| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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16.8.03
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PEDRAS
Os Reflexos ontem foram pouco amáveis para com as pedras. Escreveu o seu autor : “Com uma pedra não se fala, contorna-se. “ Eu percebo a frase para certo tipo de pedras, para determinadas variantes de pedras hominídeas. Percebo também que os “reflexos eléctricos” , sendo do lado das partículas fugazes, olhem para a solidez da pedra com desconfiança. Mas, lá no fundo da pedra estão “reflexos”, sobre “reflexos”, sobre “reflexos”, também fugazes a seu modo mais preso. Digamos que cintilam menos. Eu sou mais amador de pedras devido à lição que recebi da Educação pela Pedra do João Cabral de Melo Neto e a uma velha admiração pela frase fundadora : “sobre esta pedra … “ Mas se nos desentendemos sobre a pedra em geral, penso que nos encontramos no lápis lazúli, a pedra sem a qual não havia os azuis dos quadros italianos e que, penso, está reflectida no “azul eléctrico”. (url)
EARLY MORNING BLOGS 28
Uma nota de circunstância: uma das minhas liberdades neste blogue é não ter que me pronunciar sobre tudo, nem sobre a agenda do mundo exterior, nem sobre a agenda desta atmosfera. É aliás uma liberdade bastante prezada penso que por todos. Eu, que como muitos outros aqui, acabamos por defender micro - causas , a última coisa que me passa pela cabeça é que os outros blogues se tenham que pronunciar sobre elas. Essa liberdade é tão natural como a idêntica liberdade de me pronunciar sobre o que me apeteça, o que inclui claramente muitas matérias também aqui discutidas. A mais inútil das notas é a que insta o outro a pronunciar-se e tira imediatas conclusões morais, sobre as razões porque não faz. Ora o que abundam são falsos problemas, problemas colocados de modo viciado, problemas que não me interessam, problemas sobre os quais eu não sei o suficiente nem para ter a veleidade de me pronunciar, problemas sobre os quais acho que já disse o que queria, problemas sobre os quais, como toda a gente, existem factores de censura e inibição pessoais. Por isso, é mais natural o silêncio do que a fala. (url) 15.8.03
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NOVA IORQUE. NOVA IORQUE
Onde eu gosto tanto de estar. Estava em Nova Iorque no dia do apagão nos anos setenta. Lembro-me, como hoje. Meia hora depois, os empregados de restaurantes e cafés vieram para a rua dirigir o trânsito, com uma habilidade, longamente reprimida, para, uma vez na vida, serem bailarinos e sinaleiros. Apesar das enormes dificuldades que a falta de luz causa numa cidade como Nova Iorque, as pessoas riam, falavam umas com as outras e iam ajudando no que podiam. No meu hotel, o Washington Square Hotel, um velho hotel delapidado, e frequentado pela fauna da Village, onde havia sempre um som ao fundo de jazz e o ar cheirava a erva, o meu quarto era num dos andares superiores, talvez onze ou doze. Na entrada do hotel, organizavam-se excursões de subida aos quartos em grupo pela escada de serviço, escura que nem breu, sem janelas. Os grupos organizavam-se com velas e lá iam rindo, pregando sustos, brincando pela escada acima. Algumas dessas subidas devem ter contribuído para o baby boom do apagão. Presumo que depois do 11 de Setembro, as coisas não tenham sido tão felizes, mas, pelo que se viu nas ruas, continua a ser a grande Nova Iorque, cidade única no mundo. FOGUETES Eu próprio fiz a pergunta e já tenho várias respostas – em muitos locais não houve foguetes nas festas de N. S. da Assunção. A directiva do MAI foi aplicada pelos governadores civis e, com mais ou menos protestos, acatada. O clima de revolta com os incêndios ajudou ao cumprimento, e convinha que, passado este choque, se aproveitasse para acabar de vez com uma desnecessária e evitável causa de fogos Agora há um ano para as pirotecnias investirem no fogo preso e abandonarem o fogo de cana, perigoso para os incêndios, e provocando todos os anos uma série de acidentes com crianças, Para que se incentive o uso de lasers decorativos, que não tem estes perigos. Para que se aprenda alguma coisa e não se ande para trás outra vez. (url)
AVARIAS
Devido a avarias em várias peças do hardware que suporta o Abrupto, blogue e correio electrónico, textos e trabalhos, este está desde ontem em regime de manutenção mínima. Talvez durante o dia de hoje se volte ao normal. (url) 14.8.03
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CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE SOBRE A TSF
Em Dezembro de 2000, quando a PT comprou a Lusomundo, houve apenas uma voz que suscitou problemas a essa compra quer na imprensa, quer no Flashback da TSF. Seguem-se extractos do que escrevi na altura no Público : “A compra da Lusomundo pela PT e a hipótese de se concretizar idêntica compra da Media Capital, junta na PT um dos grupos mais poderosos de comunicação social em Portugal. Com um mesmo dono ficarão entre outros o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, a TSF, portais do Internet e eventualmente a TVI, o Diário Económico, e vários outros jornais regionais e rádios. A justificação oficial dessa compra está na necessidade de unir "conteúdos" com plataformas de telecomunicações, uma tendência característica dos "negócios" na área estratégica da nova economia. Tudo isto parece idêntico ao que se passa nos outros países e o "negócio" fundamentado em tendências correntes da economia. Mas esta inocente análise, tão conveniente ao poder, esconde uma perigosa consequência para a qualidade da nossa democracia. (…) Alguns directores de órgãos de comunicação social do grupo Lusomundo, entenderam escrever editoriais ou dizerem que o "negócio" não impedia a liberdade editorial que eles próprios garantiam nos órgãos de comunicação. Não contesto a genuinidade das suas convicções de que assim seja, mas acho que, estão a ser pouco cautelosos e a desprevenir os seus leitores e ouvintes, e em geral os portugueses quanto às consequências do que se está a passar. De facto, como jornalistas, com responsabilidades de direcção, eles devem ser os primeiros a saber que justificar o que se passou como se fosse "apenas" um "bom negócio" nestes tempos de nova economia ilude o essencial: o papel do governo no "negócio" e a dependência do governo da PT através da chamada "golden share". Eles vieram garantir com grande ingenuidade, que nenhum comando político será possível, visto que as opções do "negócio" não terão reflexos editoriais e, que se tratava por parte da PT, apenas de comprar "conteúdos", para potenciar a sua plataforma de distribuição. A própria justificação deste "negócio", feita desta forma acrítica, é já preocupante. O que se passa é que nesta aquisição da PT há questões políticas incontornáveis e que devem ser descritas com toda a clareza para se perceber bem: quem manda na PT é o governo, e dificilmente alguém imagina a decisão da compra da Lusomundo (e eventualmente de outras compras a haver) sem que tal passasse por uma decisão do governo. Tem sido política do tandem, Primeiro Ministro Guterres, Ministro Pina Moura, privatizar na aparência, e reforçar o controle do governo através de golden shares, do exercício da tutela e da nomeação de gestores de confiança política, e da interferência directa do governo em actos normais de gestão. Isto coloca a decisão da PT numa luz diversa da de um mero "negócio". A PT não é uma empresa privada qualquer é um instrumento "estratégico" do governo e do poder socialista e já não é de agora que é assim. Dito com a brutalidade das grandes verdades, a cadeia de comando vai do Ministro Jorge Coelho, para o Presidente do Conselho de Administração Murteira Nabo e, quer um quer outro, não são pessoas vulgares mas socialistas com funções politizadas: o Ministro Coelho é o que se sabe e o Eng. Murteira Nabo só não foi ministro, pela razão que também se sabe. Com a golden share do estado, as decisões últimas sobre qualquer grande negócio da PT vão a Conselho de Ministros, formal ou informal, e é por isso que quando eles estão a mexer nos "conteúdos", mesmo que em nome dos "negócios", se possa suscitar necessariamente uma questão política séria de liberdade e pluralismo. E se não se suscita, então a coisa é ainda mais séria, porque se está a jogar ou no amorfismo ou, pior ainda, em obscuros compromissos de que muitas vezes a própria oposição não está isenta, em empresas geridas pelo método do "bloco central". (…) Já ninguém é suficientemente ingénuo para pensar que a interferência do governo na comunicação social se faz por telefonemas directos dos ministros, embora ainda os haja. As formas são mais sofisticadas uma das quais são as "reestruturações" em nome da eficácia dos "negócios" que condicionam carreiras, postos, compromissos e o destino de jornais e rádios. Também aí há alguém a premiar quem se porta bem e quem se porta mal e esse alguém está no governo, ou depende do governo.” Este foi o contexto da compra da Lusomundo pela PT e as consequências previsíveis para quem pensasse um pouco. Acrescento apenas que de há muito penso que um governo, qualquer governo, seja socialista ou social-democrata, não deve controlar órgãos de comunicação social, quer directa, quer indirectamente e que tendo meios para os controlar , usa-os sempre. É válido para a RTP, para a Lusa, para todo o sistema comunicacional ligado a empresas públicas. Se hoje se vê, no fim da TSF como emissora noticiosa, um manobra grave contra o pluralismo informativo, convém ir atrás, à raiz do problema. (url)
ASPECTOS DO IMPERIALISMO CULTURAL AMERICANO
Há uma série televisiva americana que se arroga o direito de falar de Proust, Goya, Sartre, Heidegger, Camus, Kierkegaard, Churchill, Dostoiewsky, Coleridge, Freud, Lacan, para além dos Beatles, das Spice Girls e mais mil e uma referências à nossa sólida e inexpugnável cultura europeia, parte do nosso baluarte identitário contra o imperialismo americano. Devia haver protestos por eles não se ficarem apenas pelas “french fries”. Podem chamar o Bové para ele ir partir os vidros das Barnes and Noble. Os culpados são os Sopranos. (url)
TÍTULOS QUE NUNCA USEI
Às vezes há textos à procura de títulos, outros títulos à procura de textos. Há muitos anos que dois títulos me perseguem, sei o que queria escrever para eles e nunca fui capaz, ou por pura incapacidade ou receio, medo, medinho. É o caso de um texto sobre Portugal que nunca fui capaz de escrever com o título “Pode ser Vidago?”, excelente retrato de uma terra onde se pede uma coisa e nos perguntam se pode ser outra. Nós queremos Pedras, ou Carvalhelhos, ou outra coisa qualquer e respondem-nos quase automaticamente se pode ser Vidago. A resposta, como se sabe desde Eça, é pode… Pode ser Vidago. O segundo título é o de uma canção que todos os anos ouço repetida mil e uma vezes nas festas populares: “Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré”. Aqui não teria nenhuma dificuldade em descrever a lagartixa, ou várias, e a impossibilidade genética de chegar a jacaré, mas depois, uma mistura de “para que é que eu estou a maçar-me” e uma réstia remota de caridade cristã ou de filantropia moscovita à Pessoa, lá me deixa o título no limbo. (url) 13.8.03
IRRESPONSABILIDADE
O noticiário da TVI começou com estas palavras : “neste momento no Algarve cerca de 2000 pessoas estão cercadas pelo fogo”. Quem não for capaz de descodificar o alarmismo destas notícias toma à letra o que é dito: há 2000 pessoas que não podem sair do sítio X e correm perigo de vida. Quantas pessoas vão apanhar um susto enorme, absolutamente criminoso, nestes dias já de susto? O primeiro testemunho em directo, de uma autarca, um ou dois minutos depois, sobre a mesma situação, começou assim: “neste momentos a situação está mais calma”. Veja-se o tempo dos verbos, estão ambos a falar da mesma situação. Há fogos que não tem chamas. (url) (url)
PRESENTES MATINAIS PARA OS AMADORES DE LIVROS 2
Para os amorosos da blogosfera É difícil transmitir um grande entusiasmo, mas The Anatomy of Melancholy de Robert Burton, texto já velho de quase quatrocentos anos, é um deles. Escrevendo sobre aquilo que hoje se chamaria mais vulgarmente “depressão” do que melancolia, é um catálogo enciclopédico dos males do amor e dos “estados de alma”. É uma obra revolucionária, profundamente inovadora, um daqueles livros de uma vida, e a quem devemos muito do nosso olhar moderno sobre essas matérias. Burton percebeu a enorme dificuldade do seu projecto, "for the Tower of Babel never yielded such confusion of Tongues as the Chaos of Melancholy doth of Symptoms", mas prosseguiu-o com uma dedicação e uma erudição típica dos antigos. O livro é difícil de encontrar e está esgotado nas edições dos “clássicos” ingleses, embora a New York Review of Books tenha feito uma edição recente mas excessivamente pesada. Sempre são mais ou menos 1500 páginas que há vantagem em dividir em vários volumes. Existe, no entanto, uma edição em linha que permite abrir folhas ao acaso e encontrar as maravilhas quer de Burton, quer dos autores que ele cita, toda a literatura clássica e os clássicos ingleses. (url) 12.8.03
INVENÇÕES (Actualizado)
A Polícia da Escrita do suplemento Indígena do Independente faz todas as semanas uma contabilidade dos “mas” , “todavia” e “contudo”, incluídos nos artigos publicados na imprensa. Eu lá venho em lugar de destaque e, por curiosidade, uma ou duas vezes, já tinha verificado quão criativa é a contabilidade. Só que agora, mais do que criativa é imaginativa – na semana passada no artigo do Público eu teria 50 dessas “muletas”. Sucede que eu, nessa semana, não escrevi qualquer artigo no Público… * Leonardo Ralha editor do Indígena do Independente enviou-me a seguinte precisão: “Respondendo ao post “Invenções”, permita-me esclarecer um ponto. Apesar de tudo não passar de uma brincadeira do que considera ser a “polícia da escrita do Indígena”, a contabilidade está longe de ser criativa e imaginativa. Os seus 50 pontos não dizem respeito à última semana - em que, de facto, não escreveu nenhum artigo para o “Público” -, mas sim aos “pontos” acumulados desde o início do jogo. Aliás, na próxima edição do Indígena será ultrapassado pelo José Manuel Fernandes, que somou mais alguns pontos enquanto a sua nova falta de comparência levou a que mantivesse a mesma pontuação.” Embora o autor do Abrupto não seja da escola de que sempre tem razão e que mesmo errando se acerta, neste caso entende que continua a ter razão. Primeiro, quem lê a coluna semanal não percebe nenhum dos seus critérios cumulativos , e tende a lê-la como uma avaliação semanal; segundo, qualquer comparação resulta injusta se os autores citados não escreverem textos com o mesmo tamanho e periodicidade. Bom, fica a afirmação de que é uma “brincadeira” e um “jogo”. O problema é se a gente fica a olhar para aquele jornal todo e o entende como uma sucessão de brincadeiras e jogos … (url)
ACONTECE
Eu escrevi, publiquei e re-publiquei uma das mais duras (e raras) criticas feitas ao Acontece na altura em que o programa se auto-comemorou, com toda a fina flor do nosso establishment cultural diante das câmaras, governava o engenheiro. As minhas objecções de então são as mesmas de agora. O Acontece retratava bem o carácter almofadado e reverente da nossa cultura oficial, cheia de lutas surdas de turf e de salamaleques, vivendo das partilhas de vã glória e dos subsídios, onde todos os livros são bons e ninguém é mau poeta, mau romancista ou mau coisa nenhuma. Mas eu tenho razões seguras para reconhecer em Carlos Pinto Coelho um mérito de fair play tão raro em Portugal, tão ausente dos nossos costumes culturais, tão pessoalmente estimável, que seria uma enorme injustiça não o dizer em público. (url) (url)
CRÍTICAS AO ABRUPTO
“Escrevo-lhe estas observações a propósito do post no Abrupto em que critica a Volta a Portugal e a circunstância de se permitir que os ciclitas corram debaixo desta canícula. Pois é, meu caro JPP. Quem fala sobre tanta coisa arrisca-se a errar. Não vou discutir consigo se o ciclismo é um desporto violento. Porventura será um desporto que exige um esforço sobrehumano e onde os atletas correm riscos de vária ordem. Nesse carácter épico reside um dos grandes pólos de interesse do desporto. A minha crítica vai para o que está subentendido no seu post. Se morrer um ciclista, diz o caro JPP, a culpa é de ninguém, como é costume. Entendo nesta afirmação que, na sua opinião, estaremos perante mais um mal português. É aqui que está enganado. A Volta a Portugal é uma brincadeira de crianças se comparada com uma Volta a França ou uma Volta a Espanha. Aconselho-o a ver as magníficas transmissões directas destas provas através do Eurosport. A Volta a Portugal dura 11 dias enquanto que as de França e Espanha duram 21 dias. Em Portugal sobe-se a serra da Estrela e em França sobem-se os Alpes e os Pirinéus. O ciclismo é um desporto de Verão e é disputado com temperaturas elevadíssimas, aquelas que Deus dá. Por vezes sob chuva e ventos inclementes. Não se adiam provas por causa das condições climatéricas. Seja em França, Espanha ou Portugal. E é assim em todos os países ditos civilizados. Os proletários da bicicleta são clinicamente acompanhados, de forma que talvez não haja paralelo em outros desportos. Quem não tem condições físicas não pode ser ciclista profissional. Tudo isto para lhe dizer que, neste caso, não vale a pena bater em Portugal. Bem ou mal, nesta matéria somos iguais aos outros. Iríamos ser a gargalhada da Europa se fosse anulada alguma etapa da Volta porque está muito calor.” (ruim) (url) 11.8.03
A LER
No número de Junho do Scientific American há dois artigos muito interessantes.Um de Gordon Kane, “The Dawn of Physics beyond the Standard Model” faz um balanço actualizado sobre o que explica e não explica o modelo dominante da física contemporânea . Entre o que não explica inclui-se …a gravidade, entre o que explica uma imensidão de coisas. Outro de Chatles Bennett /Wing Li /Bin Ma , “Chain Letters and Evolutionary Histories” é um notável exercício feito a partir das cartas em cadeia e das suas alterações , permitindo um modelo comparativo para processos que evoluem com o tempo, como, por exemplo. as famílias dos mamíferos. Cada número do Scientific American, a revista que leio regularmente há mais tempo (desde 1972 li todos os números) , mostra como na ciência há um entusiasmo imaginativo que escasseia noutras actividades. Em bom rigor foi sempre assim, nós é que estamos habituados a ver a filosofia ou outras "artes", sem a ciência por detrás. (url)
OBJECTOS EM EXTINÇÃO 19
Mais algumas colaborações dos leitores do Abrupto sobre objectos, e também sentimentos , em extinção. "- Quem se lembra hoje de, creio que na década de 50/60, ver uns cartões rectangulares perfurados, feitos por especial punção, que eram as facturas/recibos da CRGE (antecessora da actual EDP)? - De resto tais cartões eram usados nos computadores da época, para neles introduzir dados através da sua leitura por especiais leitores ópticos ou mecânicos. - Já na década de 70, fitas contínuas de papel perfurado, permitiam o "abençoado carregar" desses computadores de dimensões "mastodônticas", se os compararmos com os actuais. Da nossa memória colectiva saltam, objectos e sensações ( recordo os pregões de Lisboa) que constituem o espólio activo duma cultura. "(Rui Silva) * "O saco do pão. Num tempo em que se acabou com as lixeiras e se construíram aterros sanitários mais consentâneos com o nosso tempo e com as nossas exigências e com a nossa qualidade de vida, recordo o saco do pão – um saco geralmente de linho, por vezes bordado – como símbolo de um outro tempo em que não produzíamos resíduos desnecessários e em que os produtos do supermercado não traziam três ou quatro forras de cartão e plástico, nem se trazia o pão em sacos de plástico estampados que depois exigimos que alguém faça desaparecer longe da nossa porta e longe da nossa vista. Os aterros sanitários estão a encher a um ritmo mais de duas vezes superior aos valores de projecto – que, inocentes, nos viam a nós mesmos como povo civilizado e preocupado com as questões ambientais. E, portanto, daqui a poucos anos – muito antes do que se previra – lá estaremos a manifestarmo-nos contra a localização de novos aterros sanitários que militantemente nos esforçamos agora por encher o mais depressa que pudermos." (J. C. Barros do Um Pouco Mais de Sul) * “Lembram-se do tempo em que havia amigos? (…) Lembram-se de ter alguém com quem tinham uma linguagem única que mais ninguém decifrava. Que nenhum dicionário contemplava nem nenhuma lógica explicava. Por meio de sinais e olhares chegava-se à gargalhada consensual em plena sala de aula, fazendo com que o professor despertasse desconfiado. Lembram-se de receber nos braços o amigo traído e triste que vinha à procura de colo, ombro, mão, consolo? Será que ainda se lembram? Será do vosso tempo? “ (Marlene) * “Morrer de amor parece-me ser um objecto em vias de extinção .” e segue-se uma história que mostra “que é possível morrer de amor.” (Miguel Leal) (url) (url)
SCRITTI VENETI
Dos cadernos de Bib., sine nobilitate. 1. “O que torna difícil a verdade é que ela não é subjectiva. Se ela fosse um convencimento interior, - todos temos a “nossa” verdade, como quer a sensibilidade romântica – não havia peripécia da vida que não obtivesse aí a sua justificação. Eu faço, porque faço, porque “interiormente” a minha voz me diz para fazer assim. O que acontece a maioria das vezes é que aquilo que se toma como “verdade” não é senão uma máscara auto-congratulatória , um espelho da nossa incapacidade para ir mais além, uma justificação que “nos “serve para remediar um presente satisfatório em detrimento de uma procura mais difícil, mas mais verdadeira. A sensibilidade romântica valoriza até ao limite a pior das vanitas, a crença, psicologicamente apaziguadora, de que se é senhor do seu destino e que este se domina por séries de arroubos sentimentais. Há quem goste mais da vanitas do que a verdade e confunda as duas. Outro esquecimento da sensibilidade romântica é o da alegria, da alegria pura, que não tem antes nem depois e realiza o tempo perfeito." 2 “Veja-se a título de exemplo o anúncio que JPV fez da sua morte. Se ele fosse um texto literário, seria pouco mais do que uma bravata, mas como foi escrito quando ele sabia, no estado presente em que o escreveu, que ia morrer, cada palavra é inundada de uma verdade última que é também uma coragem interior. O verdadeiro clássico prepara-se para esse momento, mas sabe que tudo o que pensa e diz só tem prova nesse momento e nunca antes. Por isso, o clássico pratica a ataraxia como um treino em tempos fáceis para os tempos difíceis.” 3. “Vale a pena gastar uma língua pura, para se perceber, como se percebeu desde o primeiro momento, que a língua que se ouvia maculada era a de um parafraseador francês? “ (url)
EARLY MORNING BLOGS 26 / MEMORY FREAK
Uma das características dos blogues é produzirem um esquecimento rápido de tudo que neles se encontra com mais de um dia. Nesse sentido eles ainda reforçam mais uma tendência dos media modernos para actuarem somente num tempo muito curto, quase sem memória que dure mais do que uma semana. Nos blogues é pior, esse limiar é ainda menor. Aqui tenho desenvolvido várias estratégias contra esse esquecimento suscitado pela tecnologia do meio, sem obter mais do que resultados muito frágeis. Essas estratégias incluem notas na parte activa da página remetendo para notas já na parte esquecida, numeração de notas para criar um sentido de continuidade, etc. Não chega e não é eficaz para o que quero. Na reorganização de Setembro, com a ajuda dos meus voluntários amigos mais ligados à parte tecnológica, irei experimentar a combinação blogue – página pessoal, nela incluindo um arquivo mais estruturado de notas temáticas e remetendo para outros textos não – blogue sobre assuntos próximos. Outra hipótese que coloco é a edição periódica , de seis em seis meses por exemplo, do Abrupto em livro. Aqui levantam-se questões muito interessantes como seja a diferente percepção da ordem cronológica, que levaria a colocar as notas na ordem oposta à sua leitura no blogue e problemas associados com o carácter interactivo dos textos com os de outros blogues. Esta “perplexidade” inter – media interessa-me, porque revela os limites de formas de comunicação quer tipográfica, quer electrónica, no modo como produzem um sentido cronológico da leitura e a nossa percepção do fluir do tempo. (url) 10.8.03
TEMPOS DE PUREZA
Também aqui cabe o poema de Pasternak "A vela" , que está traduzido mais abaixo , na parte do Abrupto enterrada no esquecimento. Também só com uma pureza inicial, uma pureza do coração absoluta, o olhar de Yuri pode ver na vela , o que a vela era. Para os russos, como para Chekov por exemplo, essa pureza vinha de uma luta interior pela verdade, pela simplicidade da verdade. A verdade não é complicada, a liberdade é que é. (url)
MICRO-CAUSAS
As razões por que cada um tem um blogue são muito diferentes e essa diferença é uma das riquezas desta atmosfera. Mas uma leitura de vários blogues revela interesses e agendas próprias que envolvem um espírito de “causa”, um activismo orientado. Há causas, pequenas causas e micro - causas em muitos sectores da vida pública. É natural que assim seja também nos blogues. Se os blogues me parecem um meio pouco adequado para, chamemos-lhe assim, neles se centrarem as grandes causas, que não entram aqui a não ser pelo protesto, pela denúncia, pelo testemunho, o que é pouco , já para aquilo que chamo as micro - causas pode haver resultados. Veja-se o caso dos foguetes. Haverá quem, com um sorriso de lado, presumo que em riscos de ficar permanentemente de lado e parecer um esgar, dirá: a gente vem aqui para falar de Larkin e Auden e vem este aqui discutir os foguetes. É, vem. Vem aqui discutir os foguetes porque acredita que pode ser eficaz em reduzir o risco de fogo e a dispersão dos bombeiros a muito curto prazo, neste Agosto. Não me passa pela cabeça que possamos fazer muita coisa sobre o ordenamento florestal ou sobre a organização dos bombeiros, mas pressionar o governo para proibir o fogo de cana, talvez seja possível. Não há nada que os governantes mais temam do que a possibilidade de, se correr qualquer coisa mal, poderem ser confrontados com um aviso público, uma prevenção que conheciam e que ignoraram. Penso, no entanto, que a condição de sucesso destas micro - causas é serem sensatas, razoáveis e moderadas. Não se trata de proibir o fogo de artifício, trata-se de proibir o fogo de cana lançado para terra, nas partes do país em que isso é um risco conhecido de incêndio. A legislação já existente é, como muita legislação portuguesa, duríssima, só que nunca é aplicada. Obrigar a que os bombeiros se desloquem nesta altura do ano para milhares de festas do país para controlar o lançamento do fogo, é pura decisão de gabinete e perigosa. Existem resistências populares consideráveis a que haja festas sem foguetes, e os governadores civis, oriundos das máquinas partidárias, não querem impopularidades e incidentes? É verdade, mas quem não quer ter autoridade que não lhe vista a capa. Eu acredito na distinção entre a democracia e a demagogia, que se revela nestas humildes coisas dos foguetes. (url) (url)
VER A NOITE - CORUJAS
Recebi quase de imediato, a meio da noite, alta madrugada, após escrever sobre a minha coruja caçadora, esta carta de Miguel Nogueira: "Umas semanas atrás enquanto conduzia pela noite, em Porto Corvo, na estrada que liga à Ilha do Pessegueiro, avistei uma coruja em frente ao carro, pousada na estrada. A coruja olhou-me com os seus negros olhos, ao ouvir o ruído do automóvel, para de seguida olhar na direcção oposta, quase como analisando o ar por onde iria voar, e abrindo as brancas asas, pairou pela estrada fora fugindo do meu campo de visão e também de um provável impacto. O curioso é que em todas as acções, atrás referidas, a ave manteve sempre um imperturbável manto de calma, nunca se mostrando assustada. O meu caro Pacheco Pereira observou uma caçadora. A mim o sentimento com que fiquei, foi que tinha partilhado uns segundos da minha existência com um ser mitológico." Será que olhando uma coruja nos olhos aprendemos alguma coisa que nunca saberiamos de outra maneira? Talvez. (url)
COUNTRY – CONTRIBUTOS
Nota: já não é a primeira vez que uma frase que se pretendia irónica é tomada à letra. Culpa minha, que me esqueço de uma forte tendência para o literalismo existente nos blogues. A minha descrição da country apenas como música pimba americana destinava-se exactamente a criticar os que a isso a reduziam. Alguns dos leitores do Abrupto enviaram contribuições sobre a country que a seguir se publicam. Hugo Pinto acrescenta : “vejo que já lhe referenciaram, e bem, Johnny Cash e Townes Van Zandt. São, juntamente com o paladino Hank Williams, os nomes que mais influenciaram a geração que, respeitosamente, recomendo. Falo de uma música que as publicações europeias designam singelamente de "americana". Ainda se chegou a falar de "alternative country"... Aqui ficam alguns nomes: Lambchop, Chris and Carla, Palace Music (que é Will Oldham, cujo heterónimo é Bonnie 'Prince' Billy), Red House Painters, Neil Casal, Tarnation, Smog. É, acima de tudo, muito boa música." Miguel na Origem do Amor remete também para canções country num seu outro blogue. António envia-me a sua memória pessoal da country : "Comecei a apreciar a música country por volta de 1962, em Moçambique. (…) Penso que neste estilo –e eles até dizem country & western style – ele há de tudo, como na botica. O mesmo se poderia dizer em relação ao fado ou ao tango argentino. Não me parece que o Tex Ritter deva ser apontado como exemplo negativo, tanto mais que ele também interpretou trechos muito mais interessantes, designadamente o tema do célebre filme “O Comboio Apitou Três Vezes –High Noon / do not forsake me oh my darling”- e que não era, de forma alguma, um filme reaccionário. Diz-se que John Waye colocou esse filme na lista negra, por causa da cena anti-autoritária em que Gary Cooper atirava com a estrela de xerife para o chão para a pisar em seguida. Diga-se ainda que a música era da autoria de Dimitri Thiomkin, um nome consagrado de Hollywood. Muitos cantores populares norteamericanos passaram ou tiveram que passar pela country, também definida como “white men blues”. E também houve cantores negros, como o Ray Charles, que venderam milhões de discos com interpretações dessa música de brancos wasp, numa altura em que os afro americanos ainda não tinham conquistado todos os direitos cívicos nos Estados Unidos. Se consultarmos a lista do “Country Music Hall of Fame” verificamos que há, efectivamente, nomes absolutamente impróprios para o consumo, como Merle Haggard. Mas também encontramos pessoas recomendáveis em termos de crítica social, tais como Johnny Cash ( e os seus colegas “highwaymen” Waylon Jennings e Willie Nelson”). Cash até conseguiu trazer o Bob Dylan para estas lides, participando no excelente album “Nashville Skyline”, que também é uma homenagem à “Meca” da música country. Claro que, nessa altura, Dylan era um valor consagrado da “protest song” e ainda não tinha caído no fundamentalismo judaico. Li algures que Nashville se transformou na capital da música country devido à existencia de um número considerável de saloons e de outros recintos adequados às vozes de Hank Williams e seguidores, um pouco como as tabernas do Bairro Alto e da Alfama em relação aos cultores do “portuguese blues”. Mas o fenómeno de Nashville é também o resultado do trabalho empreendido pelo pianista e produtor Floyd Cramer, de parceria com o excelente guitarrista Chet Atkins. O que era canção de vaqueiro passou a ser produto cultural e industrial algo sofisticado. Compositores consagrados da pop americana dos anos 60 deram à country títulos de glória. Lembro-me de Jimmy Webb que escreveu alguns dos maiores standards, tais como “Wichita Lineman”, “Galveston” e “By the Time I Get to Phoenix”, interpretados originalmente pelo célebre Glen Campbell e que posteriormente entraram nos reportórios de artistas ultra consagrados como Sinatra. Curiosamente, um dos maiores standards da country, “Let It Be Me”, foi composto pelo francês Gilbert Bécaud. Este foi convidado a ir a Nashville receber um dos grandes prémios da country, mas recusou porque não lhe pagaram o bilhete do avião... Pela parte que me toca, sou fanático das vozes femininas da country, tais como Linda Ronstadt e Emmylou Harris, embora os puristas as designem como cantoras de variedades... Graças à internet tenho conseguido reunir uma colecção razoável de trechos. Até consegui arranjar canções de Jim Reeves gravadas na Africa do Sul em afrikaans, nos anos 60, com o Cramer e o Atkins. Não me parece que este género musical tenha sido explorado pelos artistas portugueses. Excepto, talvez, o Paco Bandeira na “Minha Cidade” ( “oh Elvas, oh Elvas, Badajoz à vista/ sou contrabandista de amor e saudade/ transporto no peito a minha cidade) ..." Paulo Azevedo lembra Townes Van Zandt: “O Townes Van Zandt foi um texano (de pedigree familiar holandês, daí a estranheza do nome para um texano) que editou entre 1968 e 1978. Era um filho da classe média mas com uma inclinação irremediável para o lado mais depressivo e contemplativo da vida. Chegou a ter um relativo sucesso, apesar de ter passado grande parte das fases iniciais e finais da carreira a tocar em bares. Inscreve-se naquela tradição folk-blues que começou com Hank Williams ou Woody Guthrie, assim como nos blues à desgraçado do tipo Lightnin' Hopkins; e que continuou (mais recentemente) com os primeiros sons do Bob Dylan, Lee Hazelwood, Scott Walker, Nick Drake ou mesmo (ainda mais recentemente) Mark Koezelek (dos Red House Painters) e o próprio Jeff Buckley. Não cai naquele country mais xaroposo; é uma música muito melancólica mas ao mesmo tempo muito genuína; ou seja, os ambientes criados não são estilizados de forma a parecerem tristes, são-no naturalmente. Há tempos encontrei uma CD set de 4 discos com todo o material gravado pelo Van Zandt; é uma edição daquelas bonitas e cuidadas que parece um livro rectangular e tem fotos e textos muito bons. Fica-se com uma boa perspectiva da música e do enquadramento pessoal e social em que ela surgiu. Chama-se 'texas troubador' e tem, nos 4 CDs, 8 álbuns (LPs): -for the sake of the song (1968) -our mother the mountain (1969) -townes van zandt (1970) -delta momma blues (1971) -high, low and in between (1972) -the late great townes van zandt (1972) -flyin' shoes (1978) -live songs from 1973 (1973) (url)
EARLY MORNING BLOGS 25 (Actualizado)
Sou fiel aos sítios onde aprendo e a Formiga é um deles. Há uns dias, a propósito dos incêndios, está lá uma fotografia de satélite que contém mais informação do que dezenas de noticiários. E por cima da fotografia um título tão terrível como verdadeiro:”a ignorância é uma calamidade”. É, a ignorância é a nossa calamidade, a ignorância pura e simples, a ignorância esperta, a ignorância presumida, a ignorância arrogante, a ignorância boçal. O problema é que a mediocridade da vida possível, a pobreza dos meios socialmente disponíveis, o próprio modo como a ascensão social das famílias se fez da absoluta pobreza para uma mediania satisfatória, parece travar um impulso de melhoramento. Talvez porque fomos muito pobres, parecemos satisfeitos como o nível da mediocridade que atingimos. Como parece que a pulsão social para sair da miséria rural, que levou uma geração de trabalhadores rurais e pequenos camponeses a poderem dar aos seus filhos um mínimo que lhes demorou toda uma vida a ter, criou nos filhos uma espécie de acomodação com o que os pais lhes deram e passaram a viver “habitualmente”, ou seja a andar para trás em relação ao resto do mundo que anda para a frente. Será que uns cresceram num Portugal mais violento e desequilibrado e portanto onde a ascensão vertical era quase que empurrada pela necessidade de garantir mínimos vitais? Será que depois, quando se atingiram esses mínimos se deu uma espécie de repouso, facilitado pelas mil e umas estratégias de vida garantidas pelo “Estado - providência”? E que hoje, com a cultura da casa, do carro, do whiskey, do marisco, da piscina, da praia, do centro comercial, do futebol, achamos bastante? Será que perdemos a violência e mantivemos a boçalidade? Eu não desprezo a fabulosa mudança que isto representa para um povo que andava descalço há sessenta anos, mas já está na altura de se dar o passo seguinte e é difícil ver onde está a força para o dar. Porque o passo seguinte é o de acabar com a “ignorância” , essa mistura de betão de hábitos de complacência e facilitismo que cria um enorme lastro a todo o movimento. Eu sei que tudo isto é impressionista, que um sociólogo nunca o diria assim, mas que numa parte importante de Portugal uma cultura “providencial” parece ter travado a vontade de ser melhor, de ser mais culto, de ser mais livre, ai isso parece. * Pelas mesmas razões de aprender, de ter a alegria de aprender, também volto ao Socio[B]logue. Só que onde lá se coloca Deus nos detalhes, eu estou habituado a colocar o Diabo. Daí que a genealogia da frase seja outra, e a sua língua original diferente -. "the Devil is in the details ". Por razões que se podem discutir , suspeito que é mais o Diabo que Deus, o habitante das pregas das coisas, dos detalhes, dos decisivos detalhes. Se não houvesse detalhes não era tudo mais simples, mais próximo das virtudes divinas? Porque ser Deus não é complicado. (url)
VER A NOITE
Ver uma coruja caçar é um privilégio raro. Nas gravuras e fotografias parece sempre Minerva, um pisa-papéis para os literatos. No ar, na noite profunda, é um grande pássaro de asas brancas, com a palavra rapina escrita em todas as penas, que passa no mais absoluto silêncio. No vale escuro, os pequenos ratos não sabem o que lhes cai em cima. Mesmo no planalto, as gatas protegem as ninhadas, não vá gatinho ser rato. Só tamanho conta e há quem não tenha o tamanho. (url)
© José Pacheco Pereira
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