento europeu pelo Eurobarometer contenha tantos erros de escrita e de sintaxe. Como professor de Inglês e cidadão europeu, não percebo como é que um documento oficial consegue ter tantos erros! No que concerne à informação sobre Portugal o primeiro parágrafo é um tiro no pé! "There is marked the interest for television, the 98.7% of citizens in Portugal watch TV and only the 1.3% declare to doesn't watch it. (...)" Isto continua ao longo do capitulo com pérolas do tipo: "For the other hand there are more citizen female who follow the series and soaps than men are (60.9% & 12.)% respectively), but there isn´t difference from the sex"!”

Serão transmitidas as reclamações, aliás muito comuns, quanto à qualidade da tradução dos textos.

TORRE DE BABEL

O ambiente de Torre de Babel do Parlamento Europeu é um dos seus aspectos mais interessantes e atinge níveis sem paralelo com qualquer instituição deste tipo. A comparação com outras instituições internacionais mostra que elas são bem menos multi - linguísticas do que o PE , dado que o inglês é a língua franca. Também no PE o inglês, e, em menor grau, o francês, tem esse papel, mas como se pode usar a língua nacional em todos os debates há uma muito maior presença da variabilidade das línguas. Por seu lado, também os deputados, por deferência uns com os outros e porque o contacto permanente o induz, fazem um esforço de falar nas respectivas línguas. Num pequeno trajecto entre a sala das sessões e o gabinete, é possível começar em inglês, passar pelo francês e, no elevador, falar em espanhol ou italiano. E funciona, é de facto possível, ter uma instituição genuinamente multi –língua , sem perda quer da identidade cultural das línguas, quer da vivacidade dos contactos.

É, no entanto, muito caro. Uma parte importante do orçamento do PE é para tradução e interpretação e, com a entrada de novas línguas, levantam-se problemas gigantescos. Gigantescos é ainda aqui um eufemismo, porque imaginem o que é traduzir do maltês para o letão e do turco (língua oficial de Chipre junto com o grego) para húngaro, etc. , etc. Imaginem como é que uma sala fica para ter cabinas de interpretação para todas estas línguas, e a dificuldade de arranjar, por exemplo, juristas - linguistas para tratar os textos legislativos, ou de fazer uma delegação internacional em que os interpretes são mais que os deputados. Tudo isto serve de pretexto para um permanente pressão para reduzir o número de línguas de trabalho, mas, quando se chega à definição de quais são, entra o inglês, vem o francês, e logo a seguir espanhóis e alemães começam ao barulho e depois entram todos os outros.

Tenho sempre defendido que, numa instituição parlamentar deste tipo, o argumento da “eficácia” orçamental não tem sentido face à igualdade das nações nela representadas e que essa igualdade fica ferida se a sua identidade cultural, traduzida na língua nacional, fica subalternizada. Esta é também uma posição partilhada pela maioria dos deputados, mas há um permanente atrito, em pequenas decisões, sobre esta matéria. Mas eu acho que vale a pena pagar para que o meu colega checo fale a língua do bom soldado Svejk e ouça a de Camões.

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28.8.03


OS EUROPEUS E OS MEDIA

Partilho convosco os resultados de um estudo e de um inquérito sobre os europeus e os media, realizado no Parlamento Europeu e divulgado ontem. O texto está em inglês, mas os dados são tão interessantes que mesmo assim justificam a sua imediata divulgação. O estudo integral encontra-se aqui.

1. Síntese da situação na UE:

"TV
Almost all Europeans (97.6%) watch television. 99% have at least one TV set at home.
The four types of programmes that Europeans mostly watch are: news and current affairs (88.9%), films (84.3%), documentaries (61.6%), sports (50.3%).

Radio
Almost 60% of the citizens within the European Union listen to radio every day.
Radio programmes that Europeans prefer are: music (86.3%), news and current affairs (52.9%), sports (17.4%).

Newspapers
46% of Europeans read newspapers 5 to 7 times a week. The highest rates are found in Finland, Sweden, Germany and Luxembourg where 77.8%, 77.7%, 65.5% and 62.7% people read newspapers 5 to 7 times a week. On the other hand in Greece, Spain and Portugal only 20.3%, 24.8% and 25.1%, respectively, do so. It is also in these three countries that the proportion of people saying that they never read newspapers is higher than in other countries (30.5%, 23.4% and 25.5% respectively).

Computer
A majority of Europeans (53.3%) does not use a computer. This is especially the case for Greece (75.3%) and Portugal (74.7%). On the other hand, more than one fifth (22.5%) uses it every day. This proportion reaches 36.7% in Sweden, 36.6% in Denmark and 32.2% in the Netherlands. A smaller proportion (14%) uses it several times a week.

Internet
34.5% of the interviewed surf the Internet: 13.5% several times a week and another 8.8% every day. Swedes (66.5%), Danes (59.4%), Dutch (53.8%) and Finns (51.4%) use the Internet more than other Europeans. On the other hand, the proportion of Internet usage is the lowest in Portugal and Greece (14.8% and 15.1%, respectively)."


2. Dados sobre Portugal:

"Television: 98.7% of the citizens in Portugal watch TV. The three types of programmes that the Portuguese watch the most are: news and current affairs (76.7%), soaps and series (38.0%), sports (37.1%).

Radio: 52.7% of the Portuguese listen to radio every day. The Portuguese mostly prefer to listen to: music (88.8%), news and current affairs (59.1%), sports (15.3%).

Newspapers: Only 25.1% read newspapers 5 to 7 times a week.

Computer: The majority of the Portuguese (74.7%) does not use a computer.

Internet: In Portugal the proportion of Internet usage is the lowest in the European Union, as only 14.8% surf the Internet. "

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HORIZONTE


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EARLY MORNING BLOGS 34

O mais importante que se passou na blogosfera nos últimos dias foi a sua utilização como instrumento para uma operação de desinformação de bastante gravidade, a pretexto da investigação em curso sobre pedofilia e a Casa Pia. Hesitei se devia ou não referi-la, porque este tipo de denúncias presta-se a retaliações também anónimas. Resolvi não colocar o endereço do falso blogue, aliás já citado noutros blogues., porque na realidade não é um blogue mas uma carta anónima daquelas que circulam nos empregos, ou que são enviadas às polícias e aos jornais. Não refiro o endereço nem o nome, porque ao fazê-lo contribuía para a sua divulgação. As cartas anónimas não se lêem, rasgam-se. Mas convém que as pessoas estejam prevenidas, de que é grave, muito grave, e não caiam no truque de se porem a discutir se é verdade ou mentira.

É uma típica operação criminosa ao modelo de algumas operações policiais. ou de serviços de informação, feita por gente profissional, que sabe o que está a fazer e conhece obviamente aquilo sobre o que está falar. Mais: está directamente envolvida no que fala, ou profissionalmente, ou individualmente. É também um crime, um crime cometido na blogosfera, presumo que o primeiro. Entramos noutra dimensão.

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NÃO VER A NOITE

Afinal o meu mês marciano não foi grande coisa e o planeta vai-se agora embora. Marte cumpriu a sua obrigação , e lá esteve sempre. Mas os incêndios, a humidade, a má visibilidade comum no Verão, tornaram-no solitário e Marte sem estrelas, sem o manto de luzes em que o seu esplendor brilharia, ficou mais pobre.
Vem aí Saturno.

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27.8.03


FLASHBACK 2

Estou a receber muitas mensagens sobre o fim do Flashback, muitas das quais com perguntas concretas que não tenho aqui e agora condições, nem comunicações, para responder.

Compreendo o que se passa com muitos ouvintes que cresceram, literalmente, a ouvir o Flashback, ou que tinham esse hábito tão incrustado na sua vida, que agora sentem a falta. Agradeço as suas palavras, e penso que o posso fazer também pelo resto da equipa, Carlos Andrade, José Magalhães e Lobo Xavier, e pela memória de todos os outros, Emídio Rangel, Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares e Nogueira de Brito que fizeram o programa durante todos estes anos.

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FLASHBACK

Confirma-se o fim do Flashback na TSF. O Flashback foi o mais longo programa de debate político em qualquer meio de comunicação social desde o 25 de Abril. Voltarei a falar do Flashback e da TSF.

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TRATADO DOS TELEMÓVEIS

(Continuação)


No último número da Newsweek de 1 de Setembro de 2003, um muito interessante dossier sobre as mudanças nos jovens provocadas pelas novas tecnologias de comunicação, telemóveis, computadores, jogos, etc. O título diz tudo : "Bionic Kids : How Technology is Altering the Next Generation of Humans" . E uma fotografia fabulosa de um miúdo negro, da África profunda, a brincar com um telemóvel feito de lama seca e uma cana.

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MAR


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GALEGO

Ontem a TV Galicia transmitiu um festival de gaiteiros. Quando passo pelo canal, fico sempre um pouco, pelo fascínio de ouvir galego. E ontem tive um prémio: uma locutora entrevistava um velho, contemporâneo de um gaiteiro famoso. Nunca tinha ouvido melhor galego, sem nenhuma sombra de sotaque castelhano, no fundo o falar do Norte. O homem dizia "que marabilha" com o b da minha terra.

A locutora, que também falava galego, tinha, pelo contrário, um forte sotaque castelhano e a mesma língua soava a duas diferentes. Tanto era assim que, a uma dada altura, um não percebia o outro e não se conseguiam entender.

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26.8.03


FRONTEIRAS

Os atentados na Índia não devem ser ignorados pelo nosso centramento no Médio Oriente. Eles dão-se na mesma fronteira civilizacional que faz um arco desde Marrocos à Chechénia, passando pelo Kosovo, e terminando nas ilhas indonésias com importantes populações cristãs, como as Flores. Por razões da nossa história, sabemos alguma coisa dos conflitos entre cristãos e “mouros” e “turcos”, mas o mesmo tipo de conflitos, com imenso sangue, se dão na fractura em que o Islão encontra o mundo hindu.

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exp

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25.8.03


”DECISÕES TERRORISTAS” – Conclusão

(A propósito de um texto de Paulo Varela Gomes no cristóvão-de-moura. No Abrupto, lá para baixo, estão as outras duas partes.)

Interpretar a história como uma sucessão de actos únicos, sujeitos apenas à vontade dos seus agentes, feitos para “além do bem e do mal”, é bastante atractivo. O actual terrorismo apocalíptico vai aí buscar uma das sua fontes, por via do “excesso” religioso, da ideia de “martírio” , não por acreditar na irracionalidade da história, mas por acreditar na racionalidade do terror. É contraditório, mas muitas vezes é assim.

Eu não tenho a certeza que a história não seja fundamentalmente irracional, até por outras razões. Basta que se abandone qualquer transcendência, qualquer destino manifesto, qualquer variante hegeliana da História com H grande, seja marxista, seja cristã (como em Teilhard de Chardin) . Tira-se a teleologia e ficam os humanos com o ónus de fazerem a história, ficando os humanos, é o que se vê.

Basta que se considere que o homem não tem qualquer garantia divina para a sua sobrevivência, para se perceber que, desde que possui armas termo – nucleares, tem elevadas probabilidades de se estourar a si próprio – é só uma questão de tempo. Este é aliás o único problema filosófico radicalmente novo que penso não estar presente na tradição clássica grega. (Penso também, mas isto é um desvio, que foi a Bomba, como se escrevia nos anos cinquenta, que dissolveu interiormente todas as teorias da história triunfante com H grande.). Se nos podemos matar a todos, numa esquina da história, toda a história fica, retrospectivamente sem sentido, e é um gigantesco delírio do acaso, uma absoluta irracionalidade face ao domínio da morte, da entropia.

Repito agora a frase anterior, com um acrescento para mim fundamental: eu não tenho a certeza que a história não seja fundamentalmente irracional, mas quero viver e actuar como se não fosse. Não me interessa, a não ser do ponto de vista cientifico, o que a história é ou pode ser, au grand complet , porque não pretendo ter como programa de vida qualquer vazio, mas um mais humilde programa de sobrevivência. Digamos que sou agnóstico quanto aos fins da história, mas crente na sua racionalidade possível e fragmentária . Dito de forma abrupta: eu não acredito que haja progresso, mas entre um mundo sem anestesia e outro com anestesia , há para mim uma diferença abissal.

Isso talvez me torne numa espécie mais complicada do que os voluntaristas brutos de PVG, num voluntarista cultural ou simbólico, que actua perante as coisas por via de uma teatro, de uma ficção, que resulta tanto mais quanto o maior número de pessoas aceite representa-la, sempre sem qualquer garantia de sucesso final. Mas há uma razão para que eu queira viver assim: é que se houver um número significativo de pessoas a fazerem o mesmo, criam à sua volta uma ecologia mais saudável, menos violenta, mais vivível e já não é mau que o consigam em determinados espaços e durante determinados períodos de tempo. Talvez haja uma massa crítica nestas coisas e se consiga tornar o mundo melhor por pequenos períodos de tempo, para um cada vez maior número de pessoas. Talvez.

É por isso que, do meu ponto de vista, posso decidir com a mesma firmeza que PVG atribui às suas personagens nietzschianas, apenas fundado numa filosofia pragmática, para tempos difíceis, sem pretensões sistemáticas. Não preciso de grandes certezas, nem de especiais “músculos da vontade”, mas apenas de um discernimento quase de bom senso, uma filosofia mais do lado humilde da anestesia, pela anestesia, por mil e uma pequenas anestesias, incluindo o bem-estar, a liberdade, a democracia, a felicidade. Pode ser tudo precário, pode ser um esbracejar ilusório, mas não troco e luto, se for preciso, para que não me obriguem a trocar.

E isso diz-me que há “decisões” que, mesmo implicando em última ratio a violência, não são “terroristas” porque são contra o mundo do sistema da morte, contra o apocalipse now, a favor do império da anestesia e contra o do da kalashnikov.

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QUEM TAL FÉ ESQUECE MAL FARIA


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TRADUÇÃO INÉDITA DE PETRARCA POR VASCO GRAÇA MOURA

Em exclusivo para os leitores do Abrupto, publica-se a seguir a tradução inédita que Vasco Graça Moura fez da Canção nº 206 , parte de uma tradução integral do Canzoniere, que será publicada em Novembro deste ano. Vasco Graça Moura considera esta canção “um exercício da virtuosidade petraquiana: construção complexa de modelo provençal em que as estâncias rimam duas a duas, e em que há uma certa obscuridade. Parece que o autor se defende de "terem dito que ele tinha dito" alguma coisa desfavorável a Laura..” O original italiano está em itálico, a tradução em tipo normal.
Obrigada, Vasco.

206.

S’i’ ’l dissi mai, ch’i’ vegna in odio a quella
del cui amor vivo, e senza ’l qual morrei;
s’i’ ’l dissi, che ’ miei dí sian pochi, e rei,
e di vil signoria l’anima ancella;
s’i’ ’l dissi, contra me s’arme ogni stella,
e dal mio lato sia
paura e gelosia,
e la nemica mia
più feroce vèr’ me sempre e più bella.

S’i’ ’l dissi, Amor l’aurate sue quadrella
spenda in me tutte, e l’impiombate in lei;
s’i’ ’l dissi, cielo, e terra, uomini e dèi
mi sian contrarî, et essa ogni or più fella;
s’i’ ’l dissi, chi con sua cieca facella
dritto a morte m’invia,
pur come suol si stia,
né mai più dolce o pia
vèr me si mostri, in atto od in favella.

S’i’ ’l dissi mai, di quel ch’i’ men vorrei,
piena trovi quest’aspra e breve via;
s’i ’l dissi, il fero ardor, che mi desvia,
cresca in me, quanto il fier ghiaccio in costei;
s’i ’l dissi, unqua non veggian li occhi mei
sol chiaro, o sua sorella,
né donna, né donzella,
ma terribil procella,
qual Faraone in perseguir gli ebrei.

S’i ’l dissi, co i sospir, quant’io mai fêi,
sia pietà per me morta, e cortesia;
s’i ’l dissi, il dir s’innaspri, che s’udia
sí dolce allor che vinto mi rendei;
s’i ’l dissi, io spiaccia a quella ch’i’ tôrrei,
sol, chiuso in fosca cella,
dal dí che la mamella
lasciai, fin che si svella
da me l’alma, adorar: forse e ’l farei.

Ma s’io no ’l dissi, chi sí dolce apria
meo cor a speme ne l’età novella,
regga ’ncor questa stanca navicella
col governo di sua pietà natia,
né diventi altra, ma pur qual solía
quando più non potei,
che me stesso perdei,
né più arder devrei.
Mal fa, chi tanta fé sí tosto oblia.

I’ no ’l dissi già mai, né dir poría,
per oro, o per cittadi, o per castella.
Vinca ’l ver dunque, e si rimanga in sella,
e vinta a terra caggia la bugia.
Tu sai in me il tutto, Amor: s’ella ne spia,
dinne quel che dir dêi.
I’ beato direi,
tre volte, e quattro, e sei,
chi, devendo languir, si morì pria.

Per Rachel ho servito, e non per Lia;
né con altra saprei
viver; e sosterrei,
quando ’l ciel ne rappella,
girmen, con ella, in sul carro Elia.



206.

Se o disse alguma vez, então aquela
de cujo amor só vivo, a mim odeie;
se o fiz, meu tempo encurte e se desfeie
e vil senhor à alma dê tutela;
se o disse, me desgrace toda a estrela
e eu tenha em companhia
o medo e a gelosia
e minha imiga fria
mais feroz para mim sempre e mais bela.

Se o disse, gaste Amor as flechas nela
de chumbo e com as de ouro me alanceie,
e céu, terra, homens, deuses façam lei
contrária a mim, com a crueza dela;
se o disse, quem com cego archote zela
e à morte já me envia,
fique como soía,
e nem mais doce ou pia
a mim se mostre, em acto ou em loquela.

Se o disse, do que menos quererei
encontre eu cheia esta áspr’a e breve via;
se o disse, o fero ardor que me desvia
cresça em mim quanto nela o gelo é rei;
se o disse, nunca a mim se patenteie
sol claro, irmã que vela,
nem dona, nem donzela,
mas terrível procela
qual Faraó a hebreus desencadeie.

Se o disse, com suspiros quantos dei,
me morram piedade e cortesia;
se o disse, amargue o dito que se ouvia
tão doce, que vencido me entreguei;
se o disse, desagrade a quem busquei,
só, posto em turva cela,
dês que mamei àquela
hora que nos apela
a alma, adorar: e acaso inda o farei.

Mas se o não disse, quem tão doce abria
meu peito e nova esp’rança lhe revela,
governe inda esta lassa navicela
com leme que piedade inata guia,
nem se torne outra e seja qual soía
quando a mais não cheguei:
perdi-me e perder sei
que mais não poderei.
Quem tal fé cedo esquece mal faria.

Eu não o disse nunca, nem podia,
por ouro, por castelo ou cidadela.
Vença a verdade pois e fique em sela,
caia em terra a mentira sem valia.
Tu sabes tudo, Amor: e se ela espia,
diz-lhe o que te mandei.
Feliz três vezes sei,
e quatro e seis, direi,
quem, devendo sofrer, antes morria.

Por Raquel hei servido e não por Lia,
nem noutra saberei
viver; e susterei,
se o céu chamar, com ela
ir na atrela em que Elias ascendia.

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LER JORNAIS UNS DIAS DEPOIS

Eu leio os jornais na rede todos os dias e em papel uns dias depois, às vezes uma semana depois. São leituras muito diferentes, com tempos diferentes e com destaques diferentes. Uma das vantagens deste desfasamento é também verificar o que é que dura uma semana, que artigos têm um acrescento de informação ou mérito analítico para valer a pena lê-los fora da actualidade.

UM BOM ARTIGO

No Público de ontem , que li hoje, um record de rapidez entre o ecrã e o papel, há um desses artigos , um longo dossier sobre os fogos de 1980 até 2003, feito por Nuno Sá Lourenço, Patrícia Silva Dias e Ricardo Batista. Esse artigo dá-nos duas informações essenciais e inequívocas. Uma , a de que o problema não está no dinheiro, deitar dinheiro em cima dos fogos é o que se tem sempre feito sem resultado. Outra, corolário da anterior, é que os incêndios são um caso irrecusável de responsabilidade política. Nesta matéria, o país tem sido mal governado,

UM OUTRO PROBLEMA

Uma dos aspectos que pude observar durante a época dos fogos, vendo como se moviam as diferentes instâncias do poder, é a inexistência de continuidade entre os “poderes de cima” e os “poderes de baixo”, ou seja, a diluição das autoridades intermédias. “De cima” vem a melhor legislação do mundo, as melhores análises, a identificação de problemas genuínos; de “baixo” vêm as diferentes resistências sociais à mudança, dos proprietários, das autarquias, dos utilizadores dos baldios, dos madeireiros, dos construtores civis, das pirotecnias, dos que há muito fazem as mesmas práticas de risco, e acham que, como estão nas “suas” terras, podem fazer o que quiserem. As leis bem podem obrigar às mais racionais das obrigações, só que ninguém as aplica, nem os governos civis, nem a GNR, nem os bombeiros, nem os presidentes das Câmaras e Juntas. Quanto mais abaixo está uma autoridade, e as nossas estão quase todas em baixo, maior é a pressão dos interesses e menor é a vontade e a capacidade de agir.

Um bom exemplo do passado para estudar este mecanismo, foi a proibição das vinhas de “vinho americano”, em pleno regime autoritário, e as enormes resistências que causou, com conflitos, violências, feridos e mortos.

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EARLY MORNING BLOGS 33


Saudações a dois dos blogues mais úteis que existem : o Valete Frates!, um pioneiro que foi dos primeiros que li regularmente, e o Intermitente. O que eles fazem é trabalhar para nós, por gosto pela controvérsia e pela verdade possível, oferecendo texto sobre texto, citação sobre citação, referência sobre referência, a maioria das vezes na língua original, de todo um conjunto de informações e opiniões que de outro modo nunca teríamos com o actual sistema comunicacional. Obrigada.

Por várias razões, que já puderam encontrar dispersas no Abrupto e ainda vão encontrar mais, interessa-me o fluir que se dá entre diferentes meios e suportes para um determinado conteúdo. Interessa-me saber até que ponto, esse mesmo conteúdo, é alterado pelo meio, entre o ecrã do computador, o papel impresso, a voz, os actos. Sigo, quando posso, as palavras do Abrupto para além do blogue propriamente dito, para as citações nos jornais, para a mais invisível influência (ontem, por exemplo, vi um jornalista fazer perguntas que claramente foram inspiradas pelas críticas que fiz a Carlos Fino). Nos últimos dias, pude ver uma cópia em papel do texto sobre a procissão popular, que alguém tinha tirado do Abrupto e fazia circular numa pequena comunidade. Soube também que um leitor tinha usado o programa AvantGo para colocar o Abrupto num PDA. Li poemas em que a “luz de Skagen” se reflectia. Pelas cartas dos leitores encontro ás vezes, uma simultaneidade de observação e o seu efeito afectivo, quando escrevi sobre o que se podia ver á noite e alguém saiu de casa ou foi à janela ver se via a mesma Lua.

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24.8.03


DELIBERADA INCOMPLETUDE


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”DECISÕES TERRORISTAS” – Segunda parte

A teoria de Paulo Varela Gomes sobre o terrorismo, que, bem vistas as coisas, é sobre a história, é de modelo nietzschiano. Os fazedores da história seriam uma espécie de Zaratrustas. que batem no ferro quente da humanidade com um gigantesco martelo , moldando assim o sentido da história . O martelo é a capacidade de “exagero”, de “loucura” (termos nietzschianos) de “decisão”, Isto tornaria os terroristas em “seres político-militares interessantes. Praticam a decisão e o exagero como formas de agir.

PVG veio, em seguida, precisar o sentido deste “exagero”, acentuando ainda mais os elementos nietzschianos na análise – veja-se o uso de termos como “vontade”, os “músculos da vontade”, e o papel do medo:

O exagero e e as decisões terroristas são como que figuras de retórica que, como todas, se encenam como verdade. Mas, além disso, encenam também a vontade soberana. Ou seja, se todas as decisões, sendo por definição arbitrárias, se apresentam como a "única" solução possível, ou a "melhor", as decisões que pratica o discurso exagerado ou a acção política terrorista derivam de uma dupla operação retórica: apresentam-se como a verdade mas também como uma exibição dos músculos da vontade. São, portanto, decisões persuasivas: podem fazer medo.

Para PVG esta característica de “vontade” igualiza os terroristas, os israelitas, e o trio conservador americano (Bush-Ramsfeld-Wolfowitz), não só na forma como actuam, como na possibilidade de “ganharem”. De forma coerente, PVG considera que os movimentos terroristas, a que chama de “terrorismo comunitário”, da Irlanda, do País Basco, do Médio Oriente, podem ser vitoriosos, do mesmo modo que os israelitas ou os americanos. O que torna o texto de PVG diferente é que, ao manter este leque de possibilidades, distancia-se muito do que é vulgar escrever-se sobre esta matéria.

(De passagem, porque não é central no argumento, PVG faz uma distinção contestável, entre “terrorismo comunitário” e “terrorismo meramente político” , o do grupo Baader-Meinhof, BRs e FP 25 de Abril. Inclui também a Al-Qaeda no grupo do “terrorismo comunitário”, o que, mesmo que se admita a sua tipologia, não me parece aceitável.)

Para PVG o que é essencial na atitude mental dos terroristas é a capacidade de “decidir”, ou seja, segundo PVG, de “errar”:

"Bem vistas as coisas, todas as decisões são um salto no escuro, uma catástrofe entre pensamento e acção: a gente hesita, pensa, pesa “os prós e os contras” e, de repente, decide. Quando se decide, abdica-se de continuar a pensar. Uma decisão é sempre a decisão de ignorar vários aspectos da realidade e a complexidade real de qualquer situação. Deste modo, ao decidir, erra-se – sempre. Não há, por definição, decisões acertadas. Quem quer à viva força acertar, acaba por não decidir nunca porque é impossível ter a certeza de que se está a decidir bem. A história é feita por quem decide, ou seja, por quem escolhe uma opção (errada) e depois a negoceia ou enfrenta as suas consequências. "

Conclui, “a história é dos “loucos”, ou seja, a história move-se com base numa irracionalidade fundamental, a história é irracionalidade. Também aqui não saímos de um modelo nietzschiano e de uma interpretação do terrorismo muito comum no século XIX e no princípio do século XX.

(Continua)

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MARIO VARGAS LLOSA SOBRE O ATENTADO CONTRA A ONU EM BAGDAD

O artigo de Mario Vargas Llosa, que pode ser lido integralmente no Estado de S. Paulo , apresenta uma notável análise e uma acertada conclusão sobre o que se passou.:

"O atentado terrorista que destruiu a sede da ONU em Bagdá, matando mais de 20 pessoas e ferindo mais de 100 - o mais grave de que a ONU foi vítima desde sua criação -, já mereceu, como era de se esperar, leituras bem distintas. A mais enviesada ideologicamente, de meu ponto de vista, é aquela segundo a qual este atentado é uma demonstração do fracasso absoluto da intervenção militar no Iraque e da necessidade de as forças de ocupação se retirarem o quanto antes e devolverem a independência ao povo iraquiano.

Este aberrante raciocínio pressupõe que o atentado foi levado a cabo "pela resistência", ou seja, pelos unânimes patriotas iraquianos contra os invasores estrangeiros e seu símbolo, a organização internacional que legalizou a Guerra do Golfo e o embargo. Não é assim. O atentado foi perpetrado por uma das várias seitas e movimentos dispostos a provocar o apocalipse a fim de impedir que o Iraque possa ser, num futuro próximo, um país livre e moderno, regido por leis democráticas e governos representativos, uma perspectiva que com toda justiça aterroriza e enlouquece os assassinos e torturadores da Mukhabarat e os fedayn de Saddam Hussein, os comandos fundamentalistas da Al-Qaeda e do Ansar al-Islam e as brigadas terroristas que os clérigos ultraconservadores do Irã enviam ao Iraque.

Todos eles - uns poucos milhares de fanáticos armados, isso sim, de extraordinários meios de destruição - sabem que, se o Iraque chegar a ser uma democracia moderna, seus dias estarão contados, e por isso desencadearam essa guerra sem quartel, não contra a ONU ou os soldados da coalizão, e sim contra o maltratado povo iraquiano. Deixar-lhes livre o terreno seria condenar este povo a novas décadas de ignomínia e ditadura semelhantes às que ele padeceu sob a palmatória do Baath.

Na verdade, diante deste crime e dos que virão - agora está claro que as organizações humanitárias e de serviço civil passaram a ser objetivos militares do terror -, a resposta da comunidade de países democráticos deveria ser multiplicar a ajuda e o apoio à reconstrução e democratização do Iraque. Porque neste país trava-se nestes dias uma batalha cujo desfecho transcende as fronteiras iraquianas e do Oriente Médio e abarca todo o vasto domínio desta civilização pela qual sacrificaram suas vidas Sérgio Vieira de Mello, o capitão de navio Manuel Martín Oar, Nadia Younes e tantos heróis anônimos. "


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EARLY MORNING BLOGS 32

Os geógrafos têm um conceito para estudar a parte “humana” da sua disciplina – os “lugares centrais”. Na nossa blogosfera também há “lugares centrais”: um é o Magnólia, outro a FNAC do Chiado. Do Magnólia nada posso dizer porque não conheço. Quanto à FNAC do Chiado intriga-me que nunca haja referências à FNAC do Colombo. Estranho, até porque a FNAC do Colombo é muito melhor do que a do Chiado … Porquê? Será que moram todos no Chiado? Os nossos autores de blogues não entram em centros comerciais? Só vão directamente para as livrarias?

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”DECISÕES TERRORISTAS” – Primeira parte

Uma nota de Paulo Varela Gomes (PVG) no seu cristovao-de-moura intitulada “Decisões terroristas”, foi a que mais interessante me pareceu em todo este debate sobre o terrorismo. Nela existem dois aspectos que podem ser separados para análise: um, apreciações sobre a situação relativa ao Iraque e ao fundamentalismo, outro, considerações sobre o terrorismo como acção e decisão e a sua eficácia. Falarei das duas separadamente, porque penso que tal se pode fazer sem prejudicar a argumentação de PVG

Na parte inicial cito algumas afirmações:

PVG- Os fundamentalistas sabem ter ganho, nas últimas décadas, apenas uma batalha: a do Irão (a primeira). Perderam as da Argélia, do Egipto, da Turquia, do Afeganistão e do Iraque, registaram uma espécie de empate na Arábia Saudita e no Paquistão, continuam o combate em muitos sítios (Marrocos, Tunísia, Egipto, Iraque, Paquistão, Indonésia).

JPP- Não concordo e penso que não é suportável factualmente. Em aspectos decisivos da vida pública e quotidiana, – naquele que talvez seja mais revelador, o da condição da mulher, mas também no esboço de uma laicidade do estado – , o fundamentalismo mudou profundamente o quotidiano na Argélia, no Egipto, no Paquistão, e introduziu tensões em todas as sociedades referidas. Cortou um caminho tímido, mas real, para sociedades menos dominadas pelos preceitos religiosos estritos. Na maneira de vestir, no consumo de bebidas alcoólicas, na imposição social do jejum no Ramadão, na liberdade de expressão sobre matérias religiosas, na liberdade de ser agnóstico ou ateu e proclama-lo, na liberdade de actuação de outras confissões religiosas, houve enormes recuos de Marrocos à Indonésia., passando pelas áreas muçulmanas da Ásia central.
A ideia que o combate do fundamentalismo é pelo poder político, pela governação, não é central no fundamentalismo, nem se manifesta do mesmo modo no sunismo e no chiismo.

PVG - Ainda é muito cedo para dizer se está ou não comprometido o objectivo estratégico dos norte-americanos no Iraque. Trata-se de um objectivo a duas décadas, pelo menos. Entretanto, os comentadores mais “sensatos” parecem pensar que a administração americana não teve consciência plena do vespeiro em que se ia meter.

JPP - No essencial, de acordo.

PVG - Por mim, acho que Bush, Rumsfeld, Wolfovitz e Cia são iguais aos fundamentalistas: não são moderados. São exagerados, radicais, brutos. São daqueles que fazem história, não daqueles que limam as arestas da história. Acho por isso que vão cerrar os dentes e meter mais tropas e mais dinheiro no Iraque.

JPP - Discordo com a caracterização inicial. As palavras pregam-nos o truque de nos seduzirem a usa-las de forma pouco rigorosa. “Fundamentalismo” é aqui usado para caracterizar realidades muito distintas. Não é o facto de se considerar Bush, Rumsfeld, Wolfovitz, “exagerados, radicais, brutos” que permite a comparação total – “são iguais aos fundamentalistas” – que é feita. Churchill, por exemplo, foi várias vezes assim classificado, quando a política de apaziguamento face a Hitler gozava de um apoio generalizado na opinião pública inglesa. A comparação tem todo o sentido porque o tipo de críticas a Churchill, que aliás se repetiram no mesmo tom e conteúdo quando ele fez o discurso sobre a “cortina de ferro”, é exactamente o mesmo daquelas que são feitas ao trio conservador. Pode-se dizer que eles estão convictos que é necessário travar uma guerra complicada no vespeiro do Médio Oriente, porque entendem que não há outra solução face aos desafios estratégicos que o terrorismo actual coloca aos EUA, pode-se dizer inclusive que a interpretação que fazem dos interesses americanos os leva a uma política belicista. Pode-se dizer que estão errados, que as suas acções tem o efeito contrário do pretendido, (não é esse aliás o ponto de vista de PVG), mas não se pode considera-los iguais.

Eu bem sei que para PVG o que os igualiza é o mind setting, a forma mentis, a capacidade para decidir, e para PVG, decidir é errar. Esta é a segunda questão que tratarei em seguida.

(Continua)

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NA MÓ DE BAIXO

Quando se está na mó de baixo, em Portugal, todos batem. A maneira como nos noticiários (principalmente o da TVI) foi tratado o primeiro comício do PS, antes sequer dele acontecer, é penosa de tão desequilibrada. Infelizmente já estamos tão desabituados de um texto limpo, com notícias e sem comentários, sem ditos engraçadinhos ou repetição das banalidades escritas em todos os jornais da semana, que já nem sabemos como é ter uma televisão que seja um órgão noticioso.

O PS está de facto numa situação muito difícil, com grandes responsabilidades da direcção de Ferro Rodrigues nessa situação. Mas isso é uma coisa, outra é um permanente comentário ridicularizante, profundamente opinativo e superficial. Isto acontece porque os jornalistas simpatizam com o governo ou o PSD? Não, mas porque gostam de bater em quem está em baixo.

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