ABRUPTO

23.8.03


CARLOS FINO EM BAGDAD

A RTP enviou Carlos Fino de novo ao Iraque. Fino é um jornalista experimentado, seguro, que não hesita em correr riscos para estar no sítio certo no tempo certo. Essa capacidade permitiu-lhe momentos de reportagem que qualquer jornalista gostaria de ter.

Mas Fino não é um jornalista objectivo, nem nada que se pareça. Já me reduzo a considerar objectividade, apenas a procura de objectividade, que isso qualquer pessoa sabe o que é , sente se existe. Fino é um jornalista programático, que desenvolve o seu trabalho em função da sua opinião e só vê e só comenta o que com ela coincide. Se analisarmos os seus relatos da guerra, na estadia anterior, eles revelam um enorme desequilíbrio, insisto, enorme. O que Fino relatou, dia após dia, não só não se verificou como foi contrariado pelos factos de forma gritante. Fino continuou na mesma, imperturbável, mesmo quando a queda de Bagdad de Saddam, foi um desmentido flagrante do que ele dizia na véspera.

Na RTP, ninguém quer saber destas minudências e Fino foi de novo enviado para o Iraque. E, desde o primeiro minuto, está a repetir o mesmo que já fez: as suas intervenções nos noticiários são completamente programáticas e tão previsíveis que as podia fazer de Lisboa. A linha actual é simples e repisada a propósito de tudo: o Iraque está mais inseguro do que alguma vez esteve, tudo corre mal aos americanos, nada se estabiliza e a situação é um beco sem saída. Todos os dias ele vai dizer o mesmo, todos os dias ele vai procurar um pretexto de reportagem para dizer o mesmo.

Que a situação no Iraque é de insegurança, nós sabemos. Que nem tudo corre bem para os americanos, nós também sabemos. Se é um beco sem saída, isso não sabemos. Agora o que sabemos certamente é que o Iraque de Saddam , há meia dúzia de meses, era um regime de torturas, fuzilamentos sumários, prisões e espancamentos , opressão da maioria chiita, de violência absoluta. Talvez por isso, quando vemos numa reportagem de Fino, um iraquiano exaltado à frente de uma manifestação de desempregados, com muito pouco gente aliás, a berrar que “hoje se está pior do que no tempo de Saddam” , nos faça falta algum enquadramento, que um jornalista isento faria sobre o valor deste “testemunho”. É um pouco a mesma coisa que ver o 25 de Abril em 1975 pelos olhos de um legionário.

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22.8.03


CORREIO

Quando me defronto com a lista de correio atrasado, neste momento qualquer coisa como quinhentas mensagens, já percebi que nunca vou conseguir pô-lo em dia. Desde que comecei o Abrupto só consegui responder a cerca de setecentas mensagens, muitas aliás o mais sucintamente possível.

Vou continuar a tentar responder a todos, mas já não posso dar a garantia de o fazer. De qualquer modo, não queria que ninguém desistisse de me escrever. Uma das alegrias que o Abrupto me dá é conhecer o que cada um pensa do que escrevo. E podem ter a certeza que leio com atenção tudo, e tenho em consideração o que me é dito.

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FALCÕES


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NOTAS CHEKOVIANAS 5

Fiel a uma promessa que fiz nos primeiros momentos do Abrupto, comprei uma série de DVDs de filmes franceses, que tenho vindo a ver ao acaso do tempo. Para quem não leu essa nota inicial, recapitulo. Fiz uma comparação entre o cinema francês e o americano, pouco abonatória para o cinema francês. Alguns autores de outros blogues censuraram-me a nota e chamaram-me a atenção para determinadas filmes que eu não tinha visto. Eu enfiei, como se costuma dizer, a viola no saco, e prometi voltar ao assunto depois de os ver.

Já vi alguns e com gosto. Continuo a manter a mesma opinião em termos gerais, mas a verdade é que há outras coisas nesses filmes que merecem mais atenção do que a que eu tinha dado. Vi, por exemplo, uns a seguir aos outros, três filmes de Éric Rohmer, Le Genou de Claire, La Collectionneuse e L’Amour l’Aprés-Midi, da série dos “Seis contos morais”. São todos muito parecidos, podiam ser um único filme.

Em todos eles um conjunto trivial de personagens, homens e mulheres, encontram-se num espaço comum, um bairro de Paris, uma casa em Annecy junto ao lago, uma velha mansão na parte rural por detrás de St. Tropez. Não há verdadeiramente uma história – estão lá, vêem-se, almoçam, passeiam, tomam o pequeno-almoço, conversam, namoram. Não há em nenhuma personagem qualquer sentimento forte, nem sequer qualquer desejo de tocarem os outros, ou de por eles serem tocados. Não há gritos, não há zangas, não há ciúmes, mas, pouco a pouco, as personagens são empurradas umas para os outras, para relações que aparentemente não queriam, mas que acontecem. Acontecem, mas sempre no limiar de não acontecer, porque o enleio dura um verão, ou melhor uns dias de verão, e depois desaparece com a mesma ligeireza com que começou. Tocam-se e afastam-se quase tão rapidamente, sem drama, sem tristeza, sem ninguém achar que ganhou ou perdeu alguma coisa.

O mecanismo destas histórias é semelhante aos dos contos de Chekov, mas a ecologia das personagens é muito diferente. Este mundo seria o de Chekov, se houvesse um pouco menos de ligeireza, um pouco menos de Verão, um certo sentido de tristeza humana, um vago assomo de destino. Não há, é tudo muito amável, quase se poderia dizer, agradável.

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BAGDAD / JERUSALÉM 6

Quanto mais vou aprendendo sobre o mundo islâmico, sem querer meter tudo no mesmo saco, mas falando genericamente, porque não deixa de ser neste caso possível, mais importância atribuo ao domínio dos homens sobre as mulheres como factor de uma forte e agressiva diferenciação cultural, na origem de muitos dos actuais conflitos.

Na guerra actual, como em todas as guerras, há um elemento de poder presente, poder que se quer ganhar, poder que se quer defender. Um dos elementos que cada vez me parece mais importante neste conflito é a defesa da autoridade quase absoluta dos homens sobre as mulheres no mundo islâmico. Bernard Lewis tinha já chamado a atenção para esta característica do mundo islâmico, como uma das grandes barreiras à modernização, uma das coisas que explicava o “que correu mal”.

É verdade, como muitos muçulmanos dizem, com razão, que a autoridade masculina, seja do marido, seja do pai, seja dos irmãos, acompanha direitos, principalmente patrimoniais, da mulher, que foram pioneiros em relação ao mundo ocidental. Mas mesmo aí o que se defende é mais a família original da mulher do que a mulher em si, que sai de uma servidão para outra. A escravatura sexual da mulher, a sua ausência de direitos cívicos ou quaisquer outros, a imposição de uma autoridade absoluta e desigual, é uma das características culturais e sociais mais violentamente defendidas pelos homens.

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HÁ CAMINHO


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EARLY MORNING BLOGS 31 / OBJECTOS EM EXTINÇÃO 20

Cito do blog do veneno eficaz

Já se aperceberam de que, hoje em dia, não é fácil comprar uma estante para livros? O que sempre existe nas lojas de móveis são aquelas estantes quase inúteis para "bibelots" mas nada para livros.
As estantes caíram em desuso? Deixaram de ser um elemento das casas? Ou foram os livros?
Parece que a alternativa fácil continua a ser aquele móvel grandioso e pesado com espaço próprio para a TV, uma porta de vidro para uns copos e aperitivos, umas gavetas em baixo e prateleiras largas para as enciclopédias e outras colecções encadernadas que ninguém voltou a ler.
A mim sempre me impressionaram as grandes estantes só para livros no meio da sala ou no escritório. Estantes, regressem.

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BAGDAD / JERUSALÉM 5

Um poema para que o nosso olhar não fique só de um lado.

The Indian Upon God

I passed along the water's edge below the humid trees,
My spirit rocked in evening light, the rushes round my knees,
My spirit rocked in sleep and sighs; and saw the moorfowl pace
All dripping on a grassy slope, and saw them cease to chase
Each other round in circles, and heard the eldest speak:
Who holds the world between His bill and made us strong or weak
Is an undying moorfowl, and He lives beyond the sky.
The rains are from His dripping wing, the moonbeams from His eye.

I passed a little further on and heard a lotus talk:
Who made the world and ruleth it, He hangeth on a stalk,
For I am in His image made, and all this tinkling tide
Is but a sliding drop of rain between His petals wide.

A little way within the gloom a roebuck raised his eyes
Brimful of starlight, and he said: The Stamper of the Skies,
He is a gentle roebuck; for how else, I pray, could He
Conceive a thing so sad and soft, a gentle thing like me?

I passed a little further on and heard a peacock say:
Who made the grass and made the worms and made my feathers gay,
He is a monstrous peacock, and He waveth all the night
His languid tail above us, lit with myriad spots of light.


W. B. Yeats

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BAGDAD / JERUSALÉM 4

Devido a uma avaria na minha rede telefónica provinciana, (depois das 17.30 não há piquete para arranjar telefones, um serviço supostamente de 24 horas), não pude actualizar as notas sobre esta questão. Estas duas notas eram para ter sido colocadas ontem.

1. Tive ocasião de ler , um pouco por todo o lado, que o dirigente do Hamas morto pelos israelitas (numa política de assassinatos selectivos incompreensível a não ser em estado de guerra) era um “moderado”. Quem diz isto, seja do Departamento de Estado americano, seja no mais português dos blogues, não sabe o que é uma organização terrorista. Não há “dirigentes moderados” numa organização terrorista, ponto. Esse mesmo “dirigente moderado” , se era dirigente, esteve com certeza em várias reuniões em que se decidiu o atentado do autocarro e muitos outros atentados. É da natureza da pertença a essas organizações. Votou contra, levantou dúvidas numa reunião, achou que não era a altura? Se não saiu pela porta fora, a denunciar o crime em preparação, para o que tem a Autoridade Palestiniana como interlocutor, discutiu apenas tácticas. Claro que não duraria muito, porque nestas organizações só se entra, não se sai.

2. Os autocarros israelitas que explodem são a guarda avançada de muitos outros autocarros, comboios, aviões, que podem explodir um pouco por todo o lado. É esse o caminho que imperceptivelmente se está a definir. Alguém, nalgum sítio, há de estar hoje a pensar nas frotas de autocarros que podem explodir no centro de Londres, Nova Iorque ou Madrid, pela obra de um “mártir” e nos efeitos desses massacres como oportunidades políticas. É por isso que está uma guerra em curso.

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21.8.03


NA MESMA, FIOS NA PEDRA


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BAGDAD / JERUSALÉM 3

Como esperava, o que escrevi sobre os atentados em Bagdad e em Jerusalém suscitou muito correio. Alguns dos textos enviados apareceram entretanto nos blogues dos seus autores, pelo que para aí remeto os leitores. Há algumas cartas que contem textos que directamente confrontam o que escrevi. Seleccionei algumas, compreendendo bem que palavras duras suscitam palavras duras. Como é obvio, não concordo com o seu conteúdo, mas penso que suscitam questões que merecem reflexão, ou que são significativas do modo como as pessoas vêm esta muito complexa situação.


"Porque razão é que as mortes israelitas, na sua enorme brutalidade, não suscitam um milionésimo de reacção, da fácil reacção que outras mortes causam, mas apenas incomodo? (…) Porque razão as mortes iraquianas suscitam lágrimas e as israelitas comentários?" (perguntas de JPP)

Pela mesma razão pela qual tomamos o partido dos indíos de lança na mão contra o dos cowboys de Gatling na cintura.

Pela mesma razão pela qual se nos confrangemos ao vermos o longo braço armado de Israel entrar por território alheio adentro e arrasar a casa do 'mártir' que se fez explodir ontem.. (como essa fosse a terapia indicada para impedir a barbárie! Como se essa fosse a melhor política de relações públicas que alguém pudesse imaginar no sentido de angariar boas vontades a nível mundial!)

Pela mesma razão pela qual me arrepio ao ver os judeus Hasidi, ultra- ortodoxos, por todo o lado. Homens, todos. São homens severos, velhos e novos que se vestem de negro, que usam um chapéu antiquado (ou um streimel) ao invés da kippa, que exibem as tzitzis por sobre as calças e os payos (aquelas longas tranças por sobre as orelhas, geralmente com o restante couro cabeludo rapado à máquina de pente um mandatadas por Deus no Levítico 19:27) com orgulho e que balançam devagarinho, para trás e para frente, enquanto murmuram preces em hebraico sonegadas a livros assebentados que parecem deles fazer parte integral. Entram-me em casa pela televisão, saltam-me aos olhos na capa do Público, sempre rígidos e severos, sempre calados, proverbialmente vingativos
e castigadores.

O fundamentalismo é sempre assustador, seja lá qual for a forma sob a qual se apresente. E a intolerância é sempre a mãe de todos os conflitos, a pedra de toque de um futuro que teima em não haver, com ou sem vítimas politicamente correctas. Ou não."

(Alexandre Monteiro do No Arame)


*

Li no seu blogue:

"Porque é que não se pode dizer que Sérgio Vieira de Mello morreu pelo mesmo objectivo por que morrem os soldados americanos? Por ter sido funcionário da ONU?"

Sou um grande fan do seu blogue, mas as frases anteriores revelam uma grande hipocrisia e má vontade por parte do seu autor, pois facilmente se vê que Sérgio Vieira de Mello não fazia parte de um exército de ocupação
.” (Pedro Andrade)

*

Escreveu no abrupto sobre os atentados de Badgade e Jerusalém: «É que há muita gente que prefere os seus confortinhos ideológicos, ao decente sentimento de poupar a dor a pessoas concretas»

Não me leve a mal, mas quanto ao decente sentimento de poupar a dor a pessoas concretas, não me ocorre ninguém com menos legitimidade em invocá-lo do que aqueles que, como o Senhor, fizeram a apologia da intervenção militar no Iraque.
” (Manuel Anselmo Torres)

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20.8.03


BAGDAD / JERUSALÉM 2

Por que é que não se pode dizer que Sérgio Vieira de Mello morreu pelo mesmo objectivo por que morrem os soldados americanos? Por ter sido funcionário da ONU?

Por que razão é que as mortes israelitas, na sua enorme brutalidade, não suscitam um milionésimo de reacção, da fácil reacção que outras mortes causam, mas apenas incomodo? Deixem-se de disfarces – está escrito em letras garrafais em tudo o que está escrito e no muito que não está.

Por que razão as mortes iraquianas suscitam lágrimas e as israelitas comentários?

Por que razão ninguém quer saber para coisa nenhuma do plano de paz israelo - palestiniano, o único que existe, o único que se está a implementar, o único que permite alguma esperança? Porquê? Porque acham que é Arafat que tem razão ou o Hamas? É com eles que vão fazer a paz?

Por que é que este pobre, débil, frágil plano não suscita a mais pequena defesa, o mais pequeno entusiasmo pela paz, a mais ténue mobilização da opinião pública? Porquê, porque os americanos estão envolvidos?

Porquê? Tem outro? Conhecem alternativa?

Há uma razão brutal para algumas respostas a todas estas perguntas e que só se aplica a quem as enfiar como carapuça. É que há muita gente que prefere os seus confortinhos ideológicos, ao decente sentimento de poupar a dor a pessoas concretas. E que não quer saber rigorosamente para nada quer dos israelitas, quer dos palestinianos, quer dos iraquianos, concretos, mas sim das abstracções longínquas de que se alimenta um discurso fácil e arrogante sobre o mundo.

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MOMENTOS


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IRAQUE

Eu não gosto de escrever sobre a situação iraquiana de forma fragmentária e curta, para que os blogues empurram. O Iraque é matéria em que quem apoiou o conflito tem, no meu entender, uma responsabilidade particular e só o pode tratar muito a sério., ou seja, de forma extensa e mais longa, para permitir a argumentação. Farei isso noutros locais mais apropriados, aqui ficam apenas notas por desenvolver.

Contrariamente ao que se possa pensar, nós temos hoje um grande deficit de informação sobre o que se passa no Iraque. A cobertura noticiosa é puramente incidental, manifestações, atentados e mortes de soldados americanos ou de civis. Tudo o mais, que é relevante no plano político mas menos espectacular, não chega aos jornais e às televisões. Julgar apenas com base nos incidentes, muito diferentes de natureza uns dos outros, é cair numa armadilha interpretativa.

Há no entanto um dado de bom senso, que pode ser partilhado pelas pessoas moderadas, à esquerda e à direita, mesmo com os que se opuseram à guerra – a verificação de que, se houvesse uma retirada das tropas americanas, haveria um banho de sangue no Iraque. Haveria uma desestabilização generalizada no Médio oriente e um crescendo do terrorismo a nível mundial.

A natureza do problema que se defronta no Iraque é mundial, não é local. É da natureza da guerra e não de uma operação de polícia. Tem características de uma guerra civil mundial, não o sendo exactamente. É uma guerra moderna porque vive da combinação entre o atentado suicida e o impacto na opinião pública. É apocalíptica porque quanto mais mortos, quanto mais câmaras presentes, maior é o espectáculo, maior é a eficácia

A comparação com o Vietnam é uma asneira completa. Nem o Iraque é o Vietnam, nem o mundo é o do Vietnam, nem a opinião pública americana é a do tempo do Vietnam, nem o exército americano é o do Vietnam, nem o fundamentalismo é o nacionalismo. Podia continuar-se indefinidamente.

A chave para resistir no Iraque o tempo necessário para se ter resultados é a firmeza e a persistência, as duas qualidades que o ascenso da demagogia nas democracias modernas mais dissolve na vida pública. A sobrevivência das democracias no século XXI vai depender de se encontrar um equilíbrio que impeça a demagogia de substituir a democracia e a pedra de toque dessa capacidade está, a nível global, em saber-se se as democracias vão continuar a poder fazer a guerra, a serem democracias armadas e a conduzir políticas de guerra com persistência suficiente para elas mudarem alguma coisa.

Eu não precisava de dizer que a guerra numa democracia é um instrumento de último recurso para defesa e segurança e para construir a paz, mas é melhor dizer para não facilitar as interpretações de má fé. Sem um pensamento sobre a guerra, não há paz, sem um pensamento democrático sobre a guerra , o mundo será muito mais violento. Se em meados do século XXI as principais potências militares mundiais forem regimes ditatoriais, a democracia conhecerá um longo ocaso e haverá um prolongado sofrimento para milhões e milhões de homens. Tão simples como isso.

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A MASTURBAÇÃO DA DOR

Devido às minhas estadias europeias tenho uma oportunidade de ver os normais noticiários televisivos, quotidianos, comuns, de várias televisões nacionais públicas ou privadas. Não me refiro às versões, que também se podem ver em Portugal, por cabo ou satélite, normalmente versões especiais, reduzidas, dos noticiários dos países de origem, mas diferentes em muitos casos do que passa às 13 ou 20 horas em Madrid, Bruxelas, Paris, Londres ou Berlim.

Não há qualquer remota parecença com os noticiários televisivos portugueses, com o exagerado tempo de “notícias”, com o caos da agenda noticiosa, com a repetição vezes sem fim e ao mais pequeno pretexto das imagens fortes, com a inserção de peças narrativo - ficcionais sobre noticias fortes do passado quando não há adrenalina no presente, com música de fundo e tratamento “estético” das imagens, com a utilização, sem qualquer pedido de autorização, de cenas de dor e choro, com jornalistas excitados a fazer simulações de riscos que não correm (houve várias nos incêndios para uma só genuína) e fazendo as perguntas mais estúpidas do mundo a pessoas que estão a sofrer.

Uma especialidade actual dos media televisivos, que teve o seu primeiro esplendor com a queda da ponte de Castelo de Paiva, é a masturbação da dor alheia.

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19.8.03


VAZIO


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BAGDAD / JERUSALÉM

Não foi preciso deixar o Assassínio na Catedral de T. S. Eliot (tradução de José Blanc de Portugal):

Entorpecida a mão, secos os olhos,
Continua o horror e mais horrível sempre;
Mais horrível que o rasgar dos nossos ventres
Continua o horror e mais horrível inda
Que o torcer dos nossos dedos
E o que as cabeças nos espedaçava;
Pior que os passos pela claustra;
Pior que as sombras do portal;
Pior que o furor no paço episcopal.
Sumiram-se os agentes do inferno, os homens amesquinham-se, encolhem-se e esgueiram-se.
Solutos na poeira do vento, esquecidos, imemoráveis; apenas aqui fica
A branca lisa face da Morte, de Deus silenciosa serva;
E atrás dela o Final Juízo;
E atrás do Juízo o Vazio vem; o Vazio ainda mais horrível que as activas formas do inferno;
Vacuidade, ausência, separação de Deus; o horror da jornada inesforçada para a terra vazia,
Terra que o não é, apenas vacuidade, ausência, o Vazio
Onde os que foram homens mais não podem tornar seu pensamento,
Ou distraírem-se, ou iludirem-se, fugirem para os sonhos, simularem;
Onde a alma enganar-se näo mais pode pois lá não existem nem Sons nem objectos,
Nem cores nem formas que a distraíam ou afastem
Da visão de Si própria, vilmente unida eternamente, nada de nada,
Não o que chamamos morte mas o que lhe e além e não é monte;
Temos medo! Medo! Quem então me pode defender,
Interceder por mim na necessidade extrema?”


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A COMPRAR

A correr, antes que desapareça, se esgote, acabe. O livro de hoje do DN, é o Assassínio na Catedral de T. S. Eliot, na tradução de José Blanc de Portugal. Nas páginas 65 a 67, na fala do coro, um dos pedidos de perdão mais veementes, porque “eu consenti”. Tomás responde: “A espécie humana não suporta muito bem a realidade”.

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NOTAS CHEKOVIANAS 4



O quadro que hoje nos ilustra varia do modelo habitual por causa das notas sobre Chekov. É uma parte de uma pintura do norueguês Peder Severin Kroyer um dos pintores de Skagen. Passa-se aliás em Skagen em 1893, uma cena burguesa, de um pequeno-almoço de intelectuais aí veraneantes. A luz de Skagen está também presente reflectindo-se no vestido da mulher e no boião com as flores. Tudo é sólido, tudo parece ser simples e de boa qualidade, nórdico se se quiser. Na mesa está pão, manteiga, ovos, chá, talvez café, água gaseificada. Alguns destes pormenores não se vêm no fragmento, mas apenas no quadro original. Uma reprodução do original está aqui.

Na pintura está o casal Kroyer e Otto Benzon, um escritor dinamarquês, autor de alguns dos poemas que Grieg musicou. Todo este mundo é tão nórdico que se procurarem na Internet por estes nomes, quase nada aparece em inglês. A razão porque este quadro me atraiu foi pelo humano exercício (e chekoviano) de divagarmos em imaginação de como é que no futuro nos poderão ver. Como é que daqui a cinquenta anos se olhará para o que somos , o que fazemos, como vivemos? Eu já não generalizo, mas fico-me com os intelectuais, com os litterati, que somos quase todos os que escrevem aqui – os émulos menos talentosos dos veraneantes dourados de Skagen.

O quadro responde-nos, porque Benzon, e os Kroyer fizeram certamente a mesma pergunta. Assim. Fomos nós? Somos nós.
Sem a pintura.

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MUNDO


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NOTAS CHEKOVIANAS 2

Há um momento na literatura russa, entre o fim do século XIX e o início do século XX , em que escritores como Tolstoy e Chekov encontraram um olhar único, que não sei descrever melhor do que usando as palavras de outro, o olhar do “milk of human kindness” shakespereano.

Entre as razões que estiveram na origem desse olhar estão razões que hoje, que estamos em tempos de retorno ao esteticismo, não nos pareceriam suficientemente “literárias”. Fizeram-no por preocupações sociais. Um e outro disseram-no de forma explícita.

Esse olhar, esse toque a que chamo chekoviano, não se concentrou na fractura da diferenciação social (como o fizeram outros escritores, Tolstoy em parte, Gorki), foi para além dela para ver a miséria humana, o sofrimento das pessoas comuns, a névoa de tristeza das vidas mal vividas, seja a que nível social for.

Chekov percebeu a intensidade do sofrimento das pessoas comuns, e a maioria das pessoas comuns eram, na Rússia, camponeses vivendo na miséria, mas manteve a continuidade do olhar, mesmo subindo na escala social. Muitos contos de Chekov passam-se nos meios “pequeno - burgueses”, pequenas vidas, pequenos sonhos, pequenas riquezas, férias em Yalta, cidades provincianas, funcionários e oficiais de baixa patente, embora não ficasse por aí. Mas o toque é o mesmo, toca num pequeno mosteiro pobre, num casa camponesa, numa prisão de deportados, ou num clube de oficiais sem nada para fazer, e encontra o mesmo abismo entre a vida que se desejava viver e a que se vive. O maior abismo que há.


NOTAS CHEKOVIANAS 3

O toque chekoviano foi o encontrar um modo muito simples de falar desta tristeza, sem mais do que a enunciar, pequenos traços sobre pequenos traços, muitas vezes interrompendo uma sequência narrativa que o leitor esperava ver concluída. Não há em Chekov grandes amores, grandes paixões, actos nobres, nenhuma espécie de grandiloquência nem afectiva, nem qualquer outra. Há uma voz mínima que perpassa entre as personagens, todas um pouco perdidas entre o aborrecimento e a tristeza, entre a dor sentida e a percepção da dor dos outros.

Esta falta de grandiloquência, não diminui em nada a força dos sentimentos. Talvez mais do que em qualquer outro escritor, há uma enorme integridade pessoal nas personagens chekovianas, fiéis a um destino que não controlam, mas tendendo, a, no momento certo, fazerem as coisas certas sem qualquer sentimento de arrogância moral. Estas “coisas certas” em Chekov também não são decisões dilacerantes, mas pequenos actos que se esgotam mal se realizam.

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SINDROMA DE ABSTINÊNCIA

Os nossos noticiários televisivos, dos três canais em uníssono, sofrem de sindroma de abstinência: fazem-lhe falta os fogos. Como nada está a arder em sítio nenhum, passam imagens sobre imagens, dos fogos da semana passada (sem indicação que são imagens de arquivo, para assustar as pessoas) na parte nobre que , noutra era televisiva, era reservada para notícias. Que pena, não é, que não haja incêndios?

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NOTAS CHEKOVIANAS

Inicio aqui uma série de notas, observações, indicações sobre um dos meus autores absolutos, Chekov. Há os autores de que se gosta, os autores favoritos e há os autores absolutos – sem os quais nós não somos o que somos, porque fomos feitos por eles. São muito poucos, como é natural. Já basta a confusão que cada um é, ainda por cima transportar depois uma multidão de vozes à volta, falando tanto ou mais alto.

Estas notas não terão qualquer ordem. Incluirão meras observações, relatos de visitas minhas a locais chekovianos, comparações às vezes um pouco imprevisíveis, como com Cesário Verde, entusiasmos de leitura. Vale tudo, desde que seja à volta de Chekov.

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EARLY MORNING BLOGS 30

Escrevi ontem que para mim o template é a face do blogue, mais que a face do seu autor: Talvez por isso eu esteja tão preso ao meu, template de fábrica, ready made do Blogger, mas fazendo-me bom serviço. Escolhi-o pela simplicidade e legibilidade, e partilho-o com mais um ou dois blogues, não muitos porque poucos o escolheram e, alguns que o escolheram, entretanto mudaram.

Isto é um pouco contraditório, porque gosto de ver os outros blogues mudarem, e de um modo geral penso que mudam para melhor. Mas este meu, vermelho e branco, como a antiga bandeira czarista , ficará aqui por vários séculos.

Outra coisa que acho interessante é o modo como o tempo no blogue se manifesta de uma forma parecida com o tempo inscrito na geologia, por estratos. Eu coloco esta nota e empurro para baixo a imagem e as outras notas. Uma sairá da zona visível e entra no princípio da sombra. Como os mares antigos, que somos capazes de ler numa rocha, folha a folha, de um gigantesco cemitério, o tempo empilha camadas. A camada de cima aperta as de baixo reduzindo-as a um fio cada vez mais fino de histórias indecifráveis.

Será que quem ler isto, muitas camadas depois, numa arqueologia esforçada qualquer, encontrará também, numa camada de irídio, o sinal dos grandes impactos? E das grandes extinções?

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18.8.03


CORSO - RICORSO


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EARLY MORNING BLOGS 29

Pouco a pouco, os blogues chegam de férias. Recomeça a Torre de Babel a ser construída.

Reparei hoje, com alguma surpresa, num efeito de despersonalização na minha relação com a leitura dos blogues: associo-os pouco com os seus autores, mesmo quando os conheço pessoalmente ou sei o que fazem e o que escrevem. O blogue X é o blogue X e, mesmo quando sei de quem é, essa pertença é muito imaterial, raras vezes me lembro disso ao lê-lo. Leio-o sem a vera efígie. A face é o template cheio de palavras e imagens.

Tenho também muito pouca curiosidade em saber de quem são os blogues, atitude que não é partilhada por muitos, para quem a identidade do seu autor se sobrepõe a tudo e procuram afanosamente saber quem está por detrás de um pseudónimo.

Claro que há excepções, e essas excepções funcionam exactamente ao contrário - nesses blogues só há o autor(a) e o resto é que é abstracto. Vejo a pessoa viva atrás. Mas acontece com menos blogues do que os dedos de uma só mão. A blogosfera é , para mim, impessoal.

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HAROLDO DE CAMPOS

Morreu Haroldo de Campos, um nome que talvez não diga muito hoje a ninguém. A mim diz muito, porque foi através de Haroldo de Campos e M. S. Lourenço (nos artigos do Tempo e o Modo) que comecei a entrar dentro de Pound e Joyce. E não era o Joyce do Ulisses mas o do Finnegans Wake . “Entrar dentro” significava interessar-me muito, entusiasmar-me, estudar, tentar repetir, e mandar umas coisas como resultado para o Diário de Lisboa Juvenil. Aí, o Castrim, que tinha o cânone apertado, poupou-me a vergonha da publicação.

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TEMPOS DE PUREZA

Palavras da “Ignota” , “Lúcia” em Come Tu Mi Vuoi , peça escrita em 1929, por Luigi Pirandello:

"Sono qua, sono tua; in me non c'è nulla, più nulla, di mio: fammi tu, come tu mi vuoi. Eccomi di nuovo a te, non per me più, non per ciò che quella può aver vissuto ... nessun ricordo più: dammi i tuoi ... Questi ridiventeranno vivi in me, vivi di quell'amore che lei ti diede."

"Io sì, sono Cia, non quella che fu, quella che sono io oggi, domani ... Essere? Essere è niente! essere è farsi."

Imaginem o que uma grande actriz faz destas palavras.

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17.8.03


ORIGEM DAS IMAGENS

È natural que periodicamente os leitores perguntem sobre a origem das imagens, porque as explicações que já dei sobre elas estão lá para trás, enterradas no limbo dos arquivos, onde os textinhos, que brilharam um dia à luz do ecrã, vagueiam soturnos no meio das sombras electrónicas. Os leitores podem dar-lhes uma alegria passageira visitando-os, jorrando o sol da atenção sobre essas palavras esquecidas.

De qualquer modo algumas das imagens mais recentes são de Caspar David Friedrich, Marcus Larson, L. A. Ring, Roy Lichtenstein, Claude Monet, P. S. Kroyer. Jacobus van Looy, Johan Thomas Lundbye, Edward Lear, Memling, Emanuel Larsen, Van Gogh, etc. Não há ordem nem cronológica, nem estética, nem qualquer outra. Há um elevado número de pintores do Norte da Europa, nórdicos em particular, da chamada “escola de Skagen”.

Voltarei um dia a falar dos pintores de Skagen, um dos meus entusiasmos em pintura, criadores da “luz do Norte” que nós, no sul , desconhecemos.

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TÍTULOS QUE NUNCA USEI 2

Um grupo de amigos sugeriu-me outro título à procura de artigo: “Não foi por querer”, ou “não foi de propósito”. Vem na sequência do “Pode ser Vidago?” que, por sua vez, tem como inspiração última a história de Eça de Queiroz da chegada tardia a S. Apolónia de Fradique. O tema é modesto: Portugal.

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GRAVITAS


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UMA PROCISSÃO POPULAR

Daquelas genuínas, só para as pessoas de uma pequena aldeia, sem ninguém de fora, desconhecida, não especial por coisa nenhuma. Um acto social puro de uma pequeníssima comunidade.

Sai da igreja após uma formatura complicada pela desorganização geral. Mas, pouco a pouco, a experiência de anos e anos sobrepõe-se, e a fila organiza-se. Uma procissão é uma fila.

À frente, três homens cobertos com uma capa branca. A seguir o presidente da colectividade organizadora das festas deste ano (revezam-se) com fato domingueiro, com um pendão antigo bordado com o santo padroeiro e o nome da terra. O escuro do fato contrasta com as capas brancas esvoaçantes que são a regra nos homens e mulheres que transportam os andores e que constituem o corpo avançado da procissão. O mesmo pendão já tinha servido para encabeçar a banda no peditório anual pelas ruas. Funciona como a bandeira não oficial da aldeia.

Seguem-se os andores, muito pequenos, porque os santos são os da igreja, apeados dos altares e tem tamanhos variáveis, uns maiores outros, mais pequenos, mas como a terra é pobre tendem para o muito pequeno. Os andores são padiolas onde assenta o santo e à sua volta explodem flores. Uma das riquezas da
procissão são as flores vivíssimas dos andores, vermelhas, amarelas, brancas. No dia anterior, os andores foram montados no interior da igreja, tarefa que exige muito trabalho e dedicação. É um grupo de mulheres que prepara os andores.

Há qualquer coisa de parada militar na procissão, a ordem interior, a marcha cadenciada, a rígida hierarquia. Quando passa a banda nota-se mais este aspecto militar. A banda é precedida pela bandeira da banda e a seguir o maestro, imponente de autoridade e de gravidade, fato escuro, tendo ao lado uma rapariguinha muito pequena que marcha ao seu lado com evidente prazer (filha? Alguém que pediu para ir ali?). Depois segue o corpo da banda, fardado, com enorme disparidade de idades, muito velhos e crianças, tocando instrumentos na maioria de sopro e madeiras. O som da marcha marca a cadência do passo.

O padre, um jovem padre que se ocupa de várias paróquias na região, vem vestido de branco, com ar frágil, rodeado de jovens. Enquanto o presidente da colectividade caminha sozinho com a sua bandeira, o padre está no centro de um pequeno grupo. A Igreja como comunidade? A colectividade como hierarquia?

Embora haja pessoas a ver ao lado, nos passeios, persignando-se quando passa o andor de N. S. da Assunção, ou o padre, a esmagadora maioria vai integrada na própria procissão, no fim. É aí que vai a comunidade, uma pequena mole de cem, cento e cinquenta pessoas, compacta, as mulheres às vezes de braço dado, um pequeno número de casais, algumas crianças pela mão. O grupo final é a aldeia, ou melhor, a parte feminina da aldeia. O número de homens é pequeno.

Apesar do som da banda, o silêncio predomina. Famílias que só se reúnem uma vez por ano estão cá, famílias que só vêm à terra uma vez por ano, cá estão, uma terra com muito pouca gente, quadruplicou – há crianças a correr por todo o lado, raparigas e rapazes a passar ruidosos na sua adolescência a anunciar por todo o lado, telemóveis tocam à esquerda e à direita, as notícias de compras e vendas, sucessos e insucessos, funerais, casamentos, namoros e divórcios são postas em dia.

A comunidade reconstitui-se por um dia à volta da procissão e dispersar-se-á no dia seguinte. Até ao ano. Há uma força interior invisível no meio deste corso-ricorso, uma pertença.

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© José Pacheco Pereira
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