ABRUPTO

14.6.03


DISCUTIR OS BLOGS 3.0 (Versão actualizada)

NOTA PRÉVIA : Início de uma reflexão sobre os blogs , feita de notas soltas que se irão acrescentar e completar umas às outras . Isso significa que este "Discutir" poderá a vir a ser alterado - não no conteúdo - mas na forma . Para manter a integridade da relação com os comentários dos outros blogs que incorporo no texto , essa relação será sempre referida . Para distinguir as versões umas das outras seguir-se-á um sistema de numeração semelhante ao do software .Está a bold o que é novo .

NOTA PRÉVIA 2 : Em muitos blogs apareceram comentários a este texto e sobre ele recebi imenso correio . Estou a tratar toda essa informação para a poder colocar numa nova versão do texto . Registe-se , de imediato , que no Modus Vivendi , no Epicurtas , no Tracejado e no Gato Fedorento se encontram comentários desenvolvidos a este texto . No Liberdade de Expressão está uma fábula sobre os blogs como "catedral" ou "bazar" com directo interesse para esta discussão .


1. Talvez seja a altura , é sempre a altura , de discutirmos o meio que usamos , os blogs , a comunidade dos seus utilizadores , a blogosfera , e os seus efeitos no âmbito mais vasto do sistema comunicacional . Infelizmente temo-nos centrado apenas na discussão do elemento do meio , a blogosfera , e desprezado o primeiro e o último .

2. Penso ser interessante identificar a novidade e especificidade dos blogs como meio de comunicação , não apenas de forma teórica , mas também testemunhal , dizendo cada um o que lhe interessa no uso de um blog , assim como chamar a atenção para um trabalho que ainda está por fazer sobre o “público” da blogosfera . Quem nos lê , o que é que se procura nos blogs ( informação , opinião , entretenimento , curiosidade pelo vizinho que tem um blog , namoro via blog , etc. , etc . ) , com que frequência ,


Vasco Colombo enviou-me um e-mail com a seguinte caracterização dos blogs :

"No caso dos blogs, é óbvio associá-los quer às crónicas de jornal, quer aos diários, dois dos mais populares suportes para textos de um certo tipo.
Pessoalmente não os sinto dessa forma. Sigo alguns, poucos, com uma certa regularidade e por estranho que lhe possa parecer, a sua possibilidade de actualização a qualquer momento, faz-me pensar nos blogs como qualquer coisa mais próxima de uma dinâmica de rádio do que da de um jornal. Um exemplo rápido e simples: pouco depois da conferência de imprensa de Fátima Felgueiras, fui espreitar o Abrupto para ver se havia colocado algum post sobre o evento. E não me enganei. Há uma aproximação entre os momentos de emissão e recepção que só na rádio ou tv eram possíveis. A novidade dos blogs é permitir essa aproximação num suporte escrito de grande difusão.
Possivelmente ainda estou na tal fase de dizer que os blogs são uma espécie cruzamento de dois géneros. Confesso que não pensei muito sobre eles. Mas o tema dos cruzamentos interessa-me, ainda que como mero método de abordagem. As reflexões que faço sobre o meu próprio website são um exemplo: o website de um ilustrador, deverá ser, em princípio, uma declinação do portfólio clássico. Questiono-me porém se será essa a analogia correcta. Seria interessante, numa próxima versão, partir de outro paralelo: os cd's e os concertos ao vivo. Num concerto de rock ou jazz, o público não pretende ouvir a reprodução exacta do que encontra no cd, mas sim ter uma experiência suplementar para além da música, que a actuação ao vivo permite. Daí a improvisação, a cenografia, a interactividade com o público. Não será difícil imaginar a transposição deste conceito em abstracto, para o par portfólio/website. (...)

Estes cruzamentos, que decorrem quase sempre de avanços técnicos, geram metamorfoses na natureza de algumas coisas e exigem um constante esforço de reclassificação. Seja a natureza do livro quando este deixou de ser executado por copistas e passou a ser impresso, seja a natureza da nossa relação com as imagens quando em todos os lares passou a haver uma câmara fotográfica (ou agora, em que o imediatismo das digitais acabou com o último ritual ainda existente: o de mandar revelar e esperar, 45 minutos, pela misteriosa alquimia da revelação química). "


3. Esta reflexão em que alguns ( não todos , como é normal ) estarão interessados é um instrumento essencial para se ultrapassar o “umbiguismo” como única forma de auto-referência da blogosfera .Há dois tipos de "umbiguismo" na blogosfera , e o termo , que escandaliza muitos , tem sentido .

Objecções à utilização do termo "umbiguismo" em O Crítico . . Defesa da inevitabilidade do "umbiguismo" e referência ao mesmo processo noutros meios de comunicação no Gato Fedorento .


4. Um é um "umbiguismo" natural , impulsionado pela forma do meio . O blog tem a estrutura de um diário e por isso “gera” diários . A existência de diários mais ou menos íntimos , que são públicos é uma novidade permitida pela rede ( estes diários já existiam antes dos blogs ) , mas potenciada pelos blogs . Tem muitos riscos porque a linha entre o íntimo e o público, sendo quebrada , pode ter consequências perversas . Até por isso o blog cumpre um papel próprio num sistema cada vez mais complexo de meios de comunicação disponíveis .

4.a. Nota : no DNA citado no Pastilhas , Miguel Esteves Cardoso teorizou sobre o tipo de escrita nos blogs :

"Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto - interactivo, instantâneo, espúrio - a partir de um momento terrivelmente particular - o eu, o ser, a alma. É um lindo fogo posto que salta entre a faísca da intimidade e o incêndio público de todas as coisas.
A força do blogue está no facto de não haver mediações; do salto ser puro; da combustão ser total. Não estou a falar apenas do editor, do director do jornal ou da editora, mas também do ardina, da bicha para comprar um livro, dos transportes, do tempo, de todos os obstáculos sociais e materiais que normalmente se interpôem entre um escritor e um leitor
."

Parece-me uma caracterização redutora , mas justifica a discussão . Penso aliás que corresponde àquilo que muitos que escrevem nos blogs tentam fazer . O modelo da escrita de Miguel Esteves Cardoso teve grande influência na primeira geração de blogs .Vale a pena ler o texto todo .

Comentário no mesmo sentido do anterior , com referências à especificidade da escrita nos blogs e ao papel da "beleza" no Gato Fedorento



5. É a segunda forma de "umbiguismo" que é mais perniciosa : a de só se discutir a comunidade , nalguns casos entendendo-a como a família , o círculo de amigos , o clube mais ou menos privado , ou a seita política ou jornalística . Isso faz implodir e é , a prazo , estéril . Alguma depressão dos últimos dias na blogosfera tem essa componente de “trabalho de luto” por uma família que está a partir , a partir-se , porque está a crescer . Convém lembrar que mesmo num jantar , se estão mais de seis pessoas â mesa , já há dois grupos a conversar de coisas diferentes . Imaginem com quinhentos.

6. A propósito desta multiplicidade de conversas é preciso ouvi-las todas para entender a blogosfera . Ainda que de uma forma imperfeita , porque os bloguistas representam um sector social muito pouco representativo da sociedade , o que nelas se ouve não é alheio ao que se ouve “lá fora” , e ao modo como se fala “lá fora”. Veja-se o caso da política , uma parte pequena da blogosfera (Incorporo aqui uma objecção de António Granado no Ponto Media ) .

7. Contrariamente ao que se pensa , as diferenças políticas não são tão importantes como isso na blogosfera que fala de política . Parece mas não são . Podem vir a ser , mas não são .
Eu próprio tive essa primeira impressão pelos discursos paralelos da Coluna Infame e do Blog de Esquerda em que ambos acentuavam o confronto direita-esquerda na blogosfera ( ainda hoje o Blog de Esquerda se queixa da desproporção entre esquerda e direita dando continuidade a esta linha de pensamento ) . A existência de um grupo de blogs alinhado politicamente numa União de Blogs Livres também favorece essa impressão . No entanto , se se consultam muitos outros blogs , para além dos “de serviço público” do Blogo , a realidade é mais complexa . Se se tratar a questão por “issues” , por exemplo vendo o que directa ou indirectamente se escreveu sobre a guerra do Iraque e questões conexas , mesmo que apenas com referências culturais ou “sentimentais” , a distinção e a proporção esquerda-direita já não é assim tão nítida , nem os mecanismos de politização tão inequívocos .


8. O que se passa em alguns blogs políticos é que existe uma forte tendência auto-proclamatória , de auto-classificação , que acompanha quase sempre uma maior pobreza analítica , a dificuldade de pensar a política como uma actividade complexa , que , em territórios como estes , só sobrevive se for associada a uma mais vasta perspectiva cultural e social . Quem chega assim tem a tentação de plantar a bandeira logo , marcar o território e escolher lado . Depois faz sempre batalhas de posição , e essas batalhas não nos ensinam nada .

9. Eu uso os blogs para todo o meu trabalho , sem qualquer fronteira com quaisquer outros meios de comunicação . Uso os Estudos sobre o Comunismo , como um meio complementar de registo bibliográfico , de troca de informações com os outros investigadores , de divulgação de notas , de pedidos de informação . A forma de blog permite essa parte do trabalho quotidiano , muito importante numa área de estudo em que toda a investigação é primária e quase não há bibliografia secundária . A forma blog no entanto não é suficiente e tem limitações , pelo que necessita de ser complementada por um site que disponibilize informação mais "estável " e que divulgue alguns resultados de investigação .


10. Quanto ao Abrupto serve-me para várias outras coisas , algumas que posso fazer nos outros meios de comunicação social , e outras em que a forma do blog é única . A facilidade de acesso imediato ao público é uma delas - usei-a , por exemplo , com as histórias das peripécias televisivas de Fátima Felgueiras , quase em tempo real , ou , noutro dia , com idênticas peripécias à volta de Hermann e dos Globos .


11. A esta vantagem da imediaticidade acrescenta-se o facto dos blogs serem neste momento o único meio de comunicação alternativo em que se pode livremente criticar os meios de comunicação social escrita e audiovisual . Por razões corporativas , os media tradicionais são muito avessos a essa crítica e esse é um espaço livre para os blogs e , quando se lê os mais interessantes entre eles , esse espaço já está a ser ocupado .
O caso das declarações de Wolfowitz é um exemplo de como escrever nos blogs tem efeito e deveria contrariar o efeito depressivo dos últimos dias . O mesmo tipo de pressão está a ser feito com o caso felgueirense . Só a arrogância da televisão pública é que a impede de se explicar quanto ao tempo de antena de Felgueiras . Alguém faça um print do que nos blogs se escreveu sobre isso e leve a quem manda na RTP , se há alguém que manda .

12. Por outro lado o blog não precisa de ser centrado num único tema . Ainda estou para perceber porque razão o Blogo me classifica em "Actualidade" , porque há bastante menos "Actualidade" no Abrupto ( a não ser que a Alice no Pais nas Maravilhas seja actualidade por causa da pedofilia ... ) do que nalguns classificados de "serviço público" , uma classificação também um pouco "umbiguista" e sem qualquer nexo , com excepção do Ponto Média e o Jornalismo e Comunicação ( e incluir por exemplo o bloco-notas que foi pioneiro nas “actualizações” ) . Uma das vantagens do Abrupto é eu poder escrever sobre o que me apetecer sem ter as limitações habituais da coluna regular num jornal .

13. Eu gosto de discutir , de confrontar opiniões e argumentos , e de ouvir e ponderar as críticas dos outros . É um velho hábito de quem escreve nos jornais desde os catorze anos , e de quem leu muito , estudou muito , trabalha muito , para ter a presunção que tem direito a emitir as opiniões que entende , porque pensa que elas não serão meras “impressões” . Nem sempre se consegue e também já escrevi “impressões” . Mas no essencial gosto de um clima árduo e desenvolto de debate , como é comum na tradição anglo-saxónica , e típíco das sociedades liberais e raro em Portugal . O que predomina por cá são os ataques pessoais , a má língua , o diletantismo ( o Modus Vivendi escreveu de forma certeira contra a nossa “facilidade em desistir” ) , a ignorância presumida , o insulto anónimo . A blogosfera também tem muito disto , mas penso que é possível encontrar massa crítica para fazer diferente . Por isso quando para cá vim sabia exactamente o que me esperava , o que queria e estou para ficar .

13.a.Sobre comentários nos blogs

Eu sei que esta questão é controversa , mas decidi desde início não ter comentários . Este tipo de interactividade não moderada presta-se a um acumular de lixo que abafa qualquer opinião ou comentário de jeito . A experiência que tenho com o Flashback na TSF ou com a leitura do pt.soc.política é do carácter contraproducente dos comentários , que servem quase sempre para trocas de insultos sem qualquer interesse . Poluição de má educação já há que chegue para se dar oportunidade a maior produção de lixo . Agora que paga o justo pelo pecador, paga .
De qualquer modo o e-mail , que só uso para o Abrupto , permite a quem quiser emitir a sua opinião e eu , periodicamente, após pedir autorização para citar o que dizem , coloco essas opiniões em linha . Claro que é “totalitário”
.


14. Seja em que circunstâncias for , mesmo quando o motivo mais imediato da conversa que se mantém nos blogs , é a própria blogosfera , o meu destinatário é sempre o universo ideal das pessoas interessadas pelo "espaço público" . Não escrevo para os amigos em público , a não ser que eles precisem por razões que são elas próprias de interesse público , nem me interessam inconfidências ou intimidades, meio caminho andado para a "aldeia global" , esse sítio pegajoso onde todos se conhecem demais uns aos outros .

Sobre privacidade veja-se Modus Vivendi



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DAS COISAS MAIS, DAS COISAS MENOS


Aderindo ao furor classificativo, abro uma nova série no Abrupto . Uma vez por semana farei uma lista pessoalíssima das “Coisas mais e das coisas menos “, cobrindo o que se passou na semana anterior ou o que me chegou ao conhecimento nessa semana.
Haverá de tudo , política , cultura , jornalismo , livros , televisão , etc. , etc. Algumas das coisas referidas corresponderão a assuntos que tratei no blog , outras não . Nesses casos a entrada será mais desenvolvida . Como eu sou da escola dos argumentos, mesmo do “argumento do gosto” , que não se explica como os outros , farei o possível para não apenas classificar , mas explicar a classificação .
Como é obvio não é exaustivo, nem nada que se pareça, mas apenas subordinado às minhas viagens no “navio fantasma” . A ordem com que aparecem os itens tende também a ser arbitrária e sugestões são benvindas .


Coisas mais:


- Haver referendo à Constituição Europeia . Será bom na condição de não se ir para ele na base da política de facto consumado , sob o diktat que um “não” significaria sair da Europa e todas as tragédias possíveis para Portugal . Vamos ver.

- A tradução da Odisseia feita por Frederico Lourenço para os Livros Cotovia .

- Artigo da Maria Filomena Mónica no Público sobre o Fórum Social Português .

- Nova publicação da “Filosofia de ponta” pelo Independente , uma das melhores bandas desenhadas dos últimos anos .


Coisas menos :


- A Constituição Europeia, resultado essencialmente de uma imposição por Giscard d’Estaing de uma política dos grandes e para os grandes e impulsionada pela retórica europeísta que acha que o mais importante é haver um contínuo movimento para a frente , sem se preocupar sequer em consolidar o adquirido . Deviam ler mais Aristóteles e os clássicos sobre o valor político da prudência .
Foi patético o espectáculo do fim da Convenção , em que aos seus membros só faltou chorar de emoção , imaginando-se a fundar uns proto-Estados Unidos da Europa . Só haverá Estados Unidos da Europa no dia em que houver um patriotismo europeu , como há na América , e isso não se inventa, sente-se . Os membros da Convenção não o sentem porque pouco cuidarão dos europeus concretos, só da Europa abstracta.

- Tudo no Fórum Social Português : as declarações de Saramago e Boaventura de Sousa Santos , e toda a série de peripécias ocorridas no evento . Um bom retrato da inanidade política e teórica da nossa esquerda radical , da nossa extrema-esquerda .

- A ambiguidade do PS face ao Fórum, manifestada , de muitas maneiras , entre outras no País Relativo , e no artigo de Augusto Santos Silva no Público .

- O comportamento da RTP “pública” no caso Felgueiras .

- O caos na distribuição dos livros da Imprensa Nacional . Voltarei ao assunto porque é inadmissível que continue a situação de dinheiros públicos pagarem uma editora do estado, com critérios editoriais erráticos e que, como deve entender que o dinheiro que recebe é a fundo perdido , não se digna sequer distribuir condignamente os seus livros .

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AGENDA

Hoje é dia de actualizar a agenda , quer do Abrupto , quer dos Estudos sobre o Comunismo . Durante o dia haverá novidades nos dois .

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BIBLIOFILIA

Não se esqueçam que era Borges que dizia (cito de cor) que a “erudição era uma forma moderna de fantástico “. Os bibliófilos ainda tem esse traço do fantástico, a roçar pela mania. Vão ao Almocreve das Petas para sentirem esse gosto autista e magnífico pela acumulação , pela colecção , pelos papéis velhos .




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11.6.03


A ENTREVISTA

(Refiro apenas a RTP porque é única que posso ver fora de Portugal , e porque sendo pública , os seus critérios editoriais tem que ser analisados de forma distinta das televisões privadas )

A RTP , como se não lhe bastasse o directo , continua com uma entrevista centrada na vitimização de Fátima Felgueiras que diz o que quer , perante os sorrisos intimidados de Judite de Sousa . Aliás , bastava , numa entrevista deste tipo , a jornalista esboçar um sorriso , para se passar para o lado de Fátima Felgueiras . O sorriso significa que não se toma a sério a gravidade do que se está a passar .

Há aqui um aspecto a que um dia voltarei . Não sei se são apenas os partidos políticos que atraem pessoas com personalidades como a autarca de Felgueiras (suspeito que o futebol também as atrai ) , mas a verdade é que eu já conheci dois ou três casos de pessoas deste tipo . que não são capazes de distinguir a verdade da mentira e são uma força da natureza pela sua concentração psicótica em si mesmos . A gente a olhar para elas , sabendo que estão a mentir , mas percebendo a força interior que os anima . São casos psicológicos interessantes , mas isso é para a literatura . Na política são um perigo , alimentam o populismo , instalam à sua volta um clima de amiguismo e vingança , e são capazes de tudo .

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HORÁRIO POUCO NOBRE

Que vergonha ! Não por causa de Fátima Felgueiras , que faz o seu papel , patético que seja e que , de há muito , perdeu a vergonha . Vergonha é uma comunicação social que lhe dá o mais nobre dos horários , que muitas vezes não dá ao Presidente da Republica , um horário em que ela manda , porque diz o que quer sem ser contraditada , num exercício de populismo atentatório , apontando a dedo pessoas com nome , num apelo à vingança popular .
Assim não vamos lá . Se a própria televisão , a começar pela pública , paga por nós , lhe dá o melhor dos palanques , e a patrocina sem distânciação , sem repulsa ética , que traço de separação podem as pessoas comuns , as que não são como nós da elite que está na rede , para distinguir entre procedimentos admissíveis e inadmissíveis , entre o que está bem e mal .

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TELEVISÃO PÚBLICA

Por que razão é que todos pensam ser natural que se transmitam as declarações de Fátima Felgueiras em directo ? Por que razão a RTP gasta dinheiro para fazer - como está anunciado - uma transmissão directa do Brasil do que a autarca em fuga irá dizer ? Se pararmos para pensar , chegaremos facilmente à conclusão que uma coisa é a operação mediática de interesse próprio de uma fugitiva à justiça e outra são as notícias que possam ser produzidas nessa conferência .

Por que razão é que não se grava o que ela diz , se retira a auto-propaganda que , neste caso , é também legitimação ou de um crime ou de uma fuga à justiça , e só se passa o que tem verdadeiro relevo noticioso ? Isto na hipótese de Fátima Felgueiras dizer algo de novo e relevante , o que , retirada a propaganda e a auto-defesa , será pouco . É isso que é o editing normal , preservar o conteúdo noticioso , caso exista , o que não é certo , da utilização dos media para actividades que tem uma componente criminosa .

Mas não : a feira mediática , cansada da pedofilia e do Dr. Portas , lá irá de roldão à vassalagem brasileira , espevitada pelo estilo de dirigente futebolístico de Fátima Felgueiras e dar-lhe o horário nobre , permitindo que diga o que quer sem contradita . E depois , no dia seguinte , é capaz de nos vir mais uma vez dar uma lição de moral , do género dos comentários que Manuela Moura Guedes costuma fazer para mostrar que a sua opinião é mais importante do que a informação que leu , quando lê uma informação e não uma intriga .

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10.6.03


A COLUNA INFAME

O primeiro blog que eu li sistematicamente foi A Coluna Infame . Sobre ele escrevi no Público , ainda a blogosfera não era moda , considerando-o o melhor blog em Portugal . Se o meu blog tivesse genealogia , A Coluna Infame faria parte dela . A Coluna Infame foi a principal responsável pelo facto da hegemonia cultural da esquerda (com todas as ambiguidades que tem este nome ) , tão dominante nos sistema dos media , na educação , em todas as formas de comunicabilidade social , não o tenha sido nos blogs . Podia ter sido diferente , mas isso não é mérito do meio, mas sim da influência dos autores da Coluna .

Mas a blogosfera ( eu sei que o termo é discutível , mas não é mau ) tinha que mudar , como resultado do seu próprio sucesso . No cemitério da Internet estão milhares de textos utópicos apontando a rede como um instrumento de transformação do mundo pelas suas virtualidades tecnológicas. A Internet iria mudar a democracia , a sociabilidade , os consumos culturais , acabaria com a propriedade dos átomos substituindo-os pela comunidade dos bits , etc. , etc . E , nalguns casos , essa possibilidade espreitou , revelou-se , mostrou-se possível e , noutros , mostrou-se um caminho pior . Nunca nenhum meio , nenhum media muda qualquer coisa sem a sua interacção com a sociedade . Não são os inventos e as tecnologias que por si só nos mudam é a sua relação com a sociedade , as suas literacias , os seus consumos , a sua riqueza ou pobreza . No fundo , as exclusões sociais e culturais não ficam á porta da Internet , nem dos blogs .Há uma Internet pimba e da pornografia e outra do Livro Universal , da Enciclopédia Total . Como nos blogs haverá de tudo . Os blogs não existem fora da sociedade portuguesa , das suas tensões , dos seus hábitos , bons ou maus , das suas pechas políticas e culturais , mantidos num limbo pelas suas peculiaridades formais . Há novidade e características sui generis na forma blog , mas daí não decorre uma pureza essencial do seu uso .

É porque os blogs estão a deixar de ser elitistas que estas crises surgem . O clima de família, de grupo de amigos que se consideravam , independentemente das suas opiniões , que se elogiavam uns aos outros , o ambiente um pouco cosy , que já em si mesmo excluia muitos outros blogs , tinha fatalmente que acabar , com o crescimento e a maior exposição pública . Haverá quem goste, e quem não goste , mas seria ingénuo pensar que tudo iria continuar na mesma .

Ventos mais agrestes atravessarão a blogosfera e haverá quem aqui não se sinta bem . Mas os defensores de uma sociedade genuinamente liberal devem saudar este crescimento , esta maior exposição , esta espécie de crise de crescimento . O caso das declarações de Wolfowitz foi talvez a primeira vez em que os blogs mostraram um papel próprio em “empurrar “ os outros media convencionais , não o facto de haver frases escritas num blog e reproduzidas nas citações da imprensa . O segundo caso não tem em si novidade – as frases podiam ter sido ditas na rádio ou televisão – mas as falsificações de Wolfowitz dificilmente podiam continuar o seu curso sem uma explicação devido ao clamor em tempo real nos blogs . Os blogs que continuaram ( e continuam ) a catalogar os artigos e declarações feitas na base dessas declarações falsificadas , prolongam esse “serviço público” e a forma blog presta-se para isso . Como se presta para publicar textos de qualidade literária e estética , comentários quotidianos pertinentes e polémicas e discussões num tempo mais rápido . Mas , se do lado da produção há um acesso total , do lado do consumo há uma selecção .

A crise da Coluna teve componentes pessoais sobre os quais não me pronuncio mas foi amplificada porque se travou em público . Os blogs são aí terríveis , porque dilaceram , quase sem os próprios o perceberem , uma distância necessária , uma reserva vital para a identidade . Quem a ultrapassa acaba sempre por o lamentar mais cedo ou mais tarde , porque fica menos livre . Talvez tenha sido essa percepção de perda de liberdade interior que tenha acabado com a Coluna . . Mas não tenho dúvida que os três “infames” regressarão aos blogs ou continuarão noutros meios e por outros meios a escrever e a intervir e eu continuarei a lê-los pelos seus méritos . Boa sorte .



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LER DUAS VEZES 3

1. Um dos livros em que para mim maior foi a diferença entre a primeira e a segunda leitura foi a Alice no País das Maravilhas . Aliás onde é mais evidente a diferença psicológica profunda , e a sensação estética distinta , ( ou o adquirido estético ) , entre leituras em idades diferentes é nos livros que se leram na infância , mais do que em qualquer outro período depois . Foi por isso que os exemplos que eu dei à partida , a primeira vez que escrevi sobre ler duas vezes , eram livros lidos na infância e “baixa” adolescência .

2. Quanto à Alice , a minha leitura íntima há-de ser sempre a primeira . Recordo-me que não entendi nada do livro , em particular do Para Além do Espelho , mas nunca mais me esquecerei desse universo complexo e caótico (que hoje sei ordenadíssimo pela partida de xadrez ) de personagens , ditos e incidentes . Agora , tenho a certeza , que a Alice nunca teria sido lida assim se na edição em que a li , uns livros praticamente a desfazerem-se duma edição brasileira (?) dos anos trinta ou quarenta , não estivessem lá as gravuras originais de Tenniel . Sem as gravuras eu não poderia “ver” o chapeleiro louco , o Humpty Dumpty , os gémeos Twedledum e Twedledee, a lagarta do cogumelo , o cavaleiro , o gato de Cheshire , a galinha ou o peru sem cabeça a sair do prato , o grifo , a morsa , e … a Alice , a personagem que , junto com o coelho , menos me interessou . Ou a porta pequenina e a Alice grande , o coelho a correr , o narguilé da lagarta , ou os baralhos de carta feitos Sturmtrupper . Sem as gravuras , acho que a Alice não teria sido o que foi , porque o texto é demasiado complicado .
Foi na Alice , mais do que em qualquer livro , que pela primeira vez percebi o caos e que senti o que é a imaginação em acto . O mundo da Alice , diferente de outras histórias infantis , não era o do maravilhoso – como nas imagens iniciais dos antigos filmes da Disneylândia se falava , em brasileiro , do “maravilhoso” – mas o do estranho . Tudo aquilo era estranho , eu aprendi o que era o estranho na Alice . Nunca mais precisei de livro nenhum nesta matéria .

3. Depois com o tempo , outras histórias , que não as que me impressionaram na infância , ganharam mais densidade . Foi o caso do encontro com o Cavaleiro , um dos episódios com uma rara e indefinível tristeza , que se acentua de cada vez que o Cavaleiro mostra a sua total inadequação ao mundo . O Cavaleiro é um pouco como o Quixote , uma espécie de personagem perdido no mundo errado , passeando pelas “invenções” sem sentido em pleno apogeu vitoriano da técnica , inventando tudo de errado , numa trapalhada de gadgets que não funcionam e que traz dependurados nele e no cavalo . Alice , como os jovens , é cruel e irrita-se com ele , mas aqui Lewis Carroll está do lado do Cavaleiro e quando ele canta a canção “with a faint smile lighting up his gentle, foolish face,” permite-se um dos raros momentos líricos do livro :

Of all the strange things that Alice saw in her journey Through the Looking-glass, this was the one that she always remembered most clearly. Years afterwards she could bring the whole scene back again, as if it had been only yesterday--the mild blue eyes and kindly smile of the Knight--the setting sun gleaming through his hair, and shining on his armour in a blaze of light that quite dazzled her--the horse quietly moving about, with the reins hanging loose on his neck, cropping the grass at her feet--and the black shadows of the forest behind--all this she took in like a picture, as, with one hand shading her eyes, she leant against a tree, watching the strange pair, and listening, in a halfdream, to the melancholy music of the song. “

4. Outras contribuições tem aparecido a este “ler duas vezes “ na Montanha Mágica e na Linha dos Nodos . Também a Rita Maltez me recordou uma conferencia proferida em 1977 por Jorge Luis Borges sobre A Divina Comédia , que trata deste assunto :

"Quero somente insistir no facto de ninguém ter o direito de se privar dessa felicidade, da Comédia, de lê-la de um modo ingénuo. Depois virão os comentários, o desejo de saber o que significa cada alusão mitológia, o ver como Dante pegou num grande verso de Virgílio e eventualmente até o melhorou ao traduzi-lo. Ao principio devemos ler o livro com fé de criança, abandonar-nos a ele; depois ele acompanha-nos até ao fim. A mim acompanhou-me durante muitos anos, e sei que mal o abra amanhã encontrarei coisas que não encontrei até agora. Sei que este livro irá para além da minha vigilia e das nossas vigílias."

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NOTAS SOBRE O FORUM SOCIAL

(na sequência das anteriores )

1. Não é só a Convenção que decide por “consenso” . Segundo Domingos Lopes, do Conselho Português Para a Paz e Cooperação (uma organização prósoviética , agora sem a URSS ) também o Fórum aprovou a “metodologia do consenso” . Estas “metodologias” politicamente significam que quem manda , quem define o que é “consensual” não se quer mostrar . Controla a organização , controla o que é essencial nos documentos públicos , e , acima de tudo , define o sentido político do movimento , em particular no que ele não faz . Por exemplo , do Fórum Social nunca sairia uma manifestação contra Fidel ou contra Mugabe , ou uma moção apoiando o processo de paz israelo-palestiniano . Em tudo o resto , podem discutir muito , que é irrelevante .

2. Segundo o Público teria havido um debate terminológico sobre se se deveria colocar num texto final a expressão “anti-capitalismo” . A CGTP seria a favor , a União das Mutualidades Portuguesas seria contra . ( Mas o que é que está lá a fazer a União das Mutualidades Portuguesas , de que faz parte o Montepio Geral . Será que quem vai ao “corporate web site” do Montepio , os seus depositantes , os seus parceiros do European Group of Financial Institutions , imaginam que o seu dinheiro serve para pagar reuniões da esquerda radical ? ) .
Parece que chegaram a “consenso” em falar contra o "capitalismo neo-liberal"., uma coisa que ninguém sabe o que é . É mais uma palavra em ingsoc (veja-se nota anterior ) para designar “anti-capitalismo” . É nestas alturas que eu não troco a CGTP por estes manipuladores orwellianos , porque ao menos se toma mais a sério e é , como agora se diz , “mais transparente” ,

3. A corrupção tradicional à direita ( em bom rigor à direita , ao centro e à esquerda ) é mais fácil de identificar . À esquerda ninguém a vê onde ela está , mas ela está lá . Veja-se o Partido “Os Verdes” . “Os Verdes” foram uma invenção do PCP , com o objectivo de ocupar o espaço que temiam vir a ser tomado por qualquer partido mimético dos “Verdes” europeus (na época , os “Verdes” alemães estavam em alta ) e um estratagema , na melhor tradição comunista , para cativar jovens interessados pela ecologia . Os “Verdes” foram criados do nada , por gente do PCP e da JCP , com as filhas e os filhos dos “amigos” e “amigas” , nas sedes do PCP , com fundos do PCP e assinaturas do PCP . Como depois se veio a verificar, a sociedade portuguesa não era especialmente “verde” (deve ser por ser “fascista” como diz o Prof. Boaventura ) , e o Partido ficou dependurado num vazio . Os “Verdes” nunca foram a votos sozinhos , mas acrescentavam uma sigla a mais à CDU , e pura e simplesmente , fora do PCP , não existiam nem existem .
Onde é que está a corrupção ? Entre outras coisas nisto : este partido inexistente , de comunistas eleito nas listas comunistas , chega à Assembleia da República e constitui-se como Grupo Parlamentar . Recebe então fundos , funcionários , instalações , tempo de intervenção próprio , num milagre de multiplicação dos partidos que o PCP também já fazia com a Intervenção Democrática . É para isso que servem os “Verdes” .

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9.6.03


TEXTOS DE CONTRACAPA

É pena que Nelson de Matos tenha desistido de continuar o seu blog Textos de Contracapa , e , se a sua decisão pode ser alterada , faço-lhe daqui um apelo a que reconsidere . As suas razões , que expõe numa nota chamada “Equívocos” , são duras ( e verdadeiras) para muito que se passa por aqui :

Não há dúvida, enganei-me.
Onde julgava poder haver debate de ideias, critica, conversa, troca de informações - há apenas, fora algumas honrosas excepções, disparate, insulto, exibicionismo, parvoeira, perda de tempo.
Daí que o que sobra é um espaço estreito e desinteressante, não muito diferente das conversas dos miúdos, trocando gracejos através da net, brincando às escondidas com os computadores do papá.
De facto não há tempo para isto, mesmo respeitando aqueles que procuram e insistem noutros níveis de conversa
. “

Não vi ninguém discutir o que Nelson de Matos escreveu e a sua atitude , mesmo quando o mais pequeno psicodrama suscita intenso interesse “comunitário” . Este silêncio da blogosfera não conta comigo , até porque se fosse assim o que ele disse ainda seria mais certeiro . Ora o blog de Nelson de Matos é (era ) um bom exemplo do melhor que se pode fazer com este meio e das suas virtualidades únicas . Para além da discussão dos problemas dos livros por quem conhece bem do que fala , uma das notas que ele colocou ( e que penso depois ter retirado ) tinha uma descrição das tentativas para “espiar” o conteúdo do livro de Rui Mateus sobre o PS , que revelava testemunhalmente o underground de algum jornalismo nacional .

É uma matéria tabu , de que ninguém fala , porque pouca gente tem coragem para falar . Alguns sabem , muitos calam , Nelson de Matos contou-o . Se o tivesse feito num jornal , como Nelson de Matos poderia fazer com a maior das facilidades , teria sido notícia , porque era notícia . Mas ele fê-lo no blog não para que ninguém desse por ela , mas porque contava encontrar um meio mais lento , menos espectacular , onde a permeabilidade do que se diz , testemunha ou opina ascende através de círculos cada vez mais qualificados até ao conhecimento geral . Não quis o escândalo , mas sim a compreeensão .

Foi por pensar que afinal se enganara no meio que desistiu . Penso que fez mal , porque os blogs estão a mudar e depressa e é preciso que continue a escrever o seu para que essa mudança seja mais rápida .


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TRADUÇÃO DA ODISSEIA POR FREDERICO LOURENÇO

A tradução que Frederico Lourenço fez da Odisseia ( Edição da Livros Cotovia ) é um grande acontecimento para os que gostam de ler, de ler os clássicos , de ler Homero . E , lendo Homero , perceber como fomos feitos , como já estávamos feitos desde há muito tempo , como naquela viagem – onde muitas vezes deve ter brilhado um sol como o de hoje – nasceu um conhecimento de nós mesmos , fraquezas , terrores , dúvidas , tentações , coragens , cobardias , curiosidades , violências – tudo .
Não sei grego suficiente para julgar da tradução enquanto fidelidade e literalidade, mas li a Odisseia as vezes suficientes para saber se a tradução me restitui a irreprimível sedução de alguns dos seus episódios. Entre esses episódios está o de Nausícaa ( sigo a grafia de Frederico Lourenço , embora estivesse habituado a outra para alguns nomes ) e o da morte dos pretendentes , dois momentos muito diferentes do livro .

Veja-se a descrição da morte de dois pretendentes, a de Antínoo e a de Eurímaco . Quem escreveu isto viu morrer gente assim , porque , na enorme simplicidade da descrição , está a imagem certeira da convulsão da morte . Estas não são mortes de filme , são mortes reais em combate . Antinoo , o primeiro a morrer , morre surpreendido , quase à traição . Ulisses não lhe dá combate, mata-o de surpresa , como se disparasse para as suas costas , fazendo juz à sua qualidade de “astucioso” . Antínoo era de todos os pretendentes aquele que lhe poderia dar mais luta , e Ulisses não corre riscos :

Assim falou, e contra Antinoo disparou uma seta amarga.
Ora Antinoo estava no momento de levar à boca uma bela
taça, vaso dourado de asa dupla; pegara nela com as rnãos,
para beber um gole de vinho. 0 morticínio estava longe
dos seus pensamentos. Pois quem dos celebrantes do banquete
pensaria que um homem, isolado entre tantos, ainda que forte,
lhe traria a morte malévola e a escuridão do destino?

Mas Ulisses disparou contra ele e atingiu-o com a seta,
cuja ponta lhe atravessou por completo o pescoço macio.
Inclinou-se para o lado; a taça caiu-lhe das mãos ao ser
Atingido , e logo das narinas jorrou um jacto de másculo
sangue . Depressa afastou a mesa com um pontapé
e toda a comida foi parar ao chão, conspurcando o pão
e as carnes assadas.”



Eurímaco , pelo contrário , não é apanhado de surpresa . Ele vira o que se passara com Antínoo e reconhecera Ulisses . Pretende apazigua-lo, oferecendo-se, em nome de todos, para restituir os bens que roubara e repor a autoridade de Ulisses como rei de Itaca . Ulisses recusa “com sobrolho carregado”

"Eurímaco, nem que me désseis todo o vosso património,
tudo o que tendes agora e pudésseis reunir de outro sítio,
nem mesmo assirn eu reteria as mãos do morticínio, até que
todos vós pretendentes pagásseis o preço da transgressão.
0 que tendes agora à frente é isto: combater, ou então
fugir, se é que alguém pode fugir à morte e ao destino.
Mas não penso que nenhum de vós fuja à morte escarpada
."


E o combate inicia-se com o assalto de Eurímaco e , de novo a sua morte é uma morte real , pouco ficcionada :

Assim dizendo, desembainhou a espada de bronze
afiado, uma espada de dois gumes, e lancou-se contra
U!isses com um grito terrível! - mas ao mesmo tempo
disparou uma seta o divino Ulisses, acertando-lhe no peito,
ao lado do mamilo: a seta veloz atingira-o no fígado.
Das mãos Eurímaco deixou cair a espada; contorcendo-se
por cima da mesa, dobrou-se e caiu, atirando para o chão
a comida e a taça de asa dupla. Bateu na terra com a testa
na agonia da morte; e esperneando contra a cadeira, fê-la abanar
com ambos os pés. Mas depois o nevoeiro lhe desceu sobre os olhos
.”

Está intacto o brilho original com que , ao ler pela primeira vez estas páginas , a cena violenta me impressionou . Magnifica tradução .

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8.6.03


UM PENSAMENTO ANTIDEMOCRÁTICO

Os Movimentos Sociais estipulam como ponto central a ideia de que não há democracia sem participação e sem direito de iniciativa e de associação. A relação entre o indivíduo e o Estado ou é marcada pela participação ou não é democrática. A participação, como tal, não pode ser um direito formal que é respeitado pelas instituições ao sabor dos seus interesses. Ou as opiniões participam das decisões, isto é, ou são meios de poder; ou então a participação é uma ilusão.

( Do projecto de declaração da auto-intitulada Assembleia de Movimentos Sociais do Fórum Social Português )

Aqui está uma interessante proposta , a que é manifestada pela última frase . Presume-se , senão nada teria sentido , que essas “opiniões” não são as que se exprimem pelo voto regular para as instituições democráticas . Serão “opiniões” “socialmente” expressas . Como sabemos quais são ? Como sabemos da sua relevância no conjunto da população ? Por sondagens ? Por manifestações ? Por quem as exprime ? Pelos programas pimba da televisão , pelo Fórum da TSF ? Pelo activismo de quem as defende ? Quem é que escolhe entre as “opiniões” contraditórias ? É o “anti-racismo” politizado uma opinião melhor do que o racismo populista , mesmo admitindo que este último é muito mais “opinião” ? E as “opiniões” a favor da pena de morte , da expulsão dos emigrantes , da proibição dos partidos, contra a central de tratamento de lixos na freguesia , a favor do “progresso” que traz um empreendimento turístico , ou da liberdade de se construir como se quiser num parque natural , devem ter “poder”?
A proposta é liminarmente anti-democrática e , se fosse tomada a sério , fortaleceria o populismo de direita . Já hoje , mais do que o que devem , os políticos governam por sondagens . Infelizmente para os “movimentos sociais” as “opiniões” mais significativas são aquelas de que eles não gostam , mas , no fundo , eles são elitistas e vanguardistas e as “opiniões” que deveriam contar são as que eles defendem . Não é uma “democracia de qualidade” que propugnam , é um regime não-democrático , em que activistas ilustrados , intelectuais de esquerda , com ou sem “líder máximo” , governariam sem ter essa inconveniência que é ir a votos e aceitar a lei . Eles não o quererão admitir , mas é Chávez da Venezuela o modelo proposto .

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SOBRE UM REUNIÃO DA ESQUERDA PORTUGUESA

1. Um dos aspectos revolucionários do 1984 de Orwell foi mostrar como o controle da linguagem, o controle da designação era uma das formas últimas do poder. O ingsoc , a linguagem do “english socialism” era a materialização desta ideia , e o seu poder vinha de chamar à guerra “paz” . Os que chamam à guerra “paz” ganham a guerra – e foi isso que durante décadas os “movimentos pacifistas” de inspiração soviética tentaram fazer . Hoje conhecem-se milhares de documentos, memórias , testemunhos , relatos que mostram como esses movimentos eram estritamente controlados pelo PCUS e como os seus objectivos serviam a política externa soviética e os seus objectivos militares . Uma sobrevivência desses movimentos, o Conselho Português para a Paz e a Cooperação , é um dos participantes do Fórum Social Português , porque certamente é um significativo “movimento social” ….

2. Voltemos a Orwell , porque é o mundo orwelliano que encontramos no Fórum Social . Esta reunião que se está a realizar em Lisboa e que se intitula Fórum Social é um bom exemplo de como os equívocos de todo o género , com intencionalidade política tem sucesso na operação orwelliana de serem designados não em português mas em ingsoc .
O modo como o Fórum Social e o seu principal mentor público Boaventura de Sousa Santos – não necessariamente o que melhor representa a sua estrutura política real , que deveria ter como face Louçã , mas não convém – pretendem apresentar a reunião é como uma benévola e pacífica assembleia de pessoas interessadas na coisa pública , voluntários do social , ardendo de fazer participar todos os portugueses numa “democracia desertificada” que os afasta deliberadamente da participação política . Boaventura queria inclusive que membros do PSD e PP lá estivessem, desde que “obviamente aceitassem a declaração de Porto Alegre” . E , se procurar um pouco , encontrará alguns inocentes úteis para lá estar , até porque parece que duas câmaras sociais-democratas , incluindo a de Lisboa , estão representadas . Isto é um mecanismo conhecido desde a guerra fria : o sucesso da operação do ingsoc é exactamente que a face pública seja o mais possível afastada da face real , ou , se se quiser ir a Salazar , que o que pareça seja .


3. O Fórum deve ser descrito pelo que é , não pelo que diz ser . O que é – leia-se a lista das “organizações “ que dele fazem parte (organizações vão em aspas porque algumas não existem a não ser no papel e servem apenas para engrossar estas listas ) - é uma reunião da esquerda portuguesa , em que partidos como o PS e em parte o PCP , são arrastados pelas fracções mais radicais dessa esquerda , em particular , pelo Bloco de Esquerda e a miríade de pequenos grupos órfãos do comunismo e do “socialismo participativo” .
O facto de dizer “miríade” não significa que englobem muita gente , muitas vezes os mesmos fazem parte de várias organizações , mas que geram o milagre da multiplicação dos nomes . Estalinistas , pintasilguistas , trotsquistas , ex-comunistas e comunistas “renovadores” que aderiram à “anti-globalização” , ecologistas anti-capitalistas , leitores do Le Monde Diplomatique , católicos progressistas ( um dos últimos alfobres do marxismo ) , etc. , etc. O que acontece é que o ingsoc impede de os nomear assim porque , pelo seu efeito de revelação , desocultam o que se pretende ocultar debaixo da pacífica , e auto-legitimadora , designação de “movimento social” . Ora um “movimento social” não se proclama a si próprio , ou é ou não é.

(Continuará, "penso eu de que" ...)

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© José Pacheco Pereira
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