ABRUPTO

17.5.03


TELEVISÃO PÚBLICA E AS PALAVRAS


Estou a ver o telejornal das 13 horas sobre a agressão a Assis . O texto é inacreditável: "Francisco Assis ainda tentou entrar na sede do PS em Felgueiras , a população em fúria impediu-o ." . A "população" ? É insuportável esta falta de cuidado que legitima a violência .



A agressão a um membro de um órgão de soberania é um crime público , penso eu , não é necessária queixa para que a polícia actue . Já não falo no flagrante delito O que é que já foi feito ? Quem é que foi preso ?

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CONTINUANDO A TERTÚLIA COM A MONTANHA MÁGICA

No meu texto havia duas questões e na resposta da Montanha ambas são tratadas . Deixo aqui a segunda ( pode haver hoje “romance” no sentido e na forma da Montanha Mágica ? ) para outra altura . É uma questão complexa que exige que se vá mais longe .

Quanto à primeira questão penso pode ser resumida desta forma : tem sentido a “educação” de Hans Castorp , ou , de outra maneira , tem sentido aprendermos alguma coisa , com a história , a filosofia , os sentimentos , a “vida” , se depois um destino “cego” – aqui a guerra – torna inútil essa aprendizagem ?

"Perguntar-se-á: valeu a pena Hans Castorp ter estado na Montanha, quando no final, tudo o que aprendeu, não pôde colocar em prática?
Quando Thomas Mann escreve, “ Este baile macabro a que foste arrastado durará ainda alguns anos criminosos e não queremos apostar muita coisa na tua possibilidade de escapar. Para falar com franqueza, não sentimos grandes escrúpulos ao deixar esta resposta sem pergunta.”, mais não descreve a falta de aprendizagem de gerações sucessivas sobre a complexidade da vida humana.
Dostoiévski, descreve muito bem este processo, na obra, Os Irmãos Karamazov, quando nos diz que “somos todos culpados de tudo e eu mais do que todos os outros”.
(…)
Pois é, o pessimismo de Thomas Mann, que como diz JPP, ele quis contrariar, também Teixeira de Pascoaes, o colocou no seu brilhante Regresso ao Paraíso, onde o descreve assim:
“E a árvore da nova Fé
Levanta para o sol os ramos verdes;
E na amorável sombra que projecta
Rebrilham, como estrelas, os dois olhos
Da cobra tentadora.”


Comecemos pela natureza da aprendizagem de Castorp . Penso que há muito de idêntico na mecânica dessa aprendizagem contraditória – Naphta , o frio “comunista” cristão , apaixonado pela obra colectiva e anónima das catedrais medievais e Settembrini , o republicano racionalista do Risorgimento , individualista e mação – com um dilema semelhante colocado no início dos Buddenbrook quando a famíla com três gerações à mesa (ou duas ? escrevo tudo isto sem poder consultar os livros de Mann ) discute os méritos dos jardins ingleses ou franceses , ou seja o confronto entre uma sensibilidade romântica e a clássica .
Castorp recusa o dilema . Ele não se satisfaz com as respostas , no fundo ideológicas , que vão dominar o seu século de forma trágica . E fá-lo por uma tentação nietzschiana pela morte ( o meu companheiro de tertúlia cita bem neste contexto Unamuno e Pascoaes ) , que é de certa maneira premonitória do seu provável destino no “baile macabro” que por cá em baixo se prepara e cujos ecos quase não chegam à Montanha . O impacto do livro de Mann e a sua modernidade está nesta ambivalência – idêntica à dos Buddenbrook que é uma história de ascensão e queda – que identifica os nossos tempos como feitos mais por Freud e Nietzsche do que pelos heróis individuais de Settembrini e colectivos de Naphta .
Na tertúlia da A Montanha Mágica pergunta-se :

“Haverá esperança numa redenção do Homem? Para quem tem fé, a convicção é forte, sabendo desde logo que, a estrada para Damasco é dura de percorrer, debaixo de um sol lancinante. “

mas esta não é nem a pergunta nem a resposta de Mann . O que é interessante na Montanha Mágica é que um dos poucos genuínos humanistas do século da barbárie , o XX , não acredita na sua eficácia final porque nada se aprende , e tudo se repete , como Nietzsche defendia . O dilema de Mann é também o nosso (o meu ) – ter pouca “fé” na eficácia da atitude humanista mas não poder deixar de ter outra que não seja essa . È a única atitude decente .



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MATRIX

Como muito boa gente por estas bandas também estou com muita curiosidade em ver a sequela do Matrix . Gostei do Matrix original e como tenho pouco tempo para ir ao cinema vou vendo os filmes à medida que saem em DVD . Vi há pouco tempo o Minority Report . Uma das coisas que me faz ainda gostar mais do cinema americano e abominar a “excepção cultural” dos franceses é a capacidade que tem de manter o cinema como espectáculo e de tratar histórias complexas sem perder a complexidade. Porque imaginem o que a basófia filosófica dos franceses faria a histórias, como a do Blade Runner , do Matrix , ou do Minority Report , ou do Crash , ou as dos filmes de David Lynch transformando-as em filmes de tese , impossíveis de ver com prazer e perplexidade

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FELGUEIRAS

Vi agora as imagens da agressão a Francisco Assis em Felgueiras . Assis portou-se como devia e com dignidade .Mas em Felgueiras não há polícia ? É possível fazer um tumulto no meio da rua que dura vários minutos , agredir um deputado , sem aparecer um polícia ?


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16.5.03


Para um comentário que contem respostas aos exemplos de questões cientificas que coloquei em Astrologia "Pública" 2 veja-se este texto no Nónio .

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FILATELIA 2

Comentando o que escrevi sobre filatelia (em discreto agradecimento a Piolheira que sabe do que falo ) , a Memória Inventada diz o seguinte :


"Fiel ao seu nome, o Abrupto por vezes revela-se algo inopinado. Há cinquenta anos, quantos filatelistas haveria no mundo? É uma pergunta de difícil resposta, a pedir muitos avós, mas não lhes parece que a afirmação é algo absurda? Nos anos cinquenta do século passado a Bossa Nova explodia no Brasil e no mundo, o Rock incendiava os EUA e o mundo, Stockhausen ainda não precisava de helicópteros para reinventar a música, Piaf cantava, Sinatra encantava e a Amália ia ao programa do Eddie Fisher, na "América". No início dos anos cinquenta do século passado um senhor chamado Charlie Parker entrava em decadência não sem antes ter escrito parte da história do Jazz com as suas cascatas sonoras. Morreria nessa década, admirado por todos. De resto, todos estes e muitos outros músicos eram, já naquela época, estrelas consagradíssimas que arrastavam multidões."


É pena que neste caso a “memória” seja mesmo “inventada” , porque há uma enorme diferença entre esses anos e a actualidade que não permite “pensar para trás” sem algum honesto conhecimento . Nos anos cinquenta , em Portugal , ter discos , logo gira-discos , ou ainda mais difícil , gravador , era um privilégio de um pequeníssimo número de pessoas , a esmagadora maioria muito pouco jovem . Jazz , era um território de meia dúzia de amadores . Stockhausen só se tornou conhecido muito depois e por um punhado de melómanos que , em meados da década de sessenta , se começou a interessar pela “música de vanguarda” . A maioria da música que chegava aos portugueses tinha como canal a Emissora Nacional e certamente incluía a Amália , a Piaf e o Sinatra , só que num contexto muito diferente daquele em que hoje os vemos .
A Memória Inventada esquece-se de como era fechada, provinciana e mesquinha a vida portuguesa em geral, já para não falar da vida cultural . Não só não existia nada de equivalente a uma cultura juvenil, uma invenção dos anos sessenta , quando os jovens começaram a ter dinheiro para consumir, como o papel de uma longa censura , ininterrupta desde o fim dos anos vinte , impedia os portugueses que não viajavam e que não dominavam línguas estrangeiras de saber o que se passava no mundo . Acompanhar o que se fazia lá fora em tempo próximo do real era pura e simplesmente impossível e também muito caro . E , fundamental para o que eu disse , os instrumentos de disseminação de uma cultura de massas , discos , CDs , vídeos , DVDs , ou os downloads da Internet não existiam e os seus grosseiros equivalentes eram caríssimos .
Noutra altura retorno à razão porque tomei como pretexto a filatelia , então o passatempo não desportivo mais popular do mundo e que ajudava a saber que tinha existido a Estónia (o que muito pouca gente sabia ) ou onde era a Caríntia .

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PAÍS BASCO

Queria voltar à questão do País Basco. Nós estamos sempre prontos a apoiar as mais longínquas das causas, particularmente as que são politicamente mais fortes e conhecidas e esquecemo-nos de que aqui perto há uma parte de Espanha onde existe terror puro, violação das liberdades, opressão violenta sobre algumas opiniões, uma sociedade que alguns partidos estão a criar como opressiva. O problema não é apenas o terrorismo da ETA é o comportamento dos nacionalistas bascos que são maioritários, controlam o sistema escolar, a administração, a televisão e os órgãos de comunicação e usam-nos para manter um clima de intimidação sobre os que consideram “espanholistas”.

Há mil e uma formas como essa intimidação funciona: afastando de cargos os que não sabem basco – uma língua que em muitos sítios do país basco tinha praticamente desaparecido - , obrigando ilegalmente os eleitores a apresentarem um “cartão de identidade basco”, identificando-os assim politicamente e intimidando quem vota, ameaçando comerciantes a pagar um “imposto”, usando as escolas para ensinar uma variante extremista e não rigorosa da “história basca” , etc., etc..

Eu participei por solidariedade nas ultimas eleições bascas , onde pude testemunhar qual era a realidade da vida infernal dos meus colegas do Parlamento Europeu a terem que andar sempre com guarda-costas atrás , sorte que partilhavam com muitos outros militantes e eleitos do PP e do PSOE , apenas por delito de opinião política . E pude imaginar o que é lá viver quando as paredes estão cheias de inscrições como esta que fotografei então em Gernika : " ..... el seguiente vas a ser tu " .

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ASTROLOGIA "PUBLICA" 2

A propósito da questão da astrologia “pública” (ver post anterior ) fica aqui um excerto de uma “oração de sapiência” que fiz e que permanece inédita e em que me refiro às “duas culturas” :


Outro dos grandes obstáculos para se adquirir uma cultura geral capaz é a absurda tradição, também filha do nosso atraso, de considerar que é "cultura" apenas o que pertence ao domínio das humanidades clássicas. Em Portugal um político pode ser considerado "inculto" por não saber o número de cantos dos Lusíadas - que é suposto saber-se mas não é tão importante como tê-los lido, ou parte deles, - ao mesmo tempo que muitos que sabem o número de cantos dos Lusíadas acham que são cultos mesmo que não percebam o que é a inércia ou a Segunda Lei da Termodinâmica. O desprezo pela ciência, leva a que alguém possa ser considerado culto, sem ter a mais pequena noção como funciona um rádio. E que não se pergunte como é possível entendermo-nos com o mundo sem saber olhar para o céu e saber o que lá está, ou não ter a mínima ideia porque razão é que as formigas não se afundam (ou os barcos) ou de como é que um avião voa ou um gato vê no escuro, ou porque é mais fácil tirar a pasta de dentro de uma pasta de dentes a torna-la a por lá, ou porque é que o tempo anda sempre para a frente. Tudo coisas completamente triviais e acima de tudo bem pouco complicadas para se saber.”

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15.5.03


FILATELIA

Os selos são hoje um anacronismo e só continuam a existir por inércia e porque há o negócio dos coleccionadores . Os coleccionadores de selos ainda são um maior anacronismo . É um mundo que está a acabar , como as máquinas de escrever . Se os blogs existissem há cinquenta anos , haveria certamente alguns de filatelistas e não haveria nenhum de música .
Tempus edax rerum .

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MONTANHA MÁGICA 1

Obrigado à Montanha Mágica por ter aceite o meu pedido de publicar as páginas finais do livro de Thomas Mann . Sem desprimor para muita coisa magnifica que está transcrita nos blogs , devem ser das páginas mais perturbantes que se podem ler em quaisquer dos nossos sítios . Não resisto em retomar os parágrafos finais :

E assim, no tumulto, na chuva, no crepúsculo, perdemo-lo de vista.
Adeus, Hans Castorp, bravo menino mimado da vida! A tua história terminou. Acabámos de conta-la. Não foi nem breve nem longa, é uma história hermética. Contámo-la por amor a ela mesma, não por amor a ti, porque tu eras simples. (...)
Adeus! Agora vais viver ou morrer! Tens poucas probabilidades. Este baile macabro a que foste arrastado durará ainda alguns anos criminosos e não queremos apostar muita coisa na tua possibilidade de escapar. Para falar com franqueza, não sentimos grandes escrúpulos ao deixar esta questão sem resposta. Certas aventuras da carne e do espírito, que educaram a tua simplicidade permitiram-te vencer no domínio do espírito aquilo a que não escaparás certamente no domínio da carne. Momentos houve em que nos sonhos que tu «governavas», viste brotar da morte e da luxúria do corpo um sonho de amor. Será que dessa festa da morte, dessa perniciosa febre que incendeia à nossa volta o Céu desta noite chuvosa, também o amor surgirá um dia."

MANN, Thomas, “A Montanha Mágica”, Lisboa, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 2000

Mesmo a acabar a longa saga interior de Castorp , a sua "educação" pela doença dos outros , Mann não deixa de subtilmente se distanciar da narrativa romanesca para empurrar a sua própria história ficcional para o domínio da "história hermética" , contada "por amor a ela mesma, não por amor a ti, porque tu eras simples. " . A "simplicidade" de Castorp , prefigura assim o destino do homem comum europeu no início de um século de barbaridades , onde Castorp , nem nenhum desses homens comuns , seria senhor do seu destino . Estavam condenados , sem o saberem . Valeu para alguma coisa o que Castorp aprendeu na Montanha ? Mann sugere que não , embora tenha a esperança que sim . Estaremos nós no limiar do século XXI no mesmo sítio de Castorp , descendo da paz da Montanha para um "baile macabro" ? Castorp também não sabia o que lhe iria acontecer .


MONTANHA MÁGICA 2

Sempre que volto a livros como este assalta-me uma dúvida : será que este aspecto da criação , o romance , acabou de vez ? Eu bem sei que esta pergunta e várias respostas já foram feitas muitas vezes , mas mesmo assim continua a dúvida . Nos últimos trinta anos o que é que se escreveu semelhante aos livros de Mann , ou de Musil , ou de Hesse , só para ficar no alemão ?

O Dying Animal de Roth , a melhor obra de ficção contemporânea que eu li nos últimos anos , não é resposta porque não é um romance . Mesmo assim ainda é na literatura americana que há alguma esperança .




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Notas europeias - Diplomacia

Para se perceber como hoje a diplomacia feita em nome da UE não contribui para a paz mundial , é uma espécie de irritante permanente para os americanos (parece aliás ser essa a sua motivação ) e não produz quaisquer resultados , veja-se a visita de Solana ( chamado o "sr. PESC" e detentor do número de telefone da Europa que Kissinger dizia que não havia ) a Israel e aos territórios palestinianos . Numa altura em que se abre uma esperança efectiva de paz (produto da intervenção americana no Iraque , por muito que isso custe aos que a atacaram ) , em que essa possibilidade passa claramente pelo isolamento de Arafat e pelo reforço da posição de Abu Mazem , o moderado primeiro ministro palestiniano , Solana insiste em visitar Arafat dando-lhe o estatuto de interlocutor privilegiado . Qual é o resultado objectivo desta atitude , qual a vantagem diplomática , política , para a paz ? Nenhuma , corta as pontes com Israel , sem favorecer qualquer espaço de manobra com os palestinianos . Um desastre , feito em nosso nome .

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14.5.03


ASTROLOGIA "PÚBLICA"

Uma notícia da Lusa , retomada no Blog de Esquerda , levanta um problema sério , penso que de uma forma errada .

«Cerca de 30 cientistas portugueses protestaram hoje contra a contratação de astrólogos pelos meios de comunicação do Estado, situação que consideram "incompatível com o rigor orçamental" e "imoral do ponto de vista pedagógico".
"Só a Sra. Cristina Candeias [astróloga convidada do programa "Praça da Alegria", da RTP-1] tem mais tempo de antena, por semana, na televisão estatal do que todos os cientistas e todas as instituições de ensino e investigação do país", denunciam os cientistas.
Num abaixo-assinado que foi enviado ao Presidente da República, Jorge Sampaio, ao ministro da Presidência, Morais Sarmento, e à Direcção de Programas da RTP, é denunciado o uso de fundos públicos para o pagamento de "actividades pseudo-científicas".
O documento lamenta que no âmbito das recentes medidas para controlar as contas públicas tenham sido efectuados cortes ao orçamento dedicado ao ensino e à investigação, o que se reflectiu "numa diminuição do número de bolsas de investigação atribuídas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)", enquanto são subsidiadas "actividades pseudo-científicas".»


Sou muito avesso a este tipo de protestos do género tirem o dinheiro daí para o colocarem aqui , porque acho que neste caso iguala quem pede com quem recebe . Sou para além disso avesso à sistemática exigência de dinheiro ao estado e , como se sabe , entendo que não devia haver televisão "pública" .

O problema está exactamente na imensa ambiguidade desse carácter "público" da televisão generalista que faz com que os seus defensores entendam que os programas de variedades fazem parte do serviço público . E sendo assim , lá tem a astróloga , que é igual na sua actividade ao ilusionista , ao domador de leões , à cantora , ao bailarino - são "variedades" e não "actividades pseudo-científicas". Quem defende a televisão pública generalista não pode dizer não ao Alexandrino , nem ao Prof. Karamba , nem ao futebol , nem à Maya , nem às bruxas , nem a qualquer outro artista de variedades . Está inscrito no modelo - é para entreter .

Agora saber porque razão é que as pessoas entendem que a astrologia é uma "ciência" , isso tem mais a ver com a escola e com o papel ausente da ciência num país dominado pelas humanidades como condição de cultura . Mas isso é toda uma outra discussão .



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Agradecimentos
a Palavrar , Mukankala , e Piolheira .

A este último que faz uma observação pertinente , respondo que nada mudou , continuo a ser feroz com a minha privacidade , um direito que todos temos . Desse ponto de vista nada do que está e estará aqui é relevante .
Acrescento apenas um fragmento inicial de um texto ainda inédito - deve sair na Tabacaria - de uma intervenção que fiz na Casa Fernando Pessoa , intitulada "Felicidade , liberdade , posse e abdicação (Fernando Pessoa lido por um adolescente) " e que começa assim :

"Foi-me pedida uma leitura "pessoal" de Pessoa. Aqui vai pois uma leitura mais que pessoal, pessoalíssima, tão verdadeira como falsa na melhor tradição do homem que dizia: "quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo". A minha, e não a minha certamente, porque este texto é uma pura obra de ficção, intertextual como agora se diz, e imitando aquilo que nos dias de hoje fazem os senhores professores de literatura, Frederico Lourenço e Abel Barros Baptista, para escrever sobre Camões, ou sobre o barroco. Ao bom modelo de Pessoa, uso também a contradição irónica, útil instrumento retórico que não me permite que me leve demasiado a sério. Por isso, sempre que uso a primeira pessoa, não é bem a minha pessoa, que é a primeira."


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Notas europeias

1) Ainda não há Constituição europeia , ainda não há o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros europeus , mas já há um candidato Oskar Fischer , o actual MNE da Alemanha . Isto dá para ver como todas estas coisas apontam para políticas de facto consumado .

2) Demissão de Clare Short do Governo inglês . A esquerda trabalhista , a loonie left mais loonie que há , está bem representada no Labour e apadrinha as mais absurdas das causas . Clare Short já devia ter saído , ou ter sido demitida do governo mais cedo . Mas , independentemente disso , é um espectáculo de democracia no melhor sentido ver a política inglesa a funcionar . Ver a ex-ministra , como já fizera Robin Cook , vir ao Parlamento dizer com clareza porque saiu , tudo num ambiente confrontacional , mas de grande liberdade interior sem os rodriguinhos que tão caracterizam a nossa vida política , feita de salamaleques no exterior e facadas anónimas nos jornais .

3) Qualquer breve comparação entre os noticiários da RTP e os de outras televisões europeias , mesmo "públicas" , revela o peso excessivo , quase obsessivo , que tem o futebol nos orgãos de comunicação social em Portugal . Meia dúzia de notícias dadas à pressa , "casos humanos" (doenças e desgraças) , para logo vir um extenso noticiário futebolístico , haja jogos ou não haja . Até parece que tudo é feito à pressa para se ir ao que interessa , caiam bombas , suba o desemprego , haja crise ou tempestade . Quando faço zapping passam-se notícias na BBC , na TV5 , na TVE , e já há dezenas de minutos que a RTP só dá futebol.



Notas do Brasil de Porto Alegre

1) Fátima Felgueiras transformada em resistente anti-salazarista , exilada no Brasil na esteira do General Humberto Delgado

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Aqui está uma iniciativa que vale a pena apoiar :

Aunque


Aunque los europeos ejercen el derecho constitucional de votar con saludable rutina democrática pocos imaginan que en un rincón de Europa el miedo y la vergüenza oprimen a los ciudadanos.

Aunque la memoria del Holocausto sea honrada en Europa por el deseo de rehabilitar a las víctimas de la barbarie e impedir que el horror vuelva a cometerse, pocos europeos saben que hoy mismo en el País Vasco ciudadanos libres son injuriados y asesinados.

Aunque parezca mentira: hoy los candidatos de los ciudadanos libres del País Vasco están condenados a muerte por los mercenarios de ETA y condenados a la humillación por sus cómplices nacionalistas.

Aunque ciudadanos del País Vasco sean asesinados por sus ideas, y miles hayan sido mutilados o trastornados, los atentados se realizan y celebran en una penosa atmósfera de impunidad moral propiciada por las instituciones nacionalistas y por la jerarquía católica vasca.

Aunque los partidos nacionalistas aprovechan las garantías constitucionales de la democracia española, ciudadanos libres del País Vasco deben esconderse, disimular sus costumbres, omitir la dirección de su domicilio, pedir la protección de escoltas y temer constantemente por su vida y la de sus familiares.

Aunque sea frecuente la tentación de ignorar lo que sucede, pedimos a los ciudadanos europeos que el próximo 25 de mayo (día de las elecciones municipales en España) declaren el estado de indignación general: en memoria de las víctimas que en el País Vasco mueren por la libertad, en honor de los que hoy mismo la defienden con el coraje que en un día no muy lejano conmoverá a Europa.


(los abajo firmantes)

FIRMAS: Fernando Arrabal, Alfredo Bryce Echenique, Michael Burleigh, Paolo Flores d´Arcais, Jorge Edwards, Carlos Fuentes, Nadine Gordimer, Günter Grass, Juan Goytisolo, Carlos Monsivais, Bernard- Henri Lévy, Paul Preston, Mario Vargas Llosa, Gianni Vattimo

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13.5.03


Agradecimentos
às amáveis palavras de Replicar , Diapasão e Modus Vivendi .

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Stephen King

Há escritores considerados de segunda que mereciam outra atenção intelectual . Escrevi , já há algum tempo , uns artigos intitulados "Pulp Fiction" no Diário de Notícias sobre isso . Mas , de vez em quando , encontro-me com as mesmas razões para me surpreender e os ler .
É o caso do mais bem pago e mais lido autor universal , Stephen King , tido como autor de livros de terror produzidos em série . Ele de facto escreve muito e muitas coisas não são boas . King também nunca teve grande sorte com os filmes dos seus livros com a excepção do The Shining de Kubrick . Mas há nas suas páginas descrições quase únicas de fenómenos como o medo , a comunidade de terrores que da infância à adolescência nos formam , a dor , a estranheza inexplicável e por isso , sem limites , assustadora . E sabe como poucos construir a tensão dentro de uma história quase de forma minimalista , mas eficaz.

Estou a ler , ou melhor ando com o livro de um sítio para o outro nos aeroportos e aviões , uma antologia que saiu recentemente intitulada Everything's Eventual , com catorze histórias de King . Uma delas publicada no New Yorker é um bom exemplo dos méritos de King e chama-se "All That You Love Will Be Carried Away" . As primeiras quatro ou cinco páginas são uma descrição da vida de um vendedor nas estradas americanas , chegando tarde no meio de uma tempestade a um motel nos arredores de Lincoln , Nebraska . É um puro slice of americana , incluindo pequenas recomendações de quem é muito batido em estradas e motéis , e uma descrição dos campos de cultivo , a perder de vista , da América do interior . E de repente

There was a overhang, so he was able to get out of the snow. There was a Coke machine with a sign saying, USE CORRECT CHANGE. There was an ice machine and a Snax machine with candy bars and various kinds of potato chips behind curls of metal like bedsprings . There was NO USE CORRECT CHANGE sign on the Snax machine. From the room to the left of the one where he intented to kill himself, Alfie could hear the early news, but it would sound better in the farmhouse over yonder, he was sure of that. The wind boomed. Snow swirled around his city shoes, an then Alfie let hinself into his room. The light switch was to the left. He turned it on and shut the door.

E depois continua tudo com a mesma normalidade . Será que li bem ? " From the room to the left of the one where he intented to kill himself ..." . Li . Depois nada é na mesma .

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Hoje de manhã na Livraria Kleber , a melhor livraria de Estrasburgo , mais um sinal da patetice que assola os franceses . Na secção dos livros de economia estava um cartaz que dizia "La Richesse oui ... Mais Humaine ! " (ipsis verbis) . Isto numa das terras mais sólidas , provincianas , protestantes e burguesas da Europa , onde tudo respira de uma "riqueza" antiga , e onde Le Pen teve excelentes votações .

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Uma sugestão à Montanha Mágica - a publicação das últimas páginas do romance , quando Hans Castorp desce da Montanha para seguir o seu "destino" provável na guerra , Numa altura em que se fala da guerra e da paz , a enorme força e tristeza desse final vale a pena ser lido .

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12.5.03


Visita a um vulcão ( Il Vulcano Solfatara ) em Pozzuoli

A Solfatara é um vulcão adormecido cuja cratera é acessível , embora seja um sítio pouco confortável para se estar . . A cratera é uma superfície branca e amarelada , devido ao enxofre , e sem qualquer vegetação . Não cresce lá nada . Num dia de sol é muito quente . Quente do vulcão , quente do reflexo do sol na superfície branca , quente do dia . Não se pode caminhar mesmo no centro da cratera , embora a superfície pareça igual àquela em que se pode caminhar . O chão é poroso devido à quantidade de gases e , junto a uma das paredes , há uma fenda onde a lama negra e cinzenta escura , borbulha . O solo tem movimentos de subida e descida , não só no vulcão , como em toda a região de Pozzuoli .

Quase a toda a volta , as paredes da cratera e o solo junto das paredes fumegam . Há várias fumarolas , a mais conhecida é a Bocca Grande e delas saem vários gases , com prevalência para compostos de enxofre . O resultado é um cheiro (mau ) muito intenso que se sente em toda a cratera , mas que se mistura com outros cheiros numa combinação estranha . Percebe-se que o elemento dominante é o enxofre , mas é diferente e único o resultado . Cola-se ao corpo com o calor . Os jactos de gas a temperaturas muito altas sobem de fendas cobertas por algas de várias cores . Se há vida ali, também pode haver em muitos planetas .

É uma visita a aconselhar aos amadores de vulcões e da antiguidade clássica . A Solfatara era para os romanos uma das entradas do Inferno e o templo de Sibila em Cuma tem a ver com os silvos que saiam do chão . O oráculo de Sibila interpretava os ruídos , traduzia da natureza para a cultura , para a história .



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Uma saudação especial à Montanha Mágica , com quem partilho o mesmo fascínio pela obra de Mann . Se tivesse que escolher um livro , fora dos clássicos que nos fazem inevitávelmente , um único livro que me atravessou a vida , esse livro era a Montanha Mágica . O exemplar que li pela primeira vez era do Eugénio de Andrade que mo emprestou . O Eugénio tinha o hábito de usar uns sublinhados e uns sinais a lápis à margem do texto , que me faziam ler de outra maneira . Acabava por ler por mim a partir da leitura dele , e imaginem o que isso era na idade certa .

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Agradecimentos em falta ao
Contra a Corrente
Tudo menos a política
O país relativo
A Coluna Infame , o primeiro blog que eu li sistemáticamente
bomba inteligente
Janela Indiscreta
Blog de esquerda que , há que reconhecer , é mais interessante do que o Bloco de Esquerda
Tradução Simultânea
Ponto media

e eu sei que ainda há mais . Todos serão agradecidos porque aqui se acredita na virtude da gentileza e da retribuição da gentileza .

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Constituição Europeia

Quantos portugueses (quantos europeus ) sabem que um grupo de deputados , escolhidos mais ou menos confidencialmente pelas direcções partidárias , e um conjunto de representantes dos governos , estão a escrever aquilo que , em princípio , deveria ser o documento jurídico mais importante para todos os países da UE - uma Constituição . A primeira e fundamental questão devia ser : quem a pediu , quem a exigiu , que movimento de opinião consistente e generalizado , mostrou a sua necessidade ? Ninguém , apenas uma elite política europeista e federalista a defendeu , debaixo de uma razoável indiferença da esmagadora maioria dos europeus.

Começou como quem não quer a coisa , por ser uma reflexão de "sábios" sobre a "unificação e simplificação" dos tratados , depois era suposto ser um "tratado constitucional" , hoje é uma Constituição e está a entrar na fase final dos trabalhos . A Convenção que a está a preparar , funciona sem votações e "por consenso" ( um absurdo revelador da sua composição ideológica e o que mostra até que ponto não representa a heterogeneidade das opiniões europeias ) . Esta Constituição pode muito bem vir a ser aprovada sem ninguém dar por ela , por governos que de há muito fazem tudo para retirar a discussão europeia da agenda política nacional , que tem medo de consultas e referendos . No caso português , parece que tudo se lhe rendeu , pelo efeito perverso de PSD , PS e PP terem hoje a mesma comunidade de silêncios europeus . O Presidente até já mostrou reticências públicas a que a Constituição da Convenção venha a ser referendada em Portugal e ninguém disse nada . Um dia adormecemos com a Constituição portuguesa e no outro acordamos com uma Constituição europeia , que é suposto ser "binding" da nossa .

Lembro aliás que um dos objectivos da Convenção não era tanto tomar o freio nos dentes e ir colocar os governos entre a Constituição e parede , mas proceder a um "grande debate europeu" sobre os Tratados - cujo não existe por desinteresse , e por sentimento de pouca necessidade . O que os "convencionais" chamam debates tem sido colóquios mais ou menos académicos , mais ou menos institucionais , onde todos os participantes são escolhidos pelos mesmos métodos de "consenso" com que funciona a Convenção . As opiniões críticas de todo o processo são cuidadosamente excluídas para produzir um efeito de inevitabilidade .
Daí , a segunda questão essencial : o cada vez maior défice democrático do processo europeu , retirado do debate político nacional e entregue cada vez mais apenas aos "europeistas" , que tem medo que o debate das suas propostas se transforme num debate "à inglesa" , exactamente o único país , goste-se ou não , onde se discutem estas questões


Política externa - Só para dar um exemplo imagine-se que já estava em vigor este artigo da "Constituição" sobre política externa quando da crise do Iraque ( quem quiser ver toda a parte de política externa pode consultar o documento da Convenção ).
"
1. Artigo 29.º
2. Política Externa e de Segurança Comum da União
1. A União Europeia compromete-se a conduzir uma política externa e de segurança comum, baseada num desenvolvimento gradual da solidariedade política mútua entre os Estados--Membros, na identificação gradual das questões que se revistam de interesse geral e na realização de um crescente grau de convergência das acções dos Estados-Membros.


2. O Conselho Europeu identificará os interesses estratégicos da União e fixará os objectivos da sua Política Externa e de Segurança Comum. O Conselho de Ministros elaborará essa política de acordo com as modalidades estabelecidas na Parte II da Constituição.


3. O Conselho Europeu e o Conselho de Ministros aprovarão as decisões necessárias.


4. A Política Externa e de Segurança Comum será posta em prática pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros da União e pelos Estados-Membros, utilizando os meios nacionais e os da União.


5. Os Estados-Membros concertar-se-ão no âmbito do Conselho e do Conselho Europeu sobre todas as questões de política externa e de segurança que se revistam de interesse geral, a fim de definir uma abordagem comum. Antes de empreenderem qualquer acção no plano internacional ou de assumirem qualquer compromisso que possa afectar os interesses da União, os Estados-Membros consultarão cada um dos outros no âmbito do Conselho ou do Conselho Europeu. Os Estados-Membros assegurarão, através da convergência das suas acções, que a União possa fazer valer os seus interesses e valores no plano internacional. Os Estados-Membros serão solidários entre si."


Das duas uma , ou havia uma ruptura institucional da UE , que poria em causa todo o processo europeu , ou então a UE bloquearia como a ONU , o que prejudicaria posições como a de Portugal , Polónia , Espanha , Reino Unido , etc. , etc.

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