ABRUPTO

28.6.03


DA PSICOSSOMÁTICA À CARTA ROUBADA

Parte da equipa da ex-Psicossomática, que depois de acabar o blogue escreveu para o Abrupto, está agora na Carta Roubada, de inspiração lacaniana.
Felicidades .

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HOTMAIL

A minha caixa de correio no Hotmail encheu e várias mensagens foram devolvidas. Já a esvaziei e por isso está de novo disponível.

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“TRANSPARÊNCIA E BOM GOVERNO”

O primeiro título esteve para ser “os suíços já não são o que eram”, mas, pensando bem, é exactamente o contrário. Não é que um Fórum económico prestigiado suíço se preparou para convidar o Presidente de Angola José Eduardo dos Santos para falar de “transparência e bom governo”. Sem ironia? A sério? A sério.
José Eduardo dos Santos que tem fundos bloqueados na Suiça por ordem de um juiz e é citado em processos em França sobre luvas do petróleo devia ser o interlocutor ideal. Parece que acabou por não ir, mas o convite, se a esquerda não protegesse os seus, seria um magnífico argumento contra o capitalismo … suíço.


CONGRESSO DAS TRADIÇOES ACADÉMICAS

Parece que em Évora se está a dar um “congresso” com este título. A televisão anunciou-o apresentando umas cenas com uns meninos de cornos e umas meninas vestidas de índias, todos com abundantes pinturas de guerras, a fazer de tontos. Não sei de são imagens de arquivo ou se foi a dança de guerra que abriu o Congresso.
O interessante é que a maioria das universidades que participam são todas novas e nenhuma com “tradições”. Se calhar é por isso.

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27.6.03


SHOAH

Dedicado ao Aviz

Saiu em DVD o filme de Claude Lanzmann Shoah. Já escrevi imensas vezes sobre o filme, mas não importa. Quero mesmo fazer propaganda. É daqueles filmes que provocam um antes e um depois, antes era-se adolescente retardado, depois fica-se adulto, antes era-se indiferente, depois é-se comprometido, do pathos ao bathos e depois do bathos ao pathos
Nunca vi melhor “documentário”, e vai com aspas porque a palavra é pobre. Se houvesse apenas um “documentário” sobre o século XX era este que devia sobreviver. Não há uma palavra a mais, um sentimento a menos, uma paisagem que não seja esplendidamente calma e intensamente cruel. O filme é sobre o holocausto e percebe-se como ele vem das ideias e não das necessidades, como o holocausto demonstra o extremo perigo das ideias, a sua banalidade burocrática, a sua presença quotidiana entre nós.

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COMENTÁRIOS AO HORROR AO VAZIO (Actualizado)

PMF do Mata-Mouros enviou-me o seguinte comentário ao "Horror ao vazio":

"Existia, em tempos, uma expressão que, nos meios jurídicos, era frequentemente utilizada para qualificar o excesso de zelo do Legislador: “diarreia legislativa”. A incompreensão de que a ordenação jurídico legal é (deverá ser), por natureza, mínima - apenas devendo intervir, regulando, aquilo que se mostra essencial (juridicamente relevante) e, consequentemente, debatendo-se, em permanência, com a necessidade de encontrar um justo e efectivo equilíbrio entre, por um lado, a auto-regulação e a liberdade individual e, por outro, a intervenção hetero-reguladora, estatal e estatizante – leva a tal incontinência legislativa. O Direito deve servir (também et por cause...) para preservar os “espaços vazios” dos comportamentos e relações sociais, reconhecendo, por princípio, a sua natural legitimidade. Querer combatê-los, por regra e por reflexo condicionado (rectius, também por pressão de todo e qualquer “politicamente correcto”) é um primeiro e fatal indício não só de falta de reflexão, mas também de uma atitude pré-totalitária e, consequentemente, a-jurídica! Infelizmente, muitas vezes, as Instituições comunitárias rivalizam com os legisladores estaduais, nesta matéria! (...)

Não serão só a Comissão e o PE os responsáveis pelo injustificado “horror ao vazio”. No fundo, se tal medida “legislativa”, aludida no texto em causa, vier a concretizar-se, também os próprios governos terão que ser responsabilizados por tal cedência imediatista ao “politicamente correcto”: serão eles, no Conselho, que aprovarão tal eventual regulamentação comunitária...
"

Abel Campos lembra que

"essa "doença" é comum aos legisladores nacionais e europeus. Não me parece que se possa só culpar os eurocratas. Embora me lembre sempre da indignação de um amigo meu quando descobriu que em Bruxelas queriam regulamentar o diâmetro dos pepinos (nunca cheguei a saber se realmente queriam). Legislar-se-á demais porventura mas sobretudo legisla-se mal. E temos exemplos bastantes em Portugal, sem ser preciso ir a Bruxelas : não se lembra do "pormenor" da alteração das condições de interrupção da prescrição do procedimento criminal, devido ao "esquecimento" de se alterar também o Código Penal quando se alterou o Código de Processo Penal, e que teve resultados catastróficos (mas convenientes) para milhares de processos?
Quanto ao controle dos comportamentos, eu diria: isso é outro filme, que terá mais a ver com a obsessão PC que com a compulsão legislativa (mas admito que estes terrenos sejam movediços e de frágil distinção)"

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MENTALIDADE DE REBANHO

Penso que foi o Jornalismo e Comunicação ou o Ponto Média que citaram recentemente um artigo americano sobre a “pack mentality” dos jornalistas . É o que se está a passar com os blogues – agora todos os jornais vão ter que ter pelo menos um artigo sobre blogues. Agora é moda porque é novidade, depois passará de moda porque já foi moda, e seguir-se-á o silêncio que envolve a não-novidade.

É muito interessante e revelador ver como os artigos da imprensa do mundo exterior, lá fora, são recebidos na blogosfera,. Cá dentro recebem palmas ou assobios conforme agradam ou não às tribos organizadas. É também "pack mentality".

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CONVERSA

Duas personagens, o umbiguista primário e o umbiguista secundário, conversam numa esquina virtual. Conversam, aquecidos pelo sol virtual., muito excitados porque estão nos blogues e nos blogues é só sturm und drang..

Secundário - Em breve voltarei à discussão mais umbiguista dos blogues : a do umbiguismo. É uma discussão que te gera um pequeno incómodo, não é Primário , uma irritação …

Primário - … uma fermentação na alma, uma perturbação nem sempre mansa. Mas para que é que eu quero discutir os blogues e o umbiguismo , para que é que eu quero saber isso ? Eu quero fazer como eu quero. Pronto. Esta é a minha liberdade. Eu quero, eu falo, eu digo o que me apetece. Pronto. Vem de dentro e chega. Pronto.

Secundário – És um romântico preguiçoso …

Primário - … e tu, com a tua razão imperial, és contra a espontaneidade, contra o talento que brilha na escrita, contra a liberdade interior, insisto, queres é disciplina.

Secundário - Olha que não é a tua liberdade … só parece . Olha que nem sempre é talento, às vezes é só jeito, essa coisa muito portuguesa do jeito transformado em génio

Primário – O que tu queres , Secundário, é dominar-nos a todos pela via da interpretação, porque toda a análise nos tira a liberdade de não saber . É um aborrecimento ter que discutir estas coisas porque nos tiram a inocência e nós não gostamos de nos sentir atados pelo que sabemos e não podermos iludir que não sabemos o que sabemos. Depois em vez de parecer inocência, parece cinismo e isso é muito complicado.

(Virtualmente continua)

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NOTAS TIRADAS EM VIAGEM

não num sofisticado Moleskine , mas num caderno ex-soviético, de capa grossa e papel a caminhar para o pardo. Pode ser humilde, mas se o trouxer à frente do coração não há bala que o atravesse, porque as capas parecem blindadas. Não é todos os dias que um caderno faz alguma coisa por mim. Em potência, como diziam os escolásticos


O HORROR AO VAZIO

Há uma doença nos legisladores europeus, seja da Comissão, seja do Parlamento: uma forma particular de horror ao vazio que os faz cobrir imediatamente com leis, regulamentos, directivas, tudo o que pareça espaço vazio de legislação. Parece que acham que a inexistência de uma lei numa actividade humana é um marco de barbárie e procuram de imediato ocupar o espaço com a civilização do direito.

Uma das áreas onde esta actividade tem crescido exponencialmente é no controle dos comportamentos. Com a ajuda do “politicamente correcto”, os legisladores descobriram que os comportamentos não estão ainda suficientemente regulamentados e tem o hábito anárquico de mudar, o que torna as leis anteriores obsoletas e exige umas novas. E eles querem é fazer leis para tornar o mundo um lugar tão desinfectado como uma morgue.

É o que a Comissão Europeia se prepara para fazer, tendo a intenção de proibir o que considera “imagens sexistas “ na televisão, em particular na publicidade. A obsessão, muito para além do problema real, pelo assédio chegou aos limites da punição da sedução, agora está-se no limiar da censura.


SOBRE BLOGUES PELA “EQUIPA DE UM BLOG QUE EXISTE NA AUSÊNCIA

De novo, enviado pela equipa da Psicossomática, e com uma semana de atraso (meu), um comentário sobre de onde vem a voz que se ouve nos blogues:


Não fazemos juízos de valor sobre “tribos” ou orientações políticas assim como não nos interessa (por enquanto) a questão da identificação que vai da assinatura através de nick até ao uso do nome real. Interessa-nos assinalar e registar padrões no mundo virtual, isso sem dúvida alguma. Interessa-nos muito essa deslocação entre mundos paralelos onde temos verificado, precisamente, as simetrias de que começámos por falar. O fenómeno big brother pode, perfeitamente, caber nesta discussão porque há de facto uma dimensão exibicionista que depende do voyeurismo e vice-versa. Se fosse possível representar graficamente esta situação recorreríamos a uma gravura de M. C. Escher ou ao mais comum exemplo do símbolo da Renault que não é mais do que a concretização gráfica de uma impossibilidade. E de que impossibilidade falamos afinal? Precisamente a da ideia mítica de uma “livre” e diferente expressão em oposição à expressão constrangida e padronizada, ou seja, a que opõe o mundo virtual ao mundo real. Nada do que até agora observámos nos indica que estejamos perante “linguagens” assim tão diversas. Tudo parece apontar para a replicação ou simetria. Apesar de tudo temos que registar uma importante diferença formal à qual o conteúdo se adapta e que é o “link”. Este elemento “perturbador” é que cria a única e fundamental diferença deste ambiente virtual e que se prende com a leitura que é efectuada na vertical e que, aparentemente, ilimitada encontra a limitação de quem produz os links. (O número transcendente ainda não encontra no link a sua expressão física!).

Quanto ao “umbiguismo” temos verificado como essa é a expressão mais próxima da do divã de Freud onde cada palavra ou ideia esconde outra palavra ou ideia. Há uma vontade manifesta de falar. Posta-se para poder falar. Na maioria dos blogs podem ler-se posts que sugerem esta pergunta: Quem é que não esteve disponível para ouvir esta pessoa? Não consideramos o “umbiguismo” um fenómeno “natural” ou “normal” até porque estamos habituados a duvidar do valor, com certificado passado e reconhecido, dessas palavras. O “umbiguismo” é a superfície do que lhe subjaz. E o que lhe subjaz? Nunca saberemos (de novo a impossibilidade), nem que, por hipótese, os "posts" dêem origem a livros ou apareçam publicados na imprensa. Arriscamos uma única ideia: a da infelicidade que é mais ou menos genuinamente vivida.


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26.6.03


I'M BAAAAAAAACCCCCCK !!!!!

dizia Jack Nicholson enquanto aguçava o machado no Shining

(já tenho o meu til ~~~ o resto segue dentro de momentos)

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VOLTO

logo.

Obrigado pela paciência e a fidelidade.

O mundo voltará aos seus eixos, nas terras onde há til e o nao nao é nao mas nao com acento. Nao se percebe pois nao? A gente só dá por ela quando as coisas faltam, amado til.

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24.6.03


NEM VALE A PENA TENTAR

No sitío onde estou a frase escrita em cima demorou meia hora a sair direita. Entre a primeira letra e a segunda o cursor pisca cinco minutos .Posso ir ver o mar e voltar. Já descontando acentos e caracteres. Nao vale a pena .

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23.6.03


AVISO A TEMPO POR CAUSA DO TEMPO

Há muitas coisas interessantes para comentar na blogosfera. Tenho recebido correio com textos que justificariam ser colocados imediatamente em linha, e cartas que exigiriam resposta na “volta do correio”. Nada fica esquecido, mas tenham paciência se o Abrupto andar mais devagar.
Esta semana vou trabalhar para o Grande Norte, atrás do frio, e não sei se terei máquinas, teclados, caracteres, quanto mais acentos, para escrever. Não é impossível, mas é difícil. On va voir.

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22.6.03


VALE A PENA

Como toda a gente, ajuízo pelo meu interesse. E blogues como Guerra e Pas , Portugal dos Pequeninos (grande texto do Cesariny !) , Dicionário do Diabo , Desactualizado e Desinteressante , valem bem a pena do nosso bem mais escasso, o tempo.

Não concordo de todo com o Complot : a blogosfera está cada vez mais interessante, o que está é diferente.

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ATMOSFERA

Na blogosfera, metade parece estar deprimida porque ainda não foi para férias, outra metade porque já está em férias e uma pequeníssima minoria não consegue ficar deprimida. A mera existência desta minoria subversiva exige que se chame a Polícia do Pensamento.

Eu também não concordo com o artigo do Pedro Rolo Duarte. Aliás a expressão “não concordo” não é a melhor, porque o artigo tem pouco a ver com os blogues mas com as guerras tribais dentro dos blogues. Ele tem uma tribo que suspeito estar demasiado próxima no seu território de outra tribo, se é que não é o mesmo turf. Dizendo “não concordo” pareço estar a levantar a bandeirinha de um lado contra o outro. Só o digo porque, como ele tratou a parte como o todo, e usou algumas raivas disfarçadas de argumentos, não concordo.

Agora também há algumas verdades no que ele diz, como há nos que o atacam. Eu tenho uma velha mania que é tentar distinguir os argumentos, as informações, mesmo as boas frases, da ganga. E tenho um velho hábito, aquele que é para mim o fundamento da sociedade liberal em que quero viver, de ouvir os outros. Não, não é caridade cristã, nem dar a outra face, é curiosidade, gosto pela discussão, e uma palavra pouco ouvida neste universo de grandes excitações – tolerância. Excluo da tolerância a estupidez e a ignorância arrogante.

“Tomar partido” é uma coisa muito séria , e só se justifica para coisas muito sérias. A gente na vida “toma partido” poucas vezes, não pode estar a viver sempre num estado de grande excitação moral. Vejam lá o que é que esse permanente exibicionismo moral deu no Dr. Portas.

Há pouca renovação em muitos blogues ao fim de semana , ao domingo em particular. Quando se fizerem teses académicas sobre a blogosfera, este será um indicador interessante. Porque é que os nossos autores “trabalham” tanto à semana e descansam no fim de semana numa actividade que defendem, com unhas e dentes, ser “lúdica” e “desinteressada” logo propícia aos fins de semana ? Foi porque Deus Nosso Senhor lhes disse para descansar? Duvido.

A resposta mais imediata tem a ver com a condição social dos autores dos blogues, em todos os sentidos – profissão, acesso à rede nos locais de trabalho, condição estudantil, tempo livre “arrancado” ao trabalho, o chamado “direito à preguiça”, e a relação de solidão urbana em frente a uma falsa máquina de companhia , o computador, etc.

Mas suspeito que há uma outra razão indizível que está a trabalhar como a toupeira: há quem olhe para as “audiências” e saiba que o fim de semana não é grande coisa, e, como nas televisões, não vai gastar os melhores programas quando há pouca “audiência”. Bem vistas as coisas é natural, os blogues são um meio de comunicação, obedecem a lógicas idênticas.


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PARENTELA

Ando para colocar este fragmento de poema no blogue desde o primeiro dia. É uma parte de uma longo poema de escárnio e mal dizer de Airas Peres Vuitorom, sobre um dos meus primeiros parentes históricos. Fala de Fernão Rodrigues Pacheco, alcaide de Celorico, que ficou fiel a D. Sancho II e se recusou a entregar o castelo aos partidários do Conde, futuro Afonso III, numa das nossas mini-guerras civis. O poema de Vuitorom louva-o porque não traiu e escarnece dos outros que deram logo as chavinhas dos castelos.

Todo o poema tem um sabor inimitável a outros tempos, o dos Tructesindos da Ilustre Casa de Ramires. Só que este alcaide existiu e a troca de insultos antes da batalha soa imenso à verdade, até com o latim episcopal.

Aqui vai ele com as notas integrais de Graça Videira Lopes , Cantigas de Escárnio e Maldizer, Lisboa, Estampa, 2002, que o publicou:

E quando o Conde ao castelo [ar] chegou de Celorico,
Pachequ' entom o cuitelo tirou; e disse-lhe um bispo:
- Mitte gladium in vagina, com el nom nos empeescas.
Diz Pacheco: - Alhur, Conde, peede u vos digam: Crestas!

Notas :

- empeescas - impeças, importunes.

- A resposta do alcaide de Celorico, Femão Rodrigues Pacheco, é um pouco obscura. . Peede é certamente o imperativo do verbo peer (peidar-se).

- Crestas - uma interjeição medieval com o sentido de “ao ataque!”. O sentido da resposta será pois: “Desaparecei, Conde, e borrai-vos cada vez que ouvirdes dizer ataque!”


A vantagem destes textos é mostrarem, numa só penada, como era o mundo antes do domínio dos “estados de alma” e do divâ do Dr. Freud. Porque houve um mundo antes dessa perniciosa invenção dos dramaturgos nórdicos e dos romancistas russos da mente atormentada. Este Pacheco, este bispo e o Vuitorom já não se fazem nos dias de hoje.

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© José Pacheco Pereira
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